Sobre Amizade; e Verdade

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Onze -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 9 de Janeiro de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 11 – Sobre Amizade; e Verdade

O dia começou e, desde o início, Nina viu coisas que nunca sonhara ou, ao menos, sentia que era tudo mágico: estava encantada! Estava viva, atenta a tudo que acontecia; até mesmo a forma esquisita de falar, considerando o que não foi falado – tal como se houvesse sido. O mais incrível era a arquitetura! Logo cedo, foi tomar café com as meninas ao lado das piscinas. Asha invocou a mesa, com uma única palavra – "Tablaao!", e Branca o pano, com – "Otuve!", mas foi na hora que viu Tomoe aquecer a comida sem palavras que Nina ficou confusa.

"Não é necessário falar palavras mágicas, não?!", pensou.

Enquanto tomavam café, Africa Cantagalo veio lhes dar bom dia, pois a mais velha tinha aulas hoje; não disse aulas de quê.

– Asha!,... – Nina ouviu a conversa, mesmo sussurrada – Todo mundo já sabe que você tem convidados que são comuns: tome muito cuidado!

O feriado se revela o dia mais divertido do ano. Nina nunca imaginara tudo aquilo; e em poucas horas havia aprendido várias coisas sobre Magia, a história dos bruxos do aglomerado; e viu que Asha era a melhor aluna – mesmo! Sabia tudo; e todos os outros alunos param para ouvir quando ela abre a boca, o que sua nova amiga percebeu, muito impressionada: mais que as explicações.

Depois de andar a manhã toda, Nina viu que havia várias mansões, mas na verdade elas não eram apenas uma casa. À lateral havia sempre um dormitório, e também ao lado uma sala de aula ao ar livre, ao estilo grego, com degraus em que se sentar, um palco para o orador – e ali estariam protegidos da chuva, que se chegasse na região, seria na verdade motivo de felicidade, pois os satélites de controle do clima têm restrições legais. Todos os dormitórios da escola têm um orador, mas Asha não mora numa das mansões dos Patronos e sim no dormitório principal Um, homenageado com o nome de Santa Wicca. A estátua dela na entrada, de bronze, tem quatro metros de altura; e ela segura uma esfera, que a pequena comum vê que alunos e alunas também possuem e usam, durante o dia; mas Nina achou que a orbe de Asha era a própria! Eles ficam uns bons tempos olhando aquilo, e ela não entende o que é, ou para o que serve.

Há dezesseis mansões e mais nove "planares".

A menina bruxa apresentou suas colegas à nova amiga.

– Esta é Branca, ela é muito quente, e também fica com todas as cenas sensuais só pra ela,... Ai! Calma, eu tava brincando, Ba – a colega deu um tapa no braço da Melhor, mas logo estava rindo com ela de novo.

– É inveja – Branca se inclinou para sussurrar; e a pele castanha dela ficou muito próxima. Nina achou que era quente – Isso é porque eu tenho namorado, é da outra turma ao lado da nossa. Markus Finnguala de Outubro; a gente está firme desde o semestre passado. Ele é da minha idade, treze.

As meninas ficaram à volta delas, no Pátio de Bronze Seis: áreas de jardins onde os alunos vão para passar o tempo e estudar, este entre o Bar da Tia Braga e a piscina – há um edifício pequeno entre elas e o Edifício Núcleo, feito de pedra com reboco branco e uma torrezinha; mas dá pra ver uma linda Torre, quadrada, que lembra a de um castelo, atrás. Nina achou os gramados e pátios realmente muito bonitos, com várias pequenas estátuas de bronze. A bem dizer, são muitos jardins; todas as mansões da enorme Quinta Capela também os têm.

Nina está emocionada, tentando comer o mundo com os olhos; ela estava tão enfeitiçada pelas torres de pedra entre as construções de metal e vidro – sua amiga lhe disse que "não é vidro; é tetratitâneo", mas Nina não faz ideia do que vem a ser isso – que Tomoe invocou uma visita à Torre de Meditação. Não havia pessoas ali, a não ser a vista de uma parte em formato oval, que Asha disse ser uma das salas dos professores; havia um sentido: há um motivo para que essa Torre esteja ali. Não puderam entrar: o androide não permitiu. O pátio suspenso, que liga a Torre e o edifício das cozinhas, ainda permitia a vista das Oficinas, um complexo até pequeno – "por fora", disse Asha – em aço e pedras sabão, fazendo a divisão entre as direções, bem no centro da Escola Capela.

– Esta é a Klaura, nossa cozinheira e mestre em ilusões. Ela é da nossa idade, também. Tomoe-sã é a nossa gota de luz oriental, especialista em esgrima, poções, programação, única elementalista, e meio-nihon. E essa, mais branquinha que eu, é a Bruna, que é a melhor dançarina de Roda da escola; e dona da matéria mais importante de todas, História das Guerras da Oculta.

Não conseguiu se conter, então.

– Waw! Vocês têm todas essas matérias legais, e eu não sei o que dizer,... não sei nada sobre nada disso. Vocês têm especialista em matemática? Eu sou a melhor aluna de matemática da minha escola, mas,... – e Nina corou – mas isso é porque o meu pai é doutor em matemática.

– Wiccas! – gritou Branca feliz – Achei que ia passar o resto da vida ficando em matemática. Até hoje eu só passei porque um bruxo das Torres da Bretanha que conheci no ano passado, o Wills, me dá uma mãozinha... mas só de vez em quando... Você vai

ser a nossa especialista, então! Mas... Temos de descobrir como é que você vai fazer um ritual de iniciação do dormitório, se você é comum.

Depois, foi a hora da visita ao Bowl da escola: enorme! Fica a sudoeste, no lado oposto ao dormitório de Santa Wicca; dá pra ver o Edifício Central, que mistura aço, pedras de vários tipos – "todas têm história", murmurou Asha; e Nina começou a duvidar se ela estava lendo sua mente – com partes de um concreto muito diferente de tudo que estava acostumada. Na verdade, haviam torrezinhas aqui e ali, essas totalmente de pedra. Haviam esqueitistas na escola! Tomi ficou um tempo olhando as manobras: era obviamente magia! Asha apontou as salas de aula – "comuns", explicou – uma série de janelas pequenas; e explicou que a combinação entre aço, pedras vindas de vários lugares e madeira era usada para gerar energia; mas Nina não entendeu o resto dessa explicação.

Tomi encontrou o garoto Elliot, que lhe conviou a dar uma volta; ele ficou feliz de sair do mundinho feminino e foi conhecer as lojas no Grande Salão.

Asha percebe uma outra aluna, observando. Ela se chama Elyfa. A bruxa vê nos olhos frios dela: maldade. Só ela vê! Sempre foi assim; e pensa que isso não vai se modificar nunca, sem explicação. Aos poucos, ela vai se aproximando.

Sem dúvida, a vê focar Nina a olhar tudo maravilhada.

Ei, velho! – o menino tenta lhe acompanhar – Você pode me dizer o que nós estamos fazendo? Ei! Dá pra parar?!

Haviam andado em vários pátios e o garoto esquisito que deve ter apenas uns cinco anos a mais o puxava, dizendo: "Vem! Temos de ir! Acho que é aqui!, mas todos são iguais!,...", ele falava dos jardins. Foi então que ele parou e mirou Tomi nos olhos – Elliot tentava pensar: revia em sua mente a explosão, o fogo que iria matar vários alunos, um incêndio sem tamanho! Via Asha lá, lutando como se ela,... O que ele via era ela lutar contra um imenso dragão de fogo e sombra, a emanar luz quente e fria, preta ou clara e pérola. Uma luz terrível, indefinida, que consumia a todos – que ele sentia queimando – e, no centro, Asha.

Não estava sozinha; ele via uma forma. Embaçada. Sabe que apenas vê uma pessoa embaçada por um motivo sério: uma pessoa ou coisa, ou entidade, que tem poder o bastante para se ocultar. O vidente se lembra das palavras de Najka sobre essa capacidade e ela é usada principalmente pelos caçadores, mas também pelos membros da Ordos Consular; e a Nação da Magia.

Não entende o que a Regência, ou Ordos Consular, é.

Ele suspeita que a Teocracia pode usar isso de alguma forma, mas nada disso importa agora; e sim salvar a sua amiga e também os alunos que ele sofre em visão serem queimados vivos por uma chama com formas medonhas.

– Tomi, – Elliot treme a voz – eu preciso encontrar a Asha.

– Era isso? Só isso? – o garoto para – Eu acho que ela está do outro lado desse anfiteatro, há uns cem metros daqui; e ela tá com a,... Ei! Volte aqui!

Não deu tempo; e ele teve de correr atrás dele. Tomi tentou fazer igual lá na Base: encher os pulmões, quando a maluca da Asha lhe atacou. E não é que deu certo? Correu; sem saber o que é que estava acontecendo.

Atenta, Asha já se preparou para o pior. Nina não sabe nada; ela é avoada demais para perceber as tramas de dentro dessa sociedade que ela nunca nem soube existir; mas sua amiga é muito experiente, ignorando a idade. A comum viu a menina chegar; e ela mirava Nina, desatenta, exalando calma.

O edifício da Diretoria, com apenas dois andares, ainda encatava Nina com sua forma simples, ao lado da entrada, quando a outra chegou.

– Olá – diz a menina: parecia uma fada.

– Oi. Você também estuda aqui? – pergunta Nina.

– Parece, não é? – a voz dela era a coisa mais doce e incrível que a comum já havia ouvido; porém ela disse isso de uma forma tão seca, que até mesmo Nina percebeu que não era exatamente um sinal de boas vindas.

– Novidade, Asha – disse, voltando sua atenção para ela – Não sabia que você, a Melhor, iria um dia se envolver com... uma serfa...

Nina não entendeu nada; e não deu tempo.

Houve uma imediata reação de todas as meninas. Um grito. E um clarão de cor dourada, que passou bem ao lado da cabeça de Nina, depois outro, verde esmeralda e uma palavra – Keudheo! Quando viu, Asha à sua frente, armada com uma bola de energia vermelha e branca em sua mão direita, a faca à canhota, e morena a emprestar um chute martelo na outra menina, que anda para trás. Não caiu, porque usou sua energia dourada para se manter em pé; ficou só meio flutuando. Depois, sorriu um sorriso triste de desculpas, bufã, antes de ir.

Elyfa não foi embora de uma vez. Parecia olhar de forma desfocada todos os que estavam ali. De repente feliz, ela se foi, sem lhes dar as costas.

Asha fez dois gestos: o primeiro desfez sua energia, e deixou sua canhota, a mão com a faca, sobre seu peito; no segundo, com a destra, ela parecia puxar o ar com calma; e o efeito foi todas as meninas saírem da posição. Nina viu isso, como se fosse num filme: a líder dando ordens com seus gestos.

Depressa e suando, Elliot estava lá; ele parou, tentando entender.

A outra menina já havia ido embora; Tomi chega correndo atrás de Elliot, bufando, para ver por quê o louco estava com tanta urgência.

– O que aconteceu? – diz o vidente, ou oráculo, sério.

– Você não vai entender, Iko – responde Asha – porque você não é um bruxo, e isso não vai fazer sentido para você.

– O que foi? – insiste o novo disciplinário, tentando se controlar.

– Elyfa chamou a Nina de “serfa” – contou Klaura; foi ela que havia soltado a energia que era verde esmeralda.

– E o que sig-...

– Ai, Iko! Tá, tá. Eu explico – desabafa Asha – Significa “serva”, na linguagem dos magos como eles chamam as pessoas inferiores a eles, ou seja, os comuns como a Nina. Foi isso que a maldita disse, foi isso: inferior!

Elliot não sabia o que dizer, porque realmente não entendia, mas viu que era uma palavra de baixo calão, um xingamento, propriamente dito; então, ainda sem saber o que fazer, decidiu perguntar.

– Você quer fazer uma queixa contra ela, Nina? Eu te levo à Diretoria agora, se quiser, e a professora Toromago vai saber o que...

– Não! Não interfira na nossa vida, Iko!

Infelizmente, Elliot queria ajudar, e aquela frase foi muito forte; até mesmo Asha percebeu depois de já ter falado.

– Desculpa, Iko – balançou a cabeça, pra afastar a ideia – Não. Falei uma coisa pra você que não devia ter dito. Eu agradeço a ajuda. Você ajudou, já. Só de você ter aparecido. Não vou fazer uma queixa dela, porque isso vai é me causar mais problemas do que eu preciso; mas a batata dela tá assando. Relaxa. Foi mal ter falando assim com você. Verdade; desculpa.

O vidente passa a mão na nuca, e olha para baixo.

Ele decide que teria de entender muita coisa, antes de interferir na vida dos bruxos, pois seu conhecimento sobre as coisas ainda não era suficiente; não para saber o que essas sociedades de séculos de tradição vivem, de fato.

Viu a visão desbotar, e as meninas todas felizes.

– "Como?!", pensa ele. "Será que a garota, Elyfa,... O que ela fez?".

Depois de se controlar, ele decide não tocar no assunto.

– Não queria atrapalhar – resume Elliot – Mas me avise se você precisar de qualquer tipo de ajuda, Asha; e Nina. Vou lá; 'bora, Tomi?

Imediatamente, arrastou Tomi para o outro lado dos jardins. Na sua opinião, a situação não havia sido de todo ruim. Só inexplicável. Tomi já achou que aquilo fora uma ofença grave. Não entendia porque Asha não queria dar queixa; e, se fosse em uma escola comum, Elyfa seria expulsa. É claro, Elliot lhe lembrou disso, que as normas sociais dos bruxos são diferentes das de outras nações; e acabou ganhando no xadrez de Tomi, de novo.

– Não é justo! Você sabe o que eu vou fazer! – protesta o comum.

– Não exatamente,... Mas é bom que você entendeu até essa parte da história, e pode treinar um pouco mais, se quiser me desafiar outra vez.

– Meu, você dá medo, sabia? – Tomi percebe que já que Elliot realmente não tem um profeta, ele não tem como saber nada sobre o garoto. Ele poderia pedir ao seu computador para ler o Perfil dele. Isso lhe intriga, mas não há nada a fazer, até porque nunca viu uma pessoa sem computador! Ele olha ao redor. A tal Escola Capela é muito maior que uma escola comum; mais parece um tipo de fortaleza, com um monte de edifícios que misturam épocas distintas – e aperta os olhos, mirando mais acima os paraluzes – "Como é que esse bando de loucos esconde esse tanto de magia dos satélites?", pensa ele, tentando se lembrar de lendas urbanas; há uma: "O sk8ta que voa mais alto vê o horizonte".

Ele, com sua prancha retrátil na mochila, sabe que as tribos urbanas têm incontáveis lendas; alguma delas deveria explicar isso.

Só há uma explicação: magias especiais para ocultar a escola.

Do outro lado dos pátios, no jardim Soí, Asha examina Nina, que não está sabendo nem mesmo o porquê. Tomoe-sã também pega seu pescoço como se fosse o de uma boneca, mas de forma delicada: "Nó! Ela é muito forte!", conlcui Nina, sentindo a mão fria da meio-oriental. Finalmente elas pareceram aliviadas, mas assim que elas terminaram Nina não sabia o que dizer.

– Mas é óbvio que não, Nina! Você não sabe o que pode dizer sobre isso por que você é comum – resume Asha, tentando parecer calma – Digo, ela te xingou, foi isso o que aconteceu; em detalhes. E eu então entrei na sua frente, pra te defender porque se ela vai brigar com alguém, vai ser comigo.

E olha para os jardins, procurando a outra garota. Não está lá mais. Havia um aluno, Santiago, no lado oposto saindo da área central conversando com um holograma, e a Maestra Toromago acaba de chegar ao jardim, trazendo com ela o professor de Defesa, o estranho velho Olanguèe – Asha desvia o olhar.

– Não está mais aqui. Klaura, o que você acha?

– Ela errou, Asha, mas o alvo era a Nina, sem dúvida – conclui Klaura.

– O que aconteceu? – Nina tenta entender.

– Ela tentou lançar uma maldição em você – explica Asha.

Nina tenta repassar o que aconteceu, mentalmente.

– Então isso era o clarão dourado? Passou do lado da minha orelha; e ele era frio como ferro – Nina se arrepia e vê dois professores a lhes observar.

– Foi – diz Bruna – A energia dos bruxos é de família, e costuma adquirir a cor dessa família. Ela não queria te acertar. Só dar um aviso. A família dela era parte da nobreza dos magos, até o século vinte e um, quando se iniciou a nova caça às bruxas; e foi exatamente isso que gerou a Grande Guerra.

Aquilo tudo era muito novo pra Nina, e as meninas arrumaram um jeito de não perderem o feriado.

Durante o dia, Asha apresentou vários alunos a Nina e chamou Iko e Tomi para andarem com elas pelas alamedas.

Asha prometeu da próxima vez visitar a cachoeira, ao norte.

Ainda melhor, iriam ao Astral! – Nina franziu a testa.

No final da tarde, foram tomar lanche no bar da Tia Braga, uma das famílias bruxas mais importantes – e rica também – que apoiou os bruxos durante a tal Guerra de Libertação, que Nina não fazia ideia de o que foi, e quando foi, ou do o que ela significava; mas deu valor porque as meninas davam valor.

Nina escutava tudo, tentando abraçar o mundo.

Eram valores que ela não estava acostumada; e ainda teria de compensar com horas extra de matemática se quisesse voltar à Capela. Tomi fez amizade com Amadeu e logo eles estavam discutindo história. O bruxo era o professor de Tecnologia da escola, mas a história que conhecia era totalmente diferente da que Tomi conhecia; além do que, o garoto ficou impressionado com o significado do nome dele. Amadeu havia sido o maior telecineta de todos os tempos, e também o financiador do projeto de criação das Escolas, na virada do milênio. Dois outros alunos, Adolphus e Nikolai, os melhores alunos da matéria de Amadeu, foram chegando e se juntaram à discussão; Tomi é um busyboy: tecnologia é tudo.

Asha vê Elliot ficar tonto e ele para; por um instante, o oráculo imagina que ouviu alguém dizer "Sim, professor?", mas fica sem saber o que é, nem se isso seria algum tipo diferente de visão – "Auditiva?", ele se questiona.

O lanche era simples, bolos, pães, geléias, refrigerantes, salsichas, broas, e para sobremesa, casadinho de goiabada com queijo.

Você tem certeza, Noite? – ele duvida.

– Sim, Dlaíomh – a professora tem a voz muito séria – Mesmo dia. Além de o mesmo lugar. E únicos. Isso não pode ser uma coincidência, Gusa. Não pode, eu sei disso. Agora, preciso te perguntar... se... bem, se isso está nas Profecias?

O Maestro mais jovem do século parou, concentrado.

– Sem dúvida, sem dúvida – ele põe a mão sobre o queixo, cruzando o outro braço como apoio – Agora eu sei quem ela é nas Profecias. Mas,... se for isso, nós precisamos agir, urgente. Ela morre, pelas minhas contas, sete vezes durante os textos que eu consegui; inclusive ontem. Isso pode querer dizer que vamos conseguir salvá-la, mas não temos certeza, ainda; temos de agir. Acabo de ver um furo, ou melhor,... solução,... Sa faoole,... Ah!, me desculpe: entendi.

A alguma distância, as meninas tomam lanche, felizes.

– O que você acha, Gusa? O que devemos fazer agora? – Tamara gostaria de sugerir, mas decide esperar pela opinião,... "Salvá-la",...

Asal Dlaíomh Gusa, major da reserva, professor da escola capela, se lembra de uma vez, em Béalae, quando se encontrou com Kalai O Cinzento, grande líder das Treze Nações, e ele citou Sabarba: "Então, tu abandonastes a Tropa para se dedicar ao magistério, Dlaíomh? Aqui está o seu Enigma, então, jovem. Dê a uma criança uma obrigação; e ela vai se dedicar a estudar. Dê a ela a curiosidade; e ela irá buscar A Verdade por ela mesma"; Asha está em busca de seu enigma.

– Temos de agir antes – responde o Maestro, seguro – Não há nenhum tempo a perder. Vou imediatamente ao Diretor. Você dê um jeito de trazer a amiga para a nossa Escola, enquanto isso. Jogue com o que ela não sabe. Temos de agir. Agora eu entendi,... O que nós temos, as... Profecias... o garoto Iko está certo, elas são o caminho a seguir; e nós dois sabemos contra o quê estamos lutando: uma Ordos que tudo vê – áfilos. É possível que nos tornemos o alvo, tão rápido quanto sabemos disso agora.

– Santa Wicca! – diz a senhora Toromago – Eu já falei com Odéle, e você vai encontrá-lo na Diretoria também.

– Preciso do apoio de todos os Professores e você é nossa representante, Tamara; mas também vou contatar meu Comandante, da Tropa. Desde que eu me tornei um Professor que não nos falamos, mas ele tem contato com todos os monastérios; e os monges controlam as saídas planares do aglomerado. Vou pedir ao Diretor para entrar em contato com o nosso Praetor, Adles Tales, e ele será nosso porta-voz no Grande Conselho, porque se as profecias que eu tenho estão certas,... não, sem dúvida! Nós seremos o alvo principal.

– Eu me lembro... É a parte que tem dupla interpretação – diz Tamara.

– Todos os vinte e dois livros têm, Noite – resume ele – A questão é que é possível vencer; e o livro Nove diz que houve "Um único lugar, Abrigo, a vencer a guerra à Teocracia, e neste lugar irá nascer, abençoada pelas bruxas enforcadas, a resistência ao Inimigo", que agora parece mesmo ser o Inimigo-Sem-Rosto de que Najka vem falando desde o começo; e A Morte, também.

A professora pesou o momento, e a missão. Não é nada difícil, essa parte a ela confiada. Ela está assombrada; ainda mais sabendo que desde que a pequena está na Escola, o Diretor tem de acertar os métodos toda semana; e isso impede os professores de saber o método seguinte. Toda segunda, usa-se um método diferente, novo. "O que o Conselho está escondendo?", ela não consegue evitar pensar, mas sabe que, com as Profecias que têm neste momento, eles selam o destino de talvez muitas pessoas, suas vidas e futuro.

– Vá ao Diretor, Asal. Nós precisamos nos unir, definir as nossas ações; e eu não acredito nem um pouco que nada disso é coincidente. Deixe essa parte comigo, sim, fique tranquilo. Eu sei exatamente o que fazer. Barão, me chame o Diretor – diz a bruxa para seu Profeta, cumprimentando Asal com a cabeça.

O Maestro abaixa bem de leve a cabeça, para confirmar. Ele se levanta da mesa ali no jardim de bronze, e olha Asha antes de ir. Seus mantos negros se erguem pelo vento, e de repente parecem um alerta a alguém que está de longe, o Melhor Aluno, Santiago cruza os braços e para de falar.

Ele olha para o holograma que está diante de si, para dizer – "Desculpe-me, Anabela, mas discordo. Não vejo nada de estranho nisso, e acho que retiro o que eu disse. Você também é uma Melhor, era aluna na Sétima Capela, em São João del Rei, então ao que eu vejo a discussão da outra aluna com a comum é algo totalmente normal. Sim. Vida escolar, você sabe. Acho a intervenção dos Institutos ineficiente, ao se tratar de uma Escola, e gostaria que a senhorita citasse isso. Não sabia que o nosso Praetor iria me obrigar a investigar os outros alunos, e se for assim eu quero me afastar disso", e a mulher de vermelho ficou de boca aberta, por um instante, até dizer "Está bem",... e suspirar, tentando se forçar a tomar essas decisões.

Alguns segundos depois, Anabela lhe responde com: "Os Institutos ainda assim lhe agradecem, Archangelo, mas se você me garante que a melhor da sua Capela tem uma vida normal, os Institutos devem retirar as acusações sobre ela, e talvez até defendê-la em juízo. Eu aviso ao Praetor. Obrigada", faz uma saudação simples e o seu holograma desaparece; Santiago olha Tamara, ao longe.

Seus olhos se apertam. Ele não consegue evitar de pensar "Estranho. O que é que o Maestro Dlaíomh disse a ela? A Maestra Noite evita até mesmo falar de um comum, desde que o pai foi assassinado,... mas, conversar?". Ele vê Tamara ir até a mesa de Asha; "Muito estranho",... Ele se vira e sai de perto das árvores ao longo das piscinas, antes que chame a atenção.

Desde que Nina Donzel Blatt chegou na Escola, exceto pela menina que lhe atacou, foi maravilhosamente recebida. Isso é estranho. Bem, pensou que por ser uma comum, todos a iriam tratar como uma carta de outro baralho, mas o que vê na verdade é que não. Houve uns alunos mais velhos, curiosos: Adolphus, além de um tal Santiago Archangelo. Ele tem dezenove anos, com cara de quem sabe tudo – e tudo nessa Escola é muita coisa – o melhor aluno homem da Capela. E Nikolai, que é muito amigo de Asha. Muitas meninas, também. Descobriu que cada dormitório tem nove alunos, são divididos entre masculino e feminino e todo semestre os dormitórios com as melhores notas têm festas prêmio.

Viajens, acampamentos, visitas a instalações planares – o que quer que seja isso, Nina não entendeu – além de gincanas, festas que seguem um tipo estranho de calendário mágico. Perdeu a conta de quantas pessoas conheceu, porque Asha se parece mais com um tipo de chefe, pensa ela. Viu que todos os alunos têm com eles faca, varinha, e muitos livros. A faca está sempre pronta; e vê as alunas do segundo ciclo, como Asha, transformando roupas velhas em novas com uma palavra estranha – aliás, ouviu ao menos dez línguas diferentes. Branca disse que a Magia tem gramática e não é só um monte de palavras aleatórias.

Não conseguiria explicar as sensações, mas na verdade, apesar de ter sido realmente ameaçada no começo, agora é quase como se fosse parte disso, desde sempre, desde que,... bem, não quer pensar em alienígenas, agora. O lanche está maravilhoso. Não consegue pensar em nada melhor que isso em sua vida, mas a ideia de "magia" faz sua cabeça meio que virar do avesso.

Todas as meninas às vezes lançam um feitiço, mesmo sem varinha, e Nina vê que todas possuem uma bolsa lateral preta. Só Tomoe tem um tubo de arquitetura, meio longo e preto. Nina ficou em dúvida sobre as mansões, e Bruna posa como uma esportista famosa ao explicar à nova amiga, que "Sim, Nina, cada uma das mansões tem quadras de esportes. Inclui todos os esportes Olímpicos. A Tomoe é a nossa mestre em armas e treina na Mansão Markis de Mandraka, ali logo ao norte. A Asha é a nossa maestra marcial, e compete representando a Capela, em todos os campeonatos. As Mansões de Dantas, Kamppi e Takamatsu ensinam tudo sobre os monges. A Szafir sobre djines. Maika sobre os psiónicos, e Magalhães sobre política – e acredite, não é uma matéria simples. As Mansões de Karla, Santa Augusta e Bri ensinam Cosmologia; Brìkkomi sobre o saber comum. Mas a que eu mesma mais gosto é a Mansão Bambirra, onde eu sou dançarina. Ah, olha! Vê aquelas duas mansões? As do oeste, ali? Hã? Kamarati é a família que mantém a escola, e a família Gomes dá treinamento especial". Nina também viu a uma certa distância, um antigo cemitério, entre três mansões.

Asha dizia que era pra Bruna parar de dar informação demais pra ela pois isso demora muito tempo pra entender – "Vai com calma", pediu à colega.

Tudo parecia muito confuso; e quando alguém tenta explicar que também havia ali um Estádio Olímpico planar, Nina balança a cabeça. Decidindo concordar então com sua amiga Asha que, para ela, isso era mesmo informação demais. Elas fazem piquenique ao lado das piscinas redondas, mais ao norte dos Edifícios principais e de um enorme Anfiteatro, que misturam uma aparência de novo e velho: a mistura perfeita entre passado, presente e futuro.

De mansinho, Tomi chegou e se sentou para ouvir. Ele estava procurando um banheiro há um tempão e acabou no Bar estranho da tal Tia Braga, cheio de coisas dependuradas nas paredes, poções... mas o banheiro era ótimo!

Tamara se junta a elas, parecendo feliz. A bruxa questiona se Nina e Tomi gostariam de visitar a Capela novamente e Nina não sabia o que dizer.

– Claro – diz Nina – mas,... meus pais são muito rígidos. Meu pai não pode nem imaginar esse lugar, ou eu nunca mais vou poder sair de casa.

– Pelo contrário, senhorita Blatt – corrige Tamara – Seu pai acabou de mandar uma mensagem. Ele disse que esta Escola é melhor que a que você estuda, e está pedindo mais informações. O Diretor deve mandar as informações hoje, mas digo que ninguém, mas ninguém, Nina, e você também, Tomi, ninguém deve saber da educação especial que damos aqui.

Asha prendeu a respiração.

Olhou para eles e Elliot; ele sentiu uma vertigem estranha, meio diferente das que está acostumado – o que era um sinal – "Mas de quê?".

– Vocês estão convidados para o Carnaval, então; e o convite será enviado a seus pais, Nina, e sua tia, Tomi. Vocês devem vir sozinhos. Este ano o Carnaval terá os encontros de roda na nossa Capela, e vamos ter convidados especiais, então tragam as suas melhores roupas brancas. O tartã será entregue quando chegarem para o festival. Branco, e cinza claro. Asha, – e ela se vira para Elliot, também – o Diretor marcou uma reunião com ambos, para o próximo dia primeiro. Não se esqueçam – a professora se vira para Nina e Tomi – Nunca se esqueçam que a Magia é uma coisa muito séria; e também que a localização da Escola é um segredo. O seu transporte sai em vinte minutos. Vejo vocês no Carnaval de Inverno, nossa principal comemoração; e se comportem.

E olhou doce para Nina, mas com uma expressão séria.

– Ao se tornar aluna na Quinta Capela, Nina, existe uma série de normas de segurança que você vai ter de aprender – ela mira Tomi, parecendo tentar ver se ele tinha alguma magia no sangue; se vira para Nina outra vez – Elas são simples, mas rígidas. Há aceitação de pessoas de passado diverso, de história própria; e há segredos muito importantes. Você vai ter de aprender a lidar com informações que as pessoas comuns não tem nenhum conhecimento. Queria lhe avisar que, mesmo que você não seja uma bruxa, isso na verdade não tem a menor importância, e isso serve para você também, Hieronimus. Existem grandes nomes comuns na nossa sociedade, filósofos e cientistas. Todos têm o seu lugar. Aqui, a diferença estará em como você lida com os

problemas.

Nina para, de boca aberta; não cabia dentro de si.

Elliot estava meio zonzo e esverdeado, mas Asha parece ter sido a única que percebera isso. Tamara se despede deles e sai, jogando de leve o pano tartã cinza e preto no pescoço de uma forma muito séria, mas suave.

Todas pareciam que queriam gritar, mas não deu tempo.

Asha se levantou rapidamente, e correu. Todos na mesa a viram correr até a maestra, que – claro – parou para ouvir o que a Melhor tinha a dizer.

– Eu acho que o Tomi deve ter uma chance, também – urgiu a Melhor. Até o ar ao redor pareceu parar, sem entender a urgência dela.

– Asha... – mas Tamara parou, para pensar – Isso será analisado, então, a seu pedido; mas não espere que todos os comuns aprendam magia. Educação mágica é um privilégio, o nosso segredo; e isso não irá acontecer.

E a professora saiu andando, mas ao retornar Asha vê que todo mundo da mesa de mármore, fixa ao chão, lhe observava; ninguém ouviu.

– Iko? – Asha interrompe, logo que chegou e se sentou.

– Não é nada, Asha – disse ele. De repente, ele se sente cego, como se a luz não existisse mais. Vazio, infinito; e pode ouvir várias vezes: "Vamos embora. Foi divertido descobrir que você não é infalível, irmãzinha". Sua audição meio que lhe confunde, formigando, e essa frase está se apagando. O vidente tenta se manter calmo, mas sabe que todos devem estar olhando para seu rosto nesse momento, engole em seco e faz como se mirasse o chão, não evitando pensar – "O que é isso?". A visão volta, e ele se concentra; o que ele vê é na verdade um monte de barraquinhas, panos tartã, bruxos e bruxas, alunos ou adultos, em festa, mas de repente tudo desaparece e ele sente um aperto no peito.

Acaba de ter uma sensação terrível, mas acha que aí está o segredo, pois ele nunca teve uma visão como essa – era como morrer!

– Eu estou bem – diz ele, mas Asha tem uma expressão séria. Ela sabe que o amigo está tendo mais uma visão; e ele a vê – fora do corpo.

– Hmmmh,... sei, sei – Asha não acreditou.

– Asha,... – disse ele, então – no carnaval,... você,...

– Ai! Iko – sussura ela, com muita pressa – Ssh,...

O garoto ergue a mão esquerda.

Elliot olha para o lado, e balbucia um “O-ká” meio zonzo, mas então, abaixa a cabeça até ela.

Ele falou tão baixo, que nem as meninas ouviram.

– Leve-os com você.

– Quê?! – sussurra ela, horrorizada.

– Nina e Tomi – diz ele.

A bruxa finge que nada tinha acontecido, respira e se acalma, mas Branca e Bruna estavam paradas, encarando a suspeita.

E foi Tomoe que quebrou o gelo.

– Nina! – sussurrou em êxtase, Tomoe – Você foi aceita, praticamente. Nunca vi a Professora Tamara falar assim, se não fosse uma coisa já decidida. Agora, vamos ter mesmo de fazer um ritual de iniciação do dormitório.

– Eu,... não sei, Tomoe – disse ela – Na verdade, eu acho que esconder de meus pais esse monte de coisas tão... meio... estranho.

Asha sorriu, ao tomar essa decisão.

– Ah, – disse Asha, colocando o braço sobre o ombro de Nina – relaxa, Nina! Mas não esquece que é segredo!

Elliot se vira para Tomi de repente, sem avisar.

– Pronto para se despedir do paraíso, Herói? – diz o disciplinário.

– Meu! Você me dá medo, sabia? – responde o comum.

Todos pareciam querer deixar passar, para que o Segredo então tomasse o seu lugar de direito, mas parece que todas concordam com Tomi. Elliot é sem uma única sombra ou reflexo, autenticamente assustador.

E novamente foi Tomoe que trouxe alegria.

– Relaxa, – imitando Asha – mas não esquece que é verdade!

E todos riram, bastante. Inclusive Iko, para surpresa de Nina. Ele só era meio estranho porque não era um bruxo e vivia entre eles. Ela pensou que o mesmo aconteceria com ela, que nunca se adaptaria. Teria de viver protegida por Asha. E que as colegas da escola a tratariam como uma incapaz. Que nunca aprenderia o que é magia, ou o que fazer; ela suspirou.

Ela não imagina como se engana, novamente.

Sabia uma coisa, apenas:

Que o feriado, a aventura com Asha e a nova Escola eram a coisa mais feliz que já havia acontecido em sua vida.

Isso tinha de acontecer.

Nina se despediu de Tomi com um aperto de mão, tímida, acreditando que essa seria a última vez que iria lhe ver na vida. Ele resumungou um tipo meio resignado de "Então tá,... Boa sorte"; e rapidamente ela o perdeu de vista em meio à imensa multidão da enorme Estação Tupi-Jê, em Béalae. Ela havia já ligado o seu profeta agora e estava ali parada, esperando por seus pais.

Se perdeu em pensamentos, emoções novas e desconhecidas. Viu sua mãe só quando ela estava há uns dois metros.

– Minha filha! – a mãe lhe abraça apertado – Vem, vem! Eu e seu pai, nós tivemos uma conversa.

– Hã? – Nina foi pega de surpresa.

Sua mãe lhe apressou, em meio à multidão.

– Filha, eu e seu pai achamos que você está estudando demais. Não. Você não precisa falar nada. Nós sabemos. Nem mesmo na única vez na vida que você faz uma coisa não planejada, não, não... Até mesmo assim, você vai para uma outra, não lembro o nome, outra "escola".

– Hâa,...

– Não precisa falar nada, filha. Nós entendemos. Seu pai não precisa saber da nossa conversa, mas... filha, você está crescendo...

– Hmm,...

– Eu sei o que fazer. Vamos fazer compras. Seu pai vai nos deixar no centro histórico, e vamos passear... e conversar.

– Conversar? – Nina não está entendendo nada.

– Não se preocupe, filha – diz sua mãe, mas Nina sente as narinas se abrindo, para deixar o ar entrar, e tenta esvaziar sua mente como as meninas da Escola lhe disseram para fazer – Vamos tomar um milkshake... é, isso.

Entraram no carro, e seu pai lhe deu um sorriso estranho, mas Nina percebe que ele fica calado todo o tempo. Sua mãe, não. Está falando o tempo todo, o que lhe parece nervosismo, muito claramente. Todo o trajeto até a região comercial sua mãe falou sobre o tempo, a roupa da Senhorita Santos, as filhas da vizinha e como lhe parece que o cachorro do filho do vizinho está grande. Nada disso é normal, então Nina sente medo – medo, o Segredo da percepção.

Duas horas mais tarde, sua mãe não havia parado de falar, e comentar sobre meninos que passavam na rua, alis, skeitas, busyboys e outros, mas Nina não sabia o que estava acontecendo – Sua mãe está louca? – pensou.

Tomaram sorvete, e milkshake com morangos.

– ..., mas então, eles pintam o cabelo. Olhe aquilo!... Aquilo é uma camiseta mesmo, ou... ou...

– É uma tatuagem, mãe – corrige Nina.

Sua mãe lhe observa, sem dizer nada, parecendo meio tensa.

– Mãe, qual é o problema? – a menina decide perguntar.

– Hâa... – sua mãe raspa a garganta – Olha, filha. Como você cresceu! Está grande... Uma verdadeira moça, mesmo.

Nina porém, mesmo sabendo que não tem treinamento nenhum, sente como se a Escola nunca mais fosse sair de dentro dela. A sensação é de que sabe muito, mas muito mais que uma pessoa comum; e isso inclui sua mãe. Mas ainda assim decide que não pode – não deve – falar nada.

Sua mãe vira a cabeça para cima e vê skeitas passando entre os prédios, de olhos arregalados, como se nunca houvesse visto isso na vida.

– Eles... voam? – diz ela.

– Sim, eles voam, mãe. A senhora não está fazendo sentido nenhum e eu to me sentindo perdida!

– Arrâ... – sua mãe pareceu séria – Você também não precisa me chamar de "Senhora", não é, filha? Mãe, se não for falar Ewá, tudo bem?

– Tá,... mãe. Você tá me deixando confusa.

– Não é nada, não – disse ela, mas Nina sentiu a mentira – Você estuda demais, minha filha. Eu quero que você saia mais, tenha amigas, vá ver um filme, coma chocolate, compre roupas novas! Isso não é ótimo? Você não precisa se dedicar tanto assim, afinal, tem tanta coisa pra fazer nesse mundo, não é? O que é que você quer fazer agora? Vamos ao cinema, então?

– Eu quero ir numa festa – confessa Nina.

– Uma festa? Que ótimo! E com quem você vai? Me conta. Eu quero saber tudo, tudo – e Nina viu a oportunidade.

– Eu quero ir no Carnaval, daqui a um mês e meio – pede Nina.

– Mas o Carnaval é em fevereiro, Nina – Ewá ficou confusa, mas sua testa está franzida, o rosto sério, como quem comeu e não gostou nada, nada.

– É,... É um Carnaval de Inverno – ela explica, rápido – Vai ter barraquinhas, e música, e vai ser na escola da minha amiga, Asha.

Assim, Nina retira a Carta que a professora Tamara lhe mandou e Asha lhe deu ao embarcar. Entrega a sua mãe, esperando "Não" como resposta.

Sua mãe pega a carta, mas parece à sua filha que ela está segurando algum tipo de bomba, como se pudesse explodir. Ela engole em seco e então lê com muito cuidado: "Convite: Nina Donzel Blatt – Individual – A Quinta Capela", mas fica com o convite na mão, vendo a cera vermelha do lacre, como aquela cera de cartas da Idade Média européia; um número "5". "Estranho",... pensa em silêncio a menina; mas sua mãe não abre a carta. Ela respira fundo e decide falar:

– Você tem de abrir, mãe – diz a menina.

– Não, tudo bem – sua mãe lhe devolve o convite – Tudo bem. Se é o que você quer, pode ir. Não... Você deve ir.

Nina pega a carta, sem entender se isso era bom ou ruim.

– Vamos para casa – interrompe Ewá – Profeta, avise Obert que estamos prontas para ir. Nina, eu te peço uma coisa, só uma coisa!

Dessa vez a pequena sente que sua mãe não está confusa, como lhe pareceu de início, mas sim com "Medo?", "Mas de quê?",...

Sua mãe, então, lhe observa os olhos. Havia um tom diferente na expressão de sua mãe, que a pequena nunca havia visto; mas estava certa, era medo.

– Você me promete que você vai se cuidar?

– Hã? – Nina se sentiu perdida. As emoções, sentia, era como se agora lhe avisassem de um monte de coisas que nunca havia percebido na vida, como se tudo no mundo fosse ligado, até sua mãe comum. Não entendia. Sua mãe falava como se soubesse do que estava falando, mas não quisesse dizer.

– Bem, você me promete? – a voz de sua mãe estava séria.

– Tá,... eu prometo – decide não falar mais que isso, porque mesmo que ela não tenha entendido nada, vai poder ir ao Carnaval.

– Então está bem – conclui Dona Ewá – Agora vamos passear um pouco mais pela praça, antes do seu pai chegar. Veja aquilo!... Aquilo é uma tatuagem também, minha filha? Mas... Parece um quadro!...

– É, e é um quadro,... mesmo, também,...

Tudo no mundo parece mais vivo! A Magia está lá, viva, agora que Nina tinha permissão para ir ao Carnaval. Ela suspira. Ouve-se um tipo de ronco de motor; e o pio de um pássaro, agora à noite, oculto sob os paraluzes. Será sua imaginação, mais uma vez?

Tudo no mundo é ter o direito de sonhar, mas tornar o sonho realidade é a Magia mais poderosa que existe.

(Fim do Cap 11)


Vá para o Capítulo Doze, em Sob a Aurora dos Paraluzes.

E obrigado por ler.