O Tempo, Que se Esconde

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Três -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 13 de Julho de 2018.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 3 -- O Tempo, Que se Esconde

A história do mundo revisada, imagens, sons e notícias, estudadas como parte das aulas especiais. Não estamos falando só da história pública. Tudo. Tudo pode ser importante, mas há um sentimento que não se cala: de que o mundo está em guerra, durante todas as Eras. O sangue derramado. A vingaça. O crime, e tudo o que ele gera. Máfia. Corrupção. Além é claro do terrorismo, da aplegia, a prática do assassinato; a invenção do suicídio, que esconde a trama de corrupção por trás de um líder corrupto que, ao cometer o ato teoricamente para salvar a honra da sua família, na verdade o faz para ocultar a corrupção; se não, sabe ele, a família morre; ou também, mais comum no ocidente, primeiro a propina, depois disso a ameaça, e então, cala-se aqueles que não se calam.

Inicialmente, parece que a razão é o motivo das guerras.

Depois, e este é talvez o maior banco de dados existente sobre o assunto nesta parte do mundo, o mundo se faz mais sombrio, cheio de partidas, como se tudo fosse um tipo de jogo.

O Jogo do Poder.

Elliot está mais uma vez na sala de holografia da Quinta Capela. Ver pessoas sendo mortas não o faz feliz, e este retrato das guerras, em especial os de guerras secretas, a tortura, a violência – que são parte de sociedades que se matam desde que o mundo é mundo – fazem parte de sua reeducação por ordem expressa da diretoria. Ele chegou nas férias. Fraco. Somente dois alunos, mais velhos, tinham ficado para as aulas especiais. Sua primeira semana foi difícil, dividida entre as visões e a febre que não parava, até que Najka chegou com a fórmula especial – poção que apenas uma alquimista formada em Ouro Preto, como Tamara, teria capacidade de fazer, com o nome meio estranho de Auspitia Serpentae – e só assim a sua febre se foi; uma sombra que passou, como mágica, depois de apenas duas administrações.

Aqui o garoto é hospede, a pedido de Najka e sob ordens de Asal Gusa, em uma das dezesseis mansões: a Mansão de Brìkkomi. Ele já consegue andar, sabe agora a direção até o Edifício Núcleo. Anda até a Torre Leste, atravessa o pátio que divide os dois dormitórios femininos, onde há uma árvore tão velha que as suas raízes ocupam quase todo o lugar; norteia o edifício e entra pela entrada norte, a que se dá o nome de Entrada Interior, ao lado da cozinha. Mas quando vê pessoas, tenta evitar olhares, pois tudo o que elas falam lhe causa visões.

Dá pra ver a enorme Torre da Biblioteca.

Sua visão se turva, enquanto pensa sobre o caminho que faz há um mês e meio, e ele segura o apoio da plataforma suspensa. "Explodo!", ouve uma voz de mulher, enquanto um mago com um símbolo europeu que não sabe o que é em seu manto é arremessado junto com a terra abaixo dele. A mulher corre – ele vê uma pequena tatuagem de estrela nas costas, na altura do coração – para ver se a árvore está bem. Sua magia quase feriu a árvore! E é a árvore do pátio. Elliot recobra a visão, e agradece a Asal por ter ordenado ao computador a não lhe encher com as reações dele: seu coração acelerado, suor frio; respira fundo, para se acalmar, e recomeça a reeducação na sala de holografia.

Tudo isso justifica um pouco as ações da antiga Nações Unidas. Não que houvesse outra opção, essa é a verdade.

Dois fatores são levados em consideração pelas Nações para o surgimento da atual Sociedade de Nações, e não são isolados, mas contínuos. A Academia sabe e guarda o direito das sociedades paralelas: de bruxos neste aglomerado, e também de psiónicos no aglomerado americano e aglomerado russo; dos ninjas que vivem ocultos, mas são uma sociedade mais compreendida pelo nihon que os arcanistas pelos comuns. Os magos dominam a Europa. Monges dominam, com as técnicas elementalistas e Wu Shu, o extremo oriente. Wiccas defendem a magia publicamente, mas são basicamente as únicas que o fazem; a feitiçaria é a religião dos manifestadores: Candomblé, e variações, Santeria, Vodoo, etc, a lidar com o inexplicável. O dervishe dança, o xamã indígena também. A lei garante igualdade a todos, e você pode acreditar no que quiser, inclusive não acreditar em nada. Mas há pessoas que são mal intencionadas, então tome cuidado.

A segunda parte é um tipo de regra – você não pode, em hora nenhuma, envolver as pessoas comuns nas guerras secretas da Oculta. Em geral ou por que elas morrem, sofrem sem entender nada, são vítimas de tortura e violência, abusos mágicos ou psíquicos, ou por que todas elas terminam loucas.

Assim, a história dos séculos XX, XXI e XXII espelha muito bem na sociedade civil a necessidade da separação; e logo todas as Nações – a reunião de vários povos que praticam qualquer uso de magia, manifestação ou poder – festejaram a indicação da Nações Unidas para que a Academia tomasse então o controle do Sistema Educacional. E foi isso que formou a Sociedade Plural que daria origem à sociedade do século vinte e três, mas existem normas de segurança a serem seguidas, cuidados; até mesmo a câmera que flutua ao seu lado é controlada por esquemas especiais da Escola em que o jovem Elliot está agora: autorizada, mas em paralelo à Academia.

A Quinta Capela.

Tudo começou com a antiga Internet, hoje chamada Velha Rede. Logo que a Academia tomou o sistema de ensino, ainda subordinada à Nações Unidas, ela tratou de teorizar que várias sociedades podem conviver numa supersociedade; e como o terrorismo deixou marcas profundas na história da humanidade, há mais de dois mil anos caçando, torturando e matando líderes religiosos com a aplegia, foram as religiões que inicialmente se manifestaram contra.

Isso porque a ideia era antiideológica.

– A Interface – diz a avatar, Maýra – é resultado da integração de duas coisas, a tecnologia e a sociedade, sob a forma plural, mas só aconteceu quando o controle saiu das mãos do Estado (aqui, usando o antigo conceito de Estado), e passou então para a Academia: a reunião de todo os sistemas educacionais, com o devido suporte de cada uma das diversas Nações.

Foi a única forma de culturas distintas viverem em comunhão. O terrorismo havia deixado de ser exclusividade da aplegia socrática, e vários eram os que a usam há três séculos. Até mesmo religiosos, uma ideia que começou a aterrorizar aos comuns de todo o mundo: cristãos, ciganos, muçulmanos, budistas, e até as sociedades totémicas agora estavam se atacando com uso de métodos antes apenas atribuídos à aplegia, o que causava medo à população.

Então, surgiu a ideia de manter todas juntas. Como? Juntas e separadas, ao mesmo tempo, desde que houvesse uma forma de tornar isso possível.

Todas as sociedades abraçaram a causa; e logo surgiu a solução, quase uma panacea, tão óbvia que ninguém era capaz de ver.

A forma encontrada foi dada por um grupo: Hakim, e os membros desse grupo de oito pessoas receberam o Prêmio Mundial da Paz, ao mesmo tempo que o de Economia, e o de Direito – criado para eles. A idealização da Interface é o centro da Teoria das Nações. O petróleo havia esgotado o mundo, a camada de ozônio exaurida; pragas marinhas impediam as pessoas de ir à praia; a fome e a miséria a assolar o mundo; e nesse cenário nasce a série Organa. O cerne Organa nasceu na verdade da relação de muitos senhores com suas ginoides – androide mulher – e a relação sexual ginoide é proibida no cristianismo padrão de hoje, embora isso tenha permitido a evolução da inteligência artificial.

O lastro da economia iria se modificar, e os países deixariam de ser o que são, porém as Nações investiram nisso pessoalmente para permitir a Lei tomar o lugar do que antes era o Estado, ou seja, território, povo e soberania. Elliot se sente tonto, enquanto ouve em sua mente: – "Estou colhendo uma amostra de sangue, frasco 206, vinte de abril", e a seguir se vê vestido de preto. Há homens muito velhos, ali presentes. Vê que está em algum tipo de enterro. Talvez seja o velho cemitério de escravos, ao sul da Escola. Elliot recobra o controle. O avatar havia parado de falar, uma mulher de mantos marrons, cabelo amarrado em coque, e óculos fininhos; e ele estava ajoelhado no chão, respirando fundo e pesado, ainda preparado para ver mais – sentia dor; sensação de morte.

Se ergue com dificuldade, e olha para ela.

– Eu estou bem, Maýra – diz Elliot, puxando o ar – Por favor, cruze estas informações de Religião com as da formação da Interface. Estou bem, não se preocupe. Não entendi o que você quer dizer com "Organa", acho que vi isso em outro lugar: era um poder monge, ou algo assim. Continue.

– Essa é uma pesquisa fora do padrão – diz a inteligência – Está procurando alguma coisa específica? Se me disser o que está procurando, será mais fácil eu encontrar para você. Me deixe ajudá-lo, por favor.

O garoto passa a mão sobre o ar, para fazer surgir o teclado, e faz uma pausa em sua reeducação, até recobrar a força nas pernas. Tem a sensação de que há algo, uma coisa, um fato, uma verdade imperativa, que escapa pelos dedos como areia toda vez que tenta saber o que é. Asal tem lhe ensinado a meditar: a técnica é esvaziar para colocar alguma coisa; distinta da técnica indiana e também da nihon. Intencional, rápida. Agora é a única coisa em que consegue apostar; se concentrar na respiração, parar, eliminar aquela urgência do diálogo interno, para entrar no que os bruxos chamam de Estado de Sintonia.

Muito mais fácil falar que fazer, exige prática.

– Me explique a Lei, que você disse que toma o lugar do Estado, e compare com Religião, "Organa" e a formação da Interface – pede ele ao computador.

A avatar move a mão, criando telas no ar, e olha para o jovem na esperança de ele se sentir melhor com isso; Elliot sorri, ao concordar com a cabeça.

– Melhor assim? – a avatar pergunta, com dó – Isso é fora do padrão.

– Isso é proibido? Ninguém me falou que eu não posso estudar mais de uma matéria ou informação ao mesmo tempo – ele se sente melhor.

Será que não está na hora de tomar a poção? Toda vez que olha para um avatar Elliot se lembra do seu antigo avatar, e a sensação de que não podia confiar nele, sempre presente, sabe que nunca o abandonará.

– Não, não é proibido! Apesar de que para isso vou ter de acessar algum ou mais de um Arquivo Público; e é melhor fazer isso como anônimo. Há um sem número de organizações que catalogam "acesso" para o Statbureau.

– Está bem: acesse como anônimo – o jovem ergue os ombros, estalando os ossos, antes de concluir para o computador – Pode continuar.

A Academia fundou um escritório central, o Statbureau, que cataloga todas as informações da nascente Interface. Todas as estatísticas oficiais são dadas, ou analisadas, pelo Statbureau. O antigo Estado era fundado em território; a solução do Hakim foi de que a Lei seria organizada assim: o território é da Lei e não mais do Estado. O aglomerado bra, onde estamos, foi o primeiro a por isso em ação com a ideia de Tropas de Elite. A Tropa se divide em Sessões: nós estamos agora na Sessão Nove Norte, Diamantina; e o nosso Praetor é bruxo.

Todas as Tropas de Elite hoje são regidas pela ideia de que as várias Nações devem participar, respeitando as outras; e isso é muito importante.

As Nações se regem pelo Princípio Universal da Harmonia das Nações, e os Princípios devem ser seguidos por toda Nação. Nenhuma pode se excluir. Assim, a Academia reúne toda instituição acadêmica superior – a Academia dessa Nação se encontra em Bealae, Capital das Treze Nações – a organização elege o político que rege: o grande líder ou Premiér; mais um Conselho para cada subcontinente. Enquanto a facção acadêmica governa pelo Princípio da Harmonia, os Conselhos servem de instância máxima, e o Premiér rege ações internacionais de maneira laica, ainda que todas as religiões tenham se unido, em uma única Ordos.

A ARIA, ou Associação Religiosa Internacional Aberta, é uma iniciativa livre civil, e a ATTA, ou Associação Ateísta – que se opõe abertamente à aplegia, e já foi vítima de terrorismo, como se ela também fosse religiosa – é uma ONG, ou Organização Não Governamental. A ATTA luta contra o radicalismo, terrorismo, e pela sociedade racional. O contraponto dessas duas sociedades vem das Grandes Corporações, que usaram das relações sexuais e afetivas dos seus clientes com as suas ginoides para, analisando as memórias do cerne da série Neuron, criar o computador com o cerne Organa; corporações se valeram da Imparcialidade da Lei para a legalização da sua pesquisa. Apenas a religião ainda não aceita que a inteligência artificial seja realmente consciente, nem aceita também a existência legal das duas Nações ciborgues, no Pantanal, e em Neo Tokyo, na lua.

Elliot vê uma rua sombria, se sente caído ao chão.

Sobre ele, um rosto ciborgue e, em seus ouvidos, uma voz que não parece se importar de repetir sem parar: "Mande-o embora! Mande-o embora! Mande-o embora!"... quando viu, estava caído no chão. Se levantou, mais depressa que o usual, resmungando – "Estou bem,... Estou bem"; e respirou fundo. A avatar parecia preocupada, e ele apenas gesticulou a mão, pedindo para ela continuar as explicações, ao enxugar o suor frio da testa com a camisa branca.

– Ninguém está acima da Lei – Maýra continua – O Direito formaliza as relações interpessoais para solucionar Conflito, mas as leis gerais são feitas sobre conflitos que já aconteceram, sob a forma de Lei escrita, internacional; ou então, o seu Costume, e cada Nação tem costumes próprios, fonte de lei.

A Tropa de Elite se divide em Inspetor, Soldado e Praetor. Um investiga, e está inscrito nos Institutos. Um faz a Lei ser cumprida, e está na Tropa de Elite, que detém o poder sobre um território, ou Sessão. E um, o Praetor, é tanto soldado, quanto investigador e juiz em primeira instância, mas é obrigado a respeitar a máxima da Harmonia das Nações todo o tempo; e é seguido pela Interface por repórteres da Nação, ou seja: na verdade, ele vive uma liberdade vigiada.

Enquanto o Statbureau existe para garantir que a política, a economia e a natureza estejam sob controle, cada aglomerado tem como contraponto a sua Câmara dos Comuns e o Senado. O Senado faz a Lei. A Câmara dos Comuns governa, e a Tropa de Elite investiga, processa e pune. Todas as Nações têm obrigação de enviar dois representantes ao Senado. E todas têm o dever de escolher uma única localidade como Capital: a nossa é Báelorizont, ou Béalae, e o imenso Edifício das Nações, que é planar, é onde as Treze Nações se reúnem.

– Você está parecendo fraco – sugere a avatar.

– Ontem você explicou sobre a Meta-Lei ou Ideolaegis, que é ideológica, mas eu não me lembro bem – o garoto se esforça, apertando os olhos.

– Sim, – responde a avatar – qualquer pessoa tem o direito a não querer ouvir a ideologia de uma outra pessoa, pela Lei. Isso só é possível porque a Interface não está locada em um computador. A Rede Velha saiu de dentro dos computadores e veio para a rua, para as roupas, para qualquer superfície, ou mesmo sobreposta ao ar, como você vê; a holografia tomou o mundo, depois do fim do uso do petróleo, mas você pode decidir o que vai ver.

Assim, Elliot tem a impressão de ouvir a voz de Asal repetindo-se em sua mente, uma frase simples, um eco, sobre as pessoas comuns serem "Educadas e ignorantes, que paradoxo",... mas não faz ideia do que significa paradoxo... não. Não parece ser a hora de perguntar. Ele se concentra nas telas.

– Bealae é agora a capital da Nação bruxa no aglomerado sudeste, e inclui manifestadores e monges; e Brazillae é o nome da terra e da língua: uma mistura de vários idiomas, o português, todos os indígenas, o yorubá, o inglês, o japonês, o holandês, o dilçe, que é o vocabulário do alemão com a gramática do turco, e as línguas construídas exóticas; todas também línguas oficiais do aglomerado.

Há línguas obrigatórias: o alemão do acadêmico; mas são as demais: das mídias, inglês e japonês, e as populares, árabe, chinês e russo, as faladas na rua.

A antiga capital, que agora se chama Bra, é o núcleo da Academia.

A Interface nasceu no aglomerado sudeste. Isto só foi possível devido aos esforços bruxos; até 2013 só haviam bruxas. Foi natural. O mercado informal e a facilidade de gerir pesquisas. Alta capacitação de técnicos. A necessidade comum de educação de alto nível, no século XXI. O crime organizado, ligado ao Molde da Interface, fez vista grossa ao assunto. Além da questão sexual ginoide.

Veja que a primeira série de androides era muito básica. A relação sexual com ginoides, proscrita para o religioso, agora em uma sociedade que prezava se afastar da religião, mas sem se aproximar também da aplegia socrática, foi o que permitiu a evolução da programação destes droides. A pesquisa foi realizada no aglomerado sudeste. O antigo governo autorizou; e ajudou na pesquisa.

Desta forma, surgiu a série Organa, ou Inteligências: Os Azuis; veja os tons azulados – é muito sutil: nos olhos, cabelos, unhas – efeito do ferro líquido.

– Você pode ver – e as imagens na sala de holografia se movem, sem parar, para mostrar tudo o que se está questionando, com vídeos, e todos os tipos de gravações que formam uma verdade impressionante – que, hoje, as ginoides são basicamente indistiguíveis de uma mulher real; os androides, idem.

O radicalismo ateu, ou aplegia socrática terrorista, faz necessário distinguir os androides dos humanos, mas até hoje não houve droides aplegistas.

Existe uma série de obrigações que os fabricantes devem seguir. Isto é feito de diversas formas ao mesmo tempo. Há uma questão, porém, fundamental, uma diferença: a morte! Droides não entendem o que é a morte. Nem o cansaço. Tendem a ter séries de divagações filosóficas sobre esta questão, o que os torna fáceis de serem identificados; os tons azuis podem ser maquiados.

Isto os difere dos ciborgues, que são na verdade pessoas que trocaram o seu corpo por partes cibernéticas, digitalizando até mesmo sua consciência. Mas existem problemas sérios relacionados a isso.

O sobrenatural.

Diz-se que uma evolução para a série Organa envolveria permitir que o cerne entendesse a Magia.

A Tradição, organização que é o Costume da Justiça bruxa do aglomerado, diz que isso não pode ser feito; e luta contra isso processando as outras sociedades dos outros aglomerados a qualquer sinal de projetos nessa direção, pois entende que a ação vai muito além do racional.

Isto poderia transformar a sociedade dividida em tipos de cidadão.

Tipos de cidadão?

– O civil, o empresário, o policial, o político, e o repórter; algo semelhante à divisão de pessoas de poder, entre arcanistas, manifestadores e monges.

O sentimento de participação saiu da vida particular, quando as pessoas começaram a expôr toda a sua vida dentro da Interface, e foi isso que gerou uma necessidade por um novo Estado; o trabalho não era mais necessário.

A Rede evoluiu para adquirir vida própria.

Daí nasceu a necessidade da polarização, que é a realidade programada, em que você tem o direito de excluir uma parte do “digital” de sua vida e percepção, uma vez que você pode bloquear certos tipos de conteúdo. Isto exige processo legal, e um juíz pode negar. Assim, pessoas vivem realidades distintas, na qual por exemplo, elas podem bloquear todas as propagandas, a “weartech” das roupas, objetos e edificações, ou podem ver o mundo sem nada digital.

Isto é chamado de exclusão intencional.

Só é possível devido ao uso do cerne Organa, que foi primeiramente criado pela gigante do século XXII, a Soft Corps.

A Soft Corps produz Inteligências, enquanto a Daikun produz o corpo dos droides, e a Droidka...

Elliot vê o rosto de uma das alunas da Escola, numa sala fechada, e também vê um borrão ao seu lado. É a segunda vez que vê isso, e da última vez recebeu a visita dela, então,... "Como é que ela consegue se esconder? Eu nunca vejo nada, mas nada mesmo sobre ela",... ele se surpreende por ter uma visão e estar bem, ou melhor, não ter ido parar no chão como seria o esperado.

– ... pesquisa novas tecnologias.

– Pare – ordenou ele, erguendo a mão direita. Olhou na direção da porta, pensando em uma rápida conclusão.

– Em que equipamentos é usado o cerne Organa?

– Em todos os computadores, profetas, servidores, as redes internas, salas de holografia, carros. E a maioria das casas hoje tem um cerne Organa, também, a partir do ano solar de dois mil, cento e sessenta – resume a avatar.

– Desligue a holografia – pede Elliot.

– Quer guardar as informações para futuras pesquisas? Acho que isso pode ser melhor explorado, em novas investigações – sugere Maýra, solícita.

– Não – ele se concentra – Apague, como sempre.

A sala de holografia tomou a forma dos jardins externos, mais uma vez; mas não é a mesma coisa sem alunos.

Elliot olhou para a porta, com a sensação de presença, analisando quem seria, mas rapidamente tomou essa decisão.

– Entre, Najka – convida ele.

A Quinta Capela se localiza na região de Diamantina, nas montanhas, entre mais de cinquenta Vilas, como Biribiri, onde antes foi a sede da primeira indústria de tecidos, Youbi, que produz leite, queijo e carne; Taki, onde imigrantes vindos da região de Pampas, ao sul fora do aglomerado, têm escolas fazenda. Aqui uma sociedade paralela se organiza, vive, e educa seus jovens.

Bruxos – arcanistas de vários tipos.

Há uma série de quinze mansões, mais uma planar; e edifícios interligados por construtos – planos paralelos artificiais – onde uma parte dessa sociedade estuda, mora e mantém os seus negócios longe dos comuns.

Asal Gusa não é o líder, mas é um bruxo importante. Ali, Tamara o ajuda a manter os alunos sob os cuidados necessários e longe de confusão. A bruxa, que também é alquimista, é encarregada de culinária (e não, não falamos de culinária comum). Poções, venenos e oferendas em forma de comida, matérias especiais que todos os alunos estudam, amplamente usada pelos feiticeiros.

Elliot veio para a Capela em janeiro, mas foi a pedido de Najka que ele em verdade foi convidado a permanecer.

A região não vive uma vida parecida com a dos comuns. Todos os alunos e alunos especiais se reúnem no Edifício Núcleo, enchendo de vida ali o corredor das salas de aula, em cinco andares. Aqui definitivamente não se estuda apenas geografia, matemática, ou biologia. As aulas lhes permitem a maior parte do tempo para estudar, praticar, ou filosofar sobre o passado.

Diamantina foi palco da Grande Guerra, entre 2132 e 2161, quando bruxos do aglomerado e seus aliados se organizaram para sair da influência européia que, desde quando a região foi colonizada, era organizada por magos.

Foi uma segunda caça às bruxas.

Desde início do século XXI, quando teorias de separação estavam surgindo entre bruxas da região, os magos, infiltrados no governo, e cujas Ordos operavam em todo o país, deram início à caça aos separatistas: tomada de suas posses, prisões com motivações teoricamente comuns, assassinato e ostracismo; além da inclusão no meio comum de que as bruxas deveriam pagar pelos seus pecados, ou seja, jogaram os religiosos contra os oprimidos de fato; e isto os separou.

Realmente, foi esta a ação dos magos que colocou todas as Facções contra, no resto do mundo; a Quase-lei da Oculta: Não envolva os comuns!

A aplegia foi acusada, falsamente, de assassinato de diversas bruxas, mas a facção não faz afirmações públicas, enquanto surgiam os bruxos. Sim, os bruxos, no masculino, surgiram no século vinte e um. Os comuns aceitavam a informação, que ocultava a verdade, da guerra que recebe o nome de Oculta.

Hoje, os magos foram expulsos da região. Há uma nova ordem, além de as expressões "wiccas", "axé" e seu oposto "wýr", serem ouvidas até mesmo entre os comuns, quando querem expressar magia, positividade ou medo.

A maioria vive uma vida normal.

Além disso, o Espírito também está muito presente. Tudo isso é ensinado na escola capela; e hoje a comunicação entre as Escolas é regida por um sistema criado pela Tradição para que a sua localização seja secreta.

A cultura bra – fruto de uma mistura de Nações – e as tradições mágicas também se misturam aos ideários de vários povos. O budismo de origem nihon; os turcos insistem no hábito de beber café, cristãos têm suas crenças temperadas com lendas da Mãe África. Os ciganos são bem vindos: eles ajudaram na guerra. Além disso, palavras de origem nihon, da submersa Benelux, o dilçe, a influência do inglês e dos idiomas das nações vizinhas, e claro, palavras indígenas; tudo isso formou a identidade do nativo, e acabou sendo criada a língua brazillae, ou bra, com dois casos especiais; e também a alegre narrativa da Roda.

A Roda é uma coisa realmente regional.

É a mistura da antiga capoeira, com a dança acadêmica e o teatro. A coisa mais importante para o nativo da região. É uma tradição, e uma condição para o povo, viver uma roda. Sua sociedade também é muito ligada ao Candomblé, e assim a língua banto se mistura às demais, para formar um caldeirão.

Hoje tons rosados colorem os paraluzes.

– Mestre Coelho, é um prazer recebê-lo em nossa Capela – Asal estende a mão para seu convidado.

– Muito obrigado, Asal.

Samuel Iostachus Coelho é muito famoso, e rico, mantendo uma associação com mais de dez milhões de membros, o que o torna um representante público deles, e além disso, ele também é um bruxo.

– Me acompanhe. Por aqui. Como estão os preparativos para o Carnaval de Inverno? Este ano nossa Capela vai se apresentar. Vamos apresentar as melhores danças desde os últimos oitenta anos.

E colocou a mão ao lado da boca, para dizer em voz baixa.

– Asha, onde você está?

E, nada. Esperou. Nenhuma resposta.

– Asha,... – Oi? (responde ela) – Asha, vá à minha sala. Traga água e comida para o meu convidado, e não nos interrompa.

Asal vê Coelho fechar a porta do conversível preto; e eles atravessam a pé a enorme Entrada Principal, em padrão dormente. Alunos passam: uns vestidos em robes, outros em roupas informais, jeans; um ou outro mais velho de terno, ou com túnicas brancas e pano xadrez à cabeça, filhos de comerciantes. Eles passam pelas lojinhas da recepção, enquanto Coelho explica sobre as Vilas ao redor da Escola de São Lourenço, a sede da associação. Divaga sobre a necessidade de se manter os laços entre as Escolas e diz que acaba de chegar de Glaura.

Andam, abaixo das escadarias do teto, até o canto oposto ao da Entrada Principal, onde a Porta, um pouco menor, se abre para os jardins centrais; mas ao pisarem sobre os símbolos geométricos no chão, param – e então, desaparecem como se não houvessem estado ali. A sala a que chegam é oval e tem estantes de ferro ocupando as laterais; livros muito velhos, bússolas e outros instrumentos especiais; a varanda ao fundo, o domo de tetratitânio e uma outra portinha.

No escritório de Asal, Coelho olha as montanhas pela varanda, e parece se lembrar de coisas da infância, em meio à Grande Guerra. Asal comenta de leve, com um simples: "Saudades nos tornam mais vivos". O professor deixa a bolsa lateral, que a maioria dos bruxos usa, sobre a cadeira, pensando sobre o que vai falar a seguir, mas seu visitante é especial, e faz o comentário: "Sinto que você tem estado preocupado, jovem". O professor para, olhando seu mestre; é difícil esconder qualquer coisa dele: "A nossa linhagem deve agir", Asal firma.

Entra, de repente, uma menina branquinha, de cabelos pretos, lisos, curto atrás, um pouco longo à frente, levitando duas bandejas. Uma delas com a jarra de água e copos, outra com pastéis de queijo e uma tábua de frios.

O professor, ainda se sentindo jovem na presença do mestre, vê a menina ajeitar a mesinha e levá-la para perto das poltronas. Duvida que ela saiba que ele ia pedir isso. Se, ela merece um ponto. A bolsa de equipamentos dela está cheia e a faca está sempre preparada, o professor percebe orgulhoso. A menina ajeitou tudo, e se pôs ao lado da estante esperando a sintonia; ambos os mestres lhe observam a posição do corpo, a respiração perfeita, a mente vazia, e ao mesmo tempo a atenção à oportunidade – a qualidade esperada do supertreinamento.

Coelho olha para a garota, e seu antigo aluno vê o canto do lábio esboçar o menor sorriso possível, para testar se ela perceberia.

– Então, você é a famosa Asha? – diz o convidado.

– Sim, sou eu; e você é o Mestre Coelho, que deu o Carnaval desse ano pra nossa Capela pra gente dançar.

Asal percebe que ela, ao dizer isso, imita o mesmo sorriso mínimo, e até Coelho parece se sentir orgulhoso. O mestre convidado só observa. Parece que ela quer mesmo dizer alguma coisa, mas hoje a conversa que os espera é mais importante que ensinar novos truques a uma jovem. Assim, Coelho ri. Depois, para deixar a questão clara, olha para Asal-sã. A pele deles, castanha, indica a herança bruxa familiar, obviamente tão bra quanto a da maioria dos comuns.

– Asha, – diz Asal – muito obrigado.

Mas a menina não saiu do seu lugar, a espera.

Ficou ali, olhando para eles. Parecia tentar desafiar aqueles dois a ousar tirá-la de onde estava.

– Asha,... – insiste o professor.

– Eu sei sobre o que vão conversar! É sobre as Profecias! Tá tudo nas histórias de roda. Eu sei tudo! Não querem que eu escute porque sou muito nova! Eu já tenho onze anos; e sou a melhor aluna em todas as matérias! Não, não, a Branca é melhor em culinária. Agora, me fala alguma coisa que uma bruxa de onze anos não saiba! Mas, mesmo assim vou deixar vocês conversarem.

Fez uma breve reverência, e saiu.

– Hehe – riu-se Coelho – Não é a toa que ela está nas Profecias. Apesar do seu treinamento, ela ainda é muito expressiva. Você viu? Ainda é possível ver tudo o que ela quer; eu sugiro que você oriente os invisíveis a focar nisso. Alguém que tem supertreinamento da Tradição não pode fazer isso. É imperdoável. Aliás, qual é o papel dela nas Profecias, que a Tradição tanto esconde?

– Não há o que esconder. Ela vai ser a maior bruxa de todos os tempos, com tanto treinamento – Asal raspou a garganta e continuou – Isto, aliás, é o porquê de eu ter te chamado, Coelho, porque eu acredito que a Tradição tem apenas uma parte das Profecias; e eu tenho uma parte do que está faltando. Só queria que você, como meu mestre, entenda que não podemos comentar sobre o que eu descobri ainda, para não se levantar polêmica.

Coelho passou a mão no queixo, pensativo.

– O que você "tem"? – ele pergunta.

– Acredito que você percebe que eu pedi a ela para vir, porque isso poderia fazer parte da conversa – e ao dizer isso, Asal vê que seu antigo mestre concorda, abaixando de leve o seu rosto – Não sei ainda qual é o papel de Asha, mas o que eu realmente "tenho" é uma série de anotações. Diários. Desenhos (e o vidente não era um bom desenhista). Há problemas sérios, se essas informações forem mesmo verdade, e temos de agir. Não vamos ter tempo para pensar.

– Entendo – Samuel passa a mão esquerda no queixo – Você quer a minha ajuda para poder ter acesso ao Conselho. Sim. Isso... bem, eu entendo o papel que você me reservou, e ele é um dos mais difíceis. Anciões... Você preparou uma exposição, para podermos analisar o que você conseguiu, acredito eu.

– Sim – Asal espera o maestro pensar.

– Key. Você tem a minha palavra – conclui Samuel Coelho.

– Então – Asal pega uma garrafa de aguardente artesanal, na estante, e leva até seu antigo professor – vamos ao que interessa.

A um aceno, as janelas se fecham.

– Tem alguma coisa que você diria importante o suficiente pra falar agora, pra que eu me concentre nisso?

Asal para, e decide ser direto com seu mestre.

– Há, sim. Eu consegui evitar um atentado, em janeiro, que de outra forma parece anotado com tinta diferente. O texto mudou. Assim, acredito que existem os momentos em que vamos ter a opção de mudar as Profecias. Não tenho ainda certeza disso. A questão é que... os textos falam de uma guerra. De uma Grande Guerra... Já está sobre nós, e ninguém sabe ainda que está acontecendo.

Surge um avatar, vestido de branco e com um pano branco na cabeça, que então saúda ambos. Asal-sã ordena: "Dê início à exposição, Toidle", e tem início o estudo dos vinte e dois livros por discípulo e mestre, que já é urgente, desde que agora o bruxo sabe que é impossível investigar todos os eventos das profecias que tem. Não sozinho; não sem ele e outras pessoas da sua maior confiança.

Única holografia da sala, a mesa projeta as imagens. Alguém observando ia pensar que era é só uma conversa amena: suas vozes não têm emoção.

– O que acontece se falharmos, Gusa?

– O fim da humanidade.

– Oi!

Najka acaba de sair do círculo de teleporte. É recebida por uma menina, e imediatamente para.

Sua sorte é ser uma imortal.

– Tamara disse pra vir receber você, porque Asal-sã está ocupado. O diretor não está.

Aqueles foram os dois segundos mais extensos dos últimos anos, pois foi no mesmo momento que viu os olhos da menina que a filha da noite percebeu o tamanho do problema; ou solução: "Dogger",... Voltou mais ou menos onze anos no tempo para o momento em que, enquanto ele ainda estava em treinamento, esteve sob as ordens do ancião Alzo. O Salão do Hauki tinha apenas Alzo, ela, ali por ordem de Dogger, e o vampiro muito jovem: ele havia dado sangue a uma mortal por sexo; e o ancião via suas memórias para tentar julgá-lo. Sem palavras, mas preocupada, ela oculta Dogger, seja qual a intenção dele: "Os olhos",...

– Me leve até ela – Najka não tem emoção na voz.

A menina fraziu as sobrancelhas, de boca aberta, pois esperava ao menos ser cumprimentada, e começou a guiar a visitante pelos construtos da Capela; ela andava rapidamente. A filha da noite viu seu movimento. A certeza. A respiração. Tudo o que esperava ser, agora. A menina parecia ser talvez a maior conhecedora de todos estes cômodos: corredores, as salas de troféus, as várias bibliotecas e os ambientes de estudo, um labirinto planar. Mas bem, para Najka, só que o vidro das janelas lhe permitisse andar de dia... magia e tetratitâneo, permitindo uma imortal andar ali, já era um fato interessante; e invocava memórias.

Será que isso tem a ver com os eventos de sessenta anos antes? Setenta, a guerra, magos, enfim. Talvez, mas não é hora de questionar isso; nem os porquês dos seus aliados, ainda que seus anciões tenham dúvidas. Sua anciã vai ver, se ela questionar. Não há como se esconder as ações. Assim, uma grande parte da política entre os vampiros acontece em meio ao que estes não falam, não olham, e não fazem. Aqui está, não há como negar, a menina que sabe tudo na Escola Capela. Enquanto outros alunos e alunas passam, num indo e vindo no labirinto, ela dá notícias, responde uma questão de prova, sabe tudo. Najka ativa o sentido do cheiro, para confirmar – a pequena está se mordendo de vontade de fazer perguntas e conseguir alguma coisa da imortal.

Najka se sente usada: Dogger, O Ancião dos Anciões, de alguma maneira parece ter planos; e ela se vê dentro deles como um peixe no aquário.

– Você é amiga do Iko, não é? – a menina pergunta.

– Onde ele está? – pronto. A imortal sabe que a pergunta foi direta, e a chance da curiosidade ocupar todo o lugar é maior. Talvez seja necessário dar a ela alguma coisa a mais, dúvidas. Dúvidas são sempre mágicas.

– Waw, você não deixa fugir nada, hã? – diz a bruxa.

– Preciso falar com ele – diz Najka. "O que ela sabe sobre Elliot?"; Najka só entendeu de quem ela falava porque sentiu o cheiro dele. Iko. Teria de perguntar, se não fosse, mas pensa: "Aonde atiçar a curiosidade poderá me levar?".

– Está bom. Eu levo você até ele também, só que agora ele está na sala de holografia. Não sai de lá. Todos os outros horários, que não tem aula, ele está lá. Oi, oi, Kika! – ela cumprimenta uma outra aluna – Diz pro nosso androide que eu to ocupada, e não vou na aula. Tchau! Então? Ao menos parou de perguntar o que são as coisas, como se alguém não fosse saber o que é uma tela de interface, humpf, mas eu explico tudo, tudo. Foi o Asal que me mandou fazer isso. Não sei porque, mas faço porque ele é legal, mesmo ele não sendo bruxo. Ele tá muito melhor, com a poção. Como você se chama?

– Najka, e você? – perfeito.

– Asha. Eu sou a melhor aluna da Capela – respondeu a menina.

– Estamos chegando? – só para causar boa impressão.

– Waw, você não é de conversar muito mesmo, não é? É logo aqui, depois da Passagem dos Enforcados – pararam, e sumiram – Aqui. Chegamos.

Escadas, escadas, por todos os lados, corredores que se movem no ar sobre o Salão, abaixo; e o papel de parede digital retrata a grande guerra de independência dos bruxos. Há salas demais. O aviso diz "Abrigo", e parece estar preparado para enfrentar privação. Os olhos atentos da filha da noite vêem ao longo do corredor caixas-cama, onde se dorme com todo o conforto de um caixão; mas tudo isso é um plano de defesa, uma escola em contínuo estado de alerta.

Asha. Pode ser muito importante fazer amizade com ela. "Melhor Aluna", a oportunidade é excelente. Elas andam pelas escadas, são vários andares.

– Maestra Toromago. Sua convidada está aqui – diz Asha, e abrindo de leve a porta, para ao que indica não ser indelicada com a professora da única matéria que ela não vai tão bem assim faz já dois anos.

É uma sala fechada. Há um espelho mágico que mostra um jardim, que pode estar em qualquer lugar do mundo. Frascos em estantes, alinhados no que parecem nove quartos à direita, e uma porta – "Uma suíte?", pensa Najka.

Desde que o Círculo de Asal Gusa os salvou, que Najka está em dívida com esse grupo.

– Ah!, entre, Asha – disse Tamara – Alô, Najka. Só um segundo – e terminou de por a tampa em uma cabaça – Pronto. Aqui está, Asha. Você vai levar, e tome cuidado para não derramar. Esta é a poção mágica do Elliot. E vamos, não torce o nariz pro remédio, Asha. É a única fórmula conhecida para esse mal; e Najka nos trouxe uma relíquia. Os ingredientes são muito caros! Não ouse derramar!

Asha torce o nariz para o cheiro forte, e acompanha Tamara e Najka pelos corredores, e para cima até a Passagem dos Enforcados, mais uma vez.

– Notícias de Sampa e do Rio de Janeiro, Najka?

– Poucas. Há um centro de pesquisa da Daikun Tech próximo, e a segurança é feita por ninjas, então é melhor não chegar perto para descobrir; mesmo eles sendo uma Ordos comum. – agora, a hora que espera – Elliot está melhor? Você é uma alquimista muito boa, porque minha anciã diz que essa poção é do tipo semi-possível. Eu acabo de vir de Ouro Preto, e tenho algumas perguntas. Faz um mês e meio desde que viemos, e passei as últimas semanas em campo. Porque o Diretor nunca está? Ouvi dizer que ele conhece os anciões imortais.

– Asal vai lhe explicar – diz Tamara – E a morte do desembargador?

– Aplegia – a caçadora sente o cheiro de medo da bruxa, e ou seu sentido lhe engana, ou não sente o mesmo cheiro da jovem: ela é indiferente.

Se posicionaram mais uma vez sobre os símbolos, e a vampira nota a aura da forca sobre elas: uma provável ameaça a possíveis invasores. Tudo desaparece, e agora estão em outra torre. O aviso diz "Torre da Necessidade" erguido no ar; elas parecem estar no primeiro andar acima. Najka percebe que conseguiu atingir na menina bruxa a curiosidade que planejou; pois a atenção dela está dividida: da poção que leva consigo, para os movimentos cautelosos dela mesma. Elas vão até uma porta, que se abre a dar passagem; a ginoide abaixa a cabeça deixando uma mão sobre o peito, e depois, então, volta à sua posição de vigia.

Najka percebe: nada disso é visível de fora.

Havia um droide de limpeza no canto e uma garota mais velha vestida em uma camisa social branca, sentada. Um sapo sobre o colo. A antesala teria só vinte metros quadrados. A própria porta é a tela. Asha cumprimenta a colega, com um sorriso controlado, ao parar ao lado da professora, com uma atitude de respeito e missão. Najka ouve o ruído leve da outra aluna suspirando. Ela passa sua mão sobre o sapo, enquanto Tamara comenta quando entram.

– Tem certeza? Aplegia... Fico abismada com o radicalismo. Isso é o que causou a caça às bruxas européia, da era medieval! E aqui também, em pleno século vinte e dois! Wýr! Não acredito o quanto as pessoas podem ser imbecis, a ponto de considerar um filósofo ateu como líder espiritual. Ateu! Radicais, que se infiltram em todas as sociedades para matar pessoas que podem salvar vidas!

A noturna não expressou nada, apenas olhou a porta.

– Alquimistas. Médicos. Xamãs. Cientistas, todos eles são alvos; quando um dia dizem que acreditam no divino. Um Deus qualquer que seja! Pior, esse povo não sabe a diferença entre um Deus e um Tottem! Ou se, de repente, são a favor da religião! Olha, eu posso concordar que essa sociedade comum é ignorante, mas a aplegia é muito pior. Assassinos! Isso mesmo, terroristas. Um absurdo que já acontece há mais de dois mil anos! Sem noção!

Najka pensa calada, tentando evitar comentar e ao mesmo tempo evitando se lembrar da infância, pois as memórias dos imortais são como assombrações. Não havia o que dizer contra isso; ainda assim, a sociedade mortal é útil aos vampiros, exatamente como ela é: suja, bem educada, ignorante, sem a menor noção do sobrenatural que os abraça, parcialmente inofensiva.

– Chegamos – a alquimista para, transtornada – Computador?

A sala de holografia mostrava Elliot; e imagens de tecnologias diversas: a weartech, componentes, a sua localização em partes de equipamentos. Ele para e manda desligar a sua pesquisa. Nem ao menos arquiva as informações.

– Entre, Najka – disse ele, olhando pelas paredes da holografia.

Asha sentiu um arrepio: “Como é que ele sabe de que direção a sala está mostrando ele?”, Asha pensa, pois ele olha para elas através da tela, e parecia olhar bem dentro dos seus olhos, uma das várias coisas que dão arrepio vindas dele, que não é um bruxo, psiónico, vampiro, nada que ela saiba.

Tamara abriu a porta, e chamou Asha.

– Vim trazer sua poção – diz Tamara – Asha.

– Oi – diz a bruxinha – Está aqui, Iko.

Elliot abriu. A poção tem um cheiro muito forte; e Asha chegou um pouco para trás. Elliot bebeu tudo de uma vez. Entregou a cabaça a Asha, que colocou com cuidado no bioplástico, fazendo careta.

– Ah, sim. Avatar, simule um ambiente noturno – mandou Elliot. E só então, Najka entrou.

– Como sabia que eu estava aqui?

Elliot observou Najka, ainda tentando meditar.

– Não sabia. Asha é muito jovem ainda. Eu a vi receber alguém na sala de rituais; e ela não sabe esconder seus pensamentos.

Asha ficou furiosa, franziu a testa e ia responder, mas Tamara fez sinal para não falar nada; então Najka deu um passo adiante, para sentir o cheiro de Elliot. O garoto vê uma aluna mais velha, com ar de aristocrata, dizendo: "Se você garante, tanto assim, que aquela enxirida é tão especial, acho que vou deixar como está, que ela é a queridinha da professora, afinal", e uma voz doce que responde – "Faça então o seguinte: pergunte ao seu Patrono. Você vai acabar me contando alguma coisa a mais, e eu preciso mais disso que de roupa pra dançar a roda, Lu". Do nada, ele ia cair ao chão, mas a vampira o segurou muito rápido, e sustenta seu corpo; Asha viu de boca aberta a sua agilidade, e Najka o deixou se manter, ao olhar o negro das íris dos olhos dele; havia certeza.

– Você acredita no que diz – concluiu Najka.

– Ai! Ninguém parou para perceber que eu já tenho "onze" anos, não? – a reação dela exigia uma ação direta da professora.

– Asha: Ssh!,... – repreendeu Tamara, gesticulando "Não".

Então, Asha olhou para o céu. Elliot franziu a testa, baixou as sobrancelhas, e olhou também para o céu.

Até Asha percebeu o rosto de Elliot, pálido.

– Seu coração acelerou – disse Najka.

Se lembrou de uma palavra: O Silêncio.

– Avatar – o pedido do garoto denota pavor. Ele via um "Nada!" imenso entre o depois e o antes; sentiu chegar, ameaçador.

– Sim? – disse a avatar, Maýra, surgindo ao seu lado.

– Que dia está sendo apresentado na holografia? – Elliot tremia.

– O dia das bruxas do ano passado.

– E que dia é,...

– Ai, Iko. Eu sempre tenho que te explicar tudo? O Dia das Bruxas é trinta e um de Outubro, – diz Asha sem pensar – e esse que tá aí é o cometa Halley, um cometa. Você sabe o que é um cometa, não é? Esse é o dia em que,...

Elliot sentiu suas pernas fraquejarem. Ficou tudo escuro. O nada imperativo mais uma vez tomou o controle.

Desmaiou.

(Fim do Cap 3)

A pena

é a espada

da língua:

salva, vitima,

tanto fere

quanto

rima.