Tecendo o Fio da Inteligência

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Cinco -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 17 de Setembro de 2018.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 6 – Tecendo o Fio da Inteligência

Aquilo parece tortura. Do pior tipo. A sala de espera da enfermaria acima do Salão é curta e larga, com duas janelas de dormentes e aço escovado, um banheiro; e ela já contou até quantos frisos tem cada janela. Esperar quase não faz parte de seus talentos. A cada cinco minutos, Asha lança a magia, aprendida desde pequena, para espionar, e segura seu amuleto, herança de sua avó quando pisou na Escola aos cinco anos de idade; ele garante que não vai ser descoberta neste ato. Até hoje só suas colegas de quarto sabem que ela espia a todos, desde alunos até os professores – ninguém escapa – dia após dia.

Isso não seria necessário, mas a menina teria de tirar os sapatos para, fechando os olhos, sentir com os pés todas as pessoas, na Escola. Mas bem, isso sem dúvida a iria delatar, e os professores teriam de avisar aos alunos, que a Melhor era um enxirida! Mas não, ela respeita os segredos. São eles que a jovem aprendeu ser a estrada principal, as trilhas, até as vias sem nome que revelam ao estudante A Verdade, passo a passo – O Enigma. Ninguém se exclui, enquanto o Argumento, a consciência, se manifesta e, ou, também, muta.

"A Vida só existe porque O Enigma desafia A Morte", ela se lembra da voz grave do Diretor dizer ao professor Gusa, um Melhor, tal como ela agora.

Sentindo-se torturada, ela se concentra – o coração uma lágrima, agora que se lembrou que seu gato – Bastian era o nome dele – morreu exatamente por ela não ter a paciência de se lembrar dos ensinamentos dos maestros; a memória lhe dói – sumprime as emoções, e decide ouvir mais um pouco.

– Acabei de medir tudo novamente, Najka – disse a monge enfermeira, que a menina conhece de longa data. Ela deve ter sido a aluna que mais tempo passou no andar superior do Salão. Ao ouvir o nome dela, ela raciocina, e conclui que – "Vampiros podem andar de dia em nossa Escola, e isso só pode ser por causa da Guerra. A Tomada da Torre de São Paulo... Quem pelos Deuses é essa vampira?". Questão sem resposta; melhor manter o coração sob controle.

– E qual é o estado geral? – questionou Najka.

Ali na enfermaria, as luzes externas abaixo dos paraluzes tingem a tudo de uma cor meio cinzenta, e levemente azulada. A enfermeira, uma bruxa baixa e gordinha que também é monge, olhou para o profeta em dúvida. Dali, pela janela na direção oeste, era possível ver os tons vermelhos e dourados mais para o horizonte dessa tarde. A pausa era ruim, ou até pior, deixando não só a bruxinha tensa quanto também a professora Toromago.

– Qual é o problema, Babi? – perguntou Tamara. Asha ouve, e sabe que sua professora seria a primeira a votar pela Sala de Privação, se suspeitasse dela.

– Bom, a atividade cerebral está normal. Digo, isso não seria de se espantar, no caso de... se ele estivesse desperto, e também conversando, enquanto eu fizesse a tomografia, mas não é o caso. Sua atividade é normal, tal como se ele estivesse acordado e não desmaiado.

– Você consegue explicar isso? – questionou Najka.

Ela olhou para o paciente, e depois para o androide ajudante. A filha da noite capta o olhar da professora, e ambas parecem concordar sobre o que a enfermeira sem dúvida irá concluir – "E então? Será que isso é bom, ou ruim?", é o que o olhar da alquimista lhe pergunta em silêncio.

– Só existe uma explicação possível, – começou Babi, voltando a olhar para Najka e Tamara – e isso poderia servir de exemplo para alguém. Não é mesmo, Sig? – ela olha para o androide médico, e depois se volta para Najka e Tamara, para concluir pensativa – Não há dúvidas: Elliot é um vidente.

A informação era óbvia para Najka, mas Tamara esperava até que a maestra Babka, Mikaela Libânio, lhe confirmasse. A professora suspira, preocupada.

– É possível ver o que ele vê, Babka? – sugere a alquimista.

– Não – respondeu Babi, dona do ofício.

– Nós temos de esperar e não há nada que possamos fazer?

– Sim, Tamara. E não, não há nenhum efeito colateral da sua poção mágica, a tal que tem o nome estranho, e aconselho a ele tomar essa poção seguindo a mesma fórmula, e a mesma freqüência.

– Mas?... – Tamara percebeu a dúvida no olhar da cura.

– Você precisa me ajudar – havia urgência na voz dela, e Tamara olhou para a vampira, mas Mikaela continuou, exigente – Toromago, você é a representante dos professores há dezenove anos. Ele precisa ficar. Sei lá, dê um emprego a ele, faça ele trabalhar, qualquer coisa; é estranho. Olhe aqui.

A senhorita cura pediu uma tela no ar e, então, segurou para mostrar à maestra o que queria dizer.

– Isso tudo é totalmente absurdo – diz Babi.

Até Najka chegou um pouco mais perto, para ver.

– Olhe aqui... – continua a cura – Ele está conversando. Olhe! Os dados da neurologia dizem que ele faz uma pergunta, e aqui a mente dele responde, mas é a mesma pergunta. Não são perguntas aleatórias. A resposta parece gerar as visões que, se fosse o caso de ele ter Segunda Visão, seria diferente. Veja que eu fiz o teste de Aptidão para a Magia. Nada. Se ele tivesse Presciência, isso seria também estranhíssimo. Ele seria Dobra Zero, como sessenta por cento do povo comum, e o cérebro estaria em êxtase – não está. Sei o que você provavelmente vai pensar, que seria um Poder. Não encontrei nada que provasse isso. Você tem de me ajudar, Toromago, isso é importantíssimo: ele deve ficar!

Tamara olhou para Elliot, deitado na cama. Najka sente que ela estava se questionando o que acontecia. Dentro. Era óbvio. Bruxos estão acostumados a situações mágicas, mas a vidência é uma das coisas inexplicáveis do mundo, e nem mesmo eles sabem explicar o que acontece, nem o que significa esse poder sobrenatural de ver coisas, o passado, o presente e o futuro.

Najka olha na direção da porta, e para Mikaela.

Sem dúvida alguma, isso merece a atenção e o segredo que só os bruxos são capazes de oferecer. Najka abaixa a cabeça, como que pedindo para a bruxa lhe dar esse presente, porque ambas sabem que esse vidente, nas palavras de Esmeralda, maestra bruxa de Glaura – "aportou como se isso fosse uma coisa casual; como se houvesse feito isso durante toda a vida". Não há opção. Tamara dá mais uma olhadela para Elliot, e confirma com a cabeça.

– Vamos esperar – decide a bruxa alquimista, resignada.

Asha é uma bruxa, e mora na Quinta Capela. É a melhor aluna, em todas as matérias, menos em Culinária, que envolve alquimia, poções e venenos, coisa muito importante no mundo. Sua mãe é comum, mas sabe que sua mãe às vezes vê coisas. Muda a cor do cabelo, aparência da pele. Ainda assim, ficou muito feliz quando Asha ganhou a bolsa de estudos, sabendo que ela era uma bruxa. Assim com muito orgulho, recebe toda semana uma mensagem da filha sobre a Capela; e só volta para casa em Ouro Preto nos feriados ortodoxos.

Afinal, sua mãe é um pouco wicca também, apesar de terapeuta. O seu pai, dado como morto quando Asha nasceu, em Báelorizont, ou Béalae.

A mãe mora em Ouro Preto, a região museu. Todo edifício importante para a cultura comum – e para a bruxa e a vampírica – depois do fim da camada de ozônio e depois dos paraluzes, que impedem a radiação nociva sobre a água, foram movidos para a região de Ouro Preto; mas é Bealae que é a Capital, e Asha sente muita felicidade de ter nascido em um lugar tão importante.

Na Quinta Capela, ela se sente em casa.

Fica ao lado de Diamantina, em meio às montanhas, e ter tantos lugares tão lindos para visitar nos fins de semana é um privilégio. E, como uma das alunas com as melhores notas, ela tem todas as permissões.

Hoje, porém, ela não foi permitida a entrar na enfermaria e está indignada, de preocupação. Anda de um lado a outro e para. Asha jogou novamente a sua magia, e lhe ocorre um arrepio de pavor com o que ouve dessa vez.

– E a família dele? – pergunta Tamara.

– Magos. Eles vivem em Budapeste e Viena – diz Najka.

– Santa Wicca! Que absurdo! – baixou o tom – Você acha que teremos problemas dando abrigo a ele, Najka? O Amadeu disse que ele devia ir para o Hospital das Nações Mágicas, em Béalae, mas Asal conseguiu convencer o Diretor a deixá-lo aqui até melhorar; Amadeu não gostou nada disso!

– Sem dúvida – diz a visitante; tom de aviso – Eu aconselho vocês a tomar medidas para que ele entre realmente para a sua sociedade, enquanto eu faço as investigações. Sabemos que uma Ordos está por trás disso, e eu quero garantir que os anciões Vetalla, do Hauki, saibam. Estou voltando para Outro Preto hoje, para saber sobre uma dúvida que eu tenho: como eles sabiam qual era a poção que ele deveria tomar? Isso me diz que ao menos um dos anciões sabe.

A maestra Toromago baixa os olhos, pensativa.

– Você vai precisar de ajuda nas investigações – afirma ela – A nossa Escola Capela te ajuda. O que acha que devemos fazer? O que você descobriu sobre o evento de Seattle? Foi a mesma coisa que Asal descobriu na região histórica de Béalae? Ele me disse:

havia uma coisa dentro das Luzes naquele dia!

– Com certeza. O djine que eu contatei, Art, estava no grupo que investigou. Viram a mesma coisa que Asal, uma energia negra com uma vontade terrível; Wendigo, ele disse, mas também não puderam investigar, porque a tropa de elite chegaria muito antes de terem tempo. O Praetor de Ouro Preto é meu aliado; acho que o seu Instituto Mágico Legal, em Báelorizont, nos daria algum resultado, se conseguirmos analizar as amostras que Asal conseguiu.

– Pelos enforcados! E o que vamos fazer? Nossa prioridade é proteger os nossos alunos, Najka; e eu tenho certeza que você sabe disso. Eu estudei na Antiga Escola de Alquimia de Ouro Preto. Wiccas! Como eu sinto falta daquelas ladeiras, a Rua Direita, as repúblicas... Desculpe o saudosismo! O que você precisa de mim? Eu sinto que você se espanta com as proteções que permitem que um vampiro esteja em nossa Capela, mesmo de dia.

– É sobre As Luzes que vim falar com você e com Asal; pois hoje falei com o senador Bartolomeu Andronikos, o arquimago. Ele me pediu um tempo para que consiga uma brecha que gere talvez a nossa única oportunidade para investigar os eventos, a não ser que novas informações surjam. Não vejo outra saída a não ser o contato com a Associação Amérika e as Torres da Bretanha. A não ser que os djines se apresentem, mas a neutralidade deles não me inspira.

– E a realeza? Algum sucesso? – há dúvidas na voz da alquimista.

– A realeza não é nossa prioridade. Mesmo porque, de acordo com Asal, eles só podem ser envolvidos quando o gatilho acontecer.

– Eu não entendi essa condição, Najka. O que isso quer dizer? De que há isso de amor... não fica bem explicado. Tudo o que Asal me disse parece um monte de informações desconexas; acho que ele mesmo também não entendeu, ou supõe que "amor" seja esse gatilho... Asal é um homem assombrado...

– O que você quer dizer, alquimista?

– Pelas bruxas queimadas! Não fale nada com ele, por favor! Asal perdeu o grande amor da vida dele; morreu, diante dos olhos e mãos dele.

– A respiração dele se modificou – diz a vampira.

Asha se levantou, de um salto, atenta. Ouve passos, na direção de um dos leitos. Asha estuda na Quinta Capela desde os quatro ou cinco anos de idade, mas hoje foi a primeira vez que pensou que iria ver alguém morrer, bem na sua frente. Foi a impressão que teve na Sala de Holografia.

E pior ainda, por sua causa.

– Ele não acordou – Asha ouviu a enfermeira dizer – Não sei o que dizer, mas acho que a situação dele é grave.

Isto deixou Asha desesperada. Ela passou a mão na testa, tentando pensar o que fazer, e ainda tinha outras preocupações além dessa.

– Erê – chamou a menina.

De todos os seus amigos, alunos que apenas tentam saber se comportar como comuns tal como ela, o que ela mantém mais relação de intimidade acaba sendo o espírito de um menino. Uma nuvem se formou à sua frente: surgiu uma figura de manto branco, careca, de olhinhos espertos.

– Ai, Erê. Eu acho que matei ele – confessou. O espírito olhou, e riu.

– Você não matou ele. Você não percebeu? – ri o Erê.

– O quê? Que ele está em coma? – concluiu – E que eu briguei com ele? E se ele morrer? Vai ser culpa minha, e ele nunca vai me perdoar!

O Erê riu, se divertindo; Asha bate a canhota sobre a outra palma.

– Do que você está rindo, Uppo? – ela pergunta.

– De você, é claro!

– Que que tem pra rir aqui?

– Você não consegue juntar todas as peças sozinha? – ele se diverte.

– Do que você está falando?

– Aqui... – diz abaixando a voz o Erê – Mas então, você conseguiu?

– Ssh! Não aqui – exigiu Asha, e mostra as palmas.

– O quê? Quer dizer que você azulou? – desafiou o Erê – Não sabia que a sua vontade era tão fraca assim.

– Eu posso sair, sim, se é isso que você está duvidando. Eu sou só a Melhor dessa Escola, e isso tenho orgulho de dizer. Se você confirma o que disse o Sete Bocas, tenho de usar a ponta "laranja" da Estrela e a técnica de Necessidade, e tem de ser hoje a noite! O ritual,... Ai, Erê, não tem como você me confirmar o que o guia disse? Eu tenho de usar o Arcano dos Amantes... Ai... Não tem Avatar? Seria tão mais fácil falar com uma pessoa... quero dizer,... Entidade.

– São Sete Bocas, uma por dia pra você alimentar. E se você esquecer um dia, um único dia, vai ter de pagar o preço. Mas então... que dia vai ser?

– Ssh! Segredo. Te chamo mais tarde pra gente conversar – a ideia de ter de pagar o preço, que ela tem noção de como é, lhe fez sentir arrepios.

O espírito careca olhou de lado, e percebeu que ela olhava para a porta de aço da enfermaria, mas parece que preferiu ficar quieto.

– Não tem como você me dizer se ele vai ficar bem, não?

– Isso é porque você não vai no Terreiro – resume o espírito – Eu sei o que você vai dizer. Não pode ir no batuque porque sua mãe é ortodoxa; eu não tenho autorização pra entrar na enfermaria. Eu sei, fi'a. Sei do seu truque. Sem dúvida você vai ter de guardar isso que ouviu aí só pra você, como tantas outras coisas; e é verdade que eu sei. Só ouvir o guia de Mãe Sauza pode te ajudar, mas... acho que você tem de garantir esse Ritual sozinha.

Asha olhou para várias direções, concordando com a cabeça.

– Bom também! – concluiu o Erê e sumiu.

Ela havia escutado algum barulho pela porta da enfermaria, e rapidamente depois que o Erê saiu ela assume a posição de ouvinte, ao lado da porta.

– Sim, Tamara, está tudo normal – disse Babka, a enfermeira.

– Como você se sente? – pergunta Tamara.

– Bem – era Elliot. Asha quase soltou um gritinho, mas se segurou no banco normalizando a respiração, ouvindo enquanto o coração pedia pra sair.

– Todos os exames estão normais. Saúde perfeita.

O doce vento balança o ipê rosa junto ao marco, visto ao longe, na estrada que vem para a escola capela.

– Não há nenhum efeito colateral das poções. Auspitia Serpens... Você vai continuar tomando suas poções, no mesmo horário. Você precisa de um Profeta; vou falar com o Diretor. Qualquer coisa estranha que você sentir, eu gostaria de fazer exames para ver o que poderia ser.

– Eu estou bem – insiste Elliot, impaciente. Ele vê um homem, que anda por um pátio diante de uma igreja barroca, mas mesmo de costas como o vê agora – pelos olhos de quem? – ele o reconhece. O médico. Ao lado dele há uma pessoa numa cadeira de rodas. Não é possível ver essa pessoa, mas porque ele – ou ela – tem todo o corpo enfaixado; e não, não é um véu ou burca, já que o aparente receio do médico indica ou doença, ou presença do sobrenatural.

A monge enfermeira desliga as telas suspensas, e suspira.

– Certo. Isso é o que você diz. Você não tem aptidão, é um dobra zero e não há poder ativo sobre você. Agora, eu acho que está na hora de você receber sua visita – diz Babi, e aponta no tempo presente para a sala de espera.

– Que? Ah – solta o ar, como um riso de reconhecimento.

– Tem certeza que está bem? – insiste Tamara.

– Sim. Deixe Asha entrar – pede Elliot, e a enfermeira veio para a porta.

Asha nega sua magia de espionagem bem a tempo. Então, a porta se abriu, e a menina olha com olhos meigos para a monge.

– Entre. Ele acordou, e está te esperando!

Assim sendo, ela entra na mesma enfermaria em que já esteve tantas vezes, e vai até a cama. Elliot sorri para ela, que tem só cinco anos a menos que ele; só, não diz muito – Asha sabe de tudo. Ela para ao lado do leito. Tamara, Najka e a enfermeira os deixaram a sós, e vão para um canto; Najka quer saber quando Asal pode recebê-la, pois ainda hoje era necessário conversar com ele.

– Desculpa – diz Asha, solene.

– Não tem porque você me pedir desculpas – responde Elliot. Ele fica muito tonto, e agradece por estar na maca, agora. Sua visão é transportada para um enterro. O caixão, um pouco pequeno, sendo abaixado sobre a cova, onde vários alunos e professores se reúnem velando ao redor.

– Eu achei que você ia morrer – diz a pequena.

Elliot tem uma expressão estranha. É como se ele ficasse mais velho toda vez que desmaia; parece que duas horas desacordado fazem ele envelhecer vários meses, e os olhos dele,... os brilho neles... é tão,...

– Muito obrigado – diz Elliot, ao respirar.

– Ai, Iko. Você é sempre assim, né? Todo frio! Eu fiquei preocupada! Achei que tinha matado você! E depois você me diz obrigado! Eu não entendo você! Mas que bom que você está melhor. Você parece um velho, quando fica assim tão sério, sabia? Você me promete que não vai morrer?

Ela disse tudo isso muito rápido. Elliot vê na pergunta a solução que queria encontrar.

– Promete, Iko?

O vidente olha para a menina, e sorri. Acaba de ver a imagem tal como a de uma fotografia, pronta para começar a desbotar.

– Não vou morrer dos desmaios – diz ele.

– Promete? – Então, Elliot sentiu vertigem por um instante. Sente que agora é o momento decisivo, e tenta escolher o que falar para mudar o futuro.

– Arrâ. O Erê vai com você, não vai?

– Ssh! Você... Não sei como você sabe essas coisas, mas porquê? Vai. E não conta isso pra ninguém, pelas bruxas queimadas! Tá? – sussurra ela.

– Não deixe a faca ritual e sua varinha pra trás. Melhor, leve a sua bolsa de estudo, todos os componentes, tudo que achar necessário.

– Eu não posso fazer magia fora da Capela.

– Asal me disse ontem que os alunos podem fazer magia fora da Capela, em situações especiais.

Agora, Asha olhou para ele bastante desconfiada.

– Tá – a bruxinha, ao dizer isso, não sabe a alegria do coração perturbado de seu novo amigo, vendo a visão desbotar, deixar de existir.

– Então eu prometo não morrer.

– Combinado.

– Até mais, Coelho.

– Até, Gusa. Nos encontramos no Carnaval.

Essa foi a melhor reunião desde que Asal havia começado a estudar as Profecias que ele comprou e desde que havia confirmado que aquilo tudo era sem dúvida uma verdade; e melhor, tem seu Mestre do seu lado.

– Tamara – diz Asal, colocando a mão direita ao lado da boca.

– Sim – ouve ele a resposta – Estou na enfermaria. Se você já terminou sua reunião, venha para cá. Najka está aqui também; e ela insiste em falar com você hoje ainda. Akael teve um desmaio, mas está tudo bem.

– Estou indo – concluiu ele.

Asha saiu da enfermaria, e se arrependeu. Viu Asal chegando; e pensou que poderia ter ficado para escutar o que eles iam falar, mas agora é tarde.

O maestro bruxo olhou para ela e parou.

– Visita?

– Ele me prometeu que não vai morrer!

– Excelente – olha um pouco de lado, e pergunta como se não soubesse essa resposta – Você não tem aula agora?

– Estou indo – e foi.

Descendo pela Escada Central, Asha vê Shamra, uma conjuradora psíquica com a beleza estranha dela, antes de simplesmente sumir ao pisar no símbolo da Torre de Meditação. A Escada é assim. O teto do Salão, mais de uma centena de símbolos que interligam as salas de aula planares, porque as salas comuns existem apenas para Saber Comum, matemática, física comum, geografia e biologia, mas nada de sobrenatural. Nikolai conversa com o Maestro Bojar Kha logo mais ali ao lado da Porta, a outra entrada; ela ouve o barulho vindo da Oficina que fica bem no meio da Capela, e esbarra em um aluno antes de chegar ao seu símbolo, onde deveria ir para a aula – ela para, duvidando desse descuido.

– Castañeda... me desculpe – ela põe a mão sobre o peito.

– Sauza? – ele parece avoado, ou confuso – Acabo de vir de uma aula sobre magias de memória. O erro foi todo meu. Me desculpe. O trabalho nos Institutos de Pesquisa Psíquica deve ser terrível.

A menina apenas sorri, sabendo do que Eder está falando.

– Você conseguiu a vaga, por falar nisso?

– Sim – agora ela sorri abertamente – A Bolsa de Iniciação da Tropa de Elite é dada apenas a um Melhor por ano, em Báelorizont.

– Ah!, bem, me descupe de novo. Parabéns. Acho que eu devia ir por aqui, ou ir pros jardins... Devia voltar pra Glaura. Não estou bem...

A menina ergue uma sobrancelha, virando o rosto de lado, como quem diz – "Acho que sim", e ele sai andando. Chegou. Ao pisar no símbolo é transportada para a sala de aula. Somente o androide Tatu estava ali; e soube que perdeu a teoria de hoje. Agora é a hora de cozinhar o ritual, então.

– Sauza – diz o androide de sua sala – Você vai ter de fazer aulas extras se perder mais teoria.

Quando Babi lhe deu alta, Elliot desejou falar com Asal, mas mais porque as suas visões são avisos sérios. Sobre morte. Elas lhe dão a sensação de lugar, de que ele tem uma responsabilidade, de escolher como aceitar ou desbotar tudo aquilo que vê; e o jovem gostaria de fazer muitas perguntas. Ainda é final do dia, e ele ouve Tamara dizer – "Vamos pela Passagem dos Enforcados, porque Najka está aqui", e adiciona – "Gusa, Elliot deve ir também" – ela parece ter lido os seus pensamentos, pensa o vidente. Se levanta com a ajuda da filha da noite, ficando algum tempo ali em pé para garantir à enfermeira suas certezas.

Abaixo da Capela, logo que eles pisam nos símbolos na sala de teleporte da Enfermaria, ele vê alunos para todo lado. Parece que o dia está no fim e todos estão saindo das aulas. O jovem vê alguns deles em visões, ouvindo o que eles falam, sem controle sobre a câmera ou o roteiro; e eles falam sobre as suas aulas, segredos em voz baixa – "Na Capela de Parati há uma entidade do Mar que canta para os estudantes dormirem... Dizem que é a Mãe Água!" – "O Branco é de onde vem a matéria do Giz, e os viajantes planares mineram isso na Capela em Glaura!" – "Eu tenho muito medo do Orãnge... É verdade que ele dá revelações do nosso futuro, Erasmus?" – "Você não devia ter medo, Épica. Até hoje, nenhuma visão primordial foi sem razão. As visões verdadeiras, de acordo com a Tradição, são a única fonte de informação segura no Universo" – e então, o aporte.

O impacto do fim das visões sobre os alunos se mistura às sensações de uma sala aconchegante. O escritório de Asal, a Sala Oval, tem estantes de ferro fundido e há um holograma do globo terrestre e interplanar à esquerda, mas Tamara lhe oferece o sofá macio para se sentar. Asal vai até a mesa ao lado de seu altar, no canto. Ele para. Não há imagens, fotografias ou hologramas de pessoas na sala. Não há androides. A fileira de livros muito velhos, mas protegidos pelas suas magias, tem como companhia equipamentos estranhos, como bússolas, ou réguas, respiradores planares, além de caixinhas com anéis mágicos.

Há uma porta com um banheiro; exemplares de plantas que sobrevivem fora dos paraluzes, de fortes alaranjados ou azuis.

A abóbada ilumina o ambiente, sob os tons do lusco-fusco; a varanda dá para a Torre de Meditação, feita de pedra, aço e tetratitânio, metal transparente que Elliot acredita permitir a Najka andar aqui durante o dia.

O bruxo toca a chaleira, de leve – "Inkantanna Hat!", diz ele – e a chaleira começa a fumegar, alegremente. Ao comando de voz de Asal – "Ative o ar: nível refrescante", o ar condicionado é ativado nesse dia quente.

(Fim do Cap 6)

Entenda os Lemas: "Eu sou" – "Nós somos" – e "Tu és" – e, então, irá compreender que a visão de mundo de cada tipo de Arcanista é única, quando condiciona aquele que estuda para formar sua sociedade tal como aquilo que lhe define.

–– Nação da Magia –– Aglomerado Sudeste, Beaelorizont.


Aguarde pelo Capítulo Sete, em breve.

E obrigado por ler.