Os Segredos de Sabarba

De Enigma
Ir para: navegação, pesquisa

Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Vinte e Dois -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados (Sol Cajueiro).

Este Capítulo foi publicado no dia 18 de Outubro de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 22 -- Os Segredos de Sabarba

Elliot elogiou Asha, mas ainda assim ganhou – "Xadrez é uma arte, igual à arte da guerra", disse ele; e "Leia Sun Tzu". Ele sabe que não pode chamar atenção a ela, então finge normalidade. Ela parece pensar que ele lê sua mente e ele trabalha deixando a dúvida; mas vê a bruxa se afastar dele.

Asha está decidida a fazer o esforço para merecer seu Enigma.

"Impressionante, alguém tão jovem", medita ele,... "ter superado a onda de paranóia que sempre domina os padrinhos magos, logo que eles começam a ter acesso ao seu futuro, tão rápido. Isso sim me diz que ela é uma escolhida".

O oráculo enviou uma mensagem a Asal-sã, pedindo uma reunião com ele e a vampira, Najka, que confirmou antes do bruxo – "Qual é o segredo dela?", se pergunta o jovem oráculo; mas Elliot se vê morrer, em suas muitas visões.

– Hoje,... – Asal fala em voz baixa; Elliot vê a lareira acesa: uma excelente escolha, Ahura Mazda lhe deixa tranquilo – venho do Conselho.

Asal Dlaíomh Gusa foi chamado ao Conselho, ao fim da lua. Ele se demorou toda a noite lá e Elliot espera, ansioso: não vê nada sobre estes anciões.

À noite, Elliot, em meditação, ouve a voz de Asal dizer – "Eu preciso da sua presença em minha sala. Najka está vindo", abrindo os olhos.

Sente que os magos lhe estão fechando, eliminando.

Não parece haver outra explicação para que não encontre visões em que esteja vivo – "Dias, talvez? Horas?". Está quase sem saída! Agora, mais que nunca, vai depender de Gusa e Windmeister: se vão aceitar sua proposta ou não.

Asha pediu o impossível, eles vão morrer: "Tsc!", ele estala.

– Você precisa me contar tudo o que aconteceu, Elliot. O Conselho não vai permitir um servo dos magos aqui, livremente – Asal revela.

– E você vai dizer a eles tudo o que eu lhe disser?

– Você não consegue ver? Achei que você era um vidente.

– Na verdade,... não – Elliot inspira fundo – Agora que estou deste lado do Véu que separa as suas sociedades, vejo como os magos estão enganados: eles não têm todo o controle que pensam ter. Não, não vejo nada sobre o Conselho que rege sua sociedade; e não, eu não faço a menor idéia do porquê. Estou aqui hoje para fazer um acordo com você e Najka, ou... senão, irei morrer.

A vampira cheira o ar, inclinando a cabeça, séria.

– Definitivamente, você acredita no que diz.

– A Morte lhe revelou um segredo medonho, que você insiste em não falar para nós, não é? Chegou a hora dessa conversa, Gulanta.

Elliot faz uma pausa, sentindo uma presença conhecida.

"Você não deve dizer nada a eles, Elliot" – diz Aella, invisível a não ser para o jovem oráculo, ali no canto – "Todas as pessoas que ouviram isso estão sendo mantidas, em segredo, sob o cuidado de todas as entidades. Elas enlouqueceram ao ouvir o que eu induzi você a deduzir; então, tenha muito cuidado".

– Todas as pessoas que descobriram isso estão loucas, sob os cuidados da entidade Arkkana-Sem-Nome. Desculpem-me, não farei isso a vocês.

– Sabia que você não ia dizer nada... – Asal se exata.

Asal cruza os braços, com a destra sobre a boca. O oráculo sente que há uma outra entidade presente; mas não sabe qual, não conhece.

– Acredito que O Futuro está ao nosso lado – ele diz.

– Você não disse que iria morrer? – Asal duvida – Sabe? Tem horas que eu daria quase tudo para estar dentro da sua cabeça, vidente.

– Oráculo, por favor. Eu posso providenciar isso. Eu pedi para que nós nos reuníssemos exatamente por isso: preciso de vocês – Elliot vê diversas das suas visões desbotarem, deixando de acontecer – O tempo corre contra mim. Posso estar morto antes de terminar de falar, a qualquer momento. Eu ofereço a vocês os meus serviços como Oráculo Livre. Isso é urgente, mesmo. Se não fosse pelo Fogo da Sabedoria, eu não poderia falar isso com vocês hoje; mas os meus dias estão contados, não são muitos e só vocês podem me salvar.

Asal-sã se lembra dos diários que tem: Elliot, se ele estiver certo, morre, de fato, mas ele é citado depois várias vezes e isso não faz sentido.

– Fale o que tem a falar, oráculo – diz Najka, mas sem emoção.

– Só me tornando o oráculo de vocês dois, será possível evitar que o fim me alcance, a qualquer momento. O contrato me garante ver todos os passos, um a um, para garantir o futuro que vocês definirem que desejam, assumindo só que nenhum nível cinco esteja me impedindo de ver exclusivamente, ou seja, eu garanto o seu futuro em visões que garantem ambas as partes.

– Até onde vai esse contrato? Não gosto nem um pouco disso.

– Eu também não, Bybka – concorda a vampira – Diga o que nós temos a perder, auspitia. Sem rodeios. E eu vou saber se isso é certo.

– Vocês podem contrariar o que o destino tem reservado para vocês, mas quem perde com isso sou eu: se eu não disser o que querem, eu morro.

– Isso parece um contrato bem ruim, pra você; hein, amigo?

Elliot suspira. Asal está coberto de razão, ele sabe. Visões começam a dar lugar a dores – o corpo inteiro dói.

– Eu também não tenho como desfazer o contrato. Serei para sempre o servo que vai garantir o futuro que vocês desejam; mas, ao mesmo tempo, isso me garante que eu vou conseguir o futuro que eu desejo. E,... – ele põe as mãos sobrepostas, palma contra palma: Elliot treme, de leve – Eu vi O Fim do Mundo; e isso garanto a vocês: apenas o contrato com vocês vai me ajudar a impedir esse destino terrível, que as profecias de vocês confirmam.

– A extinção, ou a danação eterna – Asal pondera.

A filha da noite se concentra, sem chamar a atenção, para ter certeza se o major professor tem certeza do que acaba de dizer, concluindo que, de acordo com ele, este é o dilema da Mãe das Guerras, revelado em palavras.

– Existe outra opção, Gulanta? – Najka indica temperança em sua voz; mas o jovem sente dor e está concentrado em não morrer, ela percebe.

A resposta só veio depois de momentos de respiração pesada, enquanto a vampira e o bruxo tentam se decidir sobre a proposta já feita.

– Acredito que não – Elliot começa a não se ver mais, nas poucas visões de futuro que tem.

– Você sabe de uma coisa, Elliot? – Asal balança a cabeça – Você garante que não tem outro jeito, a não ser se tornar nosso serfus! Sei que não temos o tempo de discurir isso; não do jeito que eu quero! Mas essa é só uma das muitas decisões difíceis que esperam por nós. Serão muitas; ah, serão! Você tem como me dar a sua palavra? Como eu vou confiar nela? E se isso for um truque, já que você era serfus de um mago? Vou dar um jeito de te matar por isso, acredito sem dúvida que você sabe o quanto estarei disposto a isso.

– Eu não tenho opção; você tem.

Asal pondera mais uma vez, respirando fundo.

– Eu aceito – diz o bruxo, se virando para Najka.

– A imortalidade tem lendas muito antigas sobre oráculos como você, eu acredito que você não saiba disso – a filha da noite medita; mas, ao contrário do bruxo, sua extensão de percepção de tempo é muito mais ampla que a dele e o mínimo de tempo pode ser expandido em minutos – O que acontece se eu quiser mudar o contrato? Se isso for possível, minha resposta é sim.

Elliot só confirma com a cabeça sem falar nada.

Instantes preciosos se passam, o jovem meio envergado de dor, até que ele fecha os olhos e os abre: totalmente negros, alienígenas.

– O que nós precisamos fazer, Elliot? – mão na faca.

– Nada, Asal – Elliot se endireita – Está feito.

Najka concorda com a cabeça, sentindo a diferença.

– Sinto que nosso Kami adquiriu Presença – ela sorri, feliz – Acho que posso dizer que funcionou; do ponto de vista de uma imortal, ao menos.

– Espírito,... sangue ou família? Você disse "presença"?

– Kyle – ela inclina a cabeça – Não sabia que você falava Nekron. O que eu devo esperar mais de você, auspitia? Presença é um tipo de segredo.

– Você recuperou suas memórias – Asal entende.

– Consegue se levantar? – a filha da noite se dispõe a ajudar.

– Não, ainda não. Eu vejo você, – Elliot mira os olhos negros em Asal Gusa, órbitas semelhantes ao Nada – comandando o combate contra as Luzes, mas eu não consigo ver como chegar a esse futuro. É um labirinto, acho. Isso não devia estar acontecendo – o jovem se concentra, focado – Acredito que os religiosos por trás da Ordos, ah!, sim: não digam o nome da Ordos. Tenho certeza que sou forte o bastante para enfrentar um único oráculo, mas não dois mil deles.

– Dois mil?! Ficou maluco, Gulanta?! – Asal se exalta, mas finalmente tira a mão da faca – Você não pode estar falando sério, jovem!

– Mas estou – fecha os olhos, apenas para abrir novamente – Vejo que você trouxe um mapa para nos mostrar, Najka.

A imortal estica a mão, dizendo "Tela", e expande com a mão. O mapa tem incontáveis pontinhos de luz.

– Todos os pontos são o local onde estão as Luzes. Beta Leeoh, um dos oficiais do Hauki, me garantiu que eram pontos quentes antes de se tornarem o que são hoje, me dizendo que esteve em alguns deles.

Asal-sã se aproxima, de boca aberta.

– Oh, merda! São milhares...

– A Ordos tinha um plano: eliminar todos os Inimigos. É como eles chamam isso que hoje se tornaram as Luzes.

– O que mais você sabe, Elliot? Você precisa me dizer. Eu tenho de ir ao Conselho, o mais rápido possível, para levar essa informação a eles; se não, eles, ou melhor, todos nós,... Foram eles que mataram Sabarba.

Asal vê Elliot confirmar com a cabeça.

– Sim, Asal, foram eles – Elliot se estica, estalando os ossos – Eles têm um tipo de treinamento para comuns: supersoldado, infiltrador e estrategista são os três tipos de soldados e magos que eles treinam.

Elliot ergue a mão direita, pedindo calma.

– Não se esqueça de que se eu não te der a resposta, eu morro. E que não tenho saída. É uma escolha que não tenho.

Assim, o oráculo se levanta, devagar.

Respirando fundo, ele dá uma volta ao redor. A Sala Oval da Capela não lhe diz muita coisa, a não ser que Asal é muito sério; e triste.

– Não tenho como te responder a pergunta que ia me fazer, porque não vejo nada sobre O Conselho; mas minha intuição me diz que eles escondem de você alguma coisa que você quer muito. Eles não vão te dar isso. Agora, se vocês puderem me dizer qual é a sua parte no contrato,...

Houve um momento de silêncio.

– Como assim? Você não sa-... Perdão – Asal banlança a cabeça – O que se supõe que nós deveríamos fazer? Estou impressionado.

– Obrigado. Não; eu só faço o contrato. Vocês é que devem ter em mente o futuro que escolherem.

– Salvar o mundo está entre as opções?

– Hmmmh,... Eu tenho um futuro bem esquisito pela frente, é o que tudo o que tento ver me diz. Mas, sim; está.

– Como eles se escondem? A Academia está por trás deles? Desculpe, se não puder responder,... tá, tá; vou tomar mais cuidado.

– São eles que estão por trás da Academia, Asal – Elliot ainda tenta ver as possibilidades, mas há um vazio – Eu já te disse: eles têm mais ou menos dois mil oráculos, mantidos em regime de servidão. E é aqui que eu entro. O que quero pedir a vocês é simples: me ajudem a libertar meu povo. É a única maneira de se libertar o futuro, que está preso, ou melhor, doente.

Aella confirma com a cabeça, invisível em seu canto.

"O que mais A Morte quer de mim?", ele aquieta. Ele concentra o olhar nos cabelos vermelhos e curtos da entidade, para não ficar tonto.

– Ainda há segredos, entre nós – Gusa deixa claro.

– Mas não haverá,... depois disso – no íntimo, Elliot pensa "Sim, porque eu preciso proteger vocês, mas não posso dizer isso",...

– Diga-nos alguma coisa, uma direção, o que puder.

– Vocês me parecem ter um destino adiante; agora, vocês podem mudar isso, se quiserem. Até onde sei,... Asha acredita que o destino dela é sofrer, mas sofrer de amor,... Ela pode estar errada: nós três, esse é o nosso destino. Vejo um sem número de cenas em que amor é mais relevante do que fazer o que nossa vontade de salvar o mundo exige; mas não vejo Asha fazer isso. Ela é muito mais focada do que nós: o resultado do supertreinamento dela.

– O que você quer dizer com isso, auspitia?

– Que nós podemos estar interpretando a Profecia de forma errada, não da forma como deveríamos; e Sabarba sabia que ia ser assim.

– Que Profecia? Sabarba lhe revelou a Profecia?! A que O Conselho tem, e não revela a ninguém mais? Não é possível,... Isso é muito suspeito.

– Agradeço se não questionar minha integridade o tempo todo, Asal, pois tenho uma obrigação de lhe dizer. Sim, ele me revelou a Profecia.

"Três são os Pássaros. Um corpo, um meio, um final e um início. A Escolhida deverá decidir o Destino de toda a humanidade. O Condenado deve pagar por todos os Pecados, quando chegar a sua hora. Os Outros são a Chave. As Luzes, o Portão. O Dragão e a Serpente, os lados opostos, deles só um poderá ficar e vencer. Aquela que vencer A Guerra receberá a maior de todas as honras e, depois, Os Mil Impérios da Morte, A-1" – essa é a Profecia.

– Ela é diferente da que os magos possuem.

Ainda tentando compreender a primeira, uma segunda profecia, ou melhor, a citação de que uma outra existe afunda a sala numa sombra sinistra.

"O Herdeiro irá nascer entre os nobres. Ele irá decidir o Destino de toda a humanidade. O Azul e o Dourado devem trazer O Amanhecer de uma Nova Era, em que os lados opostos levam aos Mil Impérios da Morte. Ninguém pode viver e ser condenado, ao mesmo tempo, mas é vitória sobre o Último Inimigo, aquele que condena, a se aproximar; e, se não for vencido, irá se repetir".

– Isso é tudo? O que significa isso? – Asal não evita.

– Obrigado por perguntar – Elliot sente dor, abaixando a cabeça – Isso quer dizer que existe mais de uma profecia e que, provavelmente, existem mais, feitas por profetas ignorados pela Oculta, como os diários comprovam.

– Ah!, vou me conter, de agora em diante.

– Existe apenas um mago que não concordou com a profecia dizer que um Gulanta iria ascender ao Trono e, então, governar o mundo. Ele é um linguísta da Ordos, desaparecido há onze anos; e Gogol o considera traidor.

– Diga-nos, se puder, com o quê ele não concordava.

– Isso é bem melhor do que uma pergunta.

– Asal está certo, Elliot – Najka interrompe, séria – Se um Gulanta e nobre é esperado como um tipo de imperador pelos magos, pode ser você.

– Ele não concordava com duas coisas: primeiro, não seria "dourada" a cor, e sim "alaranjada". Segundo, que "aquele que condena" não é A Morte, Nga não parece conspirar contra a humanidade. Quase ninguém percebeu que no último terremoto, em Duplo A, o Aglomerado de Angeles, o Coyote morreu; e depois de Othinus – Odin – o único "trickster", o fim está próximo. A Cria do Chacal, o filho-múmia de Anúbis, deve ser o próximo e, enfim, Nga.

– Isso foi uma profecia? Também temos nossas profecias.

– Me sentiria honrado de ouvir, Najka – Elliot, ainda de pé, vê Asal também se levantar e a filha da noite se ergue, suave e devagar.

– Os Vetalla, anciões entre os anciões, acreditam que tudo é um Jogo, e o "destino" das pessoas serve como peças. Os Jogadores atravessam ilesos as linhas do tempo, negociando entre si tudo aquilo que é, foi e será.

Tanto Elliot quanto Asal erguem as sobrancelhas.

– Acho que estamos contrariando os interesses dos Jogadores, quando nós fizemos esse contrato com você, Elliot – ela conclui.

– Você precisa de algum treinamento? – Asal interrompe.

– Não, não preciso. Mas devo pedir a vocês que não falem a ninguém de nossa conversa, porque vejo problemas infinitos pela frente se fizerem isso; além de ver várias cenas em que vocês podem e vão morrer.

– Tem alguma coisa que você pode dizer sobre o mapa?

– Vejo um lugar, mas não está no mapa, Najka. Tenho certeza de que vocês conhecem, mas existe um poder abissal me impedindo de ver.

– Você disse "azul e dourado",... essa é a nobreza dos magos, a "classe" a qual domina a sociedade deles; uma profecia que se autocompleta.

– Temos na história um mago que não concordou.

– "Alaranjado",... Você conhece "Twata", o feitiço para fazer faíscas? Me diga que não é o que eu estou pensando, meu amigo – Asal franze a testa.

Asal e Najka param, observando Elliot erguer a mão.

O oráculo estala os dedos, sem dizer a palavra: faíscas, a magia simples que todo iniciante aprende, com bolhinhas de tamanhos variados.

Tangerinas e azuis turqueza.

Nina teve um sono pesado. Sonhou com monstros! Eles assumiam todas as formas dos seus medos, lagartos predadores, psicopatas androides ou serpentes enormes, aranhas de um quarteirão, enxames de insetos humanóides, pessoas e animais mortos, com vermes saindo pelos olhos e, é claro, galinhas. Pânico! Ela acordou várias vezes, mas o sono era tão pesado, que só esboçava abrir os olhos e dormia de novo. O seu martírio acabou, quando o excesso de movimento no quarto a fez sair das profundezas, ela acredita ter ouvido Africa lhe dar um bem-vindo "Bom dia", mas Asha já havia saído. Se sentou. Ficou feliz de estar viva e de também estar numa Escola de Magia, porque se continuar, ela sabe.

Alguém vai saber o que fazer. Ela se levanta, suada.

Se arrumou e desceu, dizendo "Bom dia, Xerxis" para o bogling esverdeado e, saindo para o pátio, viu duas alunas lendo sob a Árvore. Sentia um cheiro bom, de pães, doces e outras guloseimas, geléias, talvez. Sem pensar, achou o lugar e se sentou. A ginoide que lhe atendeu era prestativa, mas Nina reparou que fazia a mesma pergunta várias vezes: "Bolo, bolo? Sim, sim?", era divertida.

De repente, viu Tomi saindo da Oficina, ali ao lado.

Sem saber se ele ia lhe ver, ela acenou; e o aluno mais velho, seu "Dono", veio com ele até a sua mesa, ambos parecendo felizes.

– Bom dia, Blatt – disse o veterano; e Nina se surpreende.

– Relaxa, Nina – Tomi sorri – O Santiago sabe de tudo. Mas o que você tá fazendo aqui, hoje? A iniciação ainda não terminou.

– Ehr,... – ela ia começar a falar, mas foi interrompida.

– Tomi, – disse Santiago – aproveite a manhã. Só vou precisar de você logo depois do almoço, para me ajudar com a correspondência.

– Valeu,... ehr,... Obrigado, Tiago.

– Boa tentativa, Tomi, mas uma saudação formal e um nome informal não devem estar na mesma sentença. Bom dia, Blatt. Sala Dourada, Tomi – e se foi.

Ao contrário de Santiago, o estranho que está ao seu lado não foi embora, mas sim, tirou seu profeta do bolso, fazendo uma anotação.

Nina sabia agora que era para o bem de seu amigo.

Ela só ficou feliz, de ver esse maluco de novo.

– Mas então, Nina? Como está sendo a sua iniciação?

– Eu passei – disse, meio tímida – Ao que parece, com honras. E você? O Santiago me parece ser uma pessoa bem legal.

– Fia, você não sabe de nada. Sério, Nina. Ele tem contatos em todas as Escolas; sim, todas as Escolas do mundo! – diz Tomi, admirado – Todos os dias, o Tiago me pede pra ajudar com a correspondência. Você não imagina os lugares que eu vi. Meu! São coisas sem palavras, sério, não inventaram os adjetivos pra isso. Alberta é o núcleo médico, mas acredite, Delfos ainda hoje tem construtos desconhecidos; e a Energia Histórica desses lugares é imensa. Imensa. Em algum lugar, na Noruega, tem um tipo estranho de plano, o Professor Gusa diz que é um tipo de Paraíso. Eu acredito. As Torres do Reino Unido; bem, é incrível! O Maestro Rei me mostrou. Alhambra, tem tipo um esquema de organização de construção que facilita o estudo de música e magia. Tem uns lugares meio tensos, também, né: o Parque, em Bucareste é a capital dos monstros; mas bem, todos os parques, pelo que ouvi a Professora Tamara dizer. São Pontos Quentes sobrenaturais, e é bom saber quem mora lá, antes de ir! Mas as Capelas são lugares seguros. Essa escola é o Paraíso!

– Você aprendeu tudo isso em uma lua? – ela simplesmente duvidou.

– Isso – ele continuou – Béalae também é muito importante. No final da Terceira Guerra, ainda não existia a Sociedade de Nações, mas Béalae ainda ia ter mais um século de guerra além do que os comuns sabem: a Caça às Bruxas. É por isso que o entroncamento da escola se chama Passagem dos Enforcados. Ah!, e Sabarba é o maior herói de guerra que eu já ouvi falar. Ele venceu os magos. Tia Braga me disse, quando fomos lá tomar um lanche, que Sabarba minou todos os focos de resistência dos magos e, depois, também, foi ele quem assinou o fim da guerra. A Torre de São Paulo ainda existe, mas está sob o nosso controle; ele era alquimista, era bruxo, foi autor de vários dos livros que nós vamos estudar e só não foi Conselheiro porque pra ele as Escolas eram mais importantes! Eu te digo, ele era o bruxo mais importante e mais poderoso que já existiu.

– Ele teve um enterro tão simples – resmungou Nina.

– Ele exigiu! Eu não entendo. O Tiago acha que Imoh Kalai, o Conselheiro Cinzento, na verdade é o bruxo mais poderoso que já existiu; ele discorda de mim e diz que foi Athýmas, no século 21. Mas, a Maestra Professora Starling diz que isso é uma falácia, algo assim, e que as Nações Mágicas precisam muito mais da ação coletiva que de grandes líderes, mas eu não entendi muito bem essa parte.

Nina franziu o nariz; e voltou a comer sua torta de maçã.

– O que você tem, Nina? – Tomi quiz saber.

– Hmpf,... nada – ela riu – Nada, não. Você devia ler alguma coisa científica sobre Cognição, mas eu to bem. Não preocupa comigo, não.

– Não – ele parou, observando – Não tá.

– Estou, sim – ela foi imperativa – Eu consegui tudo o que eu queria. Não foi fácil, do jeito que foi pra você. Mas,... Eu vou até poder usar uma varinha.

– Wuw!,... O Tiago me disse que isso era impossível!,...

A pequena wicca deu um sorriso de canto, olhou pro garoto e voltou à sua torta de maçã, alegre e sentindo algum tipo de vitória, finalmente.

– Tá – se convenceu, ele – O que você aprendeu? Aliás, – olha ao redor, e dá pra ver o medo nos olhos – Porque você tá no Outro Café?!

Não havia dúvidas em sua mente. Ela sabia tudo que tinha aprendido e seu coração lhe dizia que estava certa; essa era a essência do ensinamento que lhe foi dado. Nina entendeu que cada um tem seu tempo. Ela limpou os lábios com a língua e não, não foi o bastante, pegou o guardanapo, feliz.

Sabia que tinha de resumir, porque ele não era muito bom com enigmas, então ir direto ao ponto, da maneira mais casual possível, é o caso. Afinal, era o método escolhido para ele.

– Simples: Trabalho em grupo é a solução.

A leitura do testamento seria feita em sigilo.

Sabarba havia deixado a obrigação no testamento, que ninguém deveria questionar; assim, depois de entregue a sua herança, ninguém fora do grupo de pessoas ali reunidas poderia comentar; ele não deixou claro quais eram os seus segredos. Um se conhecia. Asal havia sido escolhido a pessoa a ler o testamento. Elliot não ficou impressionado com ter sido integrado à honraria, mas ficou com a presença de Asha. Todos ficaram. Ela mesma não sabia de nada antes de ela ter sido convocada, hoje, e todos perceberam que ela está magra, abatida, dispersa e sem forças; Tamara decidiu evitar dizer que ela devia ir à enfermaria.

A figura dela merecia o prêmio de acabada.

Hoje Asha se reúne a Elliot, à frente dos Maestros. Elyfa, Santiago, Doutor Diesel, Oyá Matambalesí e outro aluno da Capela, Nikolai, representando seu pai, Hallor Hussel, que não pode vir – mas isso estava no testamento – se reuniram a pessoas a quem eles na verdade não conhecem bem. Iro Khan, aluno repetente, e que está na Escola desde que a melhor aluna entrou. Pattrika Parazór, aluna da Capela de Glaura, foi colega de Asha nas aulas de Cosmologia, que ela fez na outra escola. Asha a estava ignorando, por completo, ou quase. Amila Persíphone Koei, a repórter que ela segue na Interface, está ali e deu um sorriso lindo, ao ver e cumprimentar a melhor aluna, sua fã. O Senhor Gwýllows, bem, o fato é que ninguém viu o seu rosto, baixinho, usava mantos de lã, negros. E os viajantes de longe, a chamado do ancião: Mark Black e Safar, também de mantos, que lhes cobria totalmente o corpo, rosto, luvas pretas, ninguém sabia quem eram.

– Esta é a vontade de Abbel Amórtyr Sabarba – diz Asal, ao abrir um longo pergaminho, o qual parecia velho e usado – "Eu, Abbel Amórtyr Sabarba, deixo treze presentes e, também, treze missões, para as pessoas presentes. Todas as outras posses, deixo para minha fiel e herdeira, Marta de Karla, incluindo o meu busto, a permanecer na Quinta Capela" – Asha, sem questionar, murmurou um "Quê?", interrompendo a leitura do testamento. Parece, e ficou óbvio pelo erguer de sobrancelhas de Tamara, que interromper era absurdo; mas então, o orador raspou a garganta, com um olhar de reprovação, e ela abaixou a cabeça.

– Elliot, você é o nosso Herdeiro – revela Asal.

– E-... E-... – o garoto perdeu a voz. Todos viram ele olhar para o chão e, depois, a sua expressão esquisita; Asha sentiu um aperto no peito. Ela não sabe, mas Asal também sentiu. De repente, Elliot é coberto de cumprimentos.

– Parabéns, Akael! – o rosto de Oyá, ao seu lado, era radiante, tal como se ela apertasse a mão de um ganhador da loteria. Elliot raspou a garganta, seca, e balançou a cabeça; mas então, a bruxa lhe pegou a mão, num aperto muito forte, incomum. Dizem que os herdeiros do antigo Candomblé não apertam a mão das pessoas desse jeito exaltado, eles pedem bênção, ou dizem "Mojubá", mas foram interrompidos; Asal, com uma sensação estranha, faz um "Hâ-ham", e todos ali, a não ser Asha, que está acabada, se concentram na leitura do testamento.

Asal Gusa sente que alguma coisa está fora de lugar.

– Senhora Safar, adiante-se – diz Asal – Você irá ler o primeiro Segredo de Sabarba e, depois, deve jogar o segredo no Fogo da Sabedoria: Ahura Mazda!

Ao dizer essa palavra, a lareira se acende. Asal Gusa se põe a esperar essa mulher misteriosa, que pelo jeito deve ser bem velha, se adiantar.

– Como assim? – questiona Oyá, severa – Isso é contra a lei! Os Segredos devem ser lidos na ordem em que está no Testamento! Está na Constituição.

– Esta é a Vontade de Sabarba, Inspetora – lembra o orador.

– O que isso quer... – Elliot parece confuso, como quem perdeu aquilo que o mantinha de pé, mas não caiu porque estava acostumado com isso.

– Isso quer dizer, Elliot, que você terá de abrir mão dos seus Direitos, se quiser ter direito ao seu Segredo. Não – Oyá fica vermelha, de raiva – Eu não vou permitir! Vocês não podem passar por cima da lei, assim!

– E-... abr-... – Elliot começou.

Imediatamente, o Avatar de seu profeta apareceu ao seu lado.

– Não diga isso, Mestre – disse o avatar.

– Porque não? – o garoto está confuso, e parece preocupado, agora. Há, ao redor dele, um "ar" de quem está completamente perdido.

– Se disser, irá abrir mão de todos os seus Direitos, neste Ritual – e o avatar olhou para o orador – Com que autoridade vocês fazem isso?

Safar está à frente, com a mão estendida para receber o pergaminho, mas com raiva, Elliot abaixa a cabeça; e parece decidido, erguendo a mão.

Ao erguer o rosto, parecia ter morrido. Sua mão lá, parada.

– Lug – Elliot chamou o avatar e este parou, lhe reverenciando – Se quiser, eu acredito que posso fazer o que quiser. Se abrir mão dos meus direitos for meu direito, e é. Você será enviado amanhã para ser reprogramado.

O silêncio que se fez, na Sala Dourada, foi pior que o de um enterro.

Asha sentiu suas narinas se abrirem. Ela nunca havia visto um computador receber essa sentença, antes, e ela sabe o que isso é: a morte.

Assim, o avatar parou, um instante, antes de continuar.

– Foi um prazer lhe servir, mestre – fez uma saudação, e sumiu.

Todos olharam para Elliot como se ele fosse algum tipo de assassino, ou até coisa pior; e ele balançou a cabeça para um lado e para o outro. Respirou fundo, parecendo se concentrar. Fica claro que ele não tem escolha, agora.

Asha percebe o rosto dele, como o de um condenado.

– Eu abro mão dos meus direitos – diz ele.

Asal Gusa entrega o pergaminho a Safar, que o pega com sua luva de lã e, agora bem desperta, Asha vê que Asal e Tamara se entreolham. Ela vê que eles não sabem o que raios está acontecendo, mas parecem saber que não podem parar o Ritual depois que o Fogo é conjurado; então, uma lei anula a outra, sei lá, a pequena não é boa com leis,... Não agora. Dói pensar em Sabarba.

A velha encurvada pega o pergaminho, indo para a lareira.

E abre o lacre mágico. Só o depositário de um Segredo pode abrir; depois, o mesmo Segredo deve ser entregue ao fogo, selando seu destino. Obrigação: o tipo de magia que faz até os anciões tremerem; mas há algo errado.

Depois de vários minutos, a velha lê e re-lê o pergaminho.

Aquilo gera um incômodo óbvio em todos. Na hora que a bruxinha achou que as pessoas iriam reclamar, a velha Safar amassa e entrega ao Fogo.

– Akael – Asal tenta manter a certeza de um orador na voz – Você deve ler e jogar o Segredo ao Fogo, selando seu destino.

– Espere... – Elliot interrompe – Não me falaram isso antes.

– Eu te disse para não abrir mão dos seus direitos – Oyá está perturbada – O que aquele velho pensa que é? Pensava,...

Todos os presentes lhe censuraram. Ofender o morto era pior que quase qualquer coisa que Asha se lembra de ter ouvido até hoje.

Assim, ela se calou – "O feito, está feito", pensa a feiticeira.

O jovem professor se adiantou, pegou o pergaminho lacrado e se dirigiu ao Fogo; mas Elliot não parecia confuso, e sim, vazio.

Bem, ele também abriu, leu e re-leu; não se decidia.

– Eu... não aceito isso – disse Elliot, finalmente.

– Èa,... Você não tem escolha – Oyá lhe revelou.

– Isso é algum tipo de brinc-...

– Jogue o Segredo ao Fogo, herdeiro! – disse Tamara, séria – Oyá é uma Inspetora, a autoridade judicial presente. Se você não fizer isso, será preso.

Elliot tossiu, limpou a boca, amassou o Segredo e o jogou ao Fogo. Mas um vento invadiu a sala, um silvo arrepiante; e Asal fechou as janelas.

Asha reparou que Oyá tinha a mão sobre a varinha, por baixo da sua manta cinza, que oficiais devem usar em Rituais, um tipo de poncho.

O Ritual teve continuação e Asha era a última. Em geral, a ordem em que os Segredos são entregues é do herdeiro mais amado para o último, e ninguém ali conseguiria de fato sentir a sua tristeza: Sabarba era como um pai para ela – equilibrava uma lágrima – ser a última era uma condenação, sentia ela.

Triste, ela se adiantou e pegou seu pergaminho.

Ao jogá-lo ao Fogo da Sabedoria, ela dá fim ao Ritual. Ela abre o lacre, de cera vermelha, e seus símbolos geométricos universais se desfazem.

"Se você está lendo isso, eu estou morto", ela parou um segundo, olhou em volta de forma tentando evitar ler; mas isso é mágico, e os olhos voltam ao texto, mesmo que você se esforce muito para tentar fazer outra coisa.

"Assim, eu não tive tempo de terminar o seu supertreinamento. Ao selar o Segredo que estou lhe dedicando, você abandona imediatamente seu Segundo Nome, Aksis, e você irá receber da Diretoria uma autorização, com a assinatura dos Treze Conselheiros, lhe dando acesso à Sessão Secreta da Biblioteca, subsolo da Torre. A partir de agora, sinto muito, eu não posso lhe ajudar mais; bem, não diretamente. Vai depender de você", ela parou para pensar, porque teve medo de Elliot estar lendo sua mente. Assim, ela mentalizou o seu amigo, e pediu "Elliot?", mas não houve resposta. "Iko,... Você não pode usar telepatia, né; acho que você sabe. Isso é crime. Você está me ouvindo?", ela mentaliza.

Há um incômodo que todos sentem, Asha está perdida. Sua demora, só ela não percebe, é um tempo mágico: tem a exata duração do segredo.

"Não faça nada impensado, hoje", diz a caligrafia elegante – "Tente apenas manter sua consciência – seu Eu – e se lembrar de quem você é".

"Você é a Escolhida", ela parou de ler nisso e engoliu em seco. Olhou para Asal e Tamara, como que pedindo ajuda, mas ambos estavam sérios. "Você deve ser a escolhida e, ao dar este Segredo ao fogo, você sela este Destino", ela ergue os ombros, ouvindo estalar os próprios ossos. "Me perdoe. Eu devia ter dedicado mais tempo a você, pois eu sei que você me considera como a um pai, que você acha que não teve, que não terá, mas o mundo é um lugar onde os Segredos são terríveis. Você deverá observar, hoje. Só! Não vá ainda à Diretoria, para receber a missão que lhe espera. Observe. Ninguém pode lhe dizer o que fazer, a não ser que você permita. A Integridade está nos olhos do observador. Amo você".

Ela não aguentou, e as lágrimas lhe desceram dos olhos.

Amassou o papel entre os dedos, e abraçou o pergaminho; lágrimas caíram sobre aquelas palavras, e o final que lhe dói. Era muito terrível. Não sabia o que pensar; porque tudo aquilo estava acontecendo? Ela leu a declaração de amor do pai que nunca teve, mas que nunca lhe disse isso em vida: ele era invisível! As lágrimas descem; queria desmaiar, se pudesse. O tempo foi passando. Ela não tinha coragem de olhar para ninguém mais, estava de cabeça baixa. Mas então, beijou o pergaminho e arremeçou ao Fogo. Aquilo, a declaração de amor de seu quase-pai, ela nunca iria poder dizer a ninguém, por obrigação mágica.

– Abbel Sabarba, abençoado seja – diz Asal, solene.

O Ritual acabou, e Asha andou sem direção até a janela; estava fechada, e viu seu rosto refletido no titânio. O que está acontecendo?! Não queria pensar. Só queria sentir alívio. Aquelas palavras, ela sabe e sente, agora estão gravadas em sua alma: Ela é a Escolhida. Não, não quer pensar no que elas significam, só quer ficar ali, deixar o tempo passar,... Nunca vai poder comentar isso com alguém.

"Talvez",... ela suspira – "Só vou poder comentar isso com alguém que ame, é a única explicação para o meu Segredo terminar assim", Asha funga.

Sentiu a mão de Elliot sobre seu ombro; ele estava de cabeça baixa, tal como ela, talvez por algum outro segredo terrível, vindo do seu mestre.

– Você pode ser o que você quiser – ele lhe diz, sem emoções.

O seu melhor amigo disse isso ao lhe olhar nos olhos, virado de costas para os outros, mas parecia pensar em qualquer coisa que fosse, menos nela.

Tudo aquilo que ela viveu até agora se incendiou. Ela já tem Elliot do seu lado; e sabe que ele estará lá o tempo todo. Ela é jovem, pode fazer tudo o que quiser, quando ele lhe der o controle: ela terá a organização mais poderosa do mundo aos seus pés, agora ela entende. Ela será uma imperatriz! Se o que seu vidente lhe disse for – e ela tem certeza que é – verdade, ela irá saber o futuro, porque ele lhe deu tudo o que seria dele, para toda a vida dele e, agora, tudo fez sentido; todo o poder do mundo... o poder: será seu, só seu.

Em um instante, imaginou tudo. Poderia se deitar sobre rios de ouro, fazer todas as pessoas se ajoelharem aos seus pés, impérios se ajoelharem. Inteiros. E poderia jogar dados com o Destino, e ganhar. Seriam incontáveis as páginas para descrever o que ela acaba de ver, mas não teriam o mesmo efeito que teve sobre ela. Basta pensar sobre tudo o que alguém mais poderoso que todos os Deuses, do que mesmo o Deus Único que, dizem os bruxos, o assunto se encerra quando se passa para algo tão abstrato; ninguém sabe. Mas ela sabe! Sabe que pode; e é verdade: ela pode fazer o que quiser, agora e sempre.

Alguma força moveu seu pescoço. Não era ela mesma; não, havia um tipo de sensação, como o de dedos de uma velha, na carne.

Asha queria gritar... Mas seus olhos... no reflexo...

Aqueles não eram os seus olhos.

O Azul mais perfeito que alguém pode conceber, mesmo nos seus sonhos mais incríveis e mais assustadores; e ela vê: esses olhos não são os seus.

Imediatamente, o Azul desapareceu de seus olhos; e o medo que sentiu era grande o bastante para matar a Morte.

Nada mais ao redor existia; só a condenação. Akael dá um passo pra longe dela, e vacilou; ela viu.

Sentiu, ainda paralizada, ele vacilar. De uma só vez, todo o treinamento dela volta-lhe à mente e coração – ela sabe quando alguém falha. Ele vacilou por um instante mísero – e foi para a direita interrompendo Amila no caminho, mas Asha viu pelo reflexo. Ao mesmo tempo em que ele disse alguma coisa ao ouvido dela, a sua repórter favorita, sua ídola: o mesmo Azul, os mesmos olhos,... ela viu no lugar dos olhos da jornalista. Amila abriu o anel que usava, e Asha vê que ela joga um mínimo de pó na taça de espumante do seu melhor amigo.

Ela se virou, completamente confusa.

Seria impossível descrever o que ela sentia, terror; mas Elliot bebeu da taça e a repórter saiu andando, como se não tivesse feito nada.

Assim, Asha voltou a si, mas perdeu a voz.

Asha apenas esticou a mão, enquanto Elliot se ajoelhou e tossiu.

– Elliot! – grita Asal, e vem correndo.

O droide mestre, que estava no canto veio rapidamente, já separando a seringa para esta situação que todos já conhecem.

– Aplegia! – Tamara grita e, ao comando de seus pés, a Sala Dourada foi lacrada, fechando-se firme como uma muralha.

O droide mestre chega e injeta a seringa.

Todos se adiantam, menos Asha – seu Segredo não permite – e ela enxerga ao fundo a velha, arqueada, fazendo o sinal de silêncio com o indicador, sem que nenhum dos outros perceba. Ela, sutilmente, abaixa a mão. Volta a ver, ao mesmo tempo que ouve o sussurro imperativo, o "Ssh!",... que apaga as luzes. Ela, porém, vê que as luzes não se apagam, porque não foi falado, ou não, não sabe, está confusa; não conseguem nem ao menos saber que tipo de droga lhe deram: só pode ter sido uma droga,... E agora? O que devia fazer?

Asha se ajoelha e vê Oyá se adiantando, olhando. A inspetora reconstrói a cena, toda, completamente – e a policial, aponta para Amila, decidida.

– Amila Persíphone Koei, você está presa por aplegia.

– O quê?! Eu?! Você está louca, Inspetora! – Mas a voz da repórter está tremendo, e até Asha, por mais drogada que possa estar, percebe.

– Tausthau! – conjura Oyá, e a repórter tenta se esquivar.

Está para nascer aplegista que possa ter toda essa preparação que Oyá e Asal, ambos de faca e varinha em mãos, têm; e obviamente, ela não tem.

Oyá acerta Amila, e a bruxa cai ao chão, paralizada; a Inspetora olha para Asal, agora muda.

Asal está preparado para o combate, de faca à mão. Acabou; e o corpo de Elliot treme e se solta todo, amolecendo-se.

– Ele está?... – Tamara está branca como um iceberg.

– Não, ele está vivo – diz a voz metálica do Doutor Diesel – Estranho,... A minha leitura me diz,... Droide Mestre, que veneno é esse?

– Este rapaz é extremamente resistente, Doutor – diz o droide – O veneno não é um veneno usado pela Aplegia. Este é o Tei, o veneno usado pelo Conselho que rege a nossa Nação, as Treze Nações da Magia.

Asha se encontra no limite de suas forças, sem entender mais nada. Sabe, ou melhor, tem certeza: Corrupção, sua intuição lhe diz.

– Álibi! – conclui Oyá, certa disso, e ela ordena – Todos vocês, deponham as suas armas, ou sua prisão será feita agora.

Não deu tempo de ver muito mais, e Asha só viu que todos depositaram o que quer que tinham sobre o chão; ela também, deixando cair, sem ar. Ninguém. Ou seja, todos ali eram realmente inocentes: encontraram o aplegista, em tese; na verdade, nunca se sabe. Só a investigação das memórias do acusado, magia que só é permitida nesse tipo de caso, diz a verdade. Tudo foi se apagando, enquanto ela ouvia Asal perguntar – "Droide, relatório?", e então, a voz do droide mestre dizer – "Infelizmente, por causa do antídoto genérico, ele não vai se lembrar de nada, amanhã"; e, como um chamado profundo, tudo se apagou.

Asha sente a visão se fechar e desmaia, mole.

(Fim do Cap 22)