Sob os Olhos do Amanhã

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Sete -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 31 de Outubro de 2018.

Feliz Beltane, hemisfério sul! #halloween =p

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 8 – Sob os Olhos do Amanhã

Os pais de Nina se orgulham muito de ter uma filha totalmente normal, sim, senhor. Ela é tudo para eles. Sua vinda do Rio de Janeiro, antes de ela nascer, para a região acadêmica de Beaelorizont expressa isso claramente. É intenção deles preparar sua filha querida nas melhores escolas de hoje. Para que ela se torne cientista – é claro! – cargo que seu pai considera o mais elevado da sociedade; e sua mãe concorda com o pai – "Isso está escrito nas estrelas!"; e ele, bem... Não, a família Blatt não é religiosa: eles não levam a sério essas coisas.

Seu pai é doutor em matemática, sua mãe é dona de casa. Ele trabalha muito para que sua filha possa estudar na melhor academia.

Não gostam de nada estranho.

Desde pequena, Nina tem estudado muito. O que seus pais não sabem é, que ela quer na verdade, ser escritora. Ela ama histórias. Nina oculta isso de seus pais, sem outra opção, porque eles são muito rígidos.

– O que você está estudando na escola? – questiona seu pai. Ele quer ajudar, sim, mas Nina sabe que isso quer dizer mais coisas pra estudar.

– Vamos estudar Mídia, Teoria da Literatura e a Interface agora no Segundo Ciclo, pai – resume ela com sua voz tímida, que parece se esconder.

– Literatura? Que tipo de literatura? – continua seu pai.

– Versões de texto escrito e falado, discurso, a evolução da literatura desde o surgimento da imprensa, na antiguidade e hoje; gêneros, o que são romances, e a produção de texto acadêmico e popular, escrito e falado, e mídia.

– Romance?! Isso não leva a nada! – exalta seu pai.

Ele olha para a sua esposa, contrariado; pede uma dose de conhaque e então para a olhar para a sua pequena.

– Minha filha, eu vou falar com eles. Você não precisa fazer essa aula. Isso não vai te acrescentar em nada, e seria melhor se você tivesse o dobro das aulas de matemática. Isso sim iria levar você a algum lugar. De mais a mais, eu pago caro por essa escola. Tenho de ter o poder de escolher o melhor para minha filha; não se preocupe: deixarei isso claro para a Diretoria, amanhã.

Nina abaixou a cabeça, com vergonha de discordar.

Seus pais dão tudo, e ela não tem coragem de contrariá-los. Nunca teve, porém, o que quer. Nina tem só onze anos ainda. Quando ela ficar mais velha vai poder escolher o que ela quer ser.

Seu pai troca olhares de cumplicidade com sua mãe, que fielmente também defende a ciência. Ainda que sua mãe não tenha se formado na Academia, ela e o senhor Blatt, com um belo doutorado em Berlin, fazem de tudo para que a filha se torne uma doutora, como seu pai. Ele é forte e nunca tirou a barba, para esconder a pequena cicatriz no canto inferior direito à boca, e veste os cabelos loiros, sempre curtos, um direito germânico adquirido. Sua mãe é bra, de pele castanha e de uma formosura oculta por detrás das roupas longas que usa; o cabelo liso e bem preto e olhos tão negros quanto jabuticabas maduras. Ela não é mais menina, mas ainda assim as roupas sociais que usa quando tem de ir a eventos acadêmicos ao lado do marido e, uma vez ou outra de sua pequena, lhe dão a atitude intelectual que até mesmo Nina há de reconhecer: sua mãe é a fotografia – só que de íris negras – dela mesma, no futuro.

Hoje, seu pai começa mais uma vez o discurso. Ainda não raiou o dia em que a menina ouviu qualquer elogio ao conhecimento popular, a tanta mídia feita por tantas nações. A jovem suspira, só de pensar em Angeles, Delhi, Moskau, e até os filmes nacionais bra, nas imagens paradisíacas em uma narrativa calejada de uma nação que reúne todas as demais, aqui, em um único lugar. Não. Ela não percebe os olhares de seus pais entre si. Não sabe o que significam. Só sabe que espera um dia poder seguir seus sonhos, seja na Soft Corps, Rio, London, ou até enfurnada em um escritório de uma redação da Mídia, noites adentro; mas faz o enorme esforço de parecer feliz, no desejo de fazer seus pais felizes.

"Ai! Que emoções confusas!", murmura seu coração. O Doutor Blatt para o discurso para assistir o noticiário antes do almoço. Sua mãe, na cozinha, espera ele desligar a mídia para anunciar – "A comida está pronta!": é o hábito diário da família Blatt, orgulhosa de sua identidade. Ela sonha acordada, enquanto observa seu pai beber seu conhaque e dizer, num leve tom de medo, temor da ignorância, que produção de texto popular não vai levar ninguém a lugar nenhum.

Hoje porém, ela recebeu um convite de suas colegas.

"Se misturar" também é uma de suas melhores matérias. Ela sabe tudo. Até fingir que se esconde, em uma situação de estresse. Porém, estar sozinha há tantos quilômetros da Escola e em casa, é um pouco estranho; "Béalae". Então, ela está um pouco preocupada. Deve confiar. A missão é muito importante. Depois que ela descobriu por acaso a coincidência, só pensa nisso. Primeiro, identificar. Só depois vai conseguir saber o que significa isso. O Ritual foi perfeito, e ela não se esqueceu de nenhuma das obrigações; Sete Bocas é um Exu exigente. Ela não acredita em acaso. E isso é, bem, coincidência demais; e seria sem dúvida visto como um sinal – agouro – até mesmo por uma pessoa comum.

"Pronto",... – ela olha as montanhas, pela janela.

Desceu do aerobus e pegou um táxi. Não falou nada no caminho, entre uma das estações de transporte, indo pela via aérea e até o centro histórico.

– Bom dia – disse o taxista, depois que ela ativou o pagamento.

– Obrigada.

Desceu do táxi e observou a região em que está. Se lembra de uma vez; o seu pai era vivo; ele a levou a esse lugar, onde brincou com uma menina,... "Não, não: isso é impossível" – firma ela, ao esvaziar a mente. Abana a cabeça.

– Erê – conjura Asha, meio tensa.

Uma nuvem se formou ao seu lado.

– Oi – diz o espírito.

– Tem certeza que é aqui? – ela observa, calma.

– Foi o que o Exu falou; e você também conferiu no Tarot. Qual é o problema? Está com medo?

– Fala sério, Erê.

– Sim. É aqui mesmo, no centro histórico. Estranho... não vejo nem um único espírito aqui, Sauza. Acho melhor...

Asha dá um passo e começa a andar.

– Que foi? Você trouxe os componentes pra fazer um ritual de teleporte se for necessário, não é? – questiona o Erê, flutuando ao seu lado, preocupado.

– Trouxe, sim – responde a menina, olhando o lugar. Falar sozinha poderia sem dúvida despertar a atenção dos comuns.

Hoje é um dia antes de um feriado bra, mas o hoje é comemorado por sua nação, o dia de nascimento de sua avó. Sabe que não pode invocar seu avatar, não nesse lugar. Seria um farol. Não pode chamar a atenção das tribos urbanas, porque se lembra que eles sabem,... Ninguém lida mais com o sobrenatural que eles: as pessoas mais próximas e mais distantes das pessoas de poder. Não. Ela mentaliza tudo, calculando só de olhar o lugar que preparou no Ritual e bem calma, vai se posicionar para depois avaliar o caminho à frente.

– Ssh,... – ela pede silêncio ao guia. Sua missão é mais importante: agora, tudo deve ser exatamente igual ao que preparou no Ritual e improvisar a partir do gatilho.

Ah, Nina... dessa vez?... Eu te mandei a mensagem – implora Samanta, e Nina não tem o que fazer, sabe que está sem saída.

– Mas o que eu vou dizer? Meus pais,...

– Ah, amanhã é feriado. Você pode estudar amanhã a tarde – disse Diva e pediu mais uma vez, com uma expressão de pedinte. Assim, Nina estava mesmo sem opção.

– Está bom. Vamos. Vou ajustar meu status no Profeta – disse Nina.

As meninas soltaram vários vivas de alegria. Nina nunca saía com elas; isso seria quase como ir a uma festa. As meninas eram suas únicas amigas, Diva de Castro, a nihon Hikari Leocássia Morita, e Samanta Vieira de Albuquerque; todas também estudiosas, mas nem de longe como ela.

Suas colegas sempre lhe chamavam para sair, ir ao shopping e outras coisas e Nina não parava de estudar nenhuma hora do dia.

Dessa vez foi idéia da Diva. Elas iam no Bowl, que é o lugar onde as tribos urbanas se reúnem. Fica na região do centro histórico. São cinco quarteirões, em que todos os dias tem shows gratuitos, exposições de arte, malabares, além de todo tipo de intervenções urbanas. Garantido por lei, o Parque foi construído ainda quando na época do Estado, em fins do século vinte e um. Hoje, as tribos urbanas são meio que uma nação a parte. Têm até língua própria – ou várias, pois eles vêm do mundo todo; há uma coleção de ditados, e também de paredes tombadas – todos os anos a galera do grafitti vai retocar as artes de grafiteiros famosos do passado; algumas tem mais de um século.

– Será que eles tocam violino elétrico? – pergunta Diva, sonhadora, olhando para sua amiga, que está com uma expressão estranha.

– E as roupas? Vamos de uniforme do colégio mesmo? – perguntou Nina, à porta da Escola Unificada das Nações do Aglomerado Sudeste. Ela olha para cima e vê os paraluzes acima dos prédios, marcando o dia em violeta e amarelo; bem, ao menos isso indica que não deve chover hoje. Hika olhou para ela de uma maneira engraçada e riu junto das outras, mas Nina não entendeu nada.

– Claro! – e ajeitou o cabelo de Nina, só encostando – Você está ótima: de repente você até arruma um namorado e para de estudar tanto, né.

Nina franziu o nariz, e abanou a cabeça. Não tinha a menor vontade de ter um namorado.

O Bowl fica atrás do Jardim, depois da alameda das exposições. Lá perto há também o Edifício de Comunicações da Sociedade de Nações. Ao lado, é onde acontecem shows, hoje com uma série de bandas de Béalae, todas com músicas autorais. Ao som das bandas, as meninas se socializam, logo que chegam, mas a pequena Nina não faz esforço nenhum; e nem ao menos parece interessada nas coisas que as pessoas falam. Ela suspira, olhando o lugar. De um jeito ou de outro, as meninas chegaram e foram logo surpreendidas por um grupo de Skeitas – e sim, havia um casal tocando violinos; ao lado de onde fica o prédio abandonado que era um hospital há quase um século atrás – "Interditado", diz a placa.

Ninguém vai lá. Diz a lenda que é assombrado. E também é todo pixado, e Nina, bem,.. acha que viu um vulto na janela, sentindo um arrepio. Não acredita nessas coisas, ou melhor: a educação que recebeu exclui tudo que foge ao normal, o que ela prefere não discordar agora – tenta não pensar, para afastar o calafrio estranho que lhe subiu pela coluna – "Que tédio", ela funga, calada.

Demoraram um tempo até fazer amizades. O pessoal recebeu as meninas muito bem, e Diva já está que conversa com um garoto; eles estão nos bancos em forma de escada. O garoto, branco e bem magro, de jaqueta jeans surrada e olhos azuis desafiadores, com sua prancha retrátil dentro da mochila, parece explicar à Diva alguma coisa e ela solta gritinhos, como se ela tivesse acabado de passar de ano, batendo palminhas – "Aiii! Sério?", Diva sussurra.

O Parque mistura e une a todos: sk8tas, punks, billys, goths, chans, old rockers, digiboys, skins, bangers, otakus, nicks, moes, hullus, ois, bin alis, busyboys, tudo que rolou nos últimos dois séculos, ou mais, reunidos. O que mais deixa Nina impressionada são as modificações e os implantes; na verdade, alguns deles nem mesmo parecem humanos.

Eles têm direito garantido pelas várias Nações a uma área própria, com quadra de esportes, restaurante, os bares que são a marca da região, sala de mídia, uma biblioteca pública e o resultado infeliz de um incêndio que há setenta e dois anos destruiu o prédio do hospital; hoje, uma obra de arte.

– O que é que ela tem? – perguntou Samanta, apontando. Havia uma menina parada na entrada, no fim dessa tarde de repente cinza.

Não entrava nem saía; e isso fazia cerca de vinte minutos já. Assim, o garoto que estava com Diva olhou, analisando.

Ele deixou Diva com Nina – "Marca dois!" – pediu ele, e avançou até ficar à frente das escadas, numa posição que a menina ia saber que estava olhando pra ela. Diva fez uma careta feia, desfazendo porque foi "deixada". Era obviamente de inveja, porque a menina branquinha e magra era muito bonita.

A menina da entrada abaixou a cabeça. O garoto repetiu. E então, ela começou a andar e vir na direção dele.

As meninas se adiantaram. Agora, a menina parou há uns quatro metros do garoto. Parecia estudá-lo; “Será que ela é estrangeira?”, cochichou Hika, mas Nina não pareceu interessada naquilo mais que em todo o resto ao redor. Não via nada do que as amigas viam. Em seu coração, ela sofria. Sabia que nada aconteceria que lhe tirasse dessa sua vida monótona, mas fazia como com seus pais, fingindo estar feliz, porque o que era importante era a felicidade das suas amigas.

– Oi – disse a menina. A atenção de Nina foi imediatamente retirada desses pensamentos, das suas emoções confusas, pela voz dela.

– Oi – respondeu o garoto.

– Você vem sempre aqui? – Diva deu um gemido tremido de ciúmes ao ouvir isso; Samanta lhe cutucou, mas sem chamar atenção.

– Sim – responde ele.

– Prazer, eu me chamo Asha.

– Herói – ele ri – Mas me chame de Tomi, valeu?

A menina Asha olhou para todas elas e cumprimentou com a cabeça. Nina cumprimentou, e Diva lhe deu um cutucão. Asha, atenta, percebeu.

– Vem sentar com a gente – convidou Tomi.

– Claro – disse Asha. Foram se sentar na arquibancada, e Diva ficou feliz pois o menino Tomi lhe passou o braço pelo ombro.

“Isso marca o território”, seria o que ela iria dizer nos dias seguintes às amigas, mas aqui tudo isso pode ser esquecido para sempre.

Nina não entendia nada dessas coisas; e não se importava. Sua vida era assim normal, melancólica. Suas amigas sempre falavam que ela tem que sair, ficar com alguém, ou ir a shows com elas, mas sua família era muito rígida e sua vida se dividia entre estudar na escola e estudar em casa. Hikari era de uma família muito rica. Diva era de família de artistas, e tinha uma liberdade que Nina nunca nem sonhou; e a dizer a verdade, ela nem quer, nem questiona nada isso.

Ela acredita que isso nunca irá se modificar. Será assim para sempre; mas não imagina como está enganada nesse lusco-fusco de hoje.

– Tomi, – começou Hika – dizem que aquele prédio é assombrado: verdade mesmo, isso?

– É, sim! Quer ir ver? – atirou o garoto.

– Eu vi uma sombra na janela – confessa Nina. Todas – menos Asha – do nada tiveram arrepios quando Nina falou isso.

– Você viu um espírito? – Asha duvida, muito surpresa.

– Não, Asha. Não era um espírito. Tenho certeza de que tem uma explicação pra isso. Nós só não sabemos a explicação ainda.

– Desencana, Asha: a Nina não acredita em nada. Só sabe estudar – disse Hika, mas Diva lhe mirou a carranca, com raiva.

– Hika!... – censurou Diva. Como ela podia expor a amiga assim, diante de uma menina que elas nem nunca viram na vida?!

– O quê?! Só estou dizendo a verdade! – defendeu-se a outra.

– Vamos lá, então? – convidou Nina. Asha cruzou os braços, e Tomi viu uma nuvem se formando ao lado dela.

– O que é que tem lá? – perguntou Asha. Tomi olhou assombrado, e Asha viu ele observando, muito calmamente percebendo o seu olhar.

– Fantaasmaas... u-uuu... – sussurrou Diva.

– Não sei – disse o Erê, confuso – Não consigo ver nada lá dentro. Fi'a, esse tipo de lugar é perigoso. Acredite em mim.

– Eu vou lá – conclui Asha, firme.

– Waw! – duvidou Samanta – Você não tem medo de nada? É assombrado, pode desabar, e... espera... O que você vai fazer lá?

– Não tem nenhum espírito lá – disse o Erê – Sauza, eu sei o que você está pensando... Acho melhor, não...

– Eu vou lá – repetiu Asha. Ela rapidamente verificou, e viu onde seria a melhor maneira de entrar e, depois, de sair.

– Pode ser perigoso. Tem aura de lugar onde já morreram muitas pessoas, e eu to com aquela sensação... de que você já decidiu sem a minha opinião. Vai por mim, que isso é perigoso; mas você já se decidiu... – avisa o Erê.

– Eu vou com você – disse Nina – Garanto que não tem nada lá – nisso, Asha olhou satisfeita para Nina, e depois para o garoto Tomi, com o apelido de Herói; ele é um sk8ta: busyboy, talvez; ela é totalmente comum.

Não há mais nada para concluir.

Missão cumprida; ela sorri com os olhos. O menino ainda olhava para o Erê, e desviou meio devagar para ver em seu rosto uma expressão singular.

– Você vem? – Asha perguntou a Tomi, de voz decidida.

Ele franziu a testa, levantou levemente a cabeça e inclinou para o lado; ele a estava obviamente estudando, mas sem alarme, para ver se tinha algo mais que essa menina diferente não tivesse falado ainda.

– Vou com vocês.

– Ai, Nina... Você não está falando sério, né?! – protestou Diva. Todas as meninas sentiram um arrepio, e claramente não gostaram da ideia.

– O que, Diva? Você tem medo? Essas coisas não existem – concluiu Nina, do alto de seu conhecimento.

Diva não gostou, mas aquilo era demais para ela.

E assim as meninas votaram, mas nenhuma tinha a menor vontade de ir e acompanhar sua colega. Elas decidiram esperar por Nina pra ver o que aconteceu ali mesmo. Asha analisa Tomi todo o tempo, deixando ele perceber que ela sabe que ele tinha visto a assombração do Erê ao lado dela; ele viu o olhar da garota, como o de um predador,... esperando; mas, para ele: isso era magia.

– Vamos? – convocou Nina.

Tomi despediu-se de Diva, dizendo a ela para esperar, que ele ia pixar a sala do necrotério – "Eu sou sinistro!", e se juntou a Asha e Nina nessa aventura.

Arquivo do Grande Comando – Teocracia

  1. Aglomerado SE, Báelorizont (Béalae), 20 de Abril, 2213.
  1. Dados recuperados do Evento, datados entre aproximadamente o fim da tarde e logo cedo à noite.

O velho prédio do hospital abandonado é fechado por todos os lados, exceto pela parte de trás; mas enquanto Asha escalou o muro e pulou, Nina ficou apenas impressionada. Nina nunca tinha participado de esportes. Isso não era sua matéria. Seu pai dizia que natação é a única forma de manter seu corpo em dia. Tomi ajudou Nina a subir e passar para o outro lado. Com dificuldade, ela pula e pisa no chão, mas aí percebeu que ralou o braço; assim, passando a mão sobre o lugar, para ver se era feio, ela parou e olhou ao redor, um pouco confusa.

– Asha – chamou Nina em voz alta.

A garota apareceu vinda de trás deles, "Ai,... É como se saísse do nada",... pensou Nina, e rapidamente Asha botou o dedo indicador sobre a boca.

– Ssh,... Tem alguém aqui – ordenou ela.

– Aonde? – sussurra Nina, percebendo que invadira o lugar.

– Atrás da parede – disse Asha, baixinho. Ela parecia olhar através daquela parede, e o jeito de ela se mover era estranho. Parecia,... era como se ela e o chão ao seus pés fossem um só; e isso lhe assutou.

Nina ficou bamba de repente, zonza, e uma nuvem negra de coisas passou pela cabeça dela, assim de uma só vez. "Interditado" – dizia a placa. Ela nunca em sua vida havia sentido medo. Não. Toda a vida, nunca fez nada que fosse mesmo uma decisão dela, tudo foi para agradar seus pais, ou agradar outras pessoas, mas de repente sentiu medo: suas narinas se abriram, as palmas das mãos, sentia, começaram a suar, e sua voz quase falhou ao tentar falar.

– Waw,... Você sabe que a gente acabou de invadir esse prédio, e que isso pode ser crime? – sussurrou Nina, assombrada.

– Tomi,... – chamou baixinho Asha – Você cuida dela. Nós vamos abaixados ali pela parte de trás do prédio: tem outra entrada, uma parede que desabou.

– Porque eu? – ele parecia insultado. Eles falavam dela, mas era como se ela nem estivesse ali, um peso extra. Ou pior, morto.

– Do que vocês estão falando? – duvida Nina, sem entender o que acontecia, mas percebendo que eles falavam dela.

– Tá bom. Você é maluca! Eu cuido dela. Vamos – Asha tirou sua faca ritual e a varinha da bolsa num único movimento, e Tomi teve certeza.

– Sabia! Você é uma bruxa! – sussurra ele, sem saber se isso era bom; fez questão de falar isso bem baixinho, mas ergueu o punho de olhos estalados.

– E você vê espíritos. Erê?,... – chamou ela.

A menina estava parada, e nada aconteceu. Asha chamou mais uma vez, mas o guia não apareceu; ela teria que contar com todo o seu treinamento, mas com um detalhe importante: sozinha, com dois comuns. Nina estava com a testa toda franzida, ao ouvir a garota dizer uma terceira vez – "Erê?", ali parada.

– Do que vocês estão falando? – Nina não entendia.

– Isso é ruim. O Erê sumiu. Odeio quando ele faz isso comigo. Você cuida dela, e não façam barulho – impõe a garota.

– Do qu-... – mas não deu tempo de falar.

– Ssh!,... – implora Herói; ele segura o braço de Nina, e ela sente na pele a sensação de calor dele. Será possível? Parece que ele não só está acostumado a esse tipo de situação, como sente prazer nisso.

Agora Asha avança, abaixada, pelo canto dos fundos da construção; com cuidado, Herói segura o braço de Nina, e faz sinal para ela se abaixar. Andaram mais ou menos uns trinta metros, até o outro lado da construção, e foi então que eles viram o buraco na parede. Dava pra passar, era verdade – "Pera,... Como é que ela sabia disso?!", pensa Nina, porque essa passagem era do outro lado; era impossível saber; e a garota não entrou pelo vão – ela ficou fora da vista, e movia o pé, como se estivesse vendo tudo assim, com os pés; e também, seus olhos estavam vivos,... mas desfocados: ela estava em transe.

– Me sigam em silêncio – ordenou Asha.

Entraram no edifício abandonado pelos fundos, e Asha parou, escutando o nada; parecia que estava preparada para qualquer coisa. Até Nina sentia! Isso deu mais medo em Nina do que imaginar que eles estavam invadindo o lugar, que podia cair a qualquer momento, de tão velho e sujo.

Asha se movia como um gato; nenhum som.

Que menina é essa? Chega de forma estranha; fala de forma estranha; está ali segurando uma faca na destra e um pedaço de pau com a canhota como se fosse dominar o mundo!? E Tomi? O que ele disse? Ela é uma bruxa? E ela disse que ele vê o quê, espíritos? Isso tudo se misturou ao medo de estar fazendo alguma coisa que pode ser crime; e isso só piorou a situação. Imaginou seu pai, se ele descobrir. Hoje seria o maior desgosto da sua vida: sua filha, invadindo um edifício, com duas pessoas que ela acabou de conhecer?! Ia pensar que sempre fazia isso, escondida! Nina nunca tinha feito nada de errado; tudo que fazia era o que seus pais pediam; e eles desejam o melhor para ela, sempre fora assim.

Asha se aproximou devagar do vão da porta.

Parecia acostumada a esse tipo de invasão, pensava Nina.

Devagar, levantou a mão.

Nina entendeu fácil que era para esperar e ficou olhando. A menina olha, bem devagar. Voltou, abaixou um pouco a cabeça para confirmar que podiam ir e lá foram eles – abaixados. Avançaram por um corredor sujo.

Aquele era um corredor muito longo. A pobre Nina via entulhos, em todo o lugar; e camas de hospital envelhecidas, pias quebradas; um monte de pixações nas paredes, que ela não conseguia ler.

De repente, ouvem o barulho de uma porta se abrindo e de um daqueles acendedores de charutos, e então, Asha para.

Ouviram vozes! Nina parou de respirar, sem perceber.

– Quero o relatório do espécime em duas horas, sargento! Seja rápido com a biópsia – disse uma voz.

– Sim, senhor, Major Savage! – respondeu o sargento.

Tudo aconteceu muito rápido.

Asha agarrou Tomi, que agarrou Nina, e entraram em uma sala: ouviram os passos do major indo embora.

Depois, ouviram passos, indo e vindo, e ficaram em silêncio o tempo todo, a esperar – "Mas esperar o quê?"; Nina estava vidrada. Agora estavam presos, não havia como sair. Nina, em desespero, sem saber o que fazer, não tinha nem mesmo um único pensamento em sua mente. Examinou a outra como se ela fosse um monstro, mas sentia a segurança dela, a certeza nos olhos, como quem faz nada mais do que sabe fazer: atividade trivial e simples.

Asha observava o lugar.

Tomi e Nina olharam também. Havia uma série de equipamentos ali, todos amontoados. Quebrados. Ainda ouviam movimento do lado de fora. Estavam presos. Nina apertava demais o braço de Tomi. O garoto olhou para ela e depois para seu braço: Nina percebeu que estava apertando um pouco demais, talvez, e deixou de apertar. Tomi sorri e seus olhos se encontram; ela abaixa a cabeça.

Ele fez um gesto para Asha.

Move a mão – (E agora?), com as palmas para cima.

Ela responde inclinando a cabeça, para que eles a seguissem. Aquilo parecia um apartamento.

Não... Depósito?

Tinha gavetas nas paredes.

Nina tremeu assombrada, quando entendeu onde ela estava, afinal esse havia sido um hospital, há anos atrás.

Estavam no antigo necrotério do lugar. Havia uma abertura no chão, só que ele estava fechado com tampa de cimento, e foi então que Nina viu uma coisa que nunca havia visto. Asha guardou a faca e o pedaço de pau. Foi um único ato, mas deixou Nina paralizada: de repente, a bruxa pôs as mãos sobre o plexo; no momento seguinte, Nina viu o chão, junto ao pedaço de concreto, ser lentamente erguido do chão. Em pleno ar! Suspenso, e isso sem fazer o menor barulho. Ela ergueu o tampão e pousou no canto.

Havia uma passagem; uma escada de metal.

Asha começou a descer.

– Que,... – Nina estava branca como gelo seco.

– Ssh!,... – Tomi sussurou rapidamente, botando o dedo sobre a boca. Ele espiou de lado a menina estranha, e gestualizou.

"E agora?". Então, Asha faz sinal fechando a mão para eles a seguirem, começando a descer, na maior naturalidade.

Algum tempo depois, Asha, Nina e Tomi chegaram em uma sala e Asha fez uma luz na ponta de sua varinha – Nina deu um gritinho sufocado quando viu e Tomi fez como se fosse falar “Ssh!” pra ela, mas só segurou seu braço. Tem duas portas de aço pesadas, muito velhas, e um corredor meio baixo. Asha já estava entrando no corredor quando Tomi foi até ela e lhe segurou pelo braço, sua mão fazendo sinal para ela voltar, enquanto balançava a cabeça; eles se reuniram ali ao redor daquela pequena luzinha, vermelha e branca.

– O que você vai fazer? – sussurrou Tomi.

– Descobrir o que está acontecendo aqui e depois sair – A garota estava sem dúvida decidida, e isso até Nina percebia pela voz dela.

– Tá,... Qual é o plano? Que é que a gente tem de fazer? Ou você não faz a menor idéia? – questiona ele, exigindo uma resposta.

– Não tem plano. A gente entra, investiga e sai – resume Asha.

Tomi deu uma olhadela com ar de dúvida. Enquanto isso, Nina não parava de olhar para a luzinha na ponta da varinha.

– Isso é de verdade? – sussurrou Nina, admirada.

– É magia – Tomi suspirou, com desgosto.

Asha se vira para ele, e quase sorri. Sua liberdade poética, agora, estava mais que garantida; e os olhos de Nina encontraram os dela.

– Melhor você dizer do que eu, que não posso quebrar as leis – e mira Nina dentro dos olhos – Sim. É Magia. Eu sou uma bruxa, da mesma forma que o meu pai era antes de mim. Acho que o Tomi tinha mesmo de falar antes de mim, se não eu ia me dar mal, mesmo. São as leis. Eu não posso explicar, mas se alguém já explicou antes de mim, eu não posso fazer nada. Então,... Mas você não pode contar pra ninguém, Nina, ou eu vou presa. Pra onde a gente vai daqui?

– Isso parece um duto de ventilação – observa Tomi.

Nina não tinha entendido, ou não queria entender o que Asha tinha dito, mas ainda assim confirmou de leve com a cabeça e engoliu em seco.

– Vamos voltar – pediu Nina. A única coisa que ela sentia era medo; porém lá em cima, ela viu a garota erguer meia tonelada de entulho, arrancando um pedaço do chão junto; isso deve ser sério! – Nina junta o cabelo; o rosto da bruxa parecia indicar que ela sabia o que aquilo significava, mas Nina não fazia a menor ideia do que seria.

– Não – Asha não desistia fácil – Agora nós já entramos, Nina.

Nina soltou a cabeça, soltando o ar pelo nariz. Não havia saída. Para dizer a verdade, se era pra ser assim, que fosse; mas era absurdo! Magia? Nunca viu nada na vida como isso; e murmurou: "Sei,... Tá", deixando claro que ela não concordava, mas limpou o suor das mãos sobre a camisa e parou olhando Asha. Havia no olhar dela uma coisa, como se fosse o ar de um comandante verificando a moral dos seus soldados, logo antes de entrar em ação – e funcionou.

– Vocês não podem fazer barulho nenhum, se não nós vamos morrer por aqui mesmo e sermos enterrados ninguém vai saber onde! Ah, sim! Desliguem os Profetas agora! – conclui Asha. Eles pegaram os computadores: surge de repente a imagem de um homem, que ia protestar, mas então, ele desapareceu.

Ao andar pelo tubo de ventilação, a pobre Nina vê a "bruxa" apontar a sua pequena "luzinha" para o chão, mas não faz ideia do porquê da expressão de felicidade da menina. Toda vez que eles vão passar por uma janela, que não passa de uma grade reforçada; ela faz "Shh!", só com o dedo indicador; mas do nada Herói impede a bruxa de ir: ele parecia saber que havia alguém na próxima sala. O menino fecha os olhos, se concentrando, e depois acena com a cabeça – está livre; e a bruxa abre um olhar indecifrável, a lhe analisar. Além das janelas, outra passagem, maior; todas tinham grades, era o que Nina pensava.

Asha "desligou" a luzinha mais uma vez, num único movimento.

Chegaram perto, Tomi sempre segurando o braço de Nina, porque afinal era ele que estava "cuidando" dela. Ela sentia suas pernas tremerem. Seu coração, sentia pulsar até nas orelhas. Havia uma grade na parede, como todas as outras, e apenas essa sala era mais alta e próxima da janela. A sombra gradeada sobre o seu rosto devia acrescentar a mesma sensação sinistra que ela via no rosto dele, porém como seus sentidos estavam ardendo, a pequena percebia que apenas a menina estranha não fazia um único som; nem quando se movia rápido.

Há um laboratório, diante dos olhos dos infiltrados. Param para ver, e houve apenas um instante suspenso entre o antes e o depois.

– Hmf!... – Nina não se conteve; não foi alto, pelo menos.

Tomi segurou o braço de Nina e colocou o dedo indicador na frente da boca para lhe pedir silêncio. Ela arregalou os olhos. Absolutamente nada que ela já vira em toda a vida, em livros é claro, estava próximo do que ela viu.

Há uma criatura deitada em uma maca – O quê?! Um alienígena?! – Nina sem pensar segurou o braço do garoto, e achou que poderia desmaiar.

– O espécime está dopado, Tenente – dizia o homem que entrava – Não vai me dizer que ele vai levantar depois de sete tiros e uma granada – ele usa um jaleco branco, enquanto o outro usava, casual, jeans e pólo.

– Mesmo assim, oficial – diz o Tenente – Aplique mais uma dose. Você sabe como eles regeneram rápido; e eu não quero isso andando pela base. O Major Savage quer os resultados da biópsia em duas horas. Então, está na hora de você provar que merece o salário pago pela Ordem.

– Sim senhor, Tenente.

Então, o Tenente mirou com desprezo a criatura e saiu.

O tempo foi passando, como um boato – rápido.

O homem de jaleco branco, então, se aproxima do “alienígena”, e coloca o seu profeta sobre a bancada.

– Vinte de Abril, 2213, hora local 18:26, Base Horizonte, Setor Bruxo. Oficial Médico 21; iniciando a biópsia do espécime 52.

Fez uma pausa, e depois com o bisturi abriu o peito da criatura; Nina colocou a mão sobre a boca para não gritar. Ouviu o barulho do oficial abrindo os ossos do ser, e sentiu um cheiro de metal, mas não era ferrugem. Desviou os olhos para o seu protetor:

Tomi olhava para ela e depois para Asha, que estava muito concentrada, sem perder nem mesmo a respiração do oficial.

– Os órgãos do tórax estão em bom estado. Eles já se regeneraram dos tiros, mas ainda há estilhaços da granada e... estão quase fora do corpo – ele coleta um estilhaço com uma pinça – Isso comprova a imortalidade aparente desse espécime, mas não parece haver nada de especial sobre esses órgãos...

Nina se virou para Asha, pregada ao chão, de medo.

Asha nem desviou o olhar, mas Nina a vê apertar os lábios, como quem diz em silêncio – "Eu sei! Calma". Tinha certeza que ela também lhe observava.

Ninguém com onze anos no mundo tem toda essa preparação; nem toda essa concentração, ou segura assim uma faca e um pedaço de pau como se fosse enfrentar militares de igual para igual – ela é um ser mágico, só pode! Essa era a coisa mais impressionante que Nina já viu em toda a vida. Claro que isso de ver um alienígena está no mesmo nível! E ali está ela, na companhia de dois malucos, invadindo uma base militar e vendo a biópsia de um alienígena cinza, magricela e alto, com dedos longos e nojentos; o oficial rasgou os restos de roupa e ativou um equipamento, com um gesto. Sem dúvida, Nina estava ferrada.

Ssshhhhlínque!

O oficial segura uma tela no ar.

Parece em dúvida.

– A chapa 802 não mostra nenhum tipo de implante. Isso comprova que ele não é um Infiltrador. Ao menos não tinha a missão de infiltrar ítens tecnomágicos na Base, mas os seus órgãos mimistas estão carregados. A membrana obulária já se regenerou dos tiros. Sua capacidade de imitação está funcional.

Assim, o oficial vai fazendo a biópsia e ditando para o profeta os resultados; o tempo vai passando.

Nina vê que parou de suar.

– Estou colhendo uma amostra de sangue, Frasco 206, vinte de abril; seu sangue está espesso – observa o meio das pernas, e abana a cabeça – Não há órgãos sexuais, o que comprova que não está fértil. É improvável que ele tenha se infiltrado para que pudesse se acasalar com os outros.

O oficial parou, mirando a criatura.

– Que tipo de merda você veio fazer na nossa Base, sua coisa? Profeta, apague esse comentário.

Balançou a cabeça, e continuou a biópsia da criatura. Asha suspirou, com muita calma: a comum já está com dano de lucidez. Ela ergue a mão.

Ao seu toque, Nina relaxa e se acalma.

– Ele está febril. Agora, com 16 graus. Isso indica o nível de esforço para curar as feridas abertas da biópsia, ainda em andamento.

Assim, a biópsia foi acontecendo: nojenta.

A tal criatura parece ter diversos órgãos estranhos, com nomes científicos que eles nunca ouviram. E o oficial parece investigar o que ela estava fazendo na base. Nenhuma das conclusões fazia o menor dos sentidos para Nina – Asha, porém, está imóvel como o chão. Órgão Prossímio. Vesícula Floral. Membrana Oculária. Vial. Segundo Coração Reptiliano; dali, dava pra ver.

E, enquanto isso, o oficial explica que alguns são órgãos de infiltração, só que outros não; ficou meio óbvio que ele pode criar esses órgãos.

– Você deveria avisar O Comando, oficial – disse uma voz de homem, que era a voz dura do profeta – Este já é o quinto a entrar na Base.

– O Comando não entende o erro, Newton, e isso é decisão do Tenente; e não minha – replica o oficial – Mande preparar a câmara de suspensão: aqui o trabalho já está quase todo feito; e eu quero essa coisa presa logo! Veja qual é a hora da minha liberação com o Satélite Lux e confirme o encontro com aquela loira da semana passada, que hoje eu vou gastar! Reserve minha folga.

Não houve resposta e ele ajeitou o jaleco.

– O espécime demonstra privação de sono: isso pode confirmar que ele é o responsável pelas seis baixas da Base – ao dizer isso o oficial mexeu na cabeça da criatura, virando ela para o lado dos garotos, que então puderam ver que ela, ou ele, abriu os olhos, e imediatamente os fechou; Nina pôs a mão na boca – Há três incisões na base do crânio: não sei o que são, mas não é um órgão; não: isso é quase certamente resultado da explosão da granada.

Voltou a cabeça para o lugar.

– Isso só vai contra ele ser um infiltrador, mas a combinação de órgãos não demonstra o que ele deve fazer. É necessário fazer uma tomografia.

O oficial se levantou para ligar o equipamento.

A criatura se levantou.

Foi tão rápida, que Nina nem teve tempo de reagir.

Tomi segurou a boca dela.

Devido às várias vezes que a criatura atacou o oficial, segurando sua boca, ele não teve tempo para reagir ou gritar por ajuda. A criatura pegou o profeta e imediatamente o jogou no chão, pisando nele várias vezes seguidas! Assim, ele inutilizou as informações da biópsia. Abaixou-se para o corpo do oficial, pegando o seu sangue e provando; depois indo abrir o armário de uniformes.

Sua pele cinzenta começou a se parecer com pele humana. A pele, cinza e viscosa, muda de uma vez; mas o corpo não.

A criatura faz uma expressão de dor, enquanto colocava de volta os seus ossos no lugar, e as suas costelas faziam um barulho assustador: como se elas na verdade estivessem se quebrando.

Pegou o bisturi e esperou.

Dentro de dois instantes ele era o oficial.

Ia sair, quando parou.

Olhou direto para os garotos, e arremeçou o bisturi com tanta força que ele muito provavelmente iria atravessar a cabeça de Tomi; mas o garoto como um ato reflexo, havia erguido o Profeta, e o objeto bateu no computador. Fez um "Klíng!", barulhento e então a criatura parecia confusa, decidindo o que fazer.

Asha, sem hesitar, ergue a sua varinha e pisa bem forte: o chão logo em frente da criatura, idêntica ao oficial médico, quebrou se erguendo um pouco, e isso faz a coisa dar um passo para trás; ela parou, imóvel.

Uma energia vermelha e branca – Interdico Labor! – diz Asha, sacando a faca e cortando o ar – surge envolvendo os garotos; e Nina sente o calor dessa energia lhe proteger, as lágrimas se dependurando em seus olhos.

– Nem tente! – ameaça Asha – Não estamos aqui por você. O oficial pegou uma amostra de sangue seu, e está na prateleira: frasco 206. Não temos nada a ver com o seu problema; não é necessário lutar.

Nina começou a tremer e chorar.

A criatura estava parada, analisando o que ela falou.

Então, a criatura sorriu. Tomi concluiu que era o sorriso mais maléfico que ele já havia visto na vida.

– Wiccas,... – diz a criatura, feliz.

Voltou; pegou o frasco da amostra de sangue. Analisou. Depois, ele avança e para; coloca a mão direita abaixo do braço – onde é o tal segundo coração reptiliano; mas Nina vê Asha aproximar do coração a destra com a faca.

A coisa observa os garotos, um olhar frio.

– Vocês têm apenas duas horas para sair daqui: o edifício vai desabar, e a Base inteira também! Não esperem por ajuda: não virá.

– O tempo necessário – firmou Asha. Aquilo dava a Nina a sensação de estar viva em um pesadelo, sem nunca acordar.

Então, o “alienígena” coloca o frasco no bolso, e sai da sala.

– Vamos – ordena Asha.

O caminho de volta por onde tinham vindo foi difícil, pois começaram a ouvir movimentação nas outras salas. As luzes de lanternas na ponta das armas se acendiam: eram soldados. Andaram mais algum tempo. Chegaram à mesma sala pela qual se infiltraram. Havia uma luz azul e amarela na parede. Ela girava. Asha parou, escutando movimentação lá em cima, por onde eles deveriam sair.

– Não podemos sair por ali: o alarme já foi soado – conclui Asha. Agora, é que Nina desabou a chorar, desesperada.

Isso era o fim, e ela acreditava que iria morrer. Não conseguia pensar; seus músculos doíam, e também começou a soluçar.

– Agora temos um problema.

– Agora?! – duvidou Tomi – Só agora?

– Calma, estou pensando.

– Asha, você é a menina mais louca que eu já conheci! – resumiu Tomi, com um sorriso que não se encaixava na situação.

– Dá pra você ajudar e fazer a Nina parar de chorar? – Asha para, então, por um mínimo segundo.

De repente, seu olhar disse que havia se decidido. Sacou a faca e girou, de uma só vez, para dar um golpe em Tomi. O garoto se defende, e pula para trás. Nina arregalou os olhos, com muito medo da bruxa, que girou a faca como em um filme de guerra; o seu rosto extremamente sério: parecia preocupada, como nunca houvesse estado na vida.

– Santa Wicca!,... – murmura a bruxa, e por um momento Nina achou que eles iam se atacar e se matar: Tomi com as mãos erguidas para se defender; mas então, o garoto abaixou as mãos um pouco, em dúvida, para falar.

– Você me atacou! – Tomi diz, frio. Nina quase vê todos os sentidos dele se aguçando, os pulmões se enchendo; preparado para qualquer coisa.

Alguns momentos de silêncio deixaram Nina desesperada, ali entre a bruxa e o garoto: ambos loucos! E ela não aguentou mais.

– Ah, façam-me o favor! – disse Nina, mas abaixou a voz a seguir – Façam-me o favor, vocês dois? A gente vai morrer!,...

– Você me atacou: porque? – exige Tomi, ainda tenso.

– Isso não vai acontecer de novo – responde Asha.

– Meu! Você me atacou e eu quero saber o porquê, entendeu? Você é a bruxa mais louca que eu já conheci! – protesta o garoto, aos sussurros.

– Nós precisamos sair daqui – conclui a bruxa.

Nina solta um gemido; Asha ergue sua faca e, gelatinando o ar – Evado a Nemesis! – solta mais uma magia na direção da escada de onde vieram.

– Erê?! – chamou Asha, sem resposta.

Agora só havia uma opção: ela jura em silêncio dar um beijo no vidente seu amigo; e então, abre a bolsa e começa a tirar os componentes.

– O que tá pegando, doida?

– Ritual de teleporte – a voz dela não tem emoções; isso deixa Nina muito confusa, mas percebe que consegue entender.

– Ah, não! Você me ataca e quer que eu aceite isso?! Teleporte?! Você é completamente maluca! – sussurra ele.

– Você tem medo: nunca aportou antes.

– Ei! Quem é você? Você não faz perguntas! Você,... só diz! Eu não to gostando de nada disso! Pra onde?

– Pra um lugar seguro: só sei o nome de dois.

Tomi para, pensativo, e então, suspira derrotado; ele sabe que não dá pra fazer nada além disso e se afasta dela.

– Vai demorar meia hora para terminar o ritual.

O garoto de repente inclina a cabeça, pra direita.

– Não está se esquecendo de nada não, bruxa? – Asha parou; sentia o tom de voz dele – Você precisa dos nossos segundos nomes, pra fazer esse Ritual, irmãzinha, que eu sei. E outra, como é que eles ainda não nos acharam aqui, você "fazendo magia" o tempo todo? Muito estranho,...

– Meu Mekhet faz isso pra mim – corrigiu ela – É um amuleto egípcio, que passou até mim: herança de família, há muitas gerações. Você me diz como é que a gente ainda não foi encontrado por eles, que eu preciso saber.

– Egípcio!? Tudo bem. Eu não gosto de magia, mas,... só,... tira a gente daqui, e sim,... – disse Tomi, mostrando amigavelmente o punho, como quem diz “Confio em você”; mas na verdade ainda estava tenso, e foi abraçar Nina – To esperando a sua explicação. Nunca vi nada disso que existe nesse lugar, e tenho a sensação de que você não vai me explicar nada. Tá bom, eu concordo. Mas você ainda precisa dos segundos nomes.

– Donzel – disse Nina, entre os seus soluços.

– Então,... tá,... Oljo – conclui ele.

A comum olha para ele intrigada e não consegue evitar.

– Seu nome é "Olho"? – pergunta ela, perplexa.

– É com "jota"! – baixou a voz – Dá pra você se concentrar no Ritual e tirar a gente daqui, meu? Agora! E "não" me ligar depois?

Asha guarda a varinha, que estava apontada para ele, pega a mochila das costas e até Nina sente o alívio no ar.

Asha terminara o ritual e explicava a Nina e Tomi o que eles têm de fazer, o mais simples possível.

– Toque o seu símbolo! Claro que isso é uma explicação básica. Demora-se anos até entender como isso funciona! Nina, concorda?

– Não gosto nada do que você está fazendo, Asha; não entendo, não gosto e mais: você é louca! Quero ir embora daqui!

– Todos prontos? Não, não, não, Tomi! Não! Você não pode ter medo de encostar no seu símbolo, se não você vai ficar pra trás!

– Só... tira a gente daqui! – resume ele.

Esgotada, Nina dá mais um soluço. Ouviram um soldado falando lá em cima, em inglês. Então, Asha arregala uma expressão de urgência.

– Cuidado! Eles são Soldados da Magia; vocês sabem o que fazer: Pulem quando eu mandar!

Era agora ou nunca mais! Asha olha para Tomi e Nina com pressa. Ouviram fuzis e armas desconhecidos sendo armados, lá em cima.

– Agora! – diz Asha, olhando para o ritual e retirando a varinha. Aponta a varinha para o chão e diz – “Lá!”, depois guarda na bolsa, encostando-se em seu símbolo; mas naquele momento caíram lá de cima uma, duas, não, três bombas de gás lacrimogêneo.

A fumaça encheu o lugar. Tomi queria gritar, sem conseguir, agora porque Asha tinha encostado em seu símbolo, e dito baixinho as palavras mágicas mais estranhas do mundo, para irem embora.

Nina não conseguia mais respirar – ia morrer – ao ouvir “O Sorriso da Minha Amante!”, disse a bruxa, prendendo a respiração.

A sensação de viajar por teleporte é bizarra pra quem faz isso pela primeira vez, ainda mais sem explicações. Primeiro, você é fisgada por não se sabe o quê; está presa ao símbolo, e por mais que tente não consegue tirar a mão daquela coisa esquisita; sem respirar, porque parece que não existe ar. O gás também não ajudava nem um pouco. Tudo à sua volta vai em direção ao horizonte, e essa é a hora em que você acha que morreu! Desesperada, você entra em um estado de suspensão, e dá a sensação de que O Nada te deixou fora do tempo. E então, o lugar para onde você está indo aparece, muito rápido, fazendo o contrário, ou seja, vindo até você do horizonte e: "Tã"! – Você está em outro lugar.

Nina e Tomi caíram para trás; atordoados, e tossindo muito.

– Conseguimos! – Asha gritou, pulando de tanta alegria. Nina vai para o canto e começa a chorar, soluçando sem parar; os olhos ardem, em brasa.

Asha encosta em si mesma, dizendo “Sã-sír!”, e corre até os dois, fazendo o mesmo e eles voltam a respirar normalmente.

– Asha? – veio uma voz de fora da sala. A porta se abriu, devagar: via-se inúmeras travas, mecanismos estranhos de bronze estalando.

Muito rápido, Tomi observou onde estava: parecia um tipo de sala de rituais em formato de octógono. Um espelho cristalino, lavabo; dá pra ver um banheiro em uma lateral. A sala é cheia de prateleiras com frascos e tem um caldeirão de bronze no canto.

Tudo isso indica que estão num lugar que deve ser preparado para bruxas. No varal, roupas íntimas de mulher – "Não, de meninas", Tomi pensa – tudo isso muito rápido. Ele definitivamente não sabe que lugar é esse, mas está sem dúvida muito feliz de estarem vivos; e ele relaxa.

De repente, entra uma menina.

Ela ordena – "Luz!", e a luz acende; mas Tomi fica de queixo caído quando olha pra ela: a menina, bonita e de pele castanha, está totalmente nua.

– Asha? – diz a menina; e parece não ter pudor algum.

– Branca!?! – a bruxa está de queixo caído.

– Oi – diz Branca para Tomi e olha também para a menina que chorava, tremendo e soluçando no canto, sem entender nada do que acontecia.

– Oi – Tomi não imaginava o que dizer além disso.

– Seus amigos, Asha? De que Capela eles são?

– Eles são comuns, Branca! – revela a bruxa, com urgência.

Quêee?!? – a menina gritou.

Ela se cobre com as mãos, e foge para fora da sala! Tomi ainda estava meio confuso, sem entender ou saber o que fazer.

– Nina! – Asha se recupera, chegando perto e abraçando a menina comum, com carinho e muito cuidado – Está tudo bem, agora.

– Onde... Onde a gente tá? – Nina treme.

– No meu dormitório: Santa Wicca, na Quinta Capela, em Diamantina, e nós estamos seguros aqui. Acabou! – Asha lhe acalma.

– Diamantina?! Isso fica há uns trezentos quilômetros!

Asha olhou para o garoto, em dúvida: ela sorri.

– Tem certeza que você não é totalmente comum? Vem cá, e me ajuda a levar a Nina pra minha cama: o primeiro teleporte precisa de chocolate.

Assim, levaram Nina para o quarto; Asha vê que todas as outras moradoras acordaram. Mesmo que Asha fosse uma colega, Nina sentia que elas estavam com medo. É essa palavra – "comuns" – "Comuns? No nosso dormitório?", era o que o rosto delas falava; mas Asha acomoda Nina, abre um pote e lhe dá uma barra de chocolate, lhe abraçando – ao tocá-la, ela se acalma.

Todas estavam em silêncio.

Até que alguém decidiu quebrar o gelo, nem mesmo o ar ousava se mover, naquele dormitório.

– E então, você vai contar pra gente ou não? – disse uma menina lourinha, que parecia proteger o corpo com as mãos.

Asha olhou para Tomi e para as colegas, parecendo pensar muito bem no que ia dizer às suas colegas a seguir.

Mas não deu tempo.

– Bem,... – ia começar a explicar.

Dum, dum, dum, dum, dum! – ouviu-se bater na porta. De repente, e pela primeira vez, Tomi viu Asha se desesperar: ela colocou a mão na frente da boca, exatamente do mesmo jeito que Nina havia feito várias vezes.

– Asha – diz uma voz masculina – Sou eu, Iko! Me deixe entrar!

Todas as meninas estavam se escondendo atrás dos lençóis e Branca estava toda oculta por suas cobertas; mas instantes depois, Asha começou a se levantar para ir até a porta, atenta, bem devagarinho.

Asha chegou perto, avaliando.

– Você está sozinho? – pergunta ela.

– Estou – ouviu-se a resposta.

Asha abre a porta e por ela entra um garoto de uns dezesseis anos, branco e de cabelos negros.

(Fim do Cap 8)

"Você é comum.

Nada te incomoda

o bastante".

– Ikkomi Kajiura.