O Segundo Limiar

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Dezessete -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 1 de Maio de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 17 -- O Segundo Limiar

– Quem é você? – Asha saca a varinha, rapidamente – E o que está fazendo neste lugar? – sua voz se tornou severa, exigente. Ela abaixou um pouco o rosto, para ver se havia mais alguém ali, mas a invasora estava, ao que pode perceber, sozinha e seu rosto dizia "culpada".

– Eu? Ah, ninguém importante. Eu não sou ninguém importante, e,... e,... estava só de passagem aqui – diz a garota, obviamente mentindo. E, nessa hora, Nina deu um passo adiante, cheia de propósito ao lado de sua amiga bruxa, que apontava a varinha para o peito da invasora – ela parecia saber muito bem o que isso significava. Os olhares da suspeita não deixavam dúvidas de que estava com medo e sabia o que era uma varinha.

– É, sim – tomou coragem a futura wicca.

– Explique melhor – Asha pede.

E Nina olhou bem para a garota suspeita, apertando o olhar.

– Você é a princesa Taíla Klai.

Asha não perdia nem a respiração da garota, e fez um movimento rápido com o pé logo que a invasora tentou dar o terceiro passo para trás, paralisando seus pés no chão.

– Princesa? – comentou severamente a bruxa.

– Oh, você me conhece? – diz a princesa, com brilho nos olhos – Você deve ser uma pessoa importante. Meu rosto não é conhecido dos plebeus, devido a normas de segurança da minha Nação. Então, você deve ser alg-...

– Vi você na entrega do prémio Imperatriz Ata, sua avó, dado a grandes nomes da ciência, no início do ano. Estava com meu pai. Lá, eu não era ninguém para você, não é? Aqui, sou alguém que pode te tirar de uma fria, mas você não disse porque está aqui!

"Perfeito!", pensa Asha – "Ela até que tá aprendendo". Não havia mais nada a fazer, a não ser...

– Você é nossa prisioneira, princesa. Seguimos você até aqui e estávamos esperando você tentar lidar diretamente com o Selo de entrada. Você está com problemas muito sérios mesmo, alteza real – disse Asha e, apesar da ironia, sua voz era de comando.

– Não, não. Eu estava só de passagem, mesmo. Mas o que vocês estavam fazendo na Sala do Tesouro?...

– Você sabe o que é essa Sala? – surpreendeu-se a bruxa.

Deu dois passos e fez sinal com a cabeça para os amigos saírem da sala onde estavam, saindo para a antesala. Olhou para Tomi e apontou com o queixo o droide de segurança, que havia sido desligado por eles e deixado em uma ação de volta infinita, contando até dez; idéia do garoto. O droide foi reiniciado, e a menina fechou o selo da Sala do Tesouro. Nina, focada na princesa. Tudo isso de uma maneira tão organizada que a princesa dessa vez ficou preocupada, talvez pela primeira vez – "Eles são soldados?", pensa ela – e viu-se sem saída.

– Venha. Se tentar fugir será pior, pois a segurança da escola é a melhor do aglomerado. Ande. Não há tempo de ir pelos meios normais, então está na hora de usar um atalho – e Asha solta os pés da princesa da paralisia.

Andaram pelo estreito corredor planar, saindo direito no corredor norte do quarto andar, em frente à sala quarenta e nove, última do lado leste; mas Asha se virou para a parede. A bruxa para, e olha para o nada. Ela parecia se concentrar. Nina tentava ver a magia,... A parede se abriu, ou melhor, sumiu, e dentro dela havia uma escultura, como se fosse feita de seda pura.

– Supersoldado, deixe-nos passar, por favor – pediu, gentil, a bruxa.

E a escultura, armadura, – ou seja o que for – saiu do seu lugar, movendo-se lenta e calmamente, tomando a frente da passagem.

– Ssennnhaaa,... – sussurrou, uma voz fantasmagórica.

– Ai! Um fastasma – deu um gemido a princesa.

– Minha senha é Santa Wicca – revela Asha. O supersoldado sai da frente, para que usem a passagem.

A princesa parou de falar, quando percebeu a varinha. Sabia ela muito bem o que era, por ser contos de fadas tudo a que deu valor por toda a vida.

Aquela era a bruxa malvada, pensava. E foi essa bruxa malvada que entrou no lugar vago, olhando para ela como quem analisa a carga.

Era um cubículo, de um metro quadrado.

– Vou explicar. Você – Asha aponta Tomi – fica encarregado de não deixar a prisioneira fugir. Pegue ela pelos cabelos, se for necessário. (fez uma pausa). Vocês juntam os braços bem perto do corpo, assim. Se vocês soltarem os braços, eles vão se quebrar no túnel. Vocês mentalizam a senha de hoje: “Pêssego em calda”, e vamos todos ao jardim ao lado da cozinha e da Torre de Meditação, ao lado do Salão, bem no meio da escola, da maneira mais fácil e simples.

Dito isso, ela afundou.

Não abriu um alçapão, ou algo assim. Mas sim afundou no chão, passando direto pelo chão de mármore; e se foi.

– Você primeiro – resumiu o garoto à prisioneira.

Ela levantou o nariz, como quem diz: "Se vou morrer, então irei morrer com honra"; e Nina começou a ter raiva dela, mas de maneira contida.

O túnel vai em ziguezague, descendo. E então, eles logo se reuniram sob o luar, ao lado da Torre, no gramado central, ao lado da área onde foi o almoço. Podiam ouvir, à distância, os incontáveis convidados, os familiares e amigos dos alunos se divertindo aqui e ali nas barraquinhas. Não é todo dia que se tem a liberdade para ver pessoalmente o que a Nação da Magia guarda, segredos, e doces mágicos, é claro. Asha manteve a sua varinha apontada para a prisioneira. Esta fez que ia reclamar, mas mudou de idéia, pois via que essa menina tinha uma arma, a varinha maligna e nefasta que podia lhe amaldiçoar.

De repente sai, de trás das barraquinhas, um homem. Tinha uns trinta anos, os cabelos claros quase louros, e uma jaqueta azul. Foi então que vieram, vindas do Salão de Entrada, umas dez pessoas, aparentemente comuns, pensou Nina, e o homem chegou até eles avançando a passos duros.

– Libertè! Igualitè! Fraternitè! – grita o homem, exaltado.

– Ele tem uma b,... – Nina começa a gritar.

Tomi não pensou duas vezes, e chutou a mão dele, que ficou ali, com uma expressão de desespero, e então não aconteceu nada.

O homem socou Tomi. Errou. Chutou ele. Errou de novo. Então, o homem pula e tenta acertar a cabeça, mas o menino, como se fosse o mais formoso dos gatos, pula e escapa mais uma vez, se preparando.

– ..,. -omba – termina a garota.

Ignorando Tomi, o estranho se move, muito rápido.

Arranca uma faca de dentro da jaqueta e parte para cima da prisioneira, na mesma hora que uma pessoa entra no jardim pulando sobre ele, evitando que o homem esfaqueasse a princesa, que não parece entender nada.

Nina olha para o recém-chegado: era Elliot!

A surpresa do terrorista não durou muito. Ele parecia focado, todos viam a expressão dele para a princesa, um olhar de esse é o alvo.

– Vai, Elliot! Eu desmonto o detonador! – grita Tomi.

– Cuidado, Iko! A faca pode estar envenenada! – Asha grita, enquanto ela tentava mirar uma magia, mas os dois estavam embolados.

– Aplegia! – gritou a princesa, se desequilibrando.

O homem se virou, muito rápido. Parecia especialista em algum tipo de arte marcial, e ia enfiar a faca nas costas dele, quando a bruxa gritou.

– Athamia Kleo! – Asha conjura e acerta.

Arrancou a faca das mãos do homem.

– O que é isso?! – falaram as pessoas que haviam chegado, e chamavam outras que estavam nos jardins, que chegariam logo a seguir.

– Vosê (Parrh!) nãou (Pugh!) pode fazêer issso (Zuh!), seu fréagile – disse então o atacante, com um sotaque franka, batendo várias vezes no garoto.

Elliot, jogado para o lado, se levanta rapidamente para pegar as pernas do assassino franka.

Assim – Pug! Tâmm! H-tsugh! – faziam os ataques do homem.

A princesa tonta pisa no pé de Nina e começa a cair, mas Tomi puxa a princesa pela roupa, rasgando um pedaço, evitando que ambas caíssem. A louca da garota se ajoelha com medo e começa a entrar em colapso. O garoto sabe muito bem que a mente dela não é preparada para o sobrenatural e que em situação de estresse ela irá surtar, se ele não der uma nela; não literalmente, é claro – ele decide balançar ela – alienada, a princesa está fora de si.

– Ei! – grita Tomi – Nós estamos aqui pra salvar você! Se você machucar a Nina, eu não me importo quem você é ou deixou de ser, menina, mas você vai se ver comigo! Está me entendendo?! – e balançou forte – Nós estamos te salvando! Calma! Vai, respira. Respira, agora. Isso, calma,... – falou mais devagar, então.

– Aplegia?! Foi isso que ela gritou? Você ouviu? – disse alguém.

Gúg! T-tug! – faziam os ataques; e Elliot começou a sangrar. Não conseguia nem acertar o homem, pensava ele sendo espancado; e a bruxa estava desesperada com os comuns, pois não podia acertar seu amigo, pensava ela.

– Món sac de boxe! – xinga o franka.

– O que está acontecendo aqui? – veio correndo dos dormitórios a mesma menina ruiva, Sibel. Nina se lembra dela, no feriado ela lhes servira à mesa.

– Vosê aimez séer un sac de boxe, répète!

E dava socos, chutes em Elliot, de uma forma que Asha já estava entrando em desespero, mas quando viu Sibel, gritou para ela pedindo ajuda.

– Sýr, Sibel! Sýr! – grita Asha, ainda tentando mirar.

Uma multidão estava chegando. Comuns. Quem estava lá no Pátio, onde a imensa e antiga árvore, símbolo da escola, parece ter também parado para ver o que acontecia ali. Asha mira o chão e grita: – Ankkora! – e a energia vermelha e branca se espalha por vários metros. Nina se sente paralisada.

A ruiva olha para a situação e avança. Ela entra diante da confusão, respira fundo e dança, girando umas poucas vezes. Dela – das suas mãos – começa a se formar uma emanação de luz, tão vermelha quanto os seus cabelos, enquanto ela concentra todas as suas forças nas palavras de poder.

– Sýr-Qúwwa Alfa! – diz a sua voz suave, mas certa.

A partir de suas mãos, começa a se fazer um círculo de fogo em pleno ar e que, em segundos, se fecha, encobrindo toda a cena. Ela atinge tudo; e na hora, todos os muitos comuns ficaram enebriados. A magia estava feita. Um deles até perguntava: “O que houve?”, e Sibel para, se concentrando para manter.

Tomi achou que ninguém nunca havia apanhado tanto assim, nem mesmo durante a história dessa tal grande guerra de separação com os magos europeus, e jura que escutou umas duas costelas se quebrando. O nariz e a perna também. Asha tentava lançar magias sobre o assassino. Occaeco! Interdico! Proteo Glaeo! Tausthau! Nenhuma delas acertava. Então, gritou para a colega Sibel, que ainda se concentrava para manter os comuns enebriados, alienados.

– Ele tem resistência! Muita! – Asha saca a faca.

Os socos e pernadas continuavam. Os comuns, bem como os bruxos que não sabiam o que acontecia, passavam por eles ignorando-os.

– Grítè, cochon! – grita o homem; com o sotaque errado.

De repente, o homem saltou – resistindo a mais uma magia de Asha – para longe e levantou com a faca na mão, agora sorridente.

Aquilo já tinha ido longe demais! Asha entra na frente. Ela ouve atrás de si o início do choro da prisioneira – dano de lucidez.

O franka andou muito rápido até o seu saco de pancadas – sac de boxe, como ele o chamou, ajoelhado, quebrado, agonizando, e pegou Elliot pelos seus cabelos. Não havia nada a fazer, Asha defendia a princesa e não ele, e o homem resolveu falar antes de matá-lo – Keudheo! – Asha acerta Elliot.

Isso fez Elliot olhar para cima, seus olhos se focam e ele sorri.

– Você... não pode... me... ven-cer,...

O franka riu, muito alto; e até as pessoas mantidas sob o efeito da magia com certeza ouviram sua rizada de pura maldade, de vitória.

Asha teme que a proteção não seja o bastante. Ela se concentra na terra sob seus pés para atacar o homem dali mesmo; mas,...

De repente, todos ouvem vindo de cima.

– Testor!

A sintonia era quase perfeita, não houvesse o medo. Ali, de cima do palco, a sua voz mágica emocionava a todos, adultos e crianças, velhos, homens e mulheres, o seu povo, os seus fãs. Apesar disso, ela era um tsunami de pânico, por dentro, já que via vários deles mortos em pouco tempo, mutilados, mas logo depois a sorte sorria para eles e eles já não iriam morrer mais, tal como se eles fossem abençoados; mas, do nada, a sombra lhes marcava de novo.

Sabia que seu Mestre estava lá nos bastidores coordenando, organizando tudo para evitar o massacre que ela via e sentia, com seu coração petrificado, sim, de medo,... Por duas vezes ela viu a sombra sobre ela mesma, momentos em que quase desafinou, mas se manteve, firme, bela e perfeita.

O relógio ia passando.

A música era a penúltima agora; e deixaria o palco para a roda. A luz das estrelas no céu; e a lua, linda e assustadora.

Estava lá, a lua do medo.

De repente, olhou para seu ente mais amado, aquele de quem herdou o dom da magia, afinal sua mãe estava doente, há tempos internada. Seu pai estava sério e, ainda assim, nobre. Ela percebia nele o ar de nobreza dos seus. A Senhora do Desconhecido lhe escolheu; e Elyfa percebeu isso, imediatamente – quem seria o primeiro, o escolhido para o início da ação terrível da Ceifadora.

Seu pai, seu amado pai.

E seria... agora.

Sua voz desafinou, soltando um gemido de pavor que nenhum de seus fãs havia ouvido até hoje! E então, veio a primeira lágrima.

Neste momento, todos perceberam.

Todos os adultos sacam suas varinhas, invocam seus cetros, a se preparar para a guerra e, mais uma vez, para se defender.

PGgûuuuuuu-Dddûuugh! – uma criatura de mais de sete metros de altura cai do céu sobre a lateral do palco, soltando um urro carregado de ódio.

– UGWOóoouóarrrrrrrhhhhr!!!...

O monstro caiu, vindo das trevas da abençoada emanação da luz da lua e parou exatamente ao lado de seu pai querido. Elyfa perdeu a voz, suas pernas fraquejaram e caiu de joelhos como se pudesse pedir à Noite, ao Caos de onde todos vieram, ao Nada para onde todos irão, para poupar o seu amado, sua luz, sua vida! Em gritos de desespero, os comuns entraram em surto coletivo tal como era esperado, ela mesma havia dito; não importa.

Vozes das Trevas e medo da morte vinham da platéia. Naquele momento, cheio de vozes aterrorizadas, o monstro atacou.

Atacou o lugar onde haviam crianças, mas Elyfa viu seu pai entrar na frente, com seu cajado de poder, “Andaluz!”, havia gritado ele; e protegeu todas aquelas pessoinhas – a vista dela embaça. Elyfa tentava dizer: “Sai! Sai daí. Não. Por favor, não! Meu pappi não”, mas sua voz some, seu coração apavorado.

TUM! TUM-TUTUM!

Dava graças à extrema potência, branca e dourada, das defesas de toda a sua família, resistir a ataques tão violentos.

Aquela criatura, a emanação do medo, ataca. O diretor pulou para o palco, da primeira fileira, demonstrando agilidade para a sua idade avançada.

– Venham para o palco! – diz ele, com a mão reta à boca.

"O velho!" – pensa ela – "Ele, ele é a única salvação! Tenho de falar com ele, porque ele é o único que vai me entender".

Mas a única coisa que saiu foi um “Pap-pi...” fraquinho, e apontou.

– Demônios! – grita a bruxa de vestido vermelho.

– Não são demônios – diz calmamente o velho – São monstros.

Nisto, dois outros surgiram, na área sul, chegando. Um deles se preparou para o ataque, olhando para o palco onde estava o maior número de pessoas; então o diretor ouviu Santiago levitar e gritar “Elyfa!”, mas de canto de olho ele viu que ela apontava para o próprio pai e, então, Sabarba entendeu.

– Evacuem a ala oeste! – ordenou o ancião – Agora!

Mas não foi a tempo,... O monstro cresceu tal como a sombra de morte, rugindo os medos íntimos e a esfera de força do nobre ruiu quando viu que o outro ia atacar o palco – sua filha estava lá! – "Não!", gritou ele. Duas funcionárias haviam retirado cada criança ameaçada – "Pap-pi",... ela engasga.

Ele foi esmagado pelos três braços da criatura.

Santiago agarra Elyfa e puxa, enquanto ela murmura “Paap-pii,...”, tirando-a da área de ataque do montro que vinha pelos ares, ao mesmo tempo que o velho negou a gravitação e o arremessou contra o outro que atacava o nobre homem, tentando salvá-lo. Finito, levado pela fé incógnita para O Outro Lado, enquanto sua filha se engasga de dor, sendo carregada dali; tumulto de sensações.

Um monstro jogado contra o outro, os ossos deles se quebram.

– Nossa prioridade são as crianças e os comuns! – resume Sabarba, ele que já viveu a grande batalha, um herói de guerra. Chegam mais monstros – Vão para os construtos! Vão! Organizem a defesa dos bastidores.

E então, todos ouviram vindo de cima.

– Testor!

– Quêeeee?!? – gritou Asha.

Do alto, voando, veio Nikolai brandindo seu cetro de poder e lançou uma magia poderosa sobre o terrorista, que soltou a faca e rolou no chão gritando, tanta era a dor que aquilo lhe causava.

Que pena, sua resistência não era tão grande que o poder dos artífices e suas obras primas não pudesse superar; e ele grita; e grita.

– Nikolai! Essa é uma magia proibida!

– Paralize ele! – gritou o garoto, pousando ao lado dela.

– Ele é resistente demais!

– Testor! – o homem havia se soltado da magia.

– Nikolai, para! Tortura é crime! – grita ela.

– Usa o Telluron da sua varinha. Usa ele todo! Só você vai conseguir. Eu não tenho toda a aptidão que você tem. Vai! Tem de ser você.

Ela respirou, sem opção, se concentrou ao máximo, pois aquela era uma coisa que nunca tinha feito na vida. Telluron. Um mineral interplanar, o maior condutor de magia que existe, um dos três componentes universais. Fungus, ectoconduíte e telluron.

Ela une sua mente a ele, esvaziando-a de emoções. Só ela iria conseguir, ele está certo. Se concetra em toda a sua magia em um único ataque. Seria certeira, infalível. Não podia errar, um só golpe.

– Tausthau! – acerta Asha. O terrorista foi paralizado; e calou-se a sua voz, de repente, como um réquiem de notas simbólicas.

Nikolai interrompeu sua magia. E depois, silêncio. A varinha de Asha pegou fogo e ela a soltou. Acabou. Acabou?,... De repente, a voz de caixinhos de ouro desafinou. Ela desafinou e desapareceu, deixando o eco do pavor para trás, que todos sentiram na última nota; e aquele som soou tão errado que todos ali e em cada um dos jardins perceberam, até mesmo os comuns.

– Tem algo errado – Asha diz e para, ouvindo.

– Eu estou viva? – delirava a princesa – Eu estou viva? – Nina, ao seu lado o tempo todo, achando que talvez não tivesse sido uma boa idéia salvá-la, confirma que sim com a cabeça, os olhos da princesa estalando – Eu estou viivaaa!,...

Todos param, olhando para a princesa; surto, é óbvio.

– Você! – olhou para Elliot – um barulho enorme veio do Anfiteatro, e fez o sangue de Asha congelar, pois ela entende; isso quer dizer,...

– Monstros! – conclui a bruxa, com um calafrio.

A louca da princesa se levanta e, com cuidado, vai se aproximando de Elliot, seu salvador, ela parecia orar. Horrorizada com a profundidade dos ferimentos, ela o toma nos braços. Fratura exposta da perna direita, a roupa toda rasgada, braço direito virado ao avesso, o seu dedo também; pelos deuses! Ele estava cego, ou parecia, do olho direito. Além disso, faltavam a ele ao menos cinco dentes e o seu nariz, agora todo torto,... Ele estava totalmente ensaguentado.

Elliot tinha a expressão alienada, em transe.

Taíla Klai toma Elliot nos braços, a loucura nos olhos.

– Meu herói – diz a princesa – Você é a pessoa mais importante pra mim no mundo; e eu nunca vou me esquecer de você! Nem um segundo – fez uma pausa, pois não sabia se ele a ouvia – Eu... só queria dizer... – uma explosão, no Anfiteatro, fez Nina e Tomi se juntarem a Asha, olhares de “E agora?”,...

– Temos de nos unir à defesa da escola – Asha conclama.

– ..,. que... – continua a princesa.

O tempo, ele não faz – aqui – muito sentido; nem as sensações do pânico acumulado entre momentos de vazio; não, não há o desejo de vazio, apenas a ausência de significado. À noite, às vezes, a ausência do tempo permite instantes em que a noção de continuidade acaba. Dormir, parece se misturar com o acordar. Sonhar, se parece com estar vivo em um sonho. Pior, um pesadelo. O medo, presente. Uma vez ou outra, pessoas que vêm e que vão, sem entender as suas faces, o seu olhar, assustador demais para querer sair de dentro do quarto, mas alguns rostos que passam por ali, tal como sua sorte à deriva, tem-se a sensação de que são conhecidos.

Tanto tempo se passou.

“O tempo parou”.

A emoção dele, se poderia dizer agora, é distinta, única. A magia, que ele viu e aprendeu. A dificuldade, a vida. O sofrimento. Amor. Amor que ele viu e que viveu, sendo acolhido por uma nação estranha, com hábitos incomuns; o saber tão insólito da aceitação, a esperança. Ele está só, agora. O tempo parou, pensa ele. A vida, que existe desde tempos imemoriais,... – "Não só na Terra", pensou em resposta. Mas este pensamento foi um pouco estranho, irregular. Ouvia o coração bater, que bateu durante sua vida inteira. Pulsando. O mesmo pulso, tentando se manter batendo. "Este é o segredo da vida", pensa. De onde vinham estes novos pensamentos, alheios e irregulares? – Há alguém aí? – pergunta.

Se sente surpreso: "Há alguém aí?" foi a resposta.

Estava morrendo, sabia! Esse é o seu destino; e logo a Ceifadora irá mostrar o seu rosto, a separá-lo da carne. Mas não se sentia sozinho.

Não, não; definitivamente havia alguém ali com ele.

Ouvia uma voz.

Era aterrorizador demais, no entanto este ser o observava, e era um tipo de estranho, estrangeiro; era,... era,...

Alienígena.

Era tal como água, um flúido vivo, que corria por todo seu corpo. Era vivo. Elétrico. Vivia em seu sangue. Dentro dele, tão antigo quanto o Universo fora, e tão grande para dentro quanto o mesmo, o mesmo,... dia.

– ,... eu te amo (ouve, sem compreender).

Todos estavam aterrorizados demais para falar; mas funcionários da escola corriam, conseguindo organizar os convidados que estavam ali antes, ao lado da Torre, levando-os para os construtos. Asha troca olhares com Sibel e Nikolai e, ao que parece, decidem ficar ali mesmo. Nem mesmo a princesa, parecendo meio louca, os ignorava; eles os cercam, andando ao redor deles, farejando e caçando, seres feitos do medo... transmosfos... os filhos de Luna: Monstros.

Monstros. Os transmorfos assumiam a forma dos seus medos – dois deles estavam ao redor do grupo; e Asha se juntou a Sibel, para manter a barreira que os protegia, ao que parece, tanto de comuns quanto deles.

Explosões aconteciam por toda a escola, eles viam ao longe. “Eles estão procurando alguma coisa”, intui Asha. Tinha certeza que eles, a todo momento que passavam ali, assumindo as formas de seus pesadelos, sabiam o que estavam procurando. Via isso neles, mesmo sendo monstros, afinal ela era mais poderosa que alguns deles, talvez, ou talvez possa vir a ser. O medo da morte chegou, aos poucos, pois não sabiam como a escola ia saber onde eles estavam, e essa magia era muito poderosa, Sibel era da única linhagem que a conhecia.

Asha se lembra dos ensinamentos de Asal-sã: "Monstros têm superforça, superresistência e superagilidade; mas sua intelecção é comum".

Tudo isso, enquanto a princesa murmurava, louca.

Não houve opção: Asha, imediatamente depois de ouvir o urro que veio do anfiteatro, viu que dois deles estavam ao redor; os convidados fugindo, ouvindo os funcionários chamar – agora, eles estão presos; mas, em segurança.

Taíla Klai murmura em pânico, evitando olhar para os monstros, pois tinha essa certeza que ficaria louca; e Elliot, em transe: está,... se não fosse ele,...

"Morrendo", sabia a bruxa – o que fazer? Asha se vira.

Nina está paralizada, vendo seus medos mais íntimos um a um lhe serem mostrados; mas havia algo errado, Asha conclui. A forma. Asha viu que o que eles se transformavam era, pra dizer o mínimo, as formas mais medonhas ou mais terríveis que já imaginou – "A Ceifadora! Nga está aqui", pensa a bruxa. Há pouca distância, eles veem: o Anfiteatro da Tragédia explode.

“Quem é você?”

"Quem é você",... pensou em resposta.

Eu sou Elliot, o oráculo. Nasci nas Nações Unidas Bra. Minha mãe, não, ela não se lembra de mim. Meu pai, morreu, ou desapareceu. Não tenho memória da infância. Nada. Não sei onde vivi. Nem que amigos eu tive. Nem que livros eu li, ou músicas gostei.

Vivi muito tempo no vazio, o Nada, o vago do medo, até que um dia me levantei, porque senti uma presença. A Morte. Ela é linda. Ao menos essa morte que eu conheci. Não conheço A Ceifadora, ainda. Aella foi a minha única e maior fonte de esperança, a coisa que me fez levantar da cama, até que,... até que,... eu sonhei! Me lembro, agora. E, então, eu me levantei; e andei.

Agora eu me lembro,... naquela noite,...

Alguma coisa caiu em minha cabeça! Sim,...

Era frágil, e imaterial; e quando coloquei a mão não havia nada, nada além da cabeça que eu nem mesmo sei se está sobre o meu corpo. Estou morrendo, não é verdade? Eu sei. "Não", pensou estranhamente de novo. Como? Como eu posso estar vivo, se meu corpo não está? Se não vejo, se o tempo parou e eu ouço respostas do meu,... sangue,... se só sinto essa,... presença?

"Esperança" – ele sente isso como uma sentença.

A esperança surge novamente, mas ele percebe que "Esperança" foi algum tipo de resposta, ativando alguma coisa dentro do Nada mais profundo.

Tocado pela esperança: a sentença lhe atingiu.

Eu jurei proteger aqueles que amo! O que devo fazer agora? E foi então que se viu mais uma vez naquele pátio, na clínica.

"O que você quer me mostrar?", pergunta em vão; teria de descobrir! Não era isso que os bruxos dizem? Que, ao desvendar O Enigma, ele é seu, a Magia se torna sua, e nada no mundo pode lhe negar esse direito?

Então, isso é verdade,... Seria isso o paraíso? Onde,...

Observando-se, esboçando andar ali, em busca de uma esperança que lhe era tão desconhecida, Elliot vê uma energia atrás de seu antigo eu. Era como se fosse um tipo de corda,... não,... várias e várias delas, às costas da sua memória, e ele decide ir ver o que é. Ele vê cordas translúcidas vindas de cima, e presencia uma massa imaterial pousar sobre sua cabeça. Não tem cor, nem reflete luz; mas está lá, por um único instante e,... de repente, ela entra. Mas a corda que ele vê segue, indo para o quarto, e o vazio,... O Silêncio. O Nada, ali está. Está em sua cabeça, seu cérebro! Entendeu. Sabia agora que está ali, tudo que ele não sabe, tudo o que ele perdeu, tudo,... Mas o momento está congelado.

Decide reunir toda a sua coragem e lembrar, num esforço fatal. Morreria tentando, mas viver sem passado ele já conhece; iria voltar.

No Outro Lado não há o tempo, nem o espaço.

"Eu te amo", ele ouve; e sente outra presença, ao seu lado. Assim que ele se lembra, a vê ao seu lado: Taíla Klai. Apavorada. Louca. Apavorada e louca, mas ao seu lado. Decide nadar no vazio, subindo, e subindo, e subindo. É como ir na direção contrária à da ausência–presença, sente o falescente – havia uma Verdade ameaçadora – "Ela está lá, e não está" – "O quê?" – Elliot vê Taíla e deduz que se deixá-la onde está, ela morre – a presença, ele sente, está em todo o seu corpo, em seu sangue e, em especial, o cérebro – Ele agarra Taíla e vai.

– E, então... (fng),... eu só queria..,. te dizer que...

Elliot sente. Seus olhos se moveram; e toda a dor voltou a ser real. Mas ele estava nadando, subindo, voltando com tudo aquilo que estava perdido.

– ..,. eu te amo – terminou a princesa, se declarando. Assim, a princesa louca tomou sua decisão, certa de que alquele seria seu último dia.

Aproximou-se de seu herói, seu príncipe, e o beijou.

Há caminhos que se cruzam e só o Destino é capaz de explicar.

Elliot beijou a princesa: e ele a viu! Viu a vida, ao redor. Sentiu o coração da princesa bater. Se uniu a ela; e ambos foram invadidos por um amor, divino, mas ao mesmo tempo natural, que brotou, sem fronteiras; mas sem saber que o que os outros viam era outra coisa, outra cena – a ilusão da verdade.

De repente, uma energia ergue Elliot e a princesa louca.

Asha ia se desesperar, mas alguma coisa se modificou na Magia, ela sentia, afinal a é-agá da escola era quase sua. Via que a magia estava diferente, como se Elliot e a princesa louca mudassem a é-agá do lugar; e se concentrou mais ainda em manter o círculo das fadas em torno deles – "Será? Será que era isso? Como? Mas como é que alguém iria saber disso?!" – Rodas de energia lançam Nina, Tomi, e até Nikolai para longe, mas ainda bem que para dentro do círculo.

Elliot viu – sua sentença – e poder: amor, esperança e medo.

O Ser o ilumina e Elliot vê todos os segundos de sua vida, a sua infância, o seu sequestro, o seu tenebroso Silêncio; e dividiu tudo com ela. Sentia o coração de uma jovem linda, apavorada, ao seu lado, e a abraçou. Elliot vê que a série de cordas que estão atrás da sua princesa vão na outra direção, para fora do Outro Lado, mas sabe que tudo que ele mesmo viveu é demais para ela, fraca, comum e louca. Apesar disso, sentia. Sabia que o amor dela era verdadeiro; e seu.

Elliot abraça a princesa e a sua esperança a acalma.

Em toda a escola, focos de incêndio se espalham, manchando o céu sob os paraluzes de cor de fogo, mas há um esmeralda, insistente, o qual luta contra um azul anil que tenta tomar o seu lugar.

Do fundo de si, Elliot sabe que dividiu com ela, sua princesa, todo o saber terrível que acabara de observar – sua memória perdida.

Nesse momento, diversos portais se abriram. Do lado de fora do círculo, os monstros urraram. Eram agora cinco. Caçando-os; e já estavam ao redor de onde se escondiam, protegidos pelo círculo das fadas.

As vilas bruxas, que dividem a região com a Escola, chegam para lutar e defender os alunos e convidados – raios acertam os monstros.

Adultos treinados, eles recuam: atacar e fugir.

"Devemos ir para os edifícios; neles, os supersoldados não vão deixar que os monstros entrem – mas precisamos saber: como? Só há uma opção: isso deve ter sido profetizado e eles estão aqui para tentar evitar,... Mas isso quer dizer ao mesmo tempo, que alguém sabe onde é a escola",...

Elliot segue os fios de Taíla e retorna.

“Sua vida nunca mais será a mesma, princesa, mas estou aqui. Estou aqui e vou te pedir ajuda. Você vê? Isto que nós estamos vendo? Tem fim, você vê? Nós somos os únicos a saber. Eu jurei proteger a todos que amo; e agora a esperança me invadiu. Sim, meu medo é enorme. Ele é meu amigo. A esperança, esta acaba de acontecer. Você vai fugir de mim. Mas você sabe, no seu coração, que só nós dois podemos fazer a diferença. Vá. Eu deixo você ir. Fuja. Finja que nada disso aconteceu, mas veja. Olhe minhas visões, Taíla; e, em meio à destruição, o nosso casamento. Você mesma vai encontrar a saída, aqui e ali, olhe; e se tornar aquilo que seu pai já desistiu de que um dia você venha a ser: uma escolhida. Vá”.

Elliot e Taíla desabam sobre chão, desmaiados.

A Caçada não se anuncia, apenas começa.

Vindos por portais – Asha conclui que a Diretoria abriu as proteções – uma enorme quantidade de imortais chega, nekron – vampiros: inimigos eternos dos monstros – e a pequena sente alívio, o primeiro nessa noite.

Barracas incendiadas se espalham pelos jardins de bronze, mas todos os convidados estão nos planos artificiais, em segurança.

Os monstros destróem tudo em seu caminho, mas inúmeros foram os que vieram – os imortais vieram lutar – mas não se mostram aos bruxos.

Raios, clarões e palavras de poder – uma tempestade, sangue e destruição se moviam, entre o horizonte, o chão e sob os paraluzes.

Ainda mantendo o círculo, Asha se concentra.

Ao olhar ao redor, procurando uma forma de sair dali, vê Nikolai se levantar e ela o chama depressa – “Rápido! Elliot vai morrer. Você vai voando, e leva Elliot pra enfermaria. Isso é a sua missão, Nikolai. E avise onde estamos, que eles estão aqui em volta de nós e estamos sem saída, pra mandarem ajuda”.

– Asha – interrompe Tomi – A sua varinha,...

A bruxa olha para a varinha, que Tomi coletou do chão; ele vê no olhar um misto de angústia e saudade. Mas a bruxa pega os restos e guarda à bolsa lateral sem nenhum tipo de reverência; e Tomi estranha isso.

– Agora, vamos precisar de você – e pega sua orbe. Asha vê que Tomi tem a dúvida no rosto e acrescenta – Você não acha que eu, a melhor aluna dessa escola, dependo de uma varinha pra fazer magia? Você não sabe de nada, Herói. Vá ajudar a Nina, que nós vamos manter o círculo das fadas, eu e a Sibel.

Nikolai, então, com a ajuda de Nina e de Tomi, segura Elliot, mas foi Nina quem viu a falta de bom senso onde ninguém mais via; e ela balança as mãos.

– Parem, parem! Se não levar a princesa louca, – diz a comum – tudo o que fizemos terá sido em vão; e o sacrifício dele também.

O que fazer, agora? E é então que Nina a vê e para de sentir as pernas, de medo; mesmo que nunca tivesse visto, sabia quem era. Não havia dúvida. Apenas a sua presença faz, de repente, monstros e vampiros, igualmente, pararem o que faziam – e fez-se ali um silêncio, tal como o que se sente em túmulos antigos nos quais ninguém mais entra – a entidade que abençoa, ou condena.

A mulher vestida de destino.

Aella.

(Fim do Cap 17)