Pra Sempre? Pra Sempre

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Vinte e Três -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados (Sol Cajueiro).

Este Capítulo foi publicado no dia 20 (21, no servidor) de Novembro de 2019.

Hoje, vamos ter um Capítulo a mais no final deste, depois dos Fractais adicionais. Bem vindo-a ao final do Livro um; mas não, não se esqueça de ler os Fractais adicionais e o Primeiro Capítulo do Livro dois, porque são essenciais para se entender a história, e há um motivo para eles estarem aqui.

Vá para -- Enigma: Silêncio sob Os Paraluzes -- para ver o Índice.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 23 -- Pra Sempre? Pra Sempre

A sala de aula é iluminada por bolas de energia; a porta é o portal com dormentes antigos, o quadro é uma obra de arte, digital, cadeiras de madeira são confortáveis o bastante para ver tudo sem perder a concentração. O estranho é como você chega àquela sala de aula. Há uma série de corredores, em pleno ar, suspensos sobre o Salão de Entrada: você tem de mentalizar forte o seu segundo nome para chegar às aulas, que teoricamente ficam no mesmo lugar que as salas comuns. Há 23 alunos na sala, incluindo Nina e Tomi, que agora tem amigos que fizeram durante a iniciação. Nina vestiu sua melhor roupa, sem ser, é claro, a sua roupa de festa, mas não esperava que fosse aprender magia de uma hora para outra, agora que entendeu que ela imaginava aprender, na iniciação.

Ainda que imaginar seja atividade curricular, pensava ela.

Foi Asha que disse – “Você imagina que aprende. Te falei, já. O Enigma é o caminho, mas Magia é uma coisa que não se aprende, se você se concentrar nela. Tudo acontece, por causa do Enigma. Você vai ver. Deixe o que os Professores falarem entrar em sua mente. Só toma cuidado, tá? Tem coisas que são perigosas mesmo. Agora que passou pela iniciação, vou poder te ajudar. Öãaah (bocejou). Desde que eu tenha tempo, porque a missão é mais importante que tudo, agora”, mas Nina não entendeu o que ela queria dizer com missão, nem dessa nem das outras tantas vezes; e começa a ter raiva de si mesma, por causa disso.

Nina tenta ignorar que "Asha e Elliot estão na enfermaria", foi o que Tomoe lhe disse ao levantar, hoje; mas a wicca não teve como ir visitá-la.

O Professor estava conversando com um androide, e parecia muito jovem para o trabalho, foi o que Nina pensou ao entrar; mas, então, o reconheceu. Ela o havia visto, pois Elliot o seguia para cima e para baixo – parece que ele está meio que ensinando a ele as regras, técnicas e didática; mas Elliot... Nina sabe que Asha vai ter aulas com o novo professor. Os seus olhos encontraram os de Asal; e ela sente um arrepio de medo, quando o professor lhe cumprimenta: era como se ele soubesse cada pensamento seu. Ela abaixou a cabeça de leve, como ele, para lhe cumprimentar, mas a sensação não acaba: de que os olhos dele estavam olhando através do Véu. Eram meio... sinistros – como se tudo o que ela havia visto antes, no carnaval bruxo, fosse uma lenda; ela se lembra: o comum esquece.

Todos os novos alunos estavam conversando, agitados. Depois de algum tempo perceberam que o Professor estava parado lá na frente; e olhava todos como se cada um deles fosse um problema de cálculo, daqueles que seus olhos até ficam esbugalhados quando vê pela primeira vez.

Aos poucos, todos na Sala Treze se sentaram e fizeram silêncio.

– Bom dia, iniciados – disse o professor, exatamente diante de Nina. Ela não sente emoção na voz dele – De pé. (esperou). Sentem-se. (esperou). Eu não vou permitir conversas paralelas em minhas aulas – ele mirou os olhos de vários dos que estavam conversando até aqui – Não importa o que os outros professores digam. Esta é a aula mais importante que vocês vão ter: Natureza, Cosmologia e, aos que tiverem a autorização dada pelos seus pais, Sobrevivência.

Tomi também reconheceu Asal; e ouviu falar que ele enfrentou sozinho um dos montros que atacaram a Escola. Ele tem o apelido de Herói. Esse que está bem diante de sua bancada não tem isso como apelido; e nota-se na atitude a experiência de alguém que já viu mais da metade do que as pessoas temem. Um guerreiro. Mas o que assusta Tomi são os olhos dele, Asal parece olhar dentro de você: a aparência é ignorada. De pé, diante dele e de Nina, hoje parece que Asal Gusa não lhes reserva nada de especial, além das boas vindas.

– Na minha aula, só tenho uma regra: desconsiderem o que os professores chamam de pontos, que não valem nada – e faz uma pausa – Considerem que, quando vocês errarem aqui,... lá fora, vocês,... morrem.

O silêncio pareceu deixar claro que isso não era uma brincadeira; alguns gostariam que fosse; e Asal Gusa parecia tentar prever quem seriam.

– Bem-vindos à Quinta Capela. Agora, algum de vocês pode me explicar o que é Magia, então, afinal de contas?

Parecia que ninguém ali queria se aventurar. Aos poucos, todos se olharam, para ver se alguém tinha a resposta. E ela veio.

– Uma técnica, – disse ele, de mão para o alto – que pode ser aprendida, apesar de nem sempre poder ser explicada. É diferente pra cada um; e é por isso que se atribui uma descrição a ela meio, meio, indefinida,... eu acho...

– E você é? – o Professor estendeu a mão no ar, sugerindo resposta.

– Tomi, professor. Hieronimus Oljo Tomi – mas o garoto não entendeu por que motivo o jovem professor, de apenas seus trinta e poucos, falava com ele como se ele não estivesse ali; bem, ele poderia estar falando com todos.

– Parabéns, Tomi. Foi uma das melhores respostas que um iniciante já deu até hoje, na minha presença.

Nina, sentada na mesma bancada, se sentiu orgulhosa.

Todos sentam em duplas, nas bancadas de dois lugares; a sala tem janelas de ferro, mas o professor era de aço: e isso, arrancar um "Parabéns" dele, parecia quase passar de ano depois desse discurso inicial.

– E sua família? É de bruxos, Tomi?

– Não, professor.

– Vejam, todos vocês – esperou – Nunca tratem mal o diferente. O diferente vê tudo muito mais fácil que o semelhante, porque seus olhos e sentidos não tratam aquilo como uma coisa comum. Estou aqui para lembrar vocês disso, e de muitas coisas que vocês já sabem, ou que há segredos em coisas que vocês, por costume, acham que são comuns. Sejam bem vindos à aula de Natureza. Eu sou Asal "Dlíam" Gusa, me chamem de Professor Gusa. Maestro Dlaíomh, para alunos especiais. Major da Tropa de Elite; dez anos de serviço. Eu sou o professor da matéria mais importante que vocês vão ter no primeiro ciclo, não importa o que digam depois: alguém aí pode me explicar o porquê?

Nem Tomi se aventurou a tentar.

Assim, o professor Gusa tirou seu anel de compromisso, segurou, e o deixou cair na frente de todos os alunos.

– Opa: caiu. Vocês já repararam que as coisas caem? Sim, todos vocês. Isso é uma demonstração de uma Lei. Você pode não saber que Lei é essa, ou como ela acontece, mas se você tentar ignorar sua existência, provavelmente vai se dar mal, muito mal. Natureza. Ela inclui todas as coisas, em teoria. Tudo aquilo que você não pode ignorar, sem correr um sério risco de se ferrar. Essa é a razão da minha aula, e a sua vida depende disso – fez um movimento com a mão e o anel, que estava no chão, veio voando de volta; todas as meninas quase que soltaram gritinhos – Isto também. É mais uma lei, apesar de ser muito menos aparente, ainda que não possa ser ignorada. Essa Lei exige muito trabalho para se aprender, coisa que nem todos parecem realmente dispostos a fazer.

Gusa apontou a mão para o quadro.

Surgiu uma imagem. Houve um “Ohh!” geral, e todos reconheceram a tão imponente floresta amazônica.

– É a amazônia! – apontou Alegra.

– Sim. Mas,... olhem de novo – Gusa fez outro gesto, e toda a sala ficou em silêncio absoluto. Alguns demoraram alguns segundos para ver.

Surgiu uma imagem vívida de um lugar estranho. Havia um penhasco, de mais de duzentos metros e, acima, rochas flutuantes – muito maiores que aquelas que Nina viu no Astral da escola. Uma imensa cachoeira despeja água sobre o rio, e deve ser o rio Amazonas, em meio à floresta; e é possível ver no céu monges em vestes de sobrevivência – cavalgando imensos pássaros, que sobrevoam um monastério, talvez o maior monastério do mundo.

O céu é multicor. A imagem da lua mostra que ela se repete, várias vezes: mas está partida em pedaços! A aura de tudo é visível.

Há uma base aérea flutuante; e é possível ver pela selva imensas armas, a artilharia anti-aérea, para só então se perceber que dentro das montanhas está uma construção, uma mistura de hangar com cidade; vê-se um jato decolar em alta velocidade, totalmente silencioso, de dentro da montanha.

De repente, o Professor faz mais um gesto: a imagem volta a mostrar toda a beleza da imensa selva protegida pelas nações bra e nações vizinhas.

– Vamos às apresentações. Você primeiro. Levante-se – o Professor parece ter escolhido a menina que estava mais impressionada. Saindo do transe, pois ela ainda tentava ver, percebe que a sala esperava ela se apresentar.

– Eu sou Alegra de Angelis, de Kampina. Tenho doze anos. Estou muito feliz de ter a chance de conhecer todos vocês – e ela se sentou.

– Trista! Muito prazer – diz a sua gêmea, se levantando e se sentando.

E, assim, todos foram então se apresentando. Nina teve a oportunidade de se levantar e dizer que – “Estudar aqui é tudo que eu mais quis em toda a minha vida. Espero poder conhecer todos e ajudar sempre que for possível”. Assim, as apresentações continuaram, com Tomi se apresentando, tímido; Nika Sasking, 13; Mai Takai, uma nihon de 11 anos, e depois Gustavo de Paula, 16, vestido de preto; Na’ama Ototodé, 8, uma menina negra que parecia estar feliz o tempo todo, e as apresentações continuaram para tornar a aula alegre. A sala tinha vinte e três alunos no total, agora se avaliando, sabendo que vão passar todo o ciclo juntos, enquanto o Professor apontava e eles se apresentavam, um a um.

Pela janela, via-se o dia cheio de tons quentes, vivo de vermelho, de rosa, reflexos alaranjados, o teto de paraluzes translúcidos e nuvens de algodão.

Tiago Dias, 12, um menino forte; Paula Kamppi, 10, lourinha; Abou Iroku Santos, 11, de pele branca e cabelos negros; Sura Katalina Tutchonekutchin Qal, que disse fazer 13 em breve e que é intercambista, de Seattle. E ainda, Hannah Leolá de Tulita, 9, branca de olhos verdes; Ién de Sá, 8, moreno e gordinho; Nativa de Andrade, 15, morena; Tanza Lopez, 10, branca e sempre alegre; Fif Kassai, 13, vestido de preto, branco, de cabelo preto liso, e Nina viu em seus olhos um não-sei-o-quê que lhe deu medo. Tranquilo Villas-Bôas, 11, moreno, com o símbolo da clave de sol na camiseta; Tábata Tunna, 17, a mais velha, uma brunette, em um vestido verde-esmeralda. Onne Senna, 14 – ele disse estar honrado, mas Nina sentiu veneno na voz dele; Anatúlia Drumond, 17, loura de olhos puxados; e, lá do fundão, Nur Zór Krypadara, 13 – ninguém perguntou porque suas orelhas são pontudas – branca, de olhos azuis anil, cabelos curtos, negros e lisos; e quando o fim das apresentações chega, Gusa aponta uma menininha.

Por último, Nina olha para ela: sentada na bancada ao lado, Nikoleta desce e fica de pé, se apresentando: "Nikoleta Hussel, nove; estou feliz de estar aqui, e ter companhia", mas a voz dela não tinha emoção; Asal sorri com os olhos.

Ela era menor que a bancada; alguns se esticaram para ver.

– Sejam bem-vindos – resume o professor – Agora, eu vou explicar algumas coisas muito importantes. Primeiro, nossa Escola tem um sistema de pontuação especial, que incentiva a cooperação. Vocês tem o direito de dar pontos uns aos outros; mas não vão pensando que é fácil! Os professores vão avaliar tudo: você dá um ponto a outro aluno quando este ensina alguma coisa a você. Assim, os professores vão avaliar se você aprendeu mesmo e o ponto é dado.

Ela interrompeu as imagens de natureza da tela central.

– Olhem o quadro. Nina. Você é a Nina – e olhou para ela, que se assustou com o olhar – Veja sua colocação. Você tem cinco pontos. Impressionante,... Acho que é o maior aproveitamento que já vi em uma Iniciação.

Toda a sala olhou para ela, que ficou vermelha como um tomate.

– Bom, muito bom,... Sabe o que isso quer dizer, Nina? Não? Você já está competindo para a seleção de melhor aluna. Você sabe quem é a melhor aluna, não sabe? Sua amiga e, também, colega de dormitório, Asha el Sauza,...

– Eu,... – ela tentou, mas lhe falhou a voz.

– Acho que isso pode ser muito importante, Nina – continua Gusa, mas está sorridente – Você, se passar pelo treinamento adequado e estudar muito, pode servir de exemplo para toda essa sala – ele se voltou então – Vejam aqui, agora. Alegra, Fif e Onne, vocês têm dois pontos, cada. A cada ponto ganho, vocês todos, a Sala, ganham alguns direitos especiais. A saída da Escola Capela só é ou será permitida a quem entende a natureza da sociedade comum e, sim, o Saber Comum, como nós o chamamos, é extremamente importante. Fif, você tem um ponto especial de teoria metamágica. Faz treze anos que este ponto não é dado na iniciação, espero que você se dedique. E se lembre que a teoria é importante, vai lhe ajudar a ver as coisas como realmente são, mas que a Natureza é muito mais imperativa: ela vai estar sempre lá, para fazer você se lembrar.

Ele parou, se aproximando da tela, pensativo.

– Tomi, você tem um ponto: Cosmologia. Para quem não tinha nenhum tipo de contato com a Magia, devo dizer, seu desempenho é... bom.

E então, Gusa pediu ao androide que se aproximasse. Foi um gesto rápido, e seus mantos negros giraram ao se virar. Havia um androide, ali no canto desde o começo, que veio, então, até o centro diante da sala.

– Prazer – diz ele – Eu me chamo Llugýr. Sou o androide responsável pela coerência das informações tratadas na sua classe. Tenho o maior banco de dados que conseguirem imaginar, adequado à sua educação. A minha função não é a de responder, mas sim dar a vocês informações que incluem datas, traduções e outras, corrigindo vocês para que o significado de Raison d'Étre (Razão de Ser) seja compreendido. A dica que eu lhes dou de início é que você se concentre no raciocínio das matérias pois a exposição de quinze minutos resume tudo, mas é mais importante agora que você saiba que Magia não é racional. A noção de causa e efeito, de tempo e de dedicação são o meio para você alcançar a técnica, desvendando seu Enigma pessoal. Sejam bem-vindos. Alma Attenta dá a todos as boas-vindas oficiais e deseja a vocês o sucesso dado pela sua dedicação.

Ele é quase indistinto de uma pessoa; Tomi, porém, sabe a diferença, mas ficou com a informação para si próprio.

– Vou estar aqui, para fazer você se lembrar do lema da escola de Aul-a Wakka, o nosso lar, A Quinta Capela: "Saber: O Futuro da Dedicação".

– Obrigado, Llugýr – agradece o professor Gusa.

Ele esperou o androide voltar ao seu lugar, continuando; todas as cortinas da sala se fecham, com um gesto. Todos se assustam. O Professor vai até o meio da sala. Asal ergue calmamente a mão direita, dizendo – Nar! – e surge uma bola de fogo verde e negra em sua mão, bruxuleando tranquilamente.

– Nunca ignorem que o fogo queima. Se alguém duvida, venha por a mão no fogo e ter uma queimadura logo na primeira aula. Ninguém? Excelente. Este fogo é mágico. E é a minha vontade que o controla – ergueu a mão esquerda, se concentrando – Eu posso até transforma-lo em,... água. Mayyah! – e uma bolha de água, em pleno ar, surgiu – Nunca ignore que não pode respirar sob a água. Alguém quer tentar? Sem magia? Sem magia você, bruxo, feiticeiro ou mago, não é mais que uma pessoa comum; ou, se for atento, vai perceber que os métodos comuns são muito importantes. Agora, – a bolha desapareceu – vou explicar uma das coisa mais importantes que vocês vão aprender: Calor.

Ela ergueu as mãos, dizendo – Inkantanna Hat! – e aos poucos todos foram sentindo a sala se tornar quente, até o ponto em que você começa a suar.

– Fogo não é um elemento puro, mas uma reação química; Calor, não: o calor é a lei ou elemento que rege o fogo. Ou, frio – Hat Duine! Magia não é só um monte de palavras. Magia tem gramática própria, e às vezes não há como se fazer um ou outro efeito porque as línguas não conjugam entre si, mas vocês vêem que falo palavras em árabe, sim, porque eles são herdeiros dos Caldeus, que foram, sem dúvida, os maiores alquimistas da antiguidade.

Assim, todos sentiram a sala congelar, de tanto frio.

As meninas todas se encolheram. A sensação é assustadora: todos tremem, tentando se proteger.

– O frio não existe: ele é na verdade a falta de calor. Mas – o Professor olhou para Fif, apontando a bancada ao lado de Nina e Tomi – este deverá ser o último que vou mostrar a vocês. Espere sem pressa. Agora, Névoa: Arpela!

Nina se assombrou, pensando – "Ele lê nossos pensamentos?". E ninguém mais conseguia enxergar, nem seu colega ao lado. Sob a névoa, Nina podia sentir que o Professor lhe observava, a ela e todos; e ela tinha medo dele.

– Este é o elemento do Véu. Não se iluda. Esta é a matéria que nos separa da noção de universo da pessoa comum. Vamos com calma – a névoa some – Não ignorem o saber comum. Nunca. Vocês já ouviram falar da caça às bruxas. Você vai conseguir matar os setenta primeiros: mas os milhares de fanáticos vão te pegar, te amarrar e queimar vivo – surge uma labareda de fogo, verde, mas que logo some – A famosa e terrível Guerra de Libertação, em pleno século vinte e dois, resultando em nossa independência, serve de prova desse fanatismo.

– Ssh! – e apaga-se a luz. Mas de alguma forma, ele era visível. Mesmo sem nenhuma luz, era possível vê-lo, sob uma aura ou aspecto sobrenatural.

– Isto é uma Noção, ou Significado. Este foca a atenção, impede ou permite saber os pensamentos superficiais das pessoas. Este é um dos Elementos Maiores que os comuns ignoram, para o nosso bem. É o segundo elemento mais difícil de se controlar.

Agora, Tur`an!, a Terra. Luzes – e as luzes se acendem, para mostrar que ele levita uma pedra, cinzenta e parecendo pesada, entre as mãos.

A pedra se transformou em terra, depois em areia.

– Plasma, Hlat! – agora, era como se houvesse uma estrela dentro da sala, e ninguém conseguia olhar – Esta é a palavra que dá origem à língua Latim, e foi com esse elemento que os magos romanos venceram os druidas celtas, com um tipo desconhecido, hoje em dia, do próximo elemento.

Ele desfez a estrela, e aguardou uns poucos segundos.

– O Raio, Inkantanna Qúwwa! – diz o Professor.

Aos poucos, todos foram se acostumando a olhar, de novo. Havia um raio, parecendo vivo, bem entre as mãos do professor, tentando fugir.

– O Raio tem muitos nomes – explica ele.

Assim que o raio desaparece, ele estala os ombros e dedos. O momento de silêncio os deixou respirar, um pouco.

– Vocês estão preparados? Então,... O Nada, N-,... – mas ninguém ouviu a palavra que ele disse.

Todos sentiram o que era. Um aperto no peito, a sensação terrível. Nina não conseguia olhar. Ninguém ali conseguia, porque era,...

Era como olhar a própria morte!

– Chega! – conclui o Professor, ao terminar a demonstração.

Tudo voltou ao normal.

A um aceno do maestro, cortinas e janelas se abriram de uma vez. Alívio geral dos alunos. Todos se mexem na cadeira.

– Estejam avisados! Magia não é uma brincadeira. Vocês só têm permissão de fazer magia fora da escola dependendo de avaliação e se estiverem prontos para lidar com o comum. A maior parte do que vão estudar é teoria. Se você não a entender, vai se dar mal depois. Nunca esconda a sua dúvida, ou posso ditar o seu destino. Pergunte. Questione. E evite uma morte dolorosa, para você e para as pessoas que ama, seus amigos, sua família, seus colegas.

Esperou alguns instantes, deixando fazer sentido.

– Agora, o Ritual – tuttut, fazem os profetas – Vocês acabam de receber o material do primeiro ritual de Arcana. Ele deve ser realizado em novembro, a data varia de uma série de questões. Data de nascimento, identidade biológica, cor de família, etc. O Ritual é a coisa mais importante que vocês vão aprender. Depois, vão ter de realizar ele muitas e muitas vezes. Toda semana. Entenderam?

– Bom – continuou – Todas as matérias funcionam da mesma forma. Toda aula, há um tema. O tema de hoje é Natureza. Depois de cada aula, você faz uma redação e, ao ler, o Professor vai então desconstruir a sua redação. O método é aplicado por todas as matérias. O professor de DCC vai tentar convencer vocês de que a matéria dele é a mais importante; e sim, eu concordo que é importante, mas não acreditem. Nós já vivemos milhares de anos sem esta teoria. A natureza não, sempre vai estar lá, para te lembrar de que ela existe. E saiba: se você não aprender a respeitá-la, o destino será cruel e terrível com vocês. Todas as regras e aulas são baseadas em observação e pesquisa; enfim, estejam avisados.

Deixou alguns segundos se passarem, observando a turma.

– Redação para a próxima aula, tema: Natureza. Tudo o que você pensa, e deixe tudo claro. Sejam bem-vindos, todos. O Enigma lhe guie, diante do Espírito, ou seja, as necessidades da existência. E não se esqueça, nunca, do Ritual. Vocês vão precisar estar em Sintonia, para aprender. Classe dispensada.

O professor foi se sentar e Llugýr foi conversar com ele.

Todos se levantaram, prontos para sair da sala.

Do lado de fora da sala não conseguiram evitar a conversa, foi meio que um tá, e um tã-tã, reação imediata, um murmúrio excitado.

– Waw! Vocês viram?! Fantástico! – disse Nika.

– Né, Nika? – solta Mai – É verdade! Nina, o que achou?

A voz delas subia e descia as oitavas, suas mãos diante da boca, bem como todas as meninas ao redor. Nina não vê Nikoleta em lugar algum.

– Acho muito difícil aprender isso. Só estudando muito, mesmo. Entendo agora o que meu pai queria dizer: é uma ciência de dar medo.

– Mas voscê é a melyo’r aloona, Nina.

– Não, Kate. Eu sou só uma iniciante; e tenho muita coisa pra aprender até algum dia alcançar o que uma melhor aluna sabe.

Tomi olhou a sala, vendo que quase todos já saíram. Apenas Fif, vizinho dele, está em um canto conversando com Alegra, cuja gêmea espera sentada a irmã terminar o assunto. Ele olha para o Professor Gusa. Se levanta e vai devagar até a sua mesa. Ele está de pé, de costas. O garoto vê o Professor tirar um tipo de garrafinha do bolso e beber um gole, dizendo "Aos velhos tempos, Trevor"; só aí ele se vira para o estudante. Tomi sente o cheiro do álcool, mas decide que isso não é problema seu, tomando coragem para falar.

– Professor Gusa,...

– Sim? – ele inclina a cabeça, de leve. Sente a mente do jovem fervilhar com todas as perguntas, escolhendo a melhor.

– Ehr... Por que eu não posso ter uma Varinha? Quer dizer... Nós vamos estudar Magia aqui, afinal isso é uma Escola de Magia, e...

Asal Gusa se lembra bem de seu primeiro dia de aula. Ele também tinha muitas dúvidas na cabeça. Ele abre a garrafinha. Toma um gole, soltando um "Ah", logo depois, relaxando. O garoto quase prende a respiração, com o cheiro forte de aguardente, mas continua esperando a resposta.

– Tomi – diz o Professor – Hieronimus Oljo Tomi. Uma Varinha é uma arma. Você realmente acha que vamos entregar uma arma a uma criança sem nenhum treinamento e provavelmente talvez irresponsável, como você?

– Mas,... eh,... Professor, o Fif tem uma varinha e a N-...

– O Kassai é de família bruxa – ele corta e dá mais um gole – E terá de fazer os testes e passar em todos eles, para ter o direito de ter uma Varinha em pleno Ciclo Básico, Tomi. E, acredite: vai doer mais nele, que em mim – Asal Gusa se vira, retirando seu Profeta do bolso, mas o garoto continua ali.

– Ahn,... Professor?

Asal apenas se vira, sem dizer nada.

– O Senhor... – ele respira fundo.

Tomi estava achando tanta formalidade uma coisa chata, mas sabia que ia ter de se acostumar.

– Acho que meu tartã está errado.

O olhar do Professor lhe disse que não; e mesmo que Tomi não tivesse feito nada de errado, sabia que esse professor era problema.

– Não. Não está – diz Asal Gusa – Você não é um bruxo, Tomi. Você é um mago.

Tomi demorou uns segundos para entender o que ele havia dito. E parece que o Professor percebeu que essa era uma revelação.

– Você sabe o que isso quer dizer, Tomi? Não? Quer dizer que você deve tomar muito cuidado, nessa Escola. O Tartã é novidade. O uso do tartã começou, exatamente hoje. Mas logo, todos vão perceber que você é um mago; e não vai demorar muito até você ter problemas. Estude muito. É a sua única opção.

Era fim de papo, Tomi percebeu. Se despede do Professor com um aceno de cabeça, tal como fazia Asha, sem saber se isso era mesmo o certo, e vai para a saída da sala.

Ao sair pela porta, ele bate em alguma coisa.

Alguma coisa macia e enorme. Ele vê a barriga de um garoto, muito maior, e muito mais gordo que qualquer um. O garoto gordo fecha a cara e rosna. Tomi arreda um pouco para trás, sem saber o que deveria fazer, mas está acostumado à escola comum, às piores, o que lhe diz que acaba de arrumar encrenca.

De repente, sai um garoto de trás do gordão. Ele é magro e loiro, com os mantos de cor negra, e uma bolsa de componentes com detalhe tartã caqui.

Não havia saída; o garoto loiro era meio ilegível, mas Tomi imediatamente se preparou para pisar no pé do gordão, empurrar ele para trás e correr.

– Eu não faria isso, se fosse você – diz o garoto loiro, cruzando os braços – Ele tem três anos a mais de treinamento que você; e é grande.

A voz do garoto loiro não tem emoção, tal como a do professor.

– Então? – Tomi se defendeu – Essas são as boas vindas? Prazer. Eu sou o Herói. E já que eu sou o Herói, então você deve ser o Vilão.

Fez-se silêncio, até que se ouviu um rugido. O rugido se mostrou ser o riso do outro garoto, gordo e enorme, vindo de cima.

– Do que você está rindo, Iohannes? – pergunta o loiro.

– Ele é engraçado. Eu gostei dele – diz uma voz gorda de touro, e pela voz agora dá pra saber que realmente não seria possível derrubar ele.

O garoto loiro ergue uma única sobrancelha, ao ouvir isso; ele olha, mais uma vez, para Tomi, avaliando o garoto friamente.

– De que família você é, calouro? – devido ao silêncio, conclui – Ah!, você não é de família bruxa. Ikkomi,... Bem, isso não importa, né. Você tem de ir ajudar a Tia Braga a limpar o bar dela, esse é o seu trote. Eu sou Pylyp Pavel, e esse aqui é o Iohannes Kjang. Você tem muita sorte... Muita mesmo, porque o Iohannes só gostou de duas pessoas até hoje; mas eu tenho mais o que fazer da minha vida do que isso, calouro, então saia da minha frente de uma vez.

Enquanto Tomi pensava no que ia falar, Fif apareceu.

– Fiif, meu caro! – diz Pylyp, abrindo um enorme sorriso – Seja bem-vindo, então, à nossa Escola prometida, nosso paraíso.

Pylyp abriu os braços, para dar um abraço. Parecia um abutre. Tomi ainda estava ali, tentando arrumar uma brecha para passar por Iohannes.

– Vamos, Fif! Vamos para o Clube de Política.

– Calma, Pylyp – interrompe Fif – Vejo que já conheceu Herói. Ele é o gênio que faltava à Magia. Eu ainda vou ter de fazer todos os testes, e...

– Ah, corta essa, Fif! – interrompe o veterano – Seu pai foi um Praetor, foi Ministro; e ainda hoje eu li no Oráculo que, como Senador, ele está investigando o Caso da Base, que misteriosamente existia sob os nossos humildes narizes. Seu Segundo Nome está no Clube desde o dia em que você recebeu ele! Vamos.

Tomi vê o colega ser arrastado pelas mãos frágeis de Pylyp, e Iohannes lhe dá um olhar feio e sai – "Será que isso era um sorriso?", ele não evita pensar; mas assim, Tomi se vê livre e vai procurar a sala da próxima aula.

Não melhorou muito. Todas as matérias são difíceis. E sim, o professor de DCC, o que quer dizer Defesa Contra a Corrupção, fez exatamente o que Asal Gusa disse, mas só Fif e Onne comentaram. Ninguém tinha coragem. O professor entrou, e foi logo fechando as janelas – o Tema da primeira aula foi “Guerra”, e ele dizia então que a guerra era “Linda!”. Apontou para todas as coisas das meninas da sala, e disse qual era a tecnologia daquilo; e que tudo o que elas usavam foi desenvolvido para esse fim, o fim da disputa, do conflito; e que o ser humano era um “predador”. Foi tudo um monte de coisas assustadoras; e Nina viu a pequena Paula quase chorar, na bancada atrás da dela e de Tomi.

Nativa, que dividia a bancada com ela, abraçou a menina.

O novo professor de DCC, Majkon Auges Dukt, dispensa a sala depois de perguntar a diferença entre um “míssil” e um “projétil”. “Míssil é autopropelido. Agora, o Tema dessa aula é óbvio. G–U–E–R–R–A! (soletrou ele, de olhos enormes e arregalados). E eu quero todos os seus lindos delírios de bondade na redação, meninas. Classe dispensada”, e waw!, sem dúvida, ele era mesmo o Professor mais rígido; e também o mais assustador.

Onne foi o único que respondeu tudo “certo”, de acordo com ele.

Quando não estava dando aula o Professor Duket, que tem o ombro feito de material ciborgue, estava o tempo todo na piscina. Na mansão Maika, oposta à estrada para Diamantina, uma das alamedas mais bonitas, ele bebia caipirinha, de bermuda marrom, camisa social florida, careca, com seu chinelo barato preto, com umas cinco telas no ar e óculos escuros. O Profeta, sempre dependurado no pescoço. As telas tinham o fundo preto, para ninguém ver, mas de longe dava pra ver informação passando, de baixo para cima, aquela antiga tela de fósforo verde, do início da computação; todas as meninas tiveram medo automático dele.

Arte, bem, não parecia tão simples também.

– Quer dizer, professor Rei, – perguntou Leolá – que eu posso pegar uma tela branca e jogar tinta nela, que isso vai ser arte?

– Se você conseguir explicar o que está fazendo, pode fazer o que quizer – mas nem todos entenderam o que ele queria dizer, assim de primeira.

Ritual, na verdade, era uma série de pesquisas.

A maestra Elektra Morrigan Starling sempre pedia as anotações de todos; e Llugýr a ajudava a corrigir e analisar. Nina aprendeu rápido porque as aulas eram curtas: porque você tinha o tempo supostamente livre, todo ele, para estudar.

Acesso era a aula mais estranha, a única dada por um ciborgue; além de ser médico, ele foi membro do Conselho das Treze Nações da Magia.

Doutor Bojar Kha, era o nome dele; e ele foi das Tribos.

Tomi se identificou imediatamente com ele, claro.

Respondeu todas as várias questões e se tornou seu assistente; mas Onne foi o único que sabia todos os cumprimentos bruxos. Assim, Bojar Kha explicou que sua família, Senna, era muito importante, parece que todos os Senna lutaram na Grande Guerra, e havia uma maioria de arcanistas de nascença na linhagem, era esse o motivo disso. O garoto não cabia dentro dele mesmo, mas na mesma hora o professor o levou até o canto e repreendeu; mas Nina e Tomi ouviram.

– Nunca deixe um elogio lhe subir à cabeça, Senna – disse.

E foi então, que Tomi ganhou o status de ajudante.

As aulas de Situação de Estresse, matéria obrigatória pela Academia, junto de Arte e Teatro, que incluía “lidar com o comum”, e Cultura: todas eram dadas por maestros mais tranquilos. Bom, o máximo que aprender a lidar com situações como assalto – ou sequestro – poderiam ser vistas como tranquilas.

Asal Gusa também é o Professor de Cosmologia.

E foi aí que o cérebro de todos travou. A primeira aula foi pouco. O mundo, fora na cabeça de Sura, Onne, Na’ama, Fif, e Nikoleta, não se parecia nada-nada com o que acreditavam que era, com mapas tridimensionais do mundo.

Todos os outros, incluindo Nina, não entenderam uma palavra. Os Planos. O Astral, que liga todas as coisas (isso a melhor da sala já conhecia). O Inferno, na verdade, era um tipo de plano; e existiam vários. Muitos. As anotações, tudo era questionado. O professor tinha o dever de desconstruir tudo que você acredita. A técnica era explicada no Teatro, para todos entenderem bem. As aulas de Lógica são baseadas em Lei, a não ser para Tomi, em que é baseada em programação e jogos, além de Nina, que a estuda em Matemática avançada, matéria do segundo ciclo, e Sura, em DCC, a única aluna a ter autorização para estudar à noite.

Nem Onne nem Fif conseguiram autorização para Política, do terceiro ciclo, para a qual eles dizem ter nascido para seguir.

– Você vai ter de esperar, Senna.

– Mas, maestro, eu já estou ficando velho pra começar!

– Sinto muito, Senna, – resumiu Doutor Bojar Kha – mas você acredita em política; e política não é uma coisa para se acreditar. Não é só minha matéria que conta pontos para seu objetivo. DCC, Natureza e Lógica são essenciais. A decisão não é só minha, mas vou pedir aos demais professores para pensar.

Havia uma possibilidade, ao menos. Todos tem aula de Tecnologia, mas só Tomi está no avançado de Arte e Tecnologia. Nenhum dos outros tem Maestro, mas Tomi pode chamar o Maestro Rei e o Maestro Xzaviér usando o título! Onne ficou boquiaberto; e Nina, que passava, viu a inveja disfarçada.

– Você deve ser bom, Herói.

– De boa, Senna. Eu já participava do Clube, antes da matrícula. O Maestro de Tecnologia, Amadeu,... ah!, formalidade: Xzaviér, foi quem me matriculou.

O outro garoto ficou impressionado. Tomi encontrava Gusa, andando pra cá e pra lá. Ele parecia ter ficado com o cargo de ajudar todos os professores em suas aulas, esse semestre, dissera Tábata; assim, ao lado do androide Llugýr, Gusa era visto sentado à frente de quase todas as salas. Mas quase não falava, hora nenhuma: na verdade, ele estava preocupado – a enfermaria foi fechada.

Talvez, as imagens que Elliot via não eram das aulas. Ele estava em coma, mas no fim do dia, o Professor Gusa, o mais jovem que a escola já teve, sempre ia vê-lo, de rosto fechado – "Será que são namorados?", Tomi ouviu Fif dizer.

Nina não sabia mais o que pensar, quando chegava no dormitório.

Asha voltou da enfermaria. Todos os dias, a sua amiga, a Melhor aluna de verdade estava surtando no seu canto, várias telas no ar, de pijama, quase que não comia, nem dormia. Nina estava preocupada com ela. Agora sabia o quanto o que antes lhe era tão desconhecido, o treinamento de Asha era incalculável; ela é o exemplo, era o resultado da sua dedicação, o melhor deles.

Tudo era, também, muito científico, como dissera seu pai. Entendia porque um dia viu sua amiga segurando um pedaço de pau, Varinha – Wand, Toolu – de pé para enfrentar militares: Nina entendeu o valor da educação dela.

Hoje, porém, no dia dezessete de outubro, a noite treme.

As aulas da noite foram canceladas, mas Nina viu pela janela a vampira que sempre vem visitar Elliot na enfermaria; hoje, porém, ela não estava sozinha.

Havia uma criatura com ela, um ser sobrenatural, obviamente a origem de uma presença que arrepiava os cabelos de todos os alunos, na escola.

O Diretor os recebeu e, ao que parece, levou-os à enfermaria; Nina só não comentou com as colegas: Asha não estava no dormitório.

Ninguém conseguiu dormir; a presença sinistra não deixou.

A escola havia cancelado as aulas noturnas e ordenado a todos que não saíssem de seus dormitórios, do anoitecer até o amanhecer.

Nina desceu para se reunir às colegas, no Salão de Santa Wicca, no andar térreo do dormitório.

Todas ficaram ali, caladas, até a meia-noite – Xerxis insistia em limpar tudo várias vezes – claro, de olho nelas, para que não saíssem.

– Vamos fazer comida – Africa sugere.

Nenhuma das colegas falou nada, mas todas se foram; todas, menos Nina e a pequenina Nikoleta, de pijama e pernas cruzadas.

Muito pequena para o sofá.

Durante um instante, Nina avaliou a cena.

– Você vai precisar da minha ajuda.

A voz de Nikoleta lembra a do Professor Gusa, deixando no ar a sensação de que lia seus pensamentos.

– Eu preciso... ir ajudar na cozinha – Nina se levanta.

– Eu posso te ajudar, Donzel.

– Por que? – Nina, se sentindo paralizada, aperta as mãos – Imagino que você só estava esperando o momento de falar comigo.

– Exatamente – ela inclina a cabeça.

– Por que? Você vai me dizer?

– Só uma alma attenta pode treinar outra alma attenta – Nikoleta era como uma estátua que fala – Mas sinto que você vai escolher o caminho mais longo, ao invés da minha ajuda, logo quando mais precisa.

– Você tem nove anos – Nina olha para ela.

– E? – a pequenina ergue as sobrancelhas, calma – Imagine, então, que eu tenho nove anos a mais de treinamento que você, Nina.

– E o que você está fazendo na escola, então? – Nikoleta dá de ombros, e olha para a cozinha, antes de continuar.

– Treinamento extra – ela diz.

– E porque você precisa de mais treinamento?

– Não, não. Estou aqui para fazer o treinamento do Nikolai! Eu sou herdeira da Dinastia Hussel,... Nina,... Estou aqui para te ajudar.

– Nikolai é mais velho que você.

– Você se preocupa muito com idade – ela inclina a cabeça para a direita, e de volta, parecendo ler Nina inteiramente.

– E se eu recusar? Me diga: eu tenho escolha?

– Você tem dons muito raros, Nina.

– Você está me espionando? – a wicca abre a boca – Shamra! Foi ela que falou com você?! O que ela falou? Ai! Que raiva,...

– Tudo bem, eu espero. Você mesma disse, eu tenho só nove anos; e posso esperar, né. Mas eu posso te pedir uma coisa?

– Espere sentada – Nina começa a tremer.

– Estou fazendo isso, já.

Houve um silêncio incômodo, entre elas.

– O que você quer? – Nina quis saber.

– Nada demais – Nikoleta tem um tom de voz casual – Ninguém no mundo é tão importante que não seja substituível, Nina.

– Você é tão fria... – a wicca franze todo o rosto.

– Não – ela diz, em tom de sugestão – Sou só uma alma attenta, da mesma forma que você; só isso – e, em tom de aviso – Mas, existem coisas que só você pode fazer e ninguém vai fazer, se você morrer.

Asha entra e passa voando, indo para o elevador.

Ainda nesse combate com a menininha Nikoleta, Nina vê Asha passar sem nem dizer boa noite, ficando em dúvida: o que fazer?

– Entendi – Nikoleta diz, sem emoção – Vai, Nina. Eu espero. Tudo bem, eu espero. Ninguém vai fazer por vocês duas o que só você pode fazer.

– Fique longe de mim – ela tenta falar sem emoção: e falha, claro, deixando a raiva sair junto das palavras. De repente, a dúvida.

– A raiva tira a sua lucidez – avisa Nikoleta – Eu estou aqui para mostrar a você como lidar com os seus dons,... Tá, boa noite.

– O que você quer dizer com "o que só eu posso fazer por nós duas"? Eu e a Asha?! Não existe o "nós", aqui! E ponha um ponto final nisso.

Nikoleta fica em silêncio, sem ponto final.

Sem mais nada a dizer nesse duelo, Nina se vira e sai. Vermelha como um tomate, ela respira pesado falando consigo mesma no elevador.

– Não... existe... "nós duas"! Me deixa em paz! E pare de me seguir! E de me espionar! – evita dizer um palavrão e se acalma, balançando a cabeça.

Ao chegar no quarto, Asha estava lá, de olhos arregalados e conversando com o seu avatar, que Nina conhecia de antes; ela quase fez uma reverência para o avatar da amiga, reconhecendo quem era. Branca, magrinha, os cabelos da cor da noite, curtos, e roupas práticas para qualquer ocasião.

A mesma roupa da estátua na entrada da escola capela: o avatar da Melhor era a imagem de Santa Wicca.

Enquanto isso, na Sala Oval, no terraço que dá passagem para a Torre de Meditação, Esmeralda e Llaw se movem inquietos ao lado de Asal Gusa, ao olhar para a orbe: a jovem Nina chega. Esmeralda dá uma espiada nos olhares do seu grupo: nada; Asal suspira – "Interessante",... – "Ainda não entendo por que motivo temos de ficar observando a Melhor", reclama Llaw; – "Sabarba era o Mestre dela, Llaw. Ele deve ter confiado Segredos a ela que ninguém mais devia saber, nem mesmo nós; e também, tenha certeza de que o Inimigo vai fazer a mesma coisa com a jovem profetizada para ser a maior bruxa de todos os tempos e nós, os Mestres, temos esse dever", Asal-sã resume; depois de uns momentos, Esmeralda revela a sua real aflição: – "É o dormitório feminino, Gusa",... – "Você acha que o Inimigo vai deixar de observar por isso? Ah, tenha paciência, Me! Temos certeza, pelo que Elliot disse, antes de cair, que ele viu Asha presa no futuro; e que ela culpava Nina por tudo", Asal relembra; Esmeralda suspira; – "Porque não usamos o sistema da Escola?", pergunta Llawrence; – "O Diretor não vai permitir; Odéle é perito em Corrupção: seríamos investigados. Ele permitiu ao Praetor ter soldados na Escola, para proteger os alunos de Elliot. Tenho minhas dúvidas sobre ele ser o sucessor de Sabarba, mas Odéle era discípulo dele, de total confiança, e tenho certeza de que o velho deve ter revelado Segredos a ele. Nós vamos descobrir quais são esses Segredos", Asal explica; e então – "Ssh!",... Asal exige silêncio.

Nina se aproxima de Asha, parecendo muito cuidadosa.

– Éjjelég, Éjjelég, Éjjelég,... – Asha repete, sem parar.

Nina foi chegando perto e correspondeu ao sorriso da avatar, se sentando ao lado da amiga, que tinha olheiras maiores que o mundo, de fundas.

– Oi – começou a pequena wicca.

– Oi, Nina – "Hhņngõ-ah", boceja Asha.

– Você não está parecendo bem. Tá com uma aparência péssima. Acho que eu te entendo, mas você precisa descansar.

– Não, to ótima – mentiu a bruxa, por trás das olheiras.

– Tem certeza? Não é o que parece.

– É, sim. Eu encontrei.

– Você vai me contar o que está acontecendo ou não? Todo dia você fica aí, fazendo não-sei-o-quê. Não me diz qual é a missão, como você diz; nem sei o que quer dizer a palavra, mesmo: mas, agora te entendo.

– Missão é a coisa mais importante da nossa sociedade, Nina. É uma coisa que só você pode fazer, e dela depende a vida de várias pessoas. A sua também, não se esqueça. E não se esqueça, porque: quando ouvir essa palavra, vai precisar entender o que ela significa; isso é um jogo de vida ou morte.

A pequena ficou em silêncio. Ao que parece, – Nina olha o dormitório, de alma atenta – todas as colegas estão lá embaixo, tentando existir.

Asha sente a superfície dos pensamentos de Nina mais limpos: a wicca está deixando de se sentir deslumbrada e começa a sua caminhada.

– E o que descobriu? Era isso a sua missão?

– Não. A missão, você deveria ser mais,... não posso te explicar. Você ainda tem muito que praticar meditação. Sua mente é um livro aberto.

– Então... – esperou – O que é?

– Calma – pede a bruxa – O que você tem? Me fala.

– O quê? – Nina não entendeu.

– Nina, você fala enquanto dorme – Nina engoliu em seco – Eu sei um ritual, pra você parar,... me jura que você vai fazer?

– O que eu falei? – ela sente medo, de repente.

– Não sei,... – Asha dá de ombros – Acho que ouvi uma vez grego, mas não entendo nada, nada. Você fala um monte de línguas.

– E?

– Ontem,... Você repetia: Tomi,... Tomi,...

Nina parou, espantada; de repente, riu. Asha riu, também. Ficou óbvio: ela viu que caiu na brincadeira – "Sua boba",... murmurou.

Em um único momento, Nina viu toda a sua história na cabeça. Isso era tudo o que ela queria. Ter encontrado a Magia foi, na verdade, a coisa mais linda que já aconteceu; e ter a bruxa como amiga, depois de tudo o que já passaram juntas, sem dúvida é muito bom. Ela suspirou. Asha ainda sorria. Se lembrou de que não ouviu nada sobre "Paraíso", em Cosmologia, mas isso não importa, pois ela encontrou tudo o que queria, a vida, a escola e os amigos: a Magia.

Suspirando, ela entende que isso já passou e deve ir adiante.

– Asha – suspirou – Me ensina o que eu devo aprender?

– Agora, você falou como uma bruxa! – Asha sorri – Está bem, essa será a minha maior missão, de agora em diante: você tem a minha palavra.

Nina abaixa a cabeça e Asha encosta a cabeça na dela. De repente, Nina se sentiu totalmente feliz, como nunca se sentira em toda a sua vida.

– Amigas pra sempre? – Nina murmura.

– Pra sempre – Asha responde, num sussurro.

Assim ficaram, alguns instantes até que Nina suspirou, vendo o sorriso de sua amiga e decidiu que era hora de falar do problema.

– Tá,... – Nina ergue a cabeça – O que é?

– Olhe: encontrei – e mostrou uma tela, com a foto antiga de uma lápide, num cemitério – Ser Éjjelég, 1926-2012; não diz onde nasceu, ou morreu.

– E?

– E? Tá escrito isso embaixo.

Nina olhou e não conseguiu ler o que estava escrito. Tinha a sensação de ser uma coisa que já conhecia.

– Está em grego: Poseidon – 2004, 26 de Dezembro. Estranho...

– Não entendi – Nina fica confusa.

– Nem eu; mas é o único registro da família Éjjelég no mundo. Essa lápide fica em um antigo cemitério da Ukrânia. A foto estava num arquivo antigo da rede velha, a Internet. Na verdade, da Rede Profunda, que foi mais ou menos o Molde da Interface como nós conhecemos hoje em dia. Isso era antes da Terceira Guerra. Bem, pra confundir, tudo mudou de nome algumas vezes. Isso fez o russo ter sido uma língua muito importante depois da Guerra, quando os templários e os psiónicos – título pra manifestadores que têm ao mesmo tempo os poderes de telepatia e telekinese – tomaram o poder dos magos na América do Norte e os mandaram de volta pra Europa; daí nasceu a terceira escola de psiónicos.

De novo, Nina parecia concentrada, o que era boa coisa.

– Templários tomaram o país e, bem, daí os psiónicos se organizaram e tomaram a Área Cinquenta e Um, desvishes tomaram Seattle, a Escola de Salem tomou as Torres da Escola do Poder, dos magos; e as pessoas comuns se uniram a esse esforço de guerra, devido à corrupção comum. Bem, eles não sabiam tudo. Eles só viam que as intenções dos psiónicos eram íntegras, ao contrário do que a mídia falava, com propaganda subliminar na mídia todos os dias; até que então os comuns tomaram Novle Iorque. Mas então? Foi um final de guerra esquisito, mesmo. Fim da aula: estude mais. Eu não entendi, também, Nina. Poseidon,... Só que essa é a única referência que encontrei, mais nada; não consigo entender,...

– Não entendi? – Nina disse isso em tom de sugestão.

– A guerra? O poder mudou de mãos, Nina – a bruxa faz uma pequena pausa – Ninguém sabe – a amiga franze as sobrancelhas – Você ia me perguntar se o Elliot saberia dizer – e ia mesmo; mas Nina está se sentindo péssima.

– Como eu vou crescer se você me protege da verdade? – Nina questiona, fazendo Asha parar e pensar, afinal, isso é verdade.

– Está bem – Asha decide – Elliot se tornou um Corruptor.

– E o que isso tem a ver com a missão?

– Nada; quer dizer, tudo – Asha inclina a cabeça – A Integridade, ou seja, seus ideais, se forem corrompidos pela segunda força, a Corrupção, tornam você um tipo de Antideus: O Corruptor é o inimigo que ninguém vê.

– Se a gente tivesse o Iko, ele podia responder – Nina começou.

– Ele está em coma, Nina – Asha está muito séria – Tem uma Ordos médica do Conselho, pra cuidar dele. Ele se tornou o Inimigo. Não quero,...

– Não quer falar sobre isso, sei – diz a pequena, monótona – Sei. A área da enfermaria está impedida, agora; Asal está sempre lá,... Tá, tudo bem.

– Nina,... Você está querendo me agradar, só isso?

– Não, Asha, eu,... – ela suspira – Não pode ser simples? Eu não posso só estar falando alguma coisa só pra te agradar? Tudo tem de ser complicado?

Asha analisa tudo, até as notas que Nina não ouve na própria voz, mas sabe que não pode se demorar nisso; em breve, ela será uma sacerdotiza e, com o treinamento, ela mesma vai responder essas perguntas, sem a sua ajuda.

– Sim,... e não. O-ká, você está certa.

Nina ergue as sobrancelhas, respira fundo e espera sua melhor amiga lhe dizer, de uma vez. Mas, de repente, Nina sente suas narinas abrirem espaço. Sabe, ou melhor, sente o perigo, e fica consciente do dormitório ao redor.

– Mas tenha cuidado com a fé, Nina – aconselha Asha.

– Feiticeiros não são religiosos? – a wicca sente um calafrio.

– Não estou falando mal de religião, Nina.

– Não to te acusando, Asha – Nina se explica.

– Feiticeiros lidam com espíritos o tempo todo, então na visão comum, sim, são; e você wicca, também. Bruxos só lidam com isso de maneira distinta, porque nossa Magia depende de território e não de arquétipos,... Você,... só parece ser um pouco diferente, porque... bem,... não sei o porquê,...

Asha esconde seu pensar: "Qual é o seu Segredo, Nina?".

Tons quentes e frios disputam a atmosfera abaixo dos paraluzes, invadindo o dormitório de Santa Wicca pelas janelas, enquanto O Tempo observa.

– ainda – a bruxa decide esconder sua dúvida – Tá! Vou te treinar. Só vai ser possível a gente ter essas conversas se você se tornar poderosa.

Assim, ela tenta esvaziar a mente – "Feito", Nina murmura, esperando sua missão; mas, Asha só ergue as sobrancelhas,... olhos nos olhos, cúmplices.

Asha se lembra de seu Mestre, Sabarba, dizer a Tamara, algum dia em que ajudara a alquimista na Sala de Alquimia, ainda pequena: "Acredito que o silêncio em sua mente é uma resposta, Toromago. Na Tradição das bruxas, desde a Idade Média, uma bruxa só podia ter uma única discípula; as demais, aprendizes. Isso, a sua linhagem, não somos nós que escolhemos; é a Magia que escolhe".

– Mas eu encontrei – diz Asha, séria – Missão cumprida.

– E? – insiste Nina; tons variados disputam a visita pela janela.

– E? É o nome do meu padrasto.

Nina, sem entender ou saber exatamente porquê, abre a boca e prevê um arrepio. Asha o odiava; até ela, sem treinamento, sentia.

– Aklaus Éjjelég.

(Fim do Livro)

"Estamos vivos,

e não é só".

–– Ikkomi.

Epilúdio – Fractais extras

O trânsito no aglomerado europeu é intenso, em 2205, mas Zehir está bem acostumado ao ritmo dessa cidade. O homem no banco de trás parece vir do aglomerado nordeste, americano; e fala um inglês difícil de entender. Ele tenta, mas erra muito a pronúncia das coisas, em alemão e dilçe, que é a mistura entre o alemão e o turco, as línguas mais faladas por aqui, Berlin-kapital.

Mais difícil é enteder o sotaque angloamerikçe.

– O que está passando no rádio?

– Novela – respondeu Zehir; e o homem para, tentando entender.

– Não entendo nada dessa língua.

– É dilçe.

– Não era pra ser alemão?

– E é. Bom, na verdade, é uma mistura de alemão com turco. E tem um dialeto que reúne muito uma mistura com franka e chinês, lá, antes da Baía de Benelux. Eu diria... até diria, que foi muito melhor se misturar com o alemão que com o holandês. Olha: isso sim, seria difícil de entender! Ainda bem que eles foram para a América do Sul e deixaram isso aqui para trás, porque sem dúvida nenhuma aquilo dava uma boa de uma confusão.

– Parece bastante difícil... Tem esse "u" estranho.

Zehir sentiu o carro falhar e estacionou bem rápido, sem ele notar.

– São setecentos e treze créditos.

– O que é aquilo?

– Por favor, pague, antes de fugir correndo.

– O-kay. Mas... o que é isso? Luzes?!

– Setecentos e treze créditos, senhor.

O cliente pagou e abriu a porta, com medo, procurando um lugar para se esconder, mas estava no alto de um edifício.

Ali, no meio daquela praça, a Luz terrível vai tomando forma.

Havia uma forma negra, no meio daquilo.

E falava uma língua de guerra.

Feliz, ele se concentrou em seu desejo de entender aquela língua, e... sabia que era proibido: mas quem se importa? Isso é um momento único.

– ... pelo sangue derramado!

Os trovões falavam algo parecido com nórdico.

– Vermes imundos! Vocês vão apodrecer, vão comer uns aos outros! – a tal criatura estava furiosa, emanando corrupção pura.

Não que Zehir se importe.

Assim, ele sai do seu taxi e vai até a lateral do edifício. Ele vê que um sem número de nuvens pesadas se forma, do nada. A previsão do tempo, mantida por satélites especiais de controle errou; ou então, a criatura tem o poder de controlar o clima, o que é mais provável. Ele enche o pulmão e grita, bem alto.

– O que você quer?

Zehir teve de usar o truque de atenção. Só então, a coisa viu que ele estava ali, tentando falar com ela; não que isso parecesse boa ideia.

– Vocês serão levados pela fúria da Terra! A ira do Mar! – gritou a criatura, enquanto raios estraçalhavam os vidros dos edifícios ao redor.

– Interessante, você – grita Zehir – Como posso te ajudar?

– Malditos! Póoorcos! Montes de bosta! Eu vou punir vocês, dar suas tripas de comer Às Luzes, amaldiçoados! Matar?! Como ousam?!

– Sério, me diga. Em que eu posso te ajudar?

– Traga-me O Condenado e eu deixo você morrer sem dor!

– Sério? Isso parece difícil. Gostei. Certo, não garanto que vou conseguir, mas juro que vou tentar.

Raios, vindos da forma negra, estouram janelas e postes. Havia um borrão, ao redor da coisa, que parecia um exército de criaturas, uma horda, anunciando o fim que se aproxima – "Hhm,.. O Fim do Mundo", pensa Zehir.

Ouve-se as sirenes da tropa de elite, se aproximando, e aquela era uma coisa que, sem dúvida, era melhor guardar do que explicar.

Antes de aportar, ele grita mais uma vez.

– Uma última coisa, antes de eu te ajudar – Zehir pede, berrando.

A criatura parou, voltando-se para ele.

Dava pra sentir a corrupção pura que a criatura emana. Uma fenda negra; e as nuvens, que agora eram monstros e desciam, furiosos.

– Qual é o seu nome?

– Quem está por trás, Staatssekretär?

– Bartolomeu Andronikos, arquimago, senador eleito pela sociedade bruxa do aglomerado sudeste, Mein Herr.

Houve um momento de profundo silêncio, no qual o antes e o depois se equilibraram na balança.

– So ist da... Vel, Jeg tror... Dê a permissão da Academia.

– Mein Herr!? O que eles estão querendo fazer vai com certeza criar uma guerra; e a Academia não irá sobreviver! Eu acho que...

– Dê a permissão – olhos nos olhos.

– Imediatamente.

Ainda que seja noite e os mortais estejam entorpecidos pela bebida, muito pouco se poderia dizer sobre ela; mas, ao mesmo tempo, seus olhos doces são talvez mais fortes, e mais cativantes que as drogas. Ela caça. Alguns, abastados, abrem as portas de suas áreas privadas, ao longo dos camarotes por onde ela passa; não, eles não são seu alvo! Ela procura muito mais, além disso, a aparência de importante está distante de sua caçada; o veneno mais poderoso que existe, capaz de tornar um imortal mais poderoso que qualquer ser, neste mundo.

O Amor Verdadeiro.

Tudo o que os anciões não querem que você saiba, tudo está atrás desse véu alienígena, que fez dos vampiros, guerreiros.

Apesar das lendas, de que o Amor desperta sentidos que o imortal não pode controlar, ela caça.

Hoje, ela tem companhia. Depois de selecionar um homem (cujo sangue carrega em si o cheiro do poder) e, apesar de não ser a presença, ela o embriaga de emoções profundas, que nenhum ser humano vence. Ela o seduz. Seduz, sem ter nem mesmo de encostar nele; a presa, totalmente indefesa. Ele a segue, por um sem número de corredores, salvo, dono da certeza de que a morte é tudo o que ele deseja. Mas não, hoje não é o seu dia de sorte, nuon, ou é?

A dona da vida e da morte se aproxima, seguindo o cheiro mais forte que encontrou esta noite e, por detrás dele, ela bebe de seu pescoço.

De repente, ela vê – nas memórias dele, encontra-se um cheiro, completa e opressoramente delicioso, mas não vê o rosto do alvo. Ela se concentra e bebe mais um pouco; não há como controlar as memórias dadas pelo sangue mortal, mas descobre que o alvo é branco e jovem. E lindo, ela sente o cheiro. Enfrentar os anciões por nada, por sangue sem poder, não vale a pena. Quase!,... Se algum sentido invisível não a tivesse avisado, a caça desta noite teria encontrado sua Deusa, que sem dúvida não lhe culparia; sem sorte, e vivo, ela o abandona.

O cheiro do poder está presente, mas sem provar, será impossível dizer a sorte de poder ou, sem vê-lo, se é a sua presença.

– Você veio aqui apenas para uma reunião social, Gusa? – ela se senta, em uma poltrona – Ou você aprecia a caçada?

Asal está vestido com a veste de combate, roupa que apenas os membros da força de elite bruxa, a Tropa, pode usar. Mas, ele é discreto. Está de camisa social, e calça de linho, por cima da roupa de militar.

O bruxo tira do bolso uma garrafinha, bebendo um gole da cachaça que sempre carrega consigo; e aperta os olhos, pensativo.

– Você é uma verdadeira caçadora, como poucos o são – elogia Asal – Bela, e perigosa.

– Está bem,... – ela suspira, enfeitiçada pelo cheiro de poder que não sabe o que é, nunca sentiu, mas saciada – Antes,... – sutil, ela indica onde estão.

– Ah!, o camarote? Duas ou três sugestões, nem precisei de focus. Também tenho uma pergunta. Ele parecia ter sido aceito no paraíso.

– Sobre a caça? Imaginei que você soubesse: você fala Kfu, a língua nekron. Não, eles não se lembram de nada, depois. É intenso demais. Seja direto.

– Descobri o que o Conselho quer.

– Hmmmh,... E o que é?

– Depois de acompanhar o "tratamento" que estão fazendo, não tenho um mínimo de dúvidas; ele é um Corruptor.

Isso tirou um pouco o transe das memórias de sua mente, e Najka parou para pensar.

– Porque o mantêm vivo?! Devem matá-lo! Agora.

– Não vim aqui para ouvir você dizer isso – estranha o bruxo – Elliot é a nossa esperança. Deixar ele morrer não está nos planos.

– Porque você veio me ver caçar? Para me dizer que o Inimigo merece a nossa misericórdia?

– Najka, pense – ele dá mais um trago na cachaça, franzindo a testa, como se seus pensamentos fossem óbvios.

A noturna inclina de leve a cabeça à direita. Tentar deduzir o que um bruxo com tanto treinamento quanto ela está insinuando não é tão simples.

O paraíso lhe foi escapando, ao imaginar Elliot morto; ela olha ao redor, os mortais entorpecidos – Béalae, 13 de outubro, 2213, diz o telão holográfico.

As Profecias, Elliot,... em um terço de instante, ela conclui.

– Ele é a chave.

– Exat-tamente!,... Sabia que você não ia falhar – ele sorri – Tenho mais uma coisa a lhe dizer, o Conselho não vai matá-lo: vai trazê-lo de volta.

– Isso, já é estupidez! – ela se exalta.

– Sei o que você pensa sobre isso, que é impossível. Também acho. Mas o Grande Conselheiro decidiu, já. Agora, precisamos conversar. Muito sério, isso é muito sério; se for possível,... Temos de agir juntos.

– Nós precisamos das Profecias.

– Elliot disse, eu me lembro, de que ele precisava de "gatilhos", para poder ver as coisas, e vou precisar dizer isso ao Conselho. Se isso não os convencer, eu não sei o que vai, pois Sabarba demorou cinquenta anos até eles deixarem ele ver o que eles têm! Só não acho que vamos ter sucesso, sem tentar.

– Se você não tentar, o "Não", você já tem. Isso é um dos mais antigos dos ditados de meu povo, você falar nossa língua. Sabe disso.

Asal Gusa toma mais um gole. Najka regenera seus pulmões, e tira de seu bolso um maço de cigarros, abandonando o e-cig dessa vez, ela estende diante dele, deixando no ar seu pedido; ele estala os dedos e faíscas verde e negras se formam, com as quais ele, murmurando – Nar! – acende o cigarro para ela, que dá um trago longo e solta a fumaça, se lembrando do cheiro – "Que poder será esse, que ele tem? Até a caça tinha o cheiro em suas memórias", pensa ela.

O bruxo faz um gesto e o fogo desaparece.

– Nós,... – ele parou, com o punho fechado, do gesto para terminar a sua magia e eles se olham nos olhos – temos um problema,... Asha. Tudo me diz que ela é a solução para o problema, não o próprio. Você está certa, sim. Nós vamos precisar das Profecias,... mas,... O que todos nós, Maestros, sabemos, é que ela foi profetizada para ser a maior bruxa de todos os tempos,... Isso pode querer dizer tantas coisas, ao mesmo tempo, você entende; e nós temos a profecia já.

– Está bem – ela para, e dá mais um trago – Você quer que eu ajude você a ajudar a jovem bybki,... Asha,... O que mais? Seu plano, qual é?

– Fazer acontecer – ela sorri, deixando óbvia a sensação de que entende, e que concorda; ele ergue sua bebida – Hitu?

– Hit.

Primeiro Capítulo do Livro dois

Cap 1 – Livro 2 – Nem toda Enganação, há

"Hoje é dia dezessete de Outubro, 2213 d.C., e faz calor nessa noite em São Sebastião, onde a noite de hoje, marcada, sela o destino do ser humano. Dor. Sofrimento. Paixão, desespero, e guerra. Amor, porque não? Sempre foi ele. A razão dorme, se o monstro somos nós. Além do Nada, que nunca será esquecido. Toda uma eternidade na prisão da carne, pagando pelo sonho da perfeição. Neste caminho nem todas as estrelas se apagam; nesta noite, umas com o devido temor, a que se dar ao destino. Destino, de que nem estrelas escapam, de se consumir, subverter; e de, um dia, dar a luz a uma nova vida: esta também, para todo, todo o sempre, amaldiçoada, como todo ser humano, com a escolha – a escolha, a única constante.

Sobre as luzes observo, de minha órbita.

– Nós estamos esperando".

Kenerales Plypa, Arda Liber

Frota de Observação Lyène, em órbita de Arda, ou Terra

– Ano 200.815 de Arda.

"E nós, também", pensa ele.

Nesta noite quente, Allia Mojde el Sauza, 32, bra de nascer, que herdou o sobrenome de Tainá el Sauza, Santa Wicca, quando se casou com Ifar Boaventura el Sauza, o pai desaparecido de sua querida filha, tão dedicada, Asha. Na mesa de jantar havia pão, que seu futuro novo marido tanto gosta, e a tradicional culinária bra, arroz com gergelim, feijão preto, que ele ainda não se acostumou a comer, batata assada com brócoles (é claro que hidropónico), salsichão, picanha, farofa e couve refogada ao alho e óleo. Diz a lenda que o peixe se pega pela boca, era o que sua mãe dizia. Não quer contrariar a memória dela, agora.

O assunto era tranquilo, falavam sobre gastronomia.

Aklaus acredita que este é o único assunto no universo que não gera estresse, pois se alguém não gosta de uma comida em especial, tudo bem; mas ela anoitece ao perceber que ele está muito cauteloso, o que não se encaixa nada em um jantar para dois.

Assim, ela sabe que ele, quando estava desaparecido,... bem, ele não gosta de falar no assunto, mas sua vida se modificou por completo. Ele é muito atento. Parece perceber até mesmo quando a respiração de alguém se modifica. E hoje ele está mais uma vez com aquela expressão de que está esperando por alguma coisa. Aplegia? Magos?,... Ela tem medo de lhe perder, tal como perdeu seu antigo marido; mas faz o que Ifar a ensinou: esvazia a mente e, como se fosse bruxa, tenta observar tudo como se essa fosse a primeira vez; ele sorri, calmo. De repente, surge uma mulher, de sardas e terninho, ao seu lado.

– Desculpe interromper, mestre. Há uma chamada para o senhor, mas não entendi bem o que a prioridade da ligação quer dizer,... ela diz: Ediche.

– Oká,... Vou atender; mas peça para aguardar, Diana.

O homem, calmamente, pegou o guardanapo e olhou para sua noiva, que lhe deu o mesmo olhar tranquilo de sempre, dizendo a ele: “Tudo bem”.

– Vou atender no jardim, Mojde – e deixou um beijo na testa de sua amada, antes de sair. Aquela não era palavra que ele pudesse ignorar.

– Transmita a ligação, Diana – ordena, acendendo o cigarro.

Nunca se poderia descrever o seu rosto naquele momento, ele não sabia se aquilo era uma ameaça, mas era obviamente o que menos esperava.

– Olá, Aklaus. Como foi a viagem? – disse a nobre, em húngaro.

– Exxina,...

Soprou a fumaça, tenso. Deixou a respiração ativar seu treinamento, para que nada, nem mesmo o mínimo gesto dela lhe escapasse.

– Como conseguiu meu profeta? – ele decidiu evitar sua língua nativa.

– Calma, meu amigo. Eu não venho falar com você em nome da Ordos. E não, o seu contato não será passado a ninguém; fique tranquilo.

– O que você quer? Eu me desliguei da ordem.

– Eu sei, Aklaus – ela fez uma pausa – Eu sei de tudo.

Aquilo o fez passar o guardanapo na testa. Estava suando; e segurava o coração, mas acalmou-se, respirando fundo, preparado para qualquer coisa.

– Onde quer chegar? – ele pergunta.

– Sim, sim. Você sempre foi direto. Como foi a viagem à capital? Eu estou aqui para lhe dar um comunicado. Você não percebeu pela prioridade?

Agora, Aklaus não sabia o que responder, mesmo.

Respirou pela boca, incerto; ele precisava confirmar.

– Como,... voc-,... – ele ia dizer, mas ela lhe interrompeu.

– Indo direto ao ponto, meu amigo – diz a maga – Eu estou em contato direto com a General Plypa; e nós estamos em uma encruzilhada do destino, terrível. Sem volta. A Ordos agora foi longe demais. Eles nos condenaram, primo; e vamos ter que lutar agora pela sobrevivência, nada mais.

– Lyène,... Agora entendi a prioridade, minha prima. Me desculpe, se passei tempo demais sob as ordens erradas. Você deve entender isso, claramente, agora; o absurdo que não chega ao fim, sei disso, mas não entendo o seu papel,...

– A capital? – ela insistiu em saber.

– Ah, sim. Indescritível, Exxina. Não é possível dizer. Eu viajei por mundos, e mais mundos, impossíveis de explicar – ele diz, mas pensa "Preciso de evidências de que ela diz a verdade",... – Eu vi mundos que muitos sonham em conhecer, sei lendas que ninguém do nosso mundo conhece, vi seres e civilizações que todos apenas imaginam. Mas nada disso me convenceu de que a vida não seja uma maravilha épica. Ofereci meus serviços a Senhores, Deuses e Extradimensionais, e recebi o treinamento que só eles dão, nunca a alguém que não prove seu lugar na Guerra Contra a Corrupção; e não devíamos falar sobre isso.

A maga esperou, pensativa. Ele havia tocado agora no centro da discussão, tudo o que realmente está em jogo: A Guerra; e ela parece estar ciente.

– Você é o traidor – revela Exxina.

O mago umedeceu os lábios, e passou a mão atrás da orelha esquerda. Então, para sua imensa surpresa, ela passou a mão no rosto. Sua pergunta "O que você quer?", lhe foi respondida com "Fazer uma revelação", e assim, ele conclui – "Ela tem treinamento, e me parece treinamento regencial,... Isso em si já é uma revelação",... pensa, calmo. Não é hora de adiantar isso tudo, mas sim, a hora de fazê-la questionar – e, também, oráculos podem ver isso; ou não.

– Onde você quer chegar, amiga? – incluir "amiga" na sentença é um risco, mas se ele estiver certo, isso fará com que ela lhe faça a revelação.

– Vou tomar o seu lugar – diz Exxina – Tenho tudo planejado. Durante sua ausência, o mundo está se afundando, passo a passo. Dei o tempo necessário para você se ambientar e, só então, entrar em contato. Você já deve saber. Elliot é o hierofante, agora. Eu mesma não esperava que o melhor homem do Arcebispo ia ser,... – ela raspou a garganta, duas vezes, e ele logo arrumou a parte de trás da roupa, fazendo ela rir, mas feliz. Eles usam os gestos da única Ordos em que ele confia nesse mundo; se comunicam "Você já sabe?" e ele, "Sei,... Isso terá sua hora,... Estamos atrás da mesma coisa" – Vejo que seu tato, até pra situações de estresse, está intacto. Tinha me esquecido, Mal-ec. Bem,... Seja bem-vindo.

– Obrigado. Diana, mande Týr me trazer um uísque. Ah, sim. E polarize o holograma, para que ele não veja a minha visita, também, por favor.

Ambos ficaram calados, até o androide trazer e ir embora. Aklaus percebe que a sua prima está inquieta, esperando novos sinais; "Ela quer alguma coisa".

Desta maneira, logo depois dele ter bebido um gole, ele sabe que é impossível esconder o olhar maravilhado de um viajante de tão longas distâncias, e ela parece saber disso, pelo olhar. Isso é incrível, pensa ele. Ela parece ter sido treinada diretamente por um agente da liderança da Ordos Regente, 5B, muito provavelmente, ou 2Iota, e ele se lembra de que ainda não conhece o 2Iota, para saber as intenções dele no Evento. Se ele estiver certo, a antiga companheira de missões da Teocracia irá lhe revelar isso, agora.

– Não conseguimos evitar, Aklaus. A NT está quase operacional. Além disso, sob as ordens de Gogol, o herdeiro Kaole foi assassinado – ela esperou – Você deve ter lido nos jornais essa notícia tenebrosa. Ele nos condenou. O Coyote também; está morto. A Grande Convenção da Noite está impondo muita pressão sobre a Tática; e será impossível impedir que percebam tudo, mais ainda sobre a existência de um inimigo, Elliot. Até as Tropas de Elite intuem,... As Luzes, Aklaus, ninguém tem controle sobre elas. E, sob O Comando da Ordos, ninguém pode estudá-las. Mas, eis que surge o Hierofante. Só que,... ele está sendo mantido em coma de forma a não usar A Voz. Ele caiu. O Evento está indo Abismo abaixo, primo. Mas ainda temos a Herdeira. Ainda. Mas é perigoso. Me garantem que ela tem uma personalidade incrível; deverá ser a Sinistra mais poderosa que já existiu. Nunca imaginei tomar parte em um Evento, só do pouco saber que tenho sobre o assunto! Mas Elliot,... você fica encarregado dele; e por isso eu preciso tomar o seu lugar no evento. Sem o Hierofante, ela irá morrer; Kalai quer trazê-lo de volta, e é aí que você entra, pois só alguém do Grande Conselho pode nos ajudar.

O arcanista fez silêncio para pensar. Ela lhe deu informações suficientes para concluir que está do seu lado; ou, ao menos, ela acredita fielmente que está.

– Você sabe muito, para alguém sem treinamento, Exxina.

– Eu te disse. Eu sei tudo. Tudo,... o que é possível. Você,... Sem dúvida eu tenho um papel menos importante que você, com treinamento do Conselho.

– Quantos faltam, agora? – ele se convenceu – Você precisa me dar as informações, e eu lhe garanto a viajem à capital; a General Plypa irá me ouvir.

– Três. Nga, eu estou encarregada Dela. O Fogo de Ahura Mazda, aceso já desde os tempos antigos, será deixado por último, e Oloyo, a última âncora. Isso foi longe demais, Aklaus. Você ouviu falar da explosão do Statbureau? Foi uma âncora, que a Ordos deixou passar de um lado ao outro. A Cornucópia. Eles vão destruir tudo, e ficar com o poder para si. Essa loucura deve ter fim. Você sabe disso; só que, em detalhes, você é muito mais importante do que eu. Eu sei disso também, Éjjelég; e, então, planejei tomar o seu lugar no evento.

– E a Grande Guarda? – quer saber o mago, esperando pela resposta.

– Está em tese finalmente instalada, menos em Neon Tokyo, na lua – diz Exxina – As várias Ordos estão divididas, mas sem dúvida estão impressionadas em receber informação vinda de uma fonte tão precisa. Há cinco Dinastias, já. Hussel e Kamarati, no aglomerado sudeste, Kopfer na Europa, Hah-Ammá entre os comerciantes, e Taiku, que enfrenta muita resistência no oriente por causa dos ninjas. Eles têm Ordos. Comum, mas,... Se os Deuses pudessem nos ouvir! Tudo isso foi feito com recursos locais, da maneira como isso é e deve ser feito, como manda O Grande Conselho Galático; não há dois mundos iguais no universo.

– Impressionante. Achei que seria mais difícil – reflete Aklaus.

– Não foi, nem é fácil – Exxina lhe relembra – Desde o veneno genético que matou Amadeu Lebeau, o maior e mais poderoso telecineta do mundo, em 2013, a Ordos elimina todos os rastros do que poderia vir a ser a Grande Guarda. Ela foi caçada, exterminada. Um absurdo. Terrível. A destruição da Escola,... Anktonnius Augustinus Eber Drakley Blut, Doutor Blut, morto, foi o ponto de partida. Temos de impedir essa guerra. Muitos morreram pelo futuro, Aklaus, não se esqueça. E não,... não diga que é fácil, pois não é fácil para ninguém e você sabe.

Fez-se silêncio novamente. O homem bebeu seu uísque, dando um trago demorado no tabaco. Ela parece perceber nele os sinais da viajem, pensa ele.

– A mídia não vai permitir, Exxina – ele começa – Você precisa me dizer o que você está planejando. E mais, Lebeau e Blut são lendas; não creia nelas.

– A mídia nihon e a mídia english, ambas estão sob as ordens da Ordos, mas meu espião me garante que Elliot viu: a solução da guerra. Entrei em contato com as tradições sob a mídia árabe. Eles até já estão usando métodos atribuídos ao Grande Conselho. Claro,... Eles não sabem ainda – e vão ser gerações até isso acontecer, mas fiquei muito feliz em saber. Houve algum contato do Conselho com eles, mas eu não sei ao certo em que século foi isso, exatamente. Bem,... – ela faz uma pausa – Acho que talvez não goste do que vai ouvir. Vocês do Grande Conselho lutam com todas as suas forças na direção contrária. A única saída é envolver a todos, comuns e pessoas de poder, e sobreviver ao Evento de maneira totalmente pública. Tudo irá mudar. Mas você, você deve salvar o Hierofante.

Ele franze as sobrancelhas, pensativo. Sabe várias lendas, diversas delas, se lembrando do que sabe dos momentos da história em que magia, manifestação e poder se tornam públicos, e nada do que ele conhece são momentos adoráveis, no passado e história de nenhum daqueles mundos.

– Você não vê nenhuma outra maneira de fazer isso.

– Não existe – insiste Exxina – Se tentarmos fazer qualquer coisa sem o apoio da população, vamos ser esmagados.

– Quem está do nosso lado, na guerra?

– Está planejado que judeus, chineses e eslavos vão para as ruas. Cristãos podem apoiar a Ordos, num primeiro momento, devido à religião por trás da Ordos; você sabe do que eu estou falando, primo – ela abaixou a cabeça – Nós precisamos do Hierofante: você fica encarregado disso. Não vamos publicar as Profecias, para que o Evento aconteça de forma a favorecer a Escolhida que for mais dedicada. Mas Asha deve se preparar. Você sabe que os testes previstos nas Profecias são, bem, enfrentar a Morte,... Tenho informações sobre as outras, e você vai receber isso da Grande Guarda, mas ao fazer isso, a Ordos deve dar as informações aos tutores das outras. Isso deve conquistar a vontade deles, deve colocar a Grande Guarda, enfim, como fonte, eliminando a criptocracia corrupta da Ordos que gerou tudo isso, que você conhece tão bem quanto eu.

– Entendo – ele faz uma pausa – Quando vai ser?

– Agora. No Dia das Bruxas, 31 de Outubro – revela a arcanista.

– Faça o que for necessário, ediche, tudo que for necessário. Isso é a ordem que tenho, minha amiga; mas estou em dúvida,... Tornar tudo público,...

Mais um trago, do uísque e depois do tabaco, pensativo.

– Algo que eu disser vai lhe impedir de fazer isso?

Exxina não lhe respondeu, mas apertou os lábios, deixando claro que essa decisão já estava tomada; e parar isso,... só quer dizer perder, e perder significa a morte de todos os envolvidos, que agora são espiões, bem colocados, em toda a sociedade. Não. Parece que realmente não há escolha, agora que a roda está girando. Fazer a roda girar é difícil, mas parar a mesma roda, já em movimento, é muito mais perigoso – "Eu preciso do espião dela", pensa ele.

– Meu espião me diz – revela o mago – que houve uma prisão. Na festa de entrega dos Segredos, mas não pode me falar mais nada. Sabe? Eu concluo que parte do Segredo o qual lhe foi entregue, pelo falecido Sabarba, era sobre isso.

– Seu espião está certo, Aklaus – diz Exxina – Não sei além disso.

– Preciso,... – ele suspira – Preciso saber o que a Intervenção Tottémica irá fazer, e se o Antigo Tratado será cumprido, pois isso está nos meus planos.

– Os alienígenas astrais estão sob controle; e o tratado garante aos monges o poder para proteger as passagens planares. A Intervenção Tottémica irá manter os monges. Todas as passagens estão sob o controle dos monges. Só as fadas não sabemos o que vão fazer, os alfas não se importam com o mundo.

– Com o mundo, não,... – diz Aklaus, pensativo – Me diga quais as Escolas estão do nosso lado e me garanta que Nga será mantida a salvo. Nós precisamos da Morte, Exxina. A Ceifadora é nossa prioridade: perder a Morte para a Ordos, não. Se eles conseguirem o poder dela,... o Evento termina; e as escolhidas,...

– A Grande Guarda vai garantir isso, mas isso significa manipular os Kaole, o que você deve imaginar agora que não será possível. Bem,... Não é impossível. Faremos tudo o que pudermos para evitar, mas os oráculos já estão vendo, e aos poucos revelando aos seus mestres a guerra sem proporções que está a caminho. Tudo. Tudo o que a Ordos fez, e você sabe, desde a sua fundação, acabaram por condenar o mundo; e, sem uma nova Sinistra, você já sabe o futuro.

Aklaus olha para baixo, parecendo muito concentrado.

– E nós também,... Recebi a resposta – diz ele – Plypa está esperando por você; e você vai adorar o Egito. Há mais uma coisa que você precisa me dizer?

– Sim – ela abaixa de leve o rosto – Você precisa saber que Najka, a filha da noite seguidora do Arcano XIII é o que falta da Profecia desconhecida. Você deve conquistar a confiança do bruxo Asal Gusa, também. Ele tem as partes que faltam das Profecias. Saiba que isso lhe foi uma informação enviada pelo Arcano da Força, que também recebeu um dos Segredos de Sabarba, e identificou que O Hierofante caiu, naquela noite. Não sei qual é o papel exato do Professor Gusa nas Profecias; e A Roda da Fortuna está fazendo o máximo para não me dizer o que é, mas eu acho que a função dele é desfazer o que fizemos. Isso, na minha opinião, há mais Profecias do que devia, e precisamos saber, sobre a Escolhida,... se ela falhar, o mundo morre; e ela irá enfrentar e terá de vencer A Morte,...

A traidora fez uma pausa, antes de concluir a sentença.

– ..,. sete vezes.

– Seria possível,... que o tal vidente Elliot ou o vidente dos vinte e dois livros consigam prever o que os bruxos devem fazer para corrigir as Profecias?

– Hmpf,... Você acaba de dizer uma coisa muito possível.

– Garantam A Ceifadora – pede ele – Eu cuido para que as outras Nações e Escolas se unam, mas preciso que árabes, eslavos e chineses decidam rever os conceitos de sua coisa pública, são as nações mais numerosas. Tenho certeza que os indianos não serão nenhum problema, a África também, mas a Europa,... ela é o centro da Ordos. Só a Amerika vai resolver isso; precisamos deles. Vocês têm alguma coisa a ver com os assassinatos? São mais de setenta, agora,...

– Não – ela torce a boca – Não sabemos quem é o assassino.

O mago olha para baixo, e percebe que ela viu que isso era uma resposta que ele precisava, mas também baixa o olhar. "Ela não sabe", conclui ele.

A noite tem brilhos brancos leitosos, abaixo dos paraluzes.

– Só uma última coisa, Exxina – ele avalia as próprias palavras – Como o seu espião consegue saber o que um vidente está vendo?

– Noção – ela respira fundo, enquanto Aklaus decide e, então, ao balançar a cabeça, confirmando, ele e sua prima se entreolham, uma última vez.

– Faça uma boa viajem, Mal-ec – ele dá fim à conversa.

– Sou honrada de ter lhe conhecido, Aklaus Éjjelég.

Aquilo já estava decidido. Sabia reconhecer quando a voz de alguém indica o fato, o tom de despedida, que ele foi treinado a reconhecer, tão claro.

– A honra será lembrada, Exxina Víz Egy – despede-se ele.

E o holograma se desfez enquanto ela pousava a mão sobre o coração. Sem esperar, ele invocou Diana, que aparece imediatamente, pronta.

– Nká te kokkým twilá fer Diannia tága beg Klég-ec – diz ele. E, a seguir, conjura uma magia – Tassammaka! – e da canhota saem três faíscas. Seu suspiro de alívio demonstra sua alegria, pois esta magia, dourada, lhe diz que há apenas três seres inteligentes na área: obviamente ele e sua noiva, Mojde, a lhe esperar à mesa, inocente; ele esvazia sua mente de tudo isso, e vai terminar o jantar.

Sua dúvida se aventura em quem é o terceiro ser inteligente, porque seu peka sabe se esconder dessa magia, e ele pensa em um protetor de sua amada, que ele espera fazer a proposição, pois ele não é nem será um traidor.

– Você é um guardião? – pergunta ele ao ambiente, e ouve "Exatamente", dos jardins da casa de sua amada – Vou voltar para dentro de casa.

A mulher de sardas, sua avatar, ele vê seus olhos serem fendas alaranjadas e a pupila piscar; ela abaixa a cabeça, depois suas orbes voltam ao normal.

E sua avatar, então, desaparece.

Ao voltar, Mojde havia aberto uma garrafa de vinho. Servindo-lhe uma taça, ela fez um silêncio que só uma pessoa de poder sabe fazer.

– Você está preocupado com meu guardião.

– É um dos azuis? Sabia que a natureza não iria deixar você sem algum tipo de proteção.

– Vou te ajudar.

– Você não tem treinamento, Mojde. Estar ao meu lado já me ajuda mesmo, e muito.

– Mais treinamento que você pensa, traidor – ela disse; Aklaus mexeu a taça de vinho bastante desconfortável e, de repente, feliz.

– Você me surpreendeu – conclui.

– Eu era amiga de Sabarba e sou de Tamara, e eu recebo toda semana uma anotação sobre o que Asha aprende. Se eu não tivesse isso, teria tirado ela da escola, tudo teria dado errado. Tamara me explicava tudo, porque Sabarba havia dado a ordem a ela de me explicar, e eu tenho um espírito guardião que protege tanto a minha casa quanto eu mesma, quando tenho de ir a algum lugar, e por isso, não pude deixar de ser informada de que você seria um traidor, mas que a sua prima Exxina vai tomar o seu lugar, e você tem supertreinamento.

Eles deixaram o silêncio acalmá-los.

– Como você quer ajudar, Mojde?

– Acredito que a Terra é Ter1ka, e não Ter5ka. Precisamos de embaixadores, e eu estou na lista há algum tempo; assim, a Aliança sempre tenta influenciar as guerras e eventos de outras Ter, e precisamos mantê-los fora disso. Estou mesmo pensando em me tornar diplomata; isso me torna pessoa de poder, e não só a família de uma pessoa de poder, minha filha. Eu conheço a Nação da Magia tão bem quanto um aluno de uma capela, não tem como não funcionar.

– Embaixadora ou Diplomata? – Aklaus bebe do vinho, deixando a saudade do vinho de flores de Toj1ka, ou Akkoya, em paz – Entendo. Alguma coisa que eu disser vai fazer você mudar de idéia? Me parece que você já decidiu.

– Decidi – Mojde se levanta, com a taça e a garrafa, e leva Aklaus para a sala de estar; a família dela não é pobre. A família de Mojde tem uma gravadora musical, uma rede de lojas que vende de tudo e também uma linha aérea, mas é uma trasportadora, então ela não precisa se preocupar – Acredito que existe uma pergunta esperando para ser feita, e uma resposta que já foi dada.

– Antes de relaxarmos – diz Mojde – Alguma notícia sobre qualquer tipo de Ilha de Realidade?

– Não, mas vão aparecer.

– Sem dúvida, vão.

– Na verdade, se tivermos Ilhas de Realidade, isso seria quase um tipo de bênção sobre o evento, mundos tomando o nosso lado no evento.

– E é exatamente por isso que eu perguntei.

– Você precisa me dizer qual é o grande problema, Aklaus.

– O herdeiro de uma raça foi assassinado, na aplegia.

Mojde passa a taça de vinho por detrás da taça de Aklaus, e sente que tem de ser ela a fazer a proposição; sendo assim, ela se decide.

– Eu já fiz a pergunta.

– E eu já aceitei.

– Eu acredito no amor verdadeiro.

– Eu também.

(Fim do Cap 1)