Escolhas Difíceis ainda são Escolhas

De Enigma
Ir para: navegação, pesquisa

Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Vinte e Um -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados (Sol Cajueiro).

Este Capítulo foi publicado no dia 18 de Outubro de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 21 -- Escolhas Difíceis ainda são Escolhas

O início das aulas, no dia primeiro de Agosto, deixou todos tão ocupados que Nina ficou feliz por Asha, que se voltou de verdade aos estudos; até parecia que tinha esquecido! Só que, à noite, ficava andando de um lado para o outro, resmungando. Olhava a interface o tempo todo – sem se dar conta que estava surtando – mas Nina não teve tempo para pensar em como ajudar sua amiga, porque o que a espera é estranho. Incrível! Mas também muito estranho, pois ela teve de ir para o Auditório por teleporte e, reunidos lá, parecia que toda a escola era feita de teleportes; então, de repente, alguém se senta ao seu lado.

– Oi – disse uma voz alegre.

– Tomi?!? Que que você tá fazendo aqui?! – grita Nina.

– Surpresa! Ganhei uma bolsa de estudos. Achei que você ia gostar. Então, mantive isso em segredo até a gente se encontrar aqui.

– Que máaaaximo!! – Nina se exalta, mas tiveram de se sentar.

Eles estavam reunidos no auditório planar, com os alunos do ciclo básico de todas as idades.

– Quem são eles? – Nina olha uma mulher; cinquenta anos, talvez.

– Mestrado? Doutorado? – Tomi sugere.

Depois, ele dá de ombros, sem uma resposta melhor que isso. Todos foram se ajeitando até estarem sentados.

– Olha sua pergunta lá! – Tomi aponta o holograma.

Nina olha.

(no alto, centro do palco)

"Os Ciclos não são por idade; e sim por nível de dedicação, conhecimento, experiência e a sua vontade de colaborar com os seus colegas".

(era legível de qualquer posição)

(as respostas apareciam lá)

Havia, ainda assim, uma maioria de alunos e alunas muito jovens, de nove a treze anos.

O auditório é decorado com motivos da sociedade mágica. Há inclusive as bolas de feno de Ambar, as luminárias – "Inventadas no nordeste, na época da Guerra contra os magos e durante a formação da Sociedade de Nações"; a wicca se lembra de Asha lhe explicar. Havia uma garrafa, parecendo antiga, enfiada no braço das cadeiras, e dizia – "Mayyah: fer minna" – no rótulo.

A futura wicca riu dele, todo deslocado.

Nina, ao contrário de Tomi, teve coragem e bebeu, rindo dele, por ele ser tão desconfiado – "É só água mesmo. Nada demais, seu bobo", disse ela.

Ela e Tomi tiraram um tempo para falar sobre as férias, mas a pequena só deu o resumo, sem detalhes: seus pais lhe deram a autorização e sabiam de tudo sobre a escola; mas ele diz que a tia dele não. Ela questiona seu amigo:

– Você não tem medo de magia? Sua tia não sabe de nada? – ele escondia alguma coisa, mas Nina não conseguia pensar o que seria.

– Eu estou aqui pela tecnologia, Nina; e não tem nenhum lugar em todo o aglomerado em que eu possa estudar Tecnomágica de verdade, sem ser nessa escola.

Havia um lugar vago, à frente.

Duas irmãs gêmeas ao lado; um garoto à frente de Tomi, de olhar pesado, vestes negras. Tem colete xadrez, vermelho e preto, por baixo de um manto negro; mas, ao mesmo tempo, um sorriso de esperança nos lábios.

Nina vê Nikoleta mais adiante; e esta percebeu a observação.

Ao encontrar seus olhos, Nina só ergue a mão direita, depois desvia para os que estão mais próximos.

– Oi! Eu sou Alegra de Angelis! Essa é minha gêmea, Trista – ambas têm um lenço tartã no bolso, a wicca percebe: turquesa e cinza e papaia e cinza.

– Oi, oi! Nina Donzel Blatt. Prazer! E esse é o Herói.

– Alô – ele ergue as sobrancelhas – Hieronimus, prazer.

– Nika Sasking! Tudo de bom pra vocês – diz a menina que está sentada ao lado de Nina, mas fechando o cenho – Herói é bem mais fácil de falar.

– O que é aquilo, Nika? – aponta Trista.

Deu tempo de Nina Blatt contar: ocupando um terço do auditório, havia setenta e duas pessoas sentadas. A tal de Sur se senta à sua frente.

Todos se viraram, quando foram entrando na sala aos poucos os alunos mais velhos: as veteranas se aproximando das novatas, os veteranos dos meninos, analisando os novos alunos. O rosto declarando sua ganância.

Alguns professores ocuparam a frente, prontos.

O mais jovem deles fala, ao colocar a mão reta ao lado da boca – com o dedão no pescoço, Nina percebe – e todos ouvem a voz de um soldado, como se ele estivesse ali bem do seu lado, mas não há emoção em suas palavras.

– Não-não, veteranos – Nina reconhece Asal – Vocês não podem escolher; e sabem as regras. Os animais todos já têm dono. Sentem-se, todos.

“Animais?!”, pensa Nina, confusa. Suspirando, se prepara.

A professora mais séria se adianta e todos se viram.

– Bom dia – diz ela – Alma Attenta lhes dá as boas-vindas. Quero que você se esforce para se lembrar do nosso lema: "Saber: O Futuro da Dedicação"; e isso será matéria da prova final: se vocês entenderam isso ou não – ela faz uma pausa simples – Há um Círculo diante de vocês, no palco: vou chamar primeiro o nome do Dono, depois do Guardião e então do Animal. Todos os alunos devem vir ao palco em silêncio. O Animal deve fazer tudo o que seu Dono ordenar. Exceções não existem! O Guardião não pode falar. Não insistam! Seus Guardiões não têm autorização para falar com vocês, hora nenhuma, por uma lua. Obedeçam! Essa é a sua ordem, na Iniciação! Vamos separar os atentos dos outros.

O silêncio que se fez foi sério, Tomi até engoliu em seco. Ele reconheceu o novo Diretor, ao fundo, totalmente coberto por um manto marrom, vermelho e branco; mas a mão a mostra confirma sua pele negra, enrugada. Ele carrega um machado de dois lados, ali em pé. Ele faz Tomi se lembrar da Magia africana. Tomi até arrepia. Ele sabe que aquele machado de guerra, mesmo o Diretor sendo um ancião, está perfeitamente preparado para ser usado – ele só não quer que esse dia chegue; mas, em seu coração, além do medo, há expectativa.

Será que sua decisão de vir estudar aqui foi correta?

Apesar de se questionar, Tomi sabe que não há tempo para isso; ele vê que a partir de hoje, sua vida irá mudar. Tudo será diferente do que era antes.

– Willia Pax: Terceiro Ciclo, Técnico do Instituto Mágico Legal. Guardiã: Africa Cantagalo. Animal, Krýpadara. Patronos: Doutor Bojar Kha, Savka de Araújo e Rei Tabbat. Preparem-se para o Ritual – a Professora espera, até todos estarem ali no palco – Em nome da Faca, da Varinha e da Orbe, que o Enigma os guie ao Seu Segredo, Diante do Espírito. Dekmýt! – uma aura de energia os envolve, além de bolhinhas multicoloridas; o Diretor bate o cabo do machado no chão.

Nina sente seu coração bater forte; tal como um aviso mágico. Um a um, os alunos foram fazer o Ritual, ao chamado, o Diretor selando o contrato.

– Sibel Maffei: Terceiro Ciclo, Técnico de Arquitetura Dimensional. Guardiã: Shamra Pugi. Animal: Nina Blatt. Patronos: Asal Gusa, Esmeralda Gomes e Borges Llawrence Llaw. Preparem-se para o Ritual – Nina sentiu o sangue aquecer suas bochechas, e as narinas se abrirem. Nem conseguia olhar para os lados.

Só andou, até o seu lugar. Era um círculo com uma simbologia geométrica que ela não sabia o que são: a tecnologia usada para fazer os ítens de poder que ela, agora, também tem. A energia envolveu as mãos delas num laço.

Asal Gusa se posiciona, mão direita sobre a sinistra, olhando o trio: Nina, a futura wicca, Sibel, a ruiva e Shamra, vestida de preto.

Borges Llaw e Esmeralda fazem o mesmo.

Surge uma fita de sêda, enlaçando todas as mãos; e ela ouve: "Em nome da Faca, da Varinha e da Orbe, que o Enigma os guie ao Seu Segredo, Diante do Espírito. Dekmýt!". Nina sente o coração bater, ao mesmo tempo que os das duas colegas e o barulho do machado selando o contrato: está feito!

A fita desaparece. Nina foi levada por sua Dona, Shamra atrás – menina que, mesmo muito estranha, era muito bonita – para outro assento.

Sibel mediu Nina como se tivesse uma fita mágica, triste. Depois, se vira e resmunga com a colega, Shamra – como se Nina não estivesse ali.

– Vai ter de servir – Nina ouve desprezo na voz dela.

Todos eram chamados aos poucos. Tomi também foi chamado, mas nada além do esperado aconteceu. O Ritual parecia muito simples, de fato. Asal Gusa é Patrono dele, o que-quer-que-seja-isso. O Dono é o Melhor, Santiago Archangelo, mas o Guardião é um garoto bem pálido, Maf Lebeau. Assim, Nina se separou de Tomi, pois Santiago o levou para outro lado; e só foi realmente lhe encontrar de novo muito tempo depois. Mas bem, tudo isso são detalhes; mas detalhes que separam quem sabe o que está de fato acontecendo ali daqueles que não fazem a menor idéia de nada como, por exemplo, Nina Donzel Blatt.

– Um minuto de silêncio – pede Tamara; e ao fim desse minuto de silêncio, o novo Diretor ergueu de leve o machado de guerra do chão e, ao tocar o chão com o cabo, todos sentiram a sua magia. Houve uma batida de coração, mas foi totalmente coletiva.

O coração de todos os presentes bateu, ao mesmo tempo, em uma nota coletiva; e o Diretor Olanguèe conclui, numa voz solene.

– Tenha início o semestre! E que o Enigma se revele a vocês.

Assim começou o martírio de Nina. Ela ouviu um – "Leve a minha mochila; e não se perca de mim" – bastante seco, de sua Dona, Sibel, e se apressou.

Depois de vinte minutos, Nina não saberia dizer se ainda está nos terrenos da Escola, ou se foram parar em outra dimensão. A superestrutura, ela se lembra foi inventada durante o início do milênio. Estudou isso já, pelos alemães! Está aparente em partes que não têm de aparecer, ou seja, corredores sem fim; e o papel de parede digital pastel mostra cenas muito interessantes. Toda vez que a futura wicca sente alguma coisa, ar diferente, qualquer coisa, vê que são as portas em padrão portal de dormentes; era realmente um portal, agora sentia.

O primeiro dia de Nina foi inteiro de – "Me passe a lanterna", "Guarde a bússola no bolso interno da mochila", "Cuidado onde pisa", "Beba água, animal", e uma série de ordens diretas vindas de Sibel. Tentava se concentrar, tonta.

Ela estava em uma parte que, pelo que ouve dos construtores, foi afetada pela explosão do Anfiteatro e pode desabar a qualquer hora, além de a energia ter sido cortada. Nina só encherga por causa dos fachos de luz dos capacetes e, um momento ou outro, a luz alaranjada das varinhas. Estava toda suja.

Achou que estava aí há uns três dias, quando ouviu Sibel: "Vamos embora, animal, que você está imunda", e saíram andando. Shamra, o tempo todo, com o seu profeta, tomando notas, olhando Nina das sombras. De repente, Nina ficou assombrada. Ela viu uma lâmpada: e Sibel e Shamra estavam limpas – "Totalmente limpas!", pensa ela. Sua Dona foi até uma parede, pedindo: – "Supersoldado" – a parede se abriu. – "Supersoldado? Olha o estado do animal que me deram! Ela é descuidada, tem dificuldade de concentração e já não aguenta mais nada, depois de um único dia de trabalho! Mande um recado à nossa Vice-Diretora e peça pra ensinar o caminho dela até o seu dormitório, só hoje; ou eu vou ter de reclamar com o Diretor em pessoa, por favor". E o supersoldado fechou a parede.

Stephen, seu avatar, aparece ao lado de Nina. Ele tem uma expressão clara de estar analisando tudo aquilo, que também é novo para ele; mas Nina teve a sensação de que ele quase disse palavras feias à sua Dona. Não falou nada. Nina foi, cambaleando e, quando chegou ao seu quarto, tomou um banho quente. Dormiu. Deitou e dormiu, até ouvir a voz de Stephen lhe dizer – "Bom dia, minha mestra" – sem acreditar que já era dia. Não conseguia acreditar que ela tinha de encontrar o lugar marcado por sua Dona no labirinto: se perdeu, voltou, quase se atrasou, não recebeu nem um "Parabéns", mas comeu o café da manhã entre os operários, Sibel e Shamra; além de vários Melhores de outras capelas.

Não havia tempo de prestar atenção nas magias. Eram feitiços infinitos para ela se lembrar, assim de início; e quando chegava ao dormitório, à noite, tomava um banho e desabava sobre a cama. Tinha sonhos, todos eles inusitados.

E então, no sétimo dia, o teto desabou sobre eles.

Nina ia começar a morrer, quando ouviu "Um! Acima!", e o teto parou de cair, diante de tantas magias para lhe segurar. A seguir: "Dois! Pedras!". Assim as pedras soltas, como se aquela galeria fosse a morada deles há uns vinte mil anos, pararam em pleno ar; e então, "Três! Vigas!"; ninguém saiu ferido. Seu coração era um tambor. Sibel era do grupo Um e, uma hora depois de ordens, afazeres, e de Nina estar com a sensação de que se alguém errar, alguém morre, mandou ir dormir o seu animal, preocupada, mas reclamando que Nina era: "imprópria para o trabalho! Mas isso não acontece todo dia, animal; então vá logo descansar, pois vamos ter revezamento". Ainda era por-do-sol, dourado e rosa, hoje.

Os tons avermelhados, quentes, iluminavam o fim do dia, que Nina via pelo titânio da janela, transparente. Via abaixo um complexo com um bar, uma torre ao lado, as Oficinas e depois a forma ainda destruída do Anfiteatro e do Terreiro; as as piscinas e as montanhas, ao longe. Se banhou, exausta, deixando o corpo cair sobre a cama. Hoje, Nina vê Asha no dormitório, andando de um lado para o outro e, quando lhe disse boa noite, ela murmurou: "Boa noite, Nina", e passou a mão no rosto, focada, abrindo mais uma tela de holografia.

Na hora do almoço, um desses dias, a animal de Sibel comia quieta entre os operários, enquanto ouvia o silêncio à sua volta. Aí, comentaram – "Acho que não vai dar",... e outro lhe dizendo – "Tenha fé, homem! Nós temos a Magia", mas lá no meio das obras havia um esquema no ar, há uns nove metros – que estava ali desde o dia em que chegou no inferno – e Nina não aguentou e falou.

– Dá quatro – suas bochechas sujas se inflamaram. Demorou um silêncio observador, até que um dos operários se levantou e foi até as linhas mágicas.

Depois de mais de um minuto olhando as equações matemáticas estranhas, ele tira a varinha e coloca o resultado do problema no lugar, depois volta.

Ninguém lhe agradeceu; e parece que houve mais trabalho por isso. Ela se sentia mal e tinha muita tristeza no coração ao ir dormir essa noite.

– Ahhh,... – desabou sobre a cama, louca de cansaço, mais uma vez.

Sua amiga bruxa, num canto, entre telas, surtava. Ela vê Asha resmungar sobre várias coisas, como "Odessa",... não dá nem pra saber se são palavras.

A insônia de olhos esbugalhados cavucando-lhe as olheiras fundas.

Não conseguiu reclamar. Sua hora do sonho lhe alcançou quando tentou, e falhou, indefesa; como um portal, só de ida, ela já o havia atravessado.

"Durma, Nina,... enquanto podes", pensou ouvir quando começou a sonhar com as salas da escola, construtos etc – ouvia O Sonho. Ela vê equipamentos, os mais estranhos possíveis, em todo lugar; e aí, o cheiro de café, de pão quente, de ovos e de geléia vindo das janelas do "Outro Café", como os operários chamam, e pareciam evitar o lugar – isso, entre as outras coisas que ela não entende.

Nenhuma das meninas estava mais lá. Aulas? Nina ansiava por aprender o que quer que fosse, no limite das suas forças nessa loucura! Desesperada, saiu e a sombria Shamra estava lá, de pé, esperando do lado de fora.

– Desculpa. Dormi demais – disse Nina. Sem responder, ela anotou alguma coisa no profeta e continuou a lhe seguir, como uma ave de rapina.

Mais um dia de trabalho, mais sonhos em labirintos.

Assim os dias se acumulavam. Nada de magia, nada de aulas! Aquilo era o verdadeiro Inferno, com certeza! Havia sido transformada em serva.

Delirava em fugir da escola, às vezes, mas estava sempre tão ocupada, que não tinha nem o menor tempo de pensar, entre os operários.

Ainda não sabe o que eles estão construindo, na verdade.

Comia com eles, sob as ordens de sua Dona, nada gentil. Ouvia coisas que não entendia nas horas de almoço, tais como: "O Conselho decidiu anteontem e os prisioneiros serão levados daqui", "As Torres da Bretanha estão do nosso lado", "Eu sei que a Associação Amerika é neutra, desde a Terceira Guerra, mas não vejo outro jeito se não negociar com eles as técnicas de construção", "São Lourenço vai receber um embaixador psiónico, que pode mudar tudo", "Não tem como a gente não reagir; vamos à guerra", e "Eles têm espiões fora da Europa", num dia.

"Vamos ter de adotar o esquema de Dinastias", e "Vamos seguir o exemplo dos vampiros", no outro. Além de várias de coisas que não fazia a menor idéia do que seriam. Mas as magias, havia um número até tranquilo de feitiços; só os tais dos "gatilhos" eram complicados: intenção, pensamento e palavra – fora também os movimentos: todos difíceis! – e não, nem sempre se usa faca, varinha etc.

Todas as suas roupas foram levadas. Agora, era obrigada a vestir só roupas que a escola lhe dava, brancas, de algodão crú – a famosa camisa branca.

Ainda bem que não era verão. Dormia logo, toda vez que chegava em seu quarto, exaurida, o corpo inteiro em dor; nem percebia o tempo passar.

Hoje, Sibel lhe levou para comer no Bar da Tia Braga. Ela ia pagar, mas sem dúvida parecia que isso era um favor; e o favor seria cobrado.

– Hello. Eu seo Sura. Voc'ê é ah Ni'na, nã'o?

A pergunta veio da menina que estava sentada à sua frente no almoço, da sua idade, parecia. Nina viu o sotaque esquisito. Era uma menina muito bonita mesmo, mas que sabia que não fazia nada. Sua dona não fazia nada, uma aluna adulta, que teve de voltar pra escola. Escutou Antônia comentar com Sibel, outro dia, quando ela disse: “Que pena que não tive animal esse semestre; afinal, tenho tanta coisa pra fazer! Mas melhor que ter uma inútil, como a Kate”; e a raiva dessa servidão começou a nascer na pobre Nina; tinha de acabar com isso.

– Ah!, você. Sim, Nina. Você é intercambista? – Nina pergunta – Eu lembro de você no transporte, vindo pra escola.

– Ah, ah! Si’m! Sou dje Seattle, no aglome’rado no’roest. Pode m'e chama'r dje Kate.

– Que legal. Sua família é bruxa? – Nina não tinha assunto.

– Oh!, non, djine. Eu esto'u aque pa’ra estuda’r astronomia.

– Astronomia?! Você não é muito nova pra isso, não?!

– Tenho doze. Ap’rendí b’ra pra pode’r vir pra esza escola. Dize'm que é a escola mais segu’ra do mundo. Houve um atentado terro’rista aqui, yá. Eo estudo vár'ias línguas, também! É a matér'ia da miñha famíllia.

– Tenho treze. Você fala muito bem bra.

– Eo fala’r novle turkçe, alfa, inglêsh, bra, deutsch, dilçe e nihongo.

– Waw! Isso é muita língua,... Você parece inteligente.

– Meu pai fal’ar treze, e estwdei desdje muito,...

Nina sentiu um arrepio! Elas foram interrompidas por ninguém menos que a menina má, Elyfa, a caixinhos de ouro, que já brigou com Nina antes. Mas Nina, no entanto, ficou de repente bastante assombrada pelo que viu dessa vez.

Olheiras profundas, muito mais magra e cansada, Elyfa tinha um peso sobre os ombros.

– Kate, você pode levar as roupas lavadas pro dormitório, pra nós, hoje na hora que for se deitar?

– Maz'é clar'o, El’fa! Eu non faço nada, mezmo.

A futura wicca esperou pelo pior, mas a bruxa má nem mesmo olhou para a sua direção. Não deixou nenhuma agressão; Nina se lembrou: o pai dela morreu. Sentiu-se terrível, ao se lembrar disso! Agradeceu quieta por Sibel ter terminado o almoço e foram embora para seus construtos; Nina tinha de acompanhar e lhe obedecer como uma serva – ou "serfa"; mas Elyfa está péssima! Teve dó.

– Bye-bye, Nina! Boa ta’rdj p’ra votcê.

– Tchau-tchau, Kate! A gente se vê por aí.

Nina entendeu como funcionava. Ao fazer tudo o que a Dona manda, isso te faz aprender. As obras de reconstrução, ela teve de seguir a veterana para todo lado. Tudo estava sendo reconstruído. E Sibel era da equipe. Tremeu quando teve de entrar de novo no Astral: não foi nada. O desabamento virou notícia, mas a veterana e os construtores seguraram tudo, antes que qualquer coisa caísse no chão – com magia, é claro – mas notou um detalhe: que os operários à sua volta eram especialistas e nem sempre usavam varinhas, nem orbes.

Foi capaz de entender muito devido à matemática. Sempre foi sua melhor matéria, essa.

E sim, tudo era matemático! Tudo tinha método. Era planejado. Nem um pouco parecido com o que havia imaginado – Asha fazia parecer que tudo tinha uma aura mágica: névoa. Agora, percebeu que todos trabalham em conjunto e que a sua amiga é uma exceção, na verdade; foi o que entendeu. Ainda assim, estava nos limites, pois Sibel era rígida. Não era nada da dama que conheceu, no dia do ataque. Ela era uma bruxa poderosa, Nina entendeu agora.

E era uma idiota completa! E fala como alguém que só olha de cima, todo o tempo: "Você está imunda, animal! Vá tomar um banho, agora a tarde, que eu preciso de você: vamos dobrar", além de "Pegue a bússola planar", e "Segure esse medidor", ou "Carregue a mochila; e não se perca de mim", o usual.

Não era um poder simplesmente mágico, inexplicável. Nina não se perdia mais: seja de dia ou de noite, sabia a direção. Todos trabalham em grupo. Aquele era o verdadeiro poder da razão, do método e do coletivo: os bruxos são unidos e os magos são conspiradores; mas então, Nina começou a se questionar.

Não veio aqui pra aprender Magia? Ninguém parava pra ensinar! Não havia nem aprendido uma única linha; e se sentia péssima! Uma serva inútil. Devia ter um lugar especial no Inferno pra pessoas que são grossas assim, e dizem – "Você deve ser mais rápida em aceitar ordens, animal", ao invés de dizer bom dia. Sim, aprendeu que o Inferno existe, além da Névoa, depois da Sombra, que ficava um pouco depois do Sonho, e era "feito de dor, sofrimento e desespero".

Ouviu um operário dizer isso; e que a diferença de potencial do Véu é que separa os planos. Isso parecia lhe dizer – comentava o operário – que todos os lugares são o mesmo lugar, só que não: tudo ao mesmo tempo, e sempre.

Então, o outro desviou os olhos para Nina; ela sustentou o olhar, porque já havia aprendido: eles não são brutos, mas são durões. Enfim, ele desviou, só para continuar, dizendo que "Se a resposta for essa, ganhamos a guerra", frio.

Mas Sibel, no vigésimo sétimo dia, gritou com ela, porque deixou um tipo de ítem esquisito cair; e parecia que Sibel ficara com medo. Tinha quebrado? Não tinha! Nina ficou com tanta raiva que saiu. Bateu o pé, e saiu. Mastigou entre os dentes, um “Sua idiota!”; e se tivesse uma magia tinha acertado Sibel ali mesmo, a vaca merecia. Gritou: “Você carrega suas coisas, de agora em diante, porque eu to fora!”, e saiu; Shamra na cola dela anotando alguma coisa, sei lá o que, até sair pelo Edifício Oficina, o Workshop, e Nina gritou com ela, espumando.

– Sai daqui!! Me deixa em paz, sua esquisita!! Aah!!

Pisou duro da Oficina até o Pátio entre os dois dormitórios femininos e até a sua Torre, tremendo de raiva. Mas nem depois de ela ter gritado com a maluca, a excêntrica da Shamra deixou de seguir Nina! Só que dessa vez, o que nunca ela fez, entrou no seu quarto seguindo a garota, que explodia de falta de noção.

Nenhuma das meninas estava lá, para ela poder reclamar!

– Que que você tá fazendo aqui?! Eu quero ir embora! Isso não era pra ser uma escola de magia? Porque que eu virei uma maldita d’uma serva, aqui?!? Vou ligar pro meu pai, agora mesmo! Vou! Sai daqui! Sai daquiiii! – grita ela, com toda força; e então, bateu a mão na parede: doeu. A sua Guardiã guardou seu profeta, enquanto Nina se perdeu na cama, chorando, sentindo dores pelo corpo e sem fazer ideia do que fazer. Totalmente perdida. Acabada, consumida.

– Você passou – resumiu Shamra, afirmando com a cabeça.

– O quê?! Você não era proibida de falar comigo? Do q-,...

– Na hora que você me xingou, nosso acordo terminou. Mas, mesmo assim, vou te dizer isso. Sem dúvida, você merece. Você passou.

– Passei no quê? – Nina sentia raiva, sim, mas a dúvida surgia.

– Você não entende, porque não é de família. Isso tudo que você passou, isso é a Iniciação técnica. Ela termina amanhã. E você passou. Vai estudar aqui, e aprender magia, que é o que você quer. Eu analisei todas as suas capacidades, e você tem chances de ser mais poderosa que a sua amiga Asha, mesmo que ela não acredite que isso seja possível. Você tem muito valor, Nina. Mesmo. Você é uma boa pessoa. Não deixe O Poder te corromper. Acredite em você mesma, só te digo isso; e a magia, todos os seus sonhos, vão se tornar realidade.

Nina levantou a cabeça do travesseiro, tentando entender. Aquilo era só um teste? Um teste, então, tudo que tinha feito? Era uma idiota e não sabia.

– Você me chama de esquisita, né? Porque eu sou uma vampira psíquica, ah!, Conjuradora Psíquica é o certo. Eu também sou aluna da escola: estou no fim do terceiro ciclo; meu uniforme é preto porque estamos de luto. Sim, eu posso ser esquisita, mas nunca vi uma iniciante ralar tanto assim! Você me deu a chance de estudar todas as suas capacidades; e isso é parte do método da escola, eu sendo a "esquisita" que você diz, ou não. Você tem dons extremamente raros.

Nina se sentou, imersa no remorso de ter xingado a colega.

– Eu,... não sei,...

– Não se preocupe em se desculpar. Você passou, é o que eu tenho a te dizer. Sabe a menina que você conversou, a Kate? Sura Katalina Qal. Ela não faz nada, nem ir lavar as próprias roupas. Assim, nenhuma das capacidades que ela tem foi descoberta. E ela nunca vai se tornar uma boa aluna. Nem vai poder fazer magia com a sua profundidade, exatidão e enigma; mas, você,... Você é o sonho de qualquer educador! Me faz um favor, sim? Dê umas lições na Asha.

Seu rosto se iluminou de compreensão. Nina pensava sobre tudo que tinha visto e aprendido, agora. O balão do aniversário se encheu de novo. Sua aptidão para matemática havia ajudado e, durante todo o tempo, a magia estava lá.

Shamra percebeu seus pensamentos e olhou para a caixa.

– Você está no Ciclo Básico, e não pode usar os focus – Nina percebeu que ela lhe apontava a caixa com os olhos – Eu vou lhe dar a chance e você vai fazer os testes.

– Mas... – Nina tinha milhares de perguntas – Como assim, eu não posso usar uma varinha? Não estou numa Escola de Magia? Não faz sentido.

Nina ficou quieta, tentando entender o silêncio dela.

– Agora vou embora, fazer o seu relatório. Amanhã vai acontecer a reunião no auditório e na primeira aula o Maestro vai lhe passar o seu primeiro Ritual, que você deve estudar e deve ser realizado no final do semestre. É a sua prova e não se esqueça dele, hora nenhuma – nenhuma mesmo – Boa sorte, Nina. O Enigma te proteja e te leve ao Saber, Diante do Espírito. Esse,... "Espírito", que falamos, são as necessidades da existência. Acredite em você mesma; e seja bem-vinda.

Shamra se virou para a porta e saiu.

Utah, entre os Aglomerados de Angeles, Bos-Washington e o de Seattle ou Noroeste, sábado, Agosto de 2213, super-árido fora dos paraluzes.

– Tudo pronto, Mike.

– Bom, bom – ele olha para o céu; sem os paraluzes, as estrelas brilham mais fortes – Vá ver se a Annabela precisa de ajuda, Charles, que eu vou botar as coisas no lugar por aqui. John já voltou?

– Não, mas olha a Annabela lá! Tá tirando fotos de todos os túmulos! Dez pilas que ela tá procurando zumbis, de novo.

– Eu desisto – Mike grunhiu.

– Cara!, essa cidade fantasma é incrível... Deve ter uns cento e cinquenta anos que ninguém põe o pé aqui! Haha.

– Zumbis não existem, Charles.

– Haha! Mike O Cético...

– Calaboca, Charles! E vai ver se encontra o John, que ele vai precisar de ajuda pra trazer a lenha pra fogueira.

– Tchau, cara! – e sai, rindo.

Mike colocou todas as coisas juntas, ao lado das barracas, enquanto a sua veste de sobrevivência aguentou; e parou, aproveitando pra tomar um pouco de água do galão, antes que precise beber água da veste. Annabela não voltou, mas John e Charles

trouxeram galhos o bastante pra hoje. Acender a fogueira foi até fácil, comparado com o trabalho que deu esvaziar o furgão que, quieto, observa os rapazes ao redor do fogo; mas Annabela não voltou.

– Será que ela se perdeu? – Charles duvida.

– Deve ter encontrado um mausoléu e,... você sabe – John troca com seu companheiro Charles uma piscadela, como que procurando incomodar o amigo; mas Mike só suspira, pensando no que fazer com esses dois.

– Charles, vá ver se a Annabela está bem.

– Eu? Porque eu?! Isso é um cemitério, cara!

– Olha a Annabela aqui – John aponta.

Annabela vai chegando devagar. Ela tem a canhota sobre o pulso e, assim que viu, Mike correu pra pegar a caixa de primeiros socorros.

– Que que pegou, gata? – Charles pergunta, sério.

– Achei um mausoléu,... Tem uma passagem pra entar; mas na hora que eu tentei pegar um ângulo pra tirar uma foto, eu pisei em falso e caí – Mike já está ao seu lado, cuidando do ferimento – Ai! Obrigada, Mike. Minha câmera caiu, eu preciso voltar pra

pegar, e... Acho que tem alguma coisa lá.

– Há! Achou um zumbi?! Céé-rebro – Charles zoa.

– Não, sério – Annabela não riu – Acho que ouvi um rosnado de dentro do túmulo, enquanto tentava me esticar pra pegar a câmera.

Charles imita um rosnado de monstro, depois ri.

– É,... mais ou menos isso – ela diz.

– Vamos lá! Hora de caçar zumbis, bicho! Eu sabia que um dia você ia dar esse gostinho pra gente, Bê! Onde é? Vamos ver se,...

– Ninguém vai sair à noite – Mike bota ordem na zoação – Nós estamos no super-árido, fora dos paraluzes; e temos de ficar juntos.

Ninguém falou nada; mas Charles se virou para John, murmurando alguma coisa como "Uma hora, ele dorme". E a noite foi passando.

Três engradados de cerveja depois, Mike dormiu.

Depois de várias tentativas de fazer Annabela ir com eles, Charles insistindo em ir caçar zumbis, ela concordou em ir.

O mausoléu era subterrâneo. Havia um tipo de capelinha no chão, depois as lanternas dos seus profetas iluminava uma câmara lá embaixo; a escada que era pra descer até lá não existia mais, era uma ruína. Ainda assim, Charles disse que iria conseguir

descer; e voltar. Ele pulou. Fez um barulho de eco enorme; e depois gritou pra eles, lá em cima – "Me dá uma luz! Acendam os profetas, que esse lugar é um breu!" – depois, sob a pouca iluminação, se virou.

– Charles! – grita John – Charles? Cadê você?

– Eu falei que não era pra gente vir à noite; vocês dois me forçaram, eu não queria vir... Não tenho uma sensação boa disso tudo.

Dentro do mausoléu, Charles tateia e encontra a câmera, mas só pra ver que estava quebrada; na verdade, esmagada.

Era como se tivesse sido triturada, não sobrou nada dela.

De repente, ele ouve um barulho seco. Ao se virar, ele vê um homem, de pé à sua frente: parecia mesmo um zumbi! Os olhos vermelhos.

– Olá – disse o zumbi.

– Quem é voc-,... – o homem avançou, rápido demais para que Charles se desse conta; e a única coisa que fez foi gritar – Ahh!,...

Ele avançou sobre seu pescoço e mordeu.

Mesmo tentando se livrar dele, o homem era forte demais e apertava os seus braços, até que seu braço se quebrou.

– Aaaaahh! – Charles grita.

– Charles!?! Para com isso, seu idiota! – grita John.

O coração dá sua última batida, Charles relaxa, e ficou tudo preto; mas não houve dor.

– Ei, babaca! Para com essa merda! – John dá a ordem.

De repente, um vulto passa por eles, vindo lá de baixo e indo para cima como se fosse um raio; e John dá um pulo para trás.

– Que porra foi ess-,... – mas John foi interrompido.

– Olá – eles ouvem, atrás deles.

– Oh, merda! – John se vira, erguendo os braços para lutar; mas Annabela se vira e vai a toda, em direção ao acampamento.

– Vossa amiga tem um cheiro adocicado,... Tu estais de braços erguidos, por acaso queres me enfrentar? – o homem parece se divertir.

– Quem é você?

– Eu dormi tanto assim? Vossa pergunta é como o eco de vosso amigo, lá embaixo; mas não irei me demorar, aqui.

– Charles? O que você fez com ele? Cara, você não é bem-vindo aqui, eu acho melhor você ir embora. Profeta, avise a polícia.

– H'nf! – o homem ri – Nunca fui bem-vindo em nenhum Império em que estive; isso também não é nenhuma novidade.

– Que tipo de,...

– Chega! Fique parado – e John não se moveu mais – Vossas memórias irão servir de livro, antes de eu me alimentar.

Annabela chegou correndo no acampamento.

– Mike! Mike, acorda! – balançando-o.

– O quê?! Que que foi?

– Tem um cara... Não sei o que aconteceu! Charles pulou no mausoléu, e sumiu; depois esse homem apareceu,... Mike! Voc-,...

– Calma! – agora é a vez dele de balançá-la.

Annabela se acalma; Mike corre até sua barraca, voltando com uma arma, pro caso do homem aparecer.

– Me conte tudo, Annabela.

Ela ia começar, quando o avatar do computador de John aparece, com uma expressão de urgência, incomum à inteligência artificial.

– Vocês precisam sair daqui: agora! Ele matou John! Bebeu todo o sangue dele, depois de murmurar a vida dele toda. Não tenho certeza, mas acredito que pode ser um vampiro; ele está comigo em suas mãos. Acho... acho que ele vai me esmagar! Agora,...

Eu já enviei isso à polícia. Vão! Eu nã-...

O holograma falha, desaparecendo.

Mike tentou pensar rápido no que fazer.

E então, riu. Riu aquela rizada que faz o corpo ir para trás, como quem se diverte como nunca se divertiu antes.

– Ei, John! Charles! Podem aparecer, agora.

Ele se virou para Annabela, sorrindo. Balançou a cabeça, tirando um cigarro eletrônico e vaporando; depois sorriu, olhando ao redor.

– Essa foi a melhor pegadinha que já vi.

– Mike,... não é brincadeira – ele riu alto dela – É um vampiro; e ele vai vir atrás de nós! Daqui a pouco ele já vai estar aqui e a gen-,...

– Ah, corta essa, Annabela! Eu já percebi.

Mas o vento mudou,... De repente, todas as estrelas do céu simplesmente desapareceram; e tudo ficou frio, muito frio para o verão.

– Charles? Pode aparecer, cara.

– Olá – disse o homem, nos limites da iluminação do fogo. Mike ergueu a arma na mesma hora, gritando de volta em resposta.

– Quem é você? – apontando a arma.

– Mike, atira! – ordena Annabela – Sério, atira!

– Vocês combinaram de dizer a mesma coisa, vocês todos? Tsc, que pena, que pena... mas algum de vocês me acordou.

– Fique onde está, cara! Ou eu atiro!

– Atira, Mike! – Annabela sente dor no pulso cortado. O vampiro olha para ela e sorri, como se estivesse surpreso; mas se divertindo, também.

– Hhm,... uma bruxa – diz o vampiro, feliz.

– Nós já chamamos a polícia! E voc-,...

– Cale a boca! – o vampiro moveu a mão direita, bem rápido, e de repente uma "coisa", parecida com um tentáculo de sombra acertou as mãos de Mike e a arma foi arremessada; seus dentes a mostra – Fique parado.

Mike estava paralisado! Annabela viu: sentia, sabia disso.

– Annabela,... Você vai ter de tomar uma decisão.

Ela sente que não será possível fugir.

– O que você quer? – ela tenta ganhar tempo.

– O de sempre: destruir, conquistar, que aquilo que é deixe de ser, para que um novo mundo venha a nós. Nada de novo.

A voz dele era carregada de causa.

Aquele tipo de pessoa que você sabe que será impossível convencer de mudar de idéia, assim que ela tiver tomado uma decisão.

– Você,... Não me mate: não quero morrer.

– Oh!, não. Você é mais últil viva do que morta, bruxa. Aliás, eu acho que você nem sabe quem é. Seu sangue foi capaz de me acordar, o que, sem dúvida, me diz que você é muito poderosa; mais do que é capaz de imaginar.

Os instantes se vão; ela morde os lábios, com medo.

O vampiro ergueu a mão e Mike começou a ir em sua direção – mas, sem vontade, como se fosse um boneco sob controle do vampiro.

– Não! – os olhos procuram pela arma.

– Não interfira, bruxa – ele falava casualmente – Ele já está morto. Mas a escolha é sua, se você quer viver. Decida-se: junte-se a mim.

Annabela sentia, sabia, que não tinha escolha.

(Fim do Cap 21)