O Dia das Bruxas e O Cometa

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Quatro -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 8 de Agosto de 2018.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 4 – O Dia das Bruxas e O Cometa

Tarde da noite, e Art ainda está em sua pesquisa pessoal. Nada acadêmica, sem dúvida. Ah, sim, ninguém pode incomodá-lo, também. Seu laboratório é um construto. Isso impede que o lugar seja visto por pessoas comuns; o que, além disso, inclui a polícia, e os satélites. Ainda que seja um lugar paralelo, ele instalou diversas medidas a mais para garantir a segurança. Sua vida se divide entre as aulas, de inglês, de alemão, de turco, de árabe, de japonês, de híndi ou urdu, de bra, de italiano – e sua pesquisa; mas Art Qal não é um solitário. Vive com sua filha, de onze anos, que se chama Sura Katalina Tutchonekutchin Qal. Ela está dormindo. Agora, poderia-se concluir, sem dúvida, que qualquer acadêmico diria que ele está indo muito mais longe do que se deveria ousar, ao tentar processar numerologia e quântica em todos os tradutores digitais ao mesmo tempo para, se tudo der certo e seus cálculos estiverem corretos, revelar uma língua mágica.

No canto esquerdo do laboratório há diversas velas, todas com símbolos acima – flutuando luz em pleno ar – para indicar o para quê elas funcionam, e nesse momento uma delas se acendeu, fazendo ele parar.

Sua filha se levantou, e está andando pela casa.

Para evitar que ela entre, ou peça para entrar no construto, Art decide deixar o processamento continuar e evitar que uma palavra seja produzida, porque ele não sabe qual vai ser a conseqüência disso; querendo estar de fato presente quando isso acontecer.

Não perderia isso por nada em toda sua vida.

Seu Círculo se encontra todas as terças, mas em uma quinta ele prefere estar com sua pequenina. Ele se lembra de quando Nixon, a melhor cozinheira do grupo, disse que Sura estava sob observação do Senhor dos Sonhos, a melhor entidade que ele poderia desejar a ela. A magia de sua família, e dos seus, é relativa a como eles se identificam com os Arquétipos; e as entidades são exatamente o caminho para essa conexão, além do Sonho ser neutro entre todos os demais.

Ela estava indo para a entrada quando ele saiu para lhe encontrar, ao lado da parede do escritório comum, aqui quase nunca usado.

– Boa noite, Su – disse ele, carinhoso.

– Oi – disse ela, de sobrancelhas meio tristes.

– Está sem sono? – ele pergunta a ela. E então, ela veio abraçar seu pai pela cintura, que se abaixou para abraçá-la.

– Hum...

– Que foi, filha?

– Sonho esquisito. Acordei – respondeu a menina.

Art colocou a mão sobre a testa de Sura, mas não estava febril. Assim, ele a pega no colo e leva para a sala.

– Pronto, – disse Art, consolando – o sonho acabou! Está tudo bem! – a menina relaxa. Ele para, isso era um sinal, Art sabia muito bem disso. Não era essa a primeira vez, mas até agora tudo bem.

Há dois meses Sura estava tendo sonhos, acordando no meio da noite, e dizia que não conseguia ver a tela pra estudar; via coisas. Aquilo até que não incomodava tanto ambos, já que não era nenhum tipo de doença, ou ao menos nenhuma doença física.

Art acredita que é "espiritual". Isso é a primeira coisa que um djine pensa em um caso desses, mas nunca se sabe e ele a levou a vários terapeutas para ver se algum tinha uma boa explicação. Nenhum deles teve uma resposta, pois não era uma doença física. O aglomerado noroeste, Seattle-Calgari, reúne toda a área acadêmica de medicina avançada do mundo, mas sem dúvida aquilo era alguma energia, um aviso de uma entidade; ou também poderia ser que ela estava despertando canal, antes mesmo de desenvolver Acordo – Elo de Ligação. Nesse caso, ele espera ligado ao Arquétipo e plano do Sonho.

Ele ficou ali algum tempo, até ela dormir. Depois, levou Sura para a sua cama, deitou-a calmamente sem acordá-la e voltou para o seu laboratório, onde viu que mais uma vela estava acesa.

Visitante. Então, ele conferiu bem rápido o processamento e saiu. Foi até a janela: nada. Esperou, porque poderia ser alguém vindo por teleporte mágico, e se fosse isso essa sua vela também teria acendido; e antes do teleporte.

Mas não... Ninguém.

Ficou esperando mais tempo. E nada. Decidiu voltar ao laboratório, onde a vela de visita ainda continuava acesa.

Aquilo poderia ser qualquer coisa, desde um alfa passando pelo Astral da casa ou um espírito, talvez. Deu início à repetição. Não sabe o que está ali, mas o seu grupo deve ser avisado, sem dúvida. Sente a mente de Mador, seu mentor, e agora que mais alguém está observando, decide investigar. Quatro respirações a seguir; e pronto. Enxergar atravéz do véu é o que difere as pessoas de poder das pessoas comuns. Isso e, é claro, estarem nos movimentos defensores de todas as filosofias, desde o Iluminismo europeu, há bastante tempo.

Seu mentor é membro dos Defensores de Rumi; mas até ele reconhece que são os membros da ADSA – Associação de Defensores de Sócrates da Academia – os responsáveis pela revolução, e a luta contra a Aplegia. Aí, em Seattle, ainda há um sem número de coisas desconhecidas, que o preocupam, ou melhor, desde a praga que dizimou os índios e permitiu as guerras de conquista da América pelos magos europeus, há muito desconhecido, até hoje. A aplegia raramente age na região, o núcleo da medicina mundial. Mas ainda assim, o medo é uma constante e um sério companheiro, até mesmo para os comuns; mais, para os antigos praticantes das artes secretas – ele recita mentalmente uma poesia: arte, magia e ciência, ao mesmo tempo; mas todas essas técnicas não seriam possíveis hoje se as inúmeras associações de defensores não existissem de fato.

A Magia, em todas as suas formas, teria sido extinta.

Assim, relembrando uma das regras, ele age normalmente enquanto na verdade está totalmente atento.

Enquanto faz um lanche simples – suco e pão com geléia – ele observa para ver se percebe qualquer sinal. O Astral, primeiro plano a partir do Padrão, o plano que recebe o nome de mundo, não indica nada. Não há rastro. O rastro dura duas horas apenas.

Mas bem, é o bastante para se saber o que acontece ou aconteceu em um lugar, ainda mais assim, quando você é o patrono do lugar.

Teve a coragem de olhar depois: o Branco, o Sonho, a Sombra, e não há uma indicação de anormalidade, magia ou manifestação. Termina de comer. Decide ir até a entrada da casa, em tese para levar o lixo para fora, mas a não ser que o que estiver ali, ou passado por ali, tivesse a proteção de um Deus – e isso hoje é uma coisa bastante improvável – não há nada mesmo. Está tudo seguro. Ao voltar para dentro, decide que devia ser apenas um sonho perambulando pela região, ou no máximo algum espírito livre. Sua família é bem vista pelos espíritos, pois a mãe de sua pequena era descendente índia salish; ele toma ar várias vezes, para se esquecer dela – a dor da perda até hoje é profunda; ele entrega o pensar aos Tottems.

Metaliza Mador: "Está tudo bem", desfazendo os elos de percepção; e Art volta ao seu laboratório, onde a vela de sua filha estava acesa novamente.

Respirou fundo, e saiu do seu construto.

Não esperou muito, porque alguém podia estar para chegar. Foi primeiro à sala, mas Sura não estava lá, então ele foi à cozinha. Nada. Foi ao quarto dela. "Não está", pensou. Não foi a vela de visitas indesejadas que se acendeu, porque se fosse, ele estaria mesmo muito preocupado nesse momento. Agora, era só pensar; mas não percebe a energia dela em lugar algum.

– Su! – chama ele, enquanto percebe seu ritmo cardíaco acelerar. Não houve resposta. Ele estava começando a ficar preocupado.

Ela nunca deixou de responder.

– Sura! – gritou.

Ainda assim, sua filha não respondeu.

– Ela não está dentro de casa – disse sua casa. Saiu da construção, mas a rua estava vazia, nenhuma pessoa a vista.

Entrou. Tentou se acalmar, e pegou uma barra de chocolate, mas não para comer. Andou procurando, porém Sura não estava em lugar algum. Ofegante, ele foi da cozinha para a área de serviço. Abriu a porta dos fundos para o jardim e viu então uma forma sob a pouca luz da noite, deitada no banco. Foi até ela. Diminuiu o passo, e forçou seus pulmões a entrarem de novo num ritmo normal, coisa que lhe é muito fácil fazer; mas ainda assim, quando chegou devia parecer bastante preocupado, mesmo que estivesse no meio da umbra.

Encontrou Sura ali, sob o cobertor, forçando sua camisa sobre a cabeça, lhe dirigindo um olhar de pedido de desculpas. A seguir, olhava para cima. Art olhou então, também, admirando o imenso céu aberto e sem nuvens.

Havia um enorme cometa, a relembrar os antigos.

– Te chamei, e você não atendeu – disse ele, bastante factual.

Sura olhava sem perder nenhuma parte do evento, que hoje estava em seu momento mais completo, e Art deu um passo, sentando numa pedra coberta de neve ao lado do banco em que sua filha estava.

– Tinha esquecido, – falou a pequena Sura – mas mandei meu Profeta me avisar do cometa.

Eles ficaram em silêncio, um tempo, observando.

– Acho que tem um espírito por aí – disse a menina, passando a mão sobre sua cabeça, e olhando para seu pai.

A pequena não sabe, mas tirou um problema da cabeça dele.

– Chocolate? – pergunta ele, mais calmo então – Não acho que tem mais nada pra comer, agora.

Aquilo o deixava aliviado o bastante.

Ao menos não era um pesadelo, o visitante.

E assim, eles dividiram aquele pedaço de chocolate, olhando o cometa, ali no jardim, deixando o tempo passar enquanto conversavam. Ficou claro para Art que Sura gostava das estrelas. Isso lhe deu uma idéia, e então, ele perguntou se ela gostaria de uma biblioteca sobre astronomia; mas ao ouvir essa proposta Sura deu um salto do banco, e disse:

– Sim!

(Fim do Cap 4)

Era uma vez,... Diz a lenda: só há o Mestre,

se há o aluno.

–– Do livro: Ditados – O Saber dos Livros

Negros das Nações Mágicas.


Siga para ler o Capítulo Cinco em A Águia e O Cachorro, para saber mais.

E Obrigado por ler.