Essa Esperança, Tão desconhecida

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Um Sol Cajueiro -- Um livro de Future Pop Adventure

Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

-- Obrigado.

Notas da Edição

Antes de tudo, eu gostaria de agradecer ao Hiran, meu revisor, que fez o que eu pedia: desde a primeira à última revisão. Também quero agradecer aos meus professores, Gracinha, Juca, e todos aqueles que me deram forças para acreditar; mesmo quando eu mesmo não acreditava – e a todos os autores tão queridos que me deram inspiração: Ende, Herbert, E. Howard, Tolkien, Rice, Miller, Drummond, Lorca, Rowling, Rein·Hagen, Gaiman, e autores de tempos remotos de contos de fadas com quem aprendi minhas primeiras lições de gramática; e de narrativa.

Afinal, o que é vírgula-três-pontos? Eu queria dizer,...

A ideia, parcialmente presente na reticências, é de que o personagem quer continuar, mas neste caso, não pode; e nem sempre revela o porquê.

Não pode, ou não quer? Boa pergunta.

Outra coisa – importante – está no fato de que não existe um padrão na língua portuguesa, nem inglesa, ou outras – até onde sei – para como se deve indicar telepatia em texto; assim, há algumas regras que foram usadas, mas não se resumem a isso. Visões, memórias e sonhos têm no texto formas especiais, e que não formam um padrão fixo ou uma norma: depende do contexto, o que será usado aqui e ali, e há excessões; então, fique atento.

Também não há uma norma rígida para como uma conlang – constructed language – deve ser apresentada em texto, até agora – Uf!,...

Alguns Capítulos são separados em Fractais, onde um asterisco único serve de divisão, mas algunas Cenas exigiram diversos recursos especiais; como, por exemplo: todos os Fractais começam em negrito e diferem entre si, para que o leitor consiga se localizar – a ideia de Factais foi retirada, desde o início, da ideia de filmes em primeira pessoa: alguém com uma câmera; eu e os fatos.

Talvez, você estranhe alguns nomes de personagens do livro – Então, aqui vai a dica: são palavras em Deuta; esta língua supostamente universal é falada pelos imortais, ou vampiros, e.g. Babka – v. – to care (for someone); take care of (one who's suffering) – importar-se (com alguém); daí, ela é a enfermeira.

Me parece que as dicas facilitam entender o livro; mas o que os primeiros leitores mais ressaltaram foi: "Continue lendo!". Ou seja, nem tudo tem explicação, e nem todas as cenas são completas – talvez pela escolha de narradores; porém, sempre há uma nova experiência única; e, também, não há volta. Se você leu, leu e gostou, quer mais (?), esta história foi feita para você desde o início.

-- Obrigado.

Prelúdio -- O Grande Jogo

Terra. O ano é 2.213, e depois de três séculos de tentativas frustradas, a humanidade ainda vive o seu sonho de dominar o espaço, uma vez que tem problemas muito mais sérios para enfrentar. O avanço da tecnologia permite que uma grande parte das dificuldades que sempre tornaram a vida humana complicada sejam solucionadas, mas ainda existe uma: o ser humano em si mesmo. Androides fazem a maior parte do trabalho, e bots lançados na atmosfera limpam o ar, ou transformam seu lixo em matéria reciclada. Apesar disso, guerra e crime ainda existem, e a disputa ideológica impede o homem de sair do ciclo vicioso da guerra de facções, seja religiosa, acadêmica ou nas relações entre as pessoas, quando tudo coexiste. Essas pessoas se dedicam a tentar convencer os outros das suas idéias ou crenças políticas, e quando não conseguem, à guerra.

O mundo que você vai encontrar aqui é muito parecido com o nosso, onde irá ver uma série de diferenças sutis. Outras, se destacam por si só, em meio às imagens. Tecnologias especiais. E onde de uma forma mais mágica, o mundo é único, e várias sociedades muito diferentes convivem dividindo territórios com nomes que você conhece, ou vai descobrir.

Para entender o Mito você deve vê-lo em contexto; e para entender as pessoas, entender os problemas que as envolvem. O sofrimento existe como parte da vida, da consciência. Tanto para pessoas como para animais, essa natureza exige que o ser se adapte, e muitas vezes aquilo que não te destrói dá a você uma nova razão de existir.

Seja bem vindo(a) ao mundo de Enigma.

Cap 1 -- Essa Esperança, Tão desconhecida

O tempo, ele não faz – aqui – muito sentido; nem as sensações do pânico acumulado entre momentos de vazio; não, não há o desejo de vazio, apenas a ausência de significado. À noite, às vezes, a ausência do tempo permite instantes em que a noção de continuidade acaba. Dormir, parece se misturar com o acordar. Sonhar, se parece com estar vivo em um sonho. Pior, um pesadelo. O medo, presente. Uma vez ou outra, pessoas que vêm e que vão, sem entender as suas faces, o seu olhar, assustador demais para querer sair de dentro do quarto, mas alguns rostos que passam por ali, tal como sua sorte à deriva, tem-se a sensação de que são conhecidos.

O sono da razão é o delírio do tolo que abraça a ignorância.

E, mesmo assim, nada faz o medo ir embora. Só por algum tempo, nas poucas vezes em que, durante a noite, uma presença fria está lá ao seu lado, uma ameaçadora presença que ele sente que deveria temer, porém é a única fonte de alívio que conhece, sem tempo, e sem conteúdo. Assim, o tempo passa, nem mesmo as noites são diferentes; nem o dia, nenhuma referência. Tudo se esvai, e vai-se embora o medo, deixando apenas vazio: melhor que o medo, apenas e mais nada.

Nesta noite, mais uma vez, ele sente a sua presença. Nada é mais satisfatório do que sentir isso, então ele se levanta da cama. Abre a porta. Não há nenhuma pessoa ali fora para impedí-lo de ir até o pátio, logo em frente, onde toma sol todas as manhãs; onde ela está, a única fonte de esperança que ele sente. Ele dá um passo para fora do seu quarto, um pequeno corredor que dá para o pátio central. Não sabe o que está se passando, mas segue adiante já que apenas aquele sentido o guia.

Ao passar pelo arco do corredor, algo cai em sua cabeça. Faz um barulho suave, macio, e ele para por um instante e, depois de alguns segundos, passa a mão em sua cabeça, raspada. Nada. Então, ele dá mais um passo à frente, e agora está no largo. Sua esperança está ali. Ele para. Durante um instante, acha que viu uma mulher, a lhe observar da área lateral do pequeno pátio aberto para o céu noturno, mas ao olhar não há nada a encarar seus passos além das paredes, das flores, e do imenso céu que se abre acima para o infinito.

Talvez, aquilo fosse só sonho, mas tinha certeza que ela estava ali, a lhe dar calafrios, como uma estátua reluzente, entre as jardineiras de aço contra as paredes de reboco espanhol, branco.

Ouve passadas.

– Oi, oi, jongen – disse a mulher – Dando um passeio noturno, querido?

Ele sente a mão dela segurando seu braço. Ela é forte, e facilmente comanda os movimentos dele, como se a sua vontade fosse dela.

Reunindo todas as suas forças, como se fosse uma coisa que nunca tivesse feito, ele para.

A mulher de branco, um pouco espantada, aperta os olhos. Nada no mundo era definido, mas aquele momento, em que poder ter visto uma forma para a presença que é a única esperança dele fora do tempo e do espaço, surgiu uma fagulha estranha de sentido que iluminou a sua existência.

– Que...

– Sim, meu querido?

A mulher estava surpresa e atenta. Seu rosto se contrai para tentar perceber qualquer tipo de coisa, qualquer reação dele.

– Que... dia... – ele reuniu todas as forças para dizer – é hoje?

– Hoje, querido? – ela disse calmamente, havia um sorriso leve de espanto em seu rosto atento – Hoje é quinta, e está muito quente. Pode chover. Bem, está no meio da noite, então talvez já seja sexta.

Agora, a mulher não mais o forçava a se mover de volta ao seu quarto. Sua pergunta foi um pouco mais que o entorpecido que ela está acostumada a ver. Aquilo para ele era ausente, destituído, mas mesmo assim ele ficou imóvel, e decidido a não sair do pátio, a olhar mais uma vez para o lugar onde ela estava parada. Nada lá. A ausência foi aos poucos tomando sua mente. Ele vira a cabeça para o céu da noite, e uma sensação de que aquilo deveria fazer algum tipo de sentido surgiu. Passou a mão na cabeça ao passar sob o arco em que algo caiu em cima, mas não havia nada; a mulher o levou para o quarto, onde poderia se deitar, envolvido naquela esperança, tão desconhecida.

O seu nada aos poucos foi tomando conta.

“Quinta”, ele pensou.

Durante instantes, sonhou desperto com formas em movimento, enquanto vivia todo o nulo que era aquele lugar.

Não sabia o que significava quinta.

O nada não estava vazio, como sempre esteve, mas ainda que tudo aquilo sem conteúdo houvesse lhe dado alguma sensação, emoção, era a esperança. A vontade de ver de novo aquele céu, e de que aquela mulher que havia estado ali aparecesse de novo. Ele sentia que isso iria acontecer. O insignificante, porém, surgia novamente, e dizia que aquela era a hora de esquecer, de deixar o tempo incógnito chegar, e como as formas tinham agora desaparecido, a hora do sonho chegou.

Dormiu.

Noite difícil, que testa mais uma vez os nervos de seus homens, na eterna vigília, uma guerra secreta que ocorre já desde mais de mil anos. Najka observa a orbe mais uma vez, para localizar seus inimigos. Eles estão lá, revirando as ruas atrás de alguma coisa, na região do bairro oriental, sem se importar com os ninjas que observam cada passo que eles dão em seu território maldito. Isto deve ser importante para eles. Nenhum sobrenatural invade o território de uma outra Facção sem saber que isso é considerado um ato de guerra, mas parece que eles estão aqui só para comprar novas roupas holográficas baratas e drogas digitais, a mais esquisita especialidade do oriente.

A eterna vigília tem nome.

A Vendeta.

Jura de guerra devido à traição.

Ali, porém, é um território neutro para ela e seus opositores. O território da Sombra. O bairro oriental, onde só loucos entrariam em conflito direto. Os ninjas aqui são maioria, e ela sabe que está ali só para observar as ações dos Servos de Luna.

Janelas espelhadas refletem as luzes sob a garoa. Não há sinal da sombra, mesmo porque, ao se entrar nela, a lucidez os atravessa, mas só o incapaz trata isso como se o espelho da estrela, sob o véu prateado da noite, não estivesse lá.

Abaixo, se vê mortais em suas roupas casuais, a camisa branca, aqui e ali alguma túnica, também branca. A bata branca. O uso de camisa, túnica e bata brancas, apesar disso e do fim do uso do petróleo, ou seja, tinta, tornou necessário o uso dos tecidos digitais, que são a base de grafeno, ou tetratitânio. A maioria aqui, porém, está protegida abaixo do seu chapéu chinês, que lhes sai ao lado, e bata de artista marcial. Ela não se engana. Há sinais muito importantes, detalhes sutis, os quais distinguem uma simples pessoa comum de um monge, de um ninja, ou também, lá embaixo, dos seus inimigos naturais, os montros.

E, vigilante, Najka sente um movimento, atrás da estufa.

A vaga lua atravessa os sentidos.

O noturno ao seu lado leva a mão até a arma, e logo sente a mão de Najka impedindo de tirar a arma do coldre. Ao se virar para ela, Najka faz rapidamente um aceno de que está tudo certo, passa a orbe a ele, apontando os dedos para os próprios olhos e para o ítem, e por fim indicando o outro lado do topo do edifício, uma simbologia de guerra que a sua casta tão bem entende.

Assim, o noturno, hindu e de pele castanha, acena rapidamente e sai. Ela não esperava receber agora, ou aqui, uma visita tão importante.

O tecido feito de destino das roupas de sua Patrono, ela ouve, de uma forma suave, transforma a fina chuva que cai em um réquiem de notas sombrias. Sombrias e sóbrias. A mulher para, ao seu lado. Está vendo lá embaixo mortais, que vêm e que vão, uma multidão de vendedores e de barracas de venda, de todos os tipos de artigos esquisitos que só os orientais vão lhe vender.

– Vidu, minha Deusa. Não esperava sua visita aqui – disse Najka.

– Não sou uma Deusa – respondeu, com calma, a visitante.

– Os Deuses estão mortos – conclui a filha da noite, e olha para o céu, era meia lua. Os Servos de Luna não teriam coragem de atrapalhar um momento como esse, em pleno território neutro; ninjas não são um problema para eles, mas mesmo eles sendo uma facção comum, ainda assim são assassinos.

– Não, nem todos Eles estão mortos – avisa a mulher.

Najka parou, esperando sua Patrono dizer o que deseja.

A fina chuva de verão, qual névoa, se sobrepõe à cidade mortal e apesar de saber que as sombras estão lá, podia ter certeza de sua Patrono ser poderosa o bastante para evitar qualquer escuta, mágica ou tecnológica, de forma igual, pois até Najka sentia o poder de terror que a mulher ao seu lado emana. Medo. Poder este, muito maior na escala secular da eterna vigília, que o de um ser da noite. Porém, o silêncio Dela a deixa apreensiva. Deixar o tempo passar sem objeto não é de fato uma atitude que Najka gosta, sendo uma caçadora.

– A guerra está às nossas portas – disse finalmente a entidade.

– Sempre esteve – conclui a filha da noite.

– Não esta – disse calmamente a mulher vestida de destino, que moveu a mão sob o céu, e continuou como fazem todas as entidades.

– A Guerra das Guerras, o Fim. Eu posso sentir. A condenação. O extermínio total.

Najka sente isto, também, mas prefere deixar a ente dizer.

– O destino escrito nas estrelas se aproxima, – disse ela – e ninguém pode escapar; não: ninguém pode ignorar que as guerras ocultas selaram o destino da humanidade, e o julgamento se aproxima.

“Ótimo”, pensa a caçadora, “O que Aella quer de mim, ela diz”.

Sempre há pertencer, se diz sob o Véu, ao pé da orelha. Se movem as letras, sobre o tecido do Destino, que os mortais são incapazes de ler.

– Sinto as pontes à frente, todas elas, sendo derrubadas pelas ações do passado, deixando trilhas tortas em que apenas uns poucos terão a sorte de conquista.

– Vindo de Aella, o Arcano XIII, isso significa que todos morrerão, estou certa – afirmou, séria agora, a anoitecida Najka à sua advogada.

A caçadora admira os olhos brancos da entidade, calma.

– Eu preciso de sua ajuda – resumiu Aella, sóbria – Não. A humanidade precisa.

– Eu não sou humana, minha Senhora.

– Você é a única que poderá enfrentar o que está por vir, mas ainda temos alguma chance – resume a dona das faíscas brancas, com certeza; e essa certeza deixou Najka preocupada.

A caçadora aperta os olhos, ao ouvir – "Tenha calma",...

– Não é o que os Anciões dizem. Sobre mim, eles dizem que meu futuro está ligado ao fim da guerra dos filhos da noite, ou seja, eles esperam que eu acabe com A Vendeta, e isso já é esperar demais de uma única pessoa.

– A solução da guerra não será alcançada com a Caçada, – disse Aella, de maneira profética – mas, sim, em ter um novo inimigo em comum.

A senhora fez uma pausa, claramente deixando Najka pensar, mas a urgência existe e ela então continuou.

– O Inimigo já existe, e está preparado para a guerra. É, porém, um inimigo sem rosto, que nós entidades não conseguimos ver quem é.

Agora, Najka fica incomodada. Aella é uma das entidades mais poderosas que existe ou já existiu; e se o Arcano diz que não consegue ver adiante, isso significa que o opositor é de fato desconhecido. Ou que ele é bom o bastante para ocultar-se Dela. A calma deixou o silêncio pairar sobre as duas, por alguns instantes, visto que esse momento era já esperado fazia muitos anos. O vento sopra no alto do Edifício IX, na Praça do Centro, em Sampa, ao lado da Daikun Transnacional, concorrente da Soft Corps e da Droidka; uma sombra está oculta atrás do número em metal, vigésimo terceiro andar, do prédio que serve de base para o Segundo Nível da cidade. Enquanto isso, Najka olha as ruas cheias de mortais, a refletir, aqui sob a presença do Arcano XIII a efêmera – que lhe deu sua níx, a sanguínea vitkea; uns chamam de bênção, outros de maldição, e lhe tornou uma imortal, eterna, nekron, uma Filha da Noite – uma vampira.

Essa decisão é muito difícil, e Aella não parece ter tempo para esperar por uma resposta depois, então Najka regenera seus pulmões, respira fundo ao tirar o cigarro eletrónico de um dos bolsos, e dá um trago.

– Eu vou precisar – diz Najka à dama – de tudo o que se sabe, sobre a guerra. De outras entidades que possam estar do nosso lado. E que a Senhora explique aos Anciões o mínimo necessário, apenas para que eles não me atrapalhem com seu desejo de vingança que, você sabe, se estende e deixa rastro pelos milênios.

Fez uma pausa, para deixar a fumaça entrar em seus pulmões.

– Nem mesmo os anciões devem saber o que eu estou fazendo, ou eles vão interferir; e sim, vou precisar de alguma certeza quanto aos Servos de Luna não se envolverem. Eles vão tentar. Fato. Logo que eles souberem que eu não os estou seguindo na Vendeta, eles vão querer saber o porquê, e devo saber também sobre todas as opções, ou possibilidades, que temos sobre esse futuro fúnebre.

– Você odeia demais seus irmãos transmorfos, e isso é uma coisa que você vai precisar vencer, antes de chegar ao final dessa campanha – avisou à vampira a sua Senhora.

O Arcano XIII olha de forma meiga para Najka, observando seus olhos doces sob a pele branca, e depois os seus cabelos negros, e parecia se lembrar de quando se conheceram; quando Najka era apenas uma menina mortal, a ouvir vozes que refletiam sob o seu Dom. Hoje, até os antigos reconhecem que ela é a maior caçadora que já existiu nesta parte do mundo. Soubessem eles que agora ela acabara de sair da sua Guerra, eles talvez se voltassem contra a sua missão, sagrada, pois a noturna considera o Arcano XIII como a sua Deusa. Sabe que não é uma Deusa. Isto apenas a deixa mais disposta a aceitar que o seu destino é muito mais próximo do que ela ouvia quando pequena, do que tudo o que seus anciões a tentaram convencer de que fosse.

Agora, sua Guerra pessoal se inicia.

Najka olha para a chuva, tão fina, desta noite que antecede o verão, e então agradece a Aella por sua bênção, a bênção da vida, ou da morte, da eternidade, da escolha, sabendo que as pessoas lá embaixo provavelmente nunca irão saber quem foi que os salvou do total extermínio.

É melhor dessa maneira.

Afinal, as vozes não foram totalmente silenciadas como queriam os anciões vampiros, os Vetalla, mas sim sempre estiveram lá, para avisar sobre o invisível, o paralelo, e o inominável.

A filha da noite sabe que este é o seu destino, marcado, e sempre esteve esperando pelo momento em que aconteceria este diálogo; e a idéia de enfrentar uma guerra, ou a Guerra das Guerras, como acaba de resumir Aella, é agora sem dúvida motivo para enorme alegria, em seu coração.

Hora de abraçar a sua verdade particular.

Olha, mais uma vez, do alto do edifício, para as pessoas comuns lá embaixo, e então a nobre filha do sangue faz um sinal para os outros.

"Recuar", puxou o ar com a mão, fechando o punho.

Seu grupo, ela mesma selecionou, sem influência dos Vetalla, anciões que vivem em terras sagradas. As vozes ajudaram, nos estados de dúvida sobre a participação de um ou de outro. São apenas cinco, contando já com ela mesma. O treinamento dela é o mais pesado dessa parte do mundo. Todos têm de saber tudo, não só da Caçada. Política, mesmo política comum, tudo o que puder ajudar. Agora, ela sabe, as suspeitas dos anciões estarão claras, porque ela tem mesmo desígnios próprios dentro de tudo isso, da guerra. E sabe que eles terão que enfrentar muito mais que o Servos, sempre soube: a campanha encerra as várias Facções, todas elas, se opondo contra a única solução possível.

Todos reunidos, e preparados.

Não precisa falar, pois todos ali sabem. Najka dá o sinal tão esperado. Eles recuam, sabendo que o exercício acabou, e a guerra apenas começou.

– Você tem saído à noite para o jardim, Elliot?

Mais um rosto vago, que ele conhece, mas que não passa nada a ele além de uma expressão dura que dá uma sensação de que ele perdeu, de que ele nem está ali, mas a noite, lá. Sim, ele saiu. Estava à procura da mulher, a sua única esperança.

O homem se vira para a mulher, em pé ao seu lado.

– Sim, mijn doctor – disse ela – Ele saiu cinco vezes nas últimas duas semanas, e parecia estar procurando por alguma coisa, ou às vezes apenas ficou lá, sem se mover, só olhando para o céu.

Agora, o homem mostrou uma expressão que ele não conhecia, mas que foi mais que as várias outras as quais não diziam nada.

– Bom... Bom – concluiu ele, girando a caneta entre os dedos.

Ficou assim por alguns instantes, e continuou.

– Bem, Elliot. Você consegue explicar porque você saiu para o jardim, ou o que você queria? Sempre à noite? Você viu alguma coisa?

Lutar contra o nada, uma coisa muito difícil. O vazio é imperativo. Não há falta ali que faça a menor diferença para ele, mas ele se lembra. A mulher. A sensação clara tão desconhecida de segurança, que a presença dela causava para a sua mente e coração. Tentando forçar sua mente, ele busca uma palavra, que a descrevesse. Não a viu, então não sabe dizer sobre ela. Só a sensação é forte o suficiente. Que sensação? O silêncio do homem, esperando, e girando aquela coisa. Isso é urgente. Tão urgente como a sensação, que ele não pode perder, tão urgente quando poder encontrar a mulher, sua única esperança... Sim! É isso.

– Espe-,... (forçou) ranç... ça – conseguiu dizer Elliot, com muito esforço, vencendo o lusco-fusco sem nome, aquilo que não há, valor.

O homem ficou parado. E, depois de alguns instantes, sorriu, sorriu um sorriso que o pobre garoto só iria entender muito tempo depois.

– Muito bom, Elliot – afirmou o homem.

Ele conseguiu, conseguiu dizer.

– Acho que isso é um avanço. Muito bom. Sabe o que isso significa?

Parou, analisando o rosto de Elliot, e depois adicionou.

– Significa que você está melhor.

O homem se vira, então, para a mulher, que está em pé ao seu lado, com uma expressão decidida em seu rosto.

– Enfermeira, o senhor Gulanta tem permissão para ir ao jardim todos os dias à noite, se ele assim quiser, e eu quero o número da família dele.

Mirou o jovem, com as sobrancelhas arqueadas, pensativo.

– Você precisa de um Profeta – conclui o homem.

Aquilo fazia quase nenhum sentido, mas agora Elliot tinha permissão para ir ao jardim à noite, e isso deixou sua mente pensando nisso, e o vazio não está mais oco, se muito, e nem seu coração, que agora tem a chance de encontrar sua única fonte da mais simples vontade de viver.

– Enfermeira, eu quero um Profeta programado como educador para ele. Além disso, quero relatórios todas as semanas, sobre o senhor Gulanta. Isso é um avanço enorme. Podemos ter esperança, não é isso, Elliot? Não é isso que você disse? – concluiu o homem, se levantando.

O homem veio até ele, e então bateu em seu ombro. Ele é mais forte ainda que a mulher e passa uma sensação de ter o controle, o que deixa o garoto com medo mas ao mesmo tempo feliz. Então, reunindo forças contra o inexistente, o jovem tentou imitar a expressão do homem.

Aquilo não parecia natural, mas mesmo assim.

Era a coisa mais importante que existia para ele, e este homem deu a ele tudo o que precisava, uma tão estranha esperança. Ele sabia que, agora, teria a chance de vê-la novamente.

Elliot sorriu.

O homem se aproximou muito depressa, e Asal moveu sua mão ao bolso interno, onde oculta a sua faca, a melhor forma de defesa em que ele acredita, mas era só o garçom. Todas essas pessoas comuns reunidas, isso pode ser algum feriado estranho, mas ainda assim, ele não acha agradável ter que conviver com elas. São de culturas distintas. Gostaria que tudo fosse dito. Tudo. Toda a verdade, para que essas pessoas soubessem.

Ideologias à parte, hoje é um dia muito especial.

– Seu café natural, meu senhor – diz o garçom.

– Obrigado – a voz de Asal não carrega suas emoções. Sua pele morena, seus trinta anos, e o rosto sério o confundem com uma maioria dos comuns.

Dia após dia, esse mundo fica mais e mais morto; como mortos estão aqueles que um dia poderiam fazer a diferença. Diferença essa que cada dia acaba mais um pouco. Os garçons desse lugar, pelo menos, são pessoas, que nascem, comem, dormem e morrem. Asal não admira o avanço impensado da tecnologia, e o número dos droides que há anos ocuparam uma enorme parte da sociedade. Eles realizam todo o trabalho, gerando uma sociedade que não tem nada a fazer; a superfície de guerras que enchem o dia de todas as pessoas de poder: bruxos, manifestadores e monges, além dos sobrenaturais. Aqui, porém, estão pessoas que trabalham, fazem alguma coisa, porque querem ser pessoas.

“Isso é admirável”, conclui em pensamento.

O Aglomerado Sudeste reúne algo por volta de 260 milhões de pessoas, mas essa é a área histórica que mais se parece com uma cidade. A região onde antigamente era localizado o centro comercial de Béalae, uma antiga capital, hoje uma enorme e confortável região histórica – é até possível sentir energia neste lugar – a montanha que então fora deformada pela mineração está nova, com aquela aparência de reserva natural, perdida antes para as mineradoras durante os séculos XX e XXI, agora em metal sintético.

Hoje é o dia indicado pela suposta Profecia, que ele comprou.

Se tudo estiver correto, Asal Gusa terá a oportunidade de presenciar o surgimento de um dos Sinais, o que deve acontecer em algum tempo nas próximas horas, e ele terá apenas alguns minutos antes que a tropa de elite da região chegue para lidar com mais um evento de luzes. “Isso é um absurdo”, pensa com raiva, pois ninguém ali tem a menor noção sobre a verdade. Todos ali são turistas, falando em línguas de todos os cantos, ou herdeiros de algum antigo morador, não importa, são todos alienados, mesmo porque não adianta falar nada com eles porque desde o momento em que a sociedade se dividiu em Facções ideológicas, todos estão preocupados em não serem afetados pelas ideias dos outros.

Apenas, as pessoas são mais educadas que antigamente – “Educadas e ignorantes, que paradoxo”,... conclui, em silêncio.

O tempo foi passando, deixando a tarde mais bela, e Asal pensa sobre o horizonte tão belo que deve se formar do alto dos edifícios antigos. Ainda não há sinal a vista. Nem de magos esperando pelos sinais. Isso é bom. Talvez, eles só percebam depois que tudo já tenha acontecido, e a tropa de elite tenha eliminado as energias do lugar, então eles não vão poder fazer nada, se não sabem o que está para acontecer. Absolutamente, nada. A idéia de que ele pode ter, agora, uma vantagem sobre seus inimigos o deixa feliz, e ele olha para cima, para os paraluzes que estão lá no alto, acima das nuvens, a proteção contra as luzes, que são geradas por tantos bots jogados na atmosfera; e entendeu.

Mais uma conclusão determinada pela Academia.

Ao seu lado, um casal bra discute em qual das cinco línguas da Academia, o inglês, o alemão, o russo, o árabe e o chinês, seu filho já na barriga será educado. A mulher tem, por baixo do vestido branco, uma veste de sobrevivência, adaptada para a sua gravidez, e Asal se concentra em sua veste, abaixo da roupa comum, ajustando-a mentalmente, assim que sentiu o calafrio gelado.

De repente, a energia elétrica acaba.

“Começou”, pensa, sentindo os arrepios tão característicos. Mas não foi só a energia elétrica que acabou. Os veículos, todos, pararam. “Claro”, ele pensa, todos são movidos a eletricidade, mas então, essa manifestação sem nome envolve pulso eletromagnético, ou,... "Interessante",... pensa; e perigoso.

Ele concentra energia em sua mão direita.

Sua mão toca seu próprio peito, deslocando a atenção das pessoas sobre ele com apenas uma pensamento componente – "Evado!", e agora nem mesmo os satélites conseguirão percebê-lo – por precaução.

Agora, Asal-sã tem em mente todas as cinco horas em que ficou ali observando, e conseguiu saber onde é que as energias convergem nessa pequena praça. No seu centro. Aos poucos, os pais seguram seus filhos pelo braço, a atitude que lhes foi ensinada desde criança, de que a qualquer sinal de coisas estranhas, eles devem tomar tudo como uma situação de estresse. Diga-se, em resumo: atentados, seqüestros, assaltos, entre outros. Isso tudo é ensinado na escola. E, então, Asal se levanta deixando o pagamento, pois via Profeta não é possível – os computadores estão desligados – e se preparando para ir no sentido oposto que uma boa parte das pessoas vai tomar em poucos instantes, ele vai direto ao centro da praça, ao encontro das luzes.

Atravessa a rua, e para em um certo ponto. É possível ver o início dali, uma luz bizarra, e os comuns se escondem, ninguém vai ousar; é proibido.

Uma forma translúcida, inicialmente, vai se formando no centro da pequena praça, e várias pessoas comuns vão procurando ver, até que concluem que devem fugir. Asal se encosta ao tronco de uma árvore, para ter um apoio, se o evento for muito forte. Então, pequenos raios de aparência elétrica vão se formando, a partir do centro do evento. Os comuns que ainda estão dentro dos carros saem, fugindo das luzes. Alguns gritam. Asal contorna a praça, para uma posição em que ele vai poder rapidamente ir ao centro e sair de lá quando quiser, esquivando-se das pessoas com sua arte, típica de seu povo, de evitar o vetor das percepções comuns.

Sua mão pega então sua varinha, curta e de madeira escura, e ele se prepara para colher amostras.

O centro do evento, porém, está trocando de cores, e assumindo uma forma negra, que é diferente de tudo que Asal esperava. Ele rapidamente pega amostras das energias, colhendo-as com sua varinha e trazendo para vários potes que ele previamente preparou. A energia negra, aos poucos, toma uma forma. Se parece com um espectro, só que parece vivo. Asal conjura detecção sobre a nuvem, e aquilo não é nenhuma forma de vida que ele conhece, mas, sim, está viva, e parece que percebeu sua ação, o que pode não ser boa coisa.

Váaasssssssshhhh............

Asal é arremessado.

Os raios o acertaram em cheio, vindo da forma negra viva. Ele então se levanta, sentindo arrepios, percebendo que foi jogado sobre as portas de uma loja, mas não recebeu nenhum ferimento letal, apenas treme.

“Pense, Asal. Pense”, raciocinou ele, e energizou sua mão esquerda, com o truque de línguas – "Salée-ha!", a mais útil nessa condição, sem dizer. Preparou-se para um próximo ataque possível, se vier, e avançou.

Agora, ele pode ouvir uma voz.

Não precisa entender a língua, devido à sua magia, mas tem certeza que é algum tipo de língua indígena, da própria região, e está amaldiçoando a terra em que está, o chão, o ar, e as pessoas, excomungando tudo que para ele parece alienígena, abominando tudo numa voz medonha.

– Quem é você? – questionou, com voz bem firme.

– Juru! Eu amaldiçôo todos vocês! – respondeu uma voz semelhante a um trovão.

Asal Gusa sabia que essa não era hora para brincar. Aquilo ali era um ser maligno. Fato.

– Porque você está aqui? – questiona ele, sério.

– Vocês serão amaldiçoados, para toda a eternidade! – trovoou a voz da criatura.

Não parecia nada feliz, o ser.

De repente...

Vaaaaaássshhhhhhh.....................

Asal foi acertado novamente. Voou, rodando duas vezes no ar, até atingir um carro que estava parado, deixado ali por seu dono. – Maldito – resmungou Asal. Se levantou, sem ferimentos. Ele olhou o relógio planar, e não haveria tempo de revidar antes que a tropa de elite chegasse.

– Maldito – disse, mais uma vez.

E se virou para ir embora, rapidamente.

As pessoas comuns, todas elas, estavam se escondendo do evento, e isso tornou a passagem muito mais fácil que Asal-sã havia pensado. Correu para uma área onde havia prédios antigos de escolas, onde hoje são museus, e onde seria fácil passar desapercebido, se misturando com a coisa pública. – Aquilo doeu – mastigou, com raiva, mas uma coisa deixava a situação pior que ele imaginava. Aquilo, então, era provavelmente o segredo por trás das terríveis luzes, que até hoje a facção Acadêmica evitou, ou disse que surgiam devido aos bots. Bots, nada. Aquilo era uma criatura, e com muito poder, isso sim, um ser maligno, um segredo escondido a ferro em brasa.

– Quem? – pergunta a voz, na holografia.

– Asal! (sussurra ele). Me deixa entrar. Rápido.

E entrou no jardim, deixando para trás as sirenes das tropas de elite que passavam voando, apressadas, cortando o espaço aéreo.

Antes de entrar, concentra-se.

– Isso foi educativo – ele analisa a rua, e então, retira sua faca para rasgar o ar calmamente com ela, o que deixa um rastro como se fosse água em pleno ar, e ouve-se seu sussurro – Evado a Nemesis! – a seguir, a linha semilíquida some, e ele guarda a sua faca ajeitando a jaqueta ao entrar no prédio.

Deixou para trás esses problemas.

Tudo o que a Facção Acadêmica está fazendo ficou mais claro, agora. Se parece com mais uma das mentiras da humanidade. O ser que estava ali, não estava ali à toa. Alguma coisa está acontecendo. Das grandes. E só se as ordens estão preparadas, é que elas vão saber o que fazer. Então, isso foi um Sinal. Terrível, mas um Sinal de que um evento muito ruim está mesmo para acontecer. Agora, essa informação deve ser mantida em sigilo, e dividida só com bruxos de alguma Linhagem específicos. Sorte que ele tenha comprado aquelas antigas anotações e diários, e tenha lido tudo, daquele que talvez um dia tenha sido um oráculo acidental, e tratado como um simples comum pela Oculta, mas agora ele sabe. Ele sabe, sem dúvida, que aqueles diários, ou melhor, profecias são verdade; será necessário alguém com memória perfeita para lê-los, mas é fato.

“Sem dúvida”, pensou.

Agora, ele tem informações relevantes. “Isso é sério, e sem dúvida é o sinal do segredo”, conclui ele. "Só o tempo vai solucionar todas essas revelações, mas agora não é o momento de ficar parado".

"Hora de reunir os Círculos".

E ninguém deve saber mais que eles nesse momento. A Guerra, mais uma vez alcança um novo nível, uma disputa secreta que envolve a todos: comuns e pessoas de poder.

(Fim do Cap Um)