Atrás da Porta, A Profecia

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Treze -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 25 de Fevereiro de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 13 –– Atrás da Porta, A Profecia

Os dias – desde o feriado – haviam sido de muito trabalho para o Doutor Abbel Sabarba. Há duas semanas, ele estava indo de reunião em reunião. Política – mesmo política oculta – é uma coisa que um ancião como ele já se acostumou a fazer. Mas isso tem fins especiais, que só mesmo alguém com tanta influência pode fazer; ou tentar. Abbel, além de ser doutor em física e doutor em química, também é um arquimago; e considerado o maior alquimista da atualidade.

Bruxo de nascença. Lutou na guerra, décadas atrás. A guerra que separou de uma vez por todas o aglomerado sudeste da influência da Europa – o controle opressor dos magos. A maioria dos seus amigos já morreu; então ele dedica sua vida aos jovens, sendo Diretor da Capela de Aul-a Wakka, nome em uma língua código do Conselho – uma das treze que ele fala – e significa Alma Attenta, mas é conhecida como A Quinta Capela, na região norte do aglomerado sudeste; ou também por que isso lhe permite ter aí um laboratório completo à disposição, com tudo que a Tradição bruxa reúne.

Todas as reuniões das últimas semanas fervilham em sua mente experiente, que mais uma vez teve de driblar todas as políticas de grupos distintos, em função de deixar um futuro promissor a todos os que o decidirem buscar.

– Entrem – inspira ele mais uma reunião.

Asha entra primeiro, pois Elliot abriu a porta para ela passar. O garoto fecha a porta, entrando então a seguir.

– Doutor Sabarba – cumprimenta Elliot.

– Diretor – murmura a jovem.

– Sentem-se – o ancião faz uma pausa, se levantando de leve – Vejo que você deve ter praticado muita meditação, Elliot. Maestro Gusa está te guiando no estudo. Isso é muito bom! Sua mente já está quase imperceptível.

O Diretor vai até um armário e pega um bule de chá, uma caixa que traz a seus convidados, com dezenas de saquinhos de chá e um pequeno copo para cada um deles. Sem a varinha, ele toca o bule, dizendo primeiro: "Mayyah", confere o peso para medir a quantidade, e "Madýr Hat". O bule imediatamente fumega. Elliot percebe que não há cadeiras, e vê um leve erguer de sobrancelhas do ancião, que então lhes chama para perto com a mão, dizendo "Kursi". Duas cadeiras abauladas surgem para sentarem, de uma energia branca e alaranjada; e o velho escolhe o chá – "Ervas Amargas: elas são muito boas para manter a atenção. Você precisa se concentrar em qualquer coisa que não seja o seu gosto, e isso facilita muito as coisas"; Elliot ri, de canto de boca.

Elliot percebe tudo o que vai acontecer. O ancião para e dá-lhe um sorriso em retorno aos pensamentos que o garoto pensa ter ele percebido.

– Venham. Sentem-se – indica ele as cadeiras – Você parece estranhar ver que eu falo as magias, Elliot.

– Me desculpe, Doutor, eu não queria,...

– Não há problema algum nisso, jovem! – diz o ancião. Ele faz uma pausa, e parece pensar sobre outro tempo, passado.

– Na minha idade – e eu tenho cento e cinquenta e um anos – ou anciões mais velhos ainda, nós falamos os feitiços para não esquecê-los. Infelizmente, até hoje não há remédio para a falta de memória; e nem a terapia genética resolve: a perda é permanente.

Neste momento o ancião olha para Asha, tranquilo.

– Boa noite, Sauza – diz ele, de uma forma bem carinhosa. O fato de ele usar seu sobrenome a deixou preparada para qualquer coisa.

– Boa noite, Diretor – responde a menina. Ela está realmente tensa, mas seu treinamento não a permite transparecer isso.

O Diretor Sabarba pega um tubo sobre a mesa, com a marca da Soft Corps, e deita para ativar o computador, que se abre suavemente e projeta um teclado virtual diante do seu senhor, surgindo a tela holográfica, ali suspensa sobre o vazio; mas a atenção do garoto é atraída para a imagem. O símbolo do calendário das Nações Mágicas está ali, suspenso. Abaixo, está escrito Telekom; e há uma chamada em espera, indica o pequeno ícone no canto inferior.

– Elliot, – iniciou o ancião, casualmente, enquanto bebe o seu chá – você já está aqui há quase três meses, então não se faça de visita. Parece que Auspitia Serpentaedros lhe serve muito bem. Aliás, o que acha da Capela?

– É grande – o jovem não quer falar mais que isso. O ancião parou, antes de se sentar. Riu-se e se recostou; Asha capta "Estou de olho em você", dele.

– Você se perdeu alguma vez, então? – pergunta Sabarba, calmo.

– Não. Ainda não – Elliot evita se virar para Asha. O chá está pronto, e Abbel a deixa perceber que vê que ela não bebeu; ela está tensa.

– Asha, você aceita um café? – disse ele.

– Obrigada – disse ela, abaixando a cabeça para olhar os sapatos.

Abbel beberica seu chá, refletindo sobre aquilo; deixando alguns segundos de pausa fazerem o efeito desejado, antes de continuar.

– Você não está aqui para ser expulsa, Asha.

Vários pios muito fortes vieram da gaiola no canto da sala à direita, tirando a atenção de Asha, que parou para ver a sala do diretor, enquanto pensava no que poderia falar com ele – o Mestre, quase um pai, que lhe trata como uma filha que, apesar de tão jovem, merece ser tratada como adulta.

O ancião se levanta, vai até um equipamento de serviço e serve shake de café para Asha, deixando na frente dela em sua mesa, sentando-se depois atrás da mesa de madeira velha para observá-la bebendo.

A sala do diretor é grande, mas não parece. Deve ter vários construtos, mas não é possível saber onde são as entradas.

Há uma gaiola com cinco trinca-ferros, o pássaro que é símbolo da Nação Mágica do aglomerado; fica suspensa no canto ao lado da janela que dá para a vista das mansões. Tem três portas. Asha nunca perguntou o que tem depois delas, mas a hora não parece adequada. Todas as portas seguem o padrão portal, dormentes no chão, laterais e teto. As lâmpadas ficam suspensas, até acenderem por ordem de voz. Agora se vê um fim de tarde muito bonito, lá fora. Os móveis são todos de madeira. Madeira escura, velha. Estantes de livros, além de diversos equipamentos bruxos feitos de materiais especiais, prata planar, que Asha poderia explicar o que cada um é, estão por todo lado – "Onde será?", ela esconde seus pensamentos – "Sinto que não é aqui,...

Eu preciso encontrar",... silencia.

O estilo rústico está presente, tal como o dos dormitórios. E, mesmo assim, uma questão de bom gosto na decoração feita com papel digital, como se fossem papiros e páginas de grimórios, indica que a pessoa que está ali é séria, que gosta das coisas boas da vida; e pode-se sentir os cofres construtos para onde iriam todos os equipamentos da sala se um comum entrar. Mas as estantes laterais têm grades de ferro, como nas outras salas, de cada professor.

O chão de pedra é antigo, como várias partes da Capela – as relíquias que foram movidas para a construção quando da necessidade dos paraluzes; e dizem os alunos que você pode perguntar a Maýra – o computador central – de onde veio cada pedra usada na Escola – seria perda de tempo, tantas são elas.

– Bom, Elliot – diz o ancião para pedir a atenção – Você já considera a Capela seu lar? Dlaíomh,... Asal me disse que você perdeu a memória.

– Eu me sinto seguro aqui, se é isso que o senhor está querendo dizer; e sim, não sei nada sobre o meu passado – responde Elliot; e passa a mão direita sobre o peito, um ato reflexo. Ele percebe; e vê que o Diretor também.

Asha sabe o que isso diz: "Isso é uma questão de tempo".

O ancião respirou fundo. Asha quase fica com medo de ele morrer assim de repente, de tão velho que ele é.

– Acredito que é isso mesmo que eu quis dizer. Bom, então eu tenho uma oferta a fazer a você. Os custos da sua moradia são muito altos. Você tem acesso à sala de holografia como parte da sua reeducação e a poção que você tem de tomar tem ingredientes muito raros; ela é cara. Sorte que Tamara saiba fazer essa em especial, foi uma aluna espetacular na Escola de Ouro Preto, porque ela é a única bruxa que sabe. É uma poção nekron. Você está sintonizado com os alunos, apesar de vários acharem que você é diferente demais.

Fez uma pausa, bebendo seu chá calmamente.

– Você quer trabalhar na Capela, para pagar pela sua morada? – Asha volta à conversa, olhando de Elliot para o Diretor. Sorte, pois o Diretor desvia a atenção para a menina e o vidente esconde seus pensamentos, enquanto isso.

Simplesmente, ser Professor pode lhe dar acesso ao subterrâneo da Torre da Biblioteca; e assim ele tomou a sua decisão, mas decide jogar.

– Será uma oportunidade única, Diretor, mas eu não tenho muito jeito com crianças; e acho que seria um professor muito rígido. Se eu for dar aulas, aqueles que demonstrarem ser bons serão respeitados, mas o aluno ou a classe que não me obedecesse por bem iria me respeitar pelo medo – tenho uma razão muito pessoal pra isso; e acho que eu teria uma taxa de reprovação muito alta.

– Sei – disse o ancião, pensativo – Um pouco de música, Maýra. Música de Reunião, por favor; e bem baixinho que é para nos ajudar a pensar.

Nesse momento, batem à porta. O ambiente se enche de sons calmos, de um tambor, flautas enfeitando a natureza; e os passarinhos a fazer a voz.

– Entrem – disse mais uma vez a voz grave do Doutor Sabarba.

Tamara abre a porta, e para a surpresa de Asha, sua colega Branca entra na Diretoria e vai até ao lado da menina – ouve-se também vozes na sala de espera no andar de baixo, uma gaita triste que se funde ao ritmo suave bra, tal como se fosse uma voz metálica; Asha sabe, é um implante de reprodutor vocal.

– Aqui está a senhorita Bambbír, Diretor – diz a Maestra.

– Obrigado, Professora – diz Abbel. O velho conjura uma cadeira para Branca se sentar; e Tamara sai da sala fechando a porta. Asha troca um olhar com Branca, bem rápido, e fica claro a elas que nenhuma delas sabe o que é que está acontecendo ali nesse momento, porém ambas decidem ficar quietas.

– Boa noite, Vaz. O seu pai a inscreveu. Bem, agora que estamos todos aqui, vamos começar – resume Abbel. Ele olha para Elliot, por intuição.

– O Senhor entende a minha didática, então, Diretor? – pergunta o jovem pretendente ao cargo – Acho que sabe sobre os meus motivos.

– Sei, Akael – diz o ancião – E aqui estão as suas primeiras alunas. A matéria será facultativa, mas está incluída nos Jogos Olímpicos e nacionais.

Asha viu-se nos olhos de Elliot – "Akael", pensa ela – o reflexo de seu rosto, espelhado ali e, ao ver que não era mais possível saber o que ele pensava, pela primeira vez ela sentiu medo – "Eu não devo ter medo", ela mentaliza – "Irei olhar nesses olhos; e me encontrar dentro deles" – ela respira fundo – "Eu vejo alguma coisa neles, chegando,... Agulhadas nos olhos,... É o Nada!".

– Asha, Branca, eu estou criando uma nova matéria para vocês. Elliot será seu Professor, Maestro Akael. E sim, Branca, como você não estava aqui antes, eu devo dizer: saiba que ele é bastante rigoroso! Você vai precisar estudar.

Branca encarou Asha. A melhor aluna da Capela estava agora claramente perturbada. Ela apertava os lábios, olhava do diretor para Elliot e de volta.

A melhor espiou rapidamente a tela do computador, vendo a marca em forma de uma folha vermelha da gigante da tecnologia. Ela pensa. O Diretor está gravando tudo que eles falam, tudo o que ela havia explicado, mas ela conclui que isso deve ser entregue ao Praetor – ela está preocupada, sim, sem dúvida; e olha de Sabarba para Elliot sem parar, mas...

– E qual a matéria que eu devo ensinar, Diretor? – questiona Elliot.

Sabarba parecia aproveitar toda a tensão daquele momento, parecia saborear o instante. Ele fitou Elliot, deliciado. Parecia gostar de finalmente ter feito Asha ficar preocupada ao menos uma vez na vida.

– Xadrez – responde o ancião.

Asha estava ferrada, e sabia disso muito bem. O Diretor Sabarba finalmente conseguiu – Sabarba percebia medo dela, agora.

– Eu quero ouvir que vocês estão se dedicando, meninas – diz Sabarba – Isso é importante; e eu quero que vocês estudem tudo o que puderem. A história do xadrez. As partidas famosas, os grandes jogadores. Além da história dos grandes líderes e generais que eram jogadores. O que isso ensinou a eles. Tudo, tudo; e estudem para passar, parakaló! Akael vai começar a ensinar logo que ele e o seu profeta tiverem um plano de aulas. E assim que vocês,...

– Diretor,...

– Sim, Asha? – pergunta o ancião.

A menina estava realmente assustada, agora.

Ela está até interrompendo.

O momento era de êxtase; e ele parou para ouvir a pergunta da menina preocupada. Ele estava atento à sua missão, a toda a educação dela.

– O Iko vai desmaiar.

O vazio chegou, mais uma vez.

Desmaiou.

– ... voltando a si – disse o androide.

Um arco-íris foi a primeira coisa que ele viu, ao abriu os olhos.

– Quê? Ah, Babi. Eu estou bem – Elliot se sente enjoado. A enfermeira lhe avalia, sem dúvida desconfiada.

– Sério – ele insiste, vendo o sorriso de dúvida da enfermeira.

Elliot está deitado, em um colchão conjurado. Elliot ouviu Asha terminar sua frase com uma referência a ele, o que o fez prestar atenção, ao se sentar.

– ..,. e então, o Iko, quero dizer, o professor Elliot entrou no quarto, pedindo pra que eu desfizesse o nome mágico da nossa sala de rituais, não foi, Branca? Bom, foi isso. Acho que depois disso o senhor sabe. Ah, sim. Eu contei pras meninas o que aconteceu, e depois a Nina e o Tomi passaram hoje o feriado de vinte e um de abril aqui; e eu queria que a Nina e o Tomi pudessem vir estudar aqui. A Tamara já disse que o pai dela gostou da escola, porque há cientistas na história da escola.

Ela parou, porque pensou que isso não fazia parte da história.

– É. Foi isso que aconteceu, Diretor.

Elliot estava sendo examinado por Babi, seu avatar, um ciborgue e pelo androide Sig, todos ao mesmo tempo; e podia perceber que a menina olhava para ele de vez em quando.

– Eu estou bem – resumiu, bebendo a água que lhe davam – Sério. Não é uma doença, Mikaela, e foi você mesma que disse isso.

– E os sinais vitais dele? – ela continua.

A monge cura Mikaela conversa com o avatar do seu profeta, obviamente preparado para analisar todos os tipos de problemas.

– Estão normais. Volto a dizer. Baseado nas suas afirmações de que ele é um vidente, isso é uma situação perfeitamente normal – resume o avantar.

Babi avalia Elliot, parecendo contrariada.

– Então, está bem – conclui ela – Mas, mesmo assim, eu gostaria que você viesse à enfermaria.

– Eu estou bem, Babi – insiste Elliot – e estou no meio de uma reunião.

Elliot se levanta, com a ajuda do ciborgue. O Diretor lhe conjura uma cadeira – "Kursi!", e ele se juntou aos demais, que ele ainda não conhecia. Najka estava lá, encostada de pé ao fundo. As janelas estavam fechadas, a lareira acesa, não pelo horário, mas por outros motivos.

O Enigma se protege a si mesmo.

– Elliot, deixe-me apresentar. Este é o nosso professor de Defesa contra a Corrupção, Doutor Odéle Toolu Olaguèe.

– Owè mojubá, meu jovem – disse o professor, apertando a mão de Elliot, bem firme. O homem negro tem um olhar firme, mas parece cansado.

Ele é velho, já deve ter passado de cem, mas ainda assim seu aperto de mão é forte; e seu olhar parece estar atento a tudo, como deveria parecer o olhar de um soldado ou de um policial, pensa o garoto.

– Este é o Doutor Diesel, ele é um psiquiatra – apresenta Sabarba – e também trabalha no Instituto.

– Prazer – disse ele, em uma voz metálica, sob o chapéu de couro. A pele do ciborgue é sintética, mas realmente parece viva. Ele pensa, calmo – "Vidente? Isso é interessante", mas não demonstra nenhuma alteração na voz.

– E essa é a senhorita oficial Oyá Antuérpia Matambalesi, detetive particular especial do Iemps, ou Intituto de Investigações de Eventos ou Situações Mágicas, Psíquicas e Sobrenaturais – Sabarba continua as apresentações. No íntimo, parece ao vidente que ninguém divide com ele as conclusões.

– Oi, muito prazer. Você estava desmaiado quando chegamos. Sua aura diz que você é uma pessoa de pensamento rápido; e muito sério! Mas tu tem muita transparência ao redor da cabeça; e excesso de magenta, o que pode dizer que você pode ter, se quiser, o dom do amor – e acredite – muito forte.

– Você sabe isso tudo olhando minha aura? – Elliot ficou pasmo. Ela estala os dedos, e surge uma faísca amarela.

Mas então, ela para e pensa sobre o que ele acabou de dizer.

– Você... – Oyá ficou confusa, mas foi interrompida.

– Ele não é um bruxo, Oyá – diz Sabarba, erguendo de leve a mão; e a mulher pareceu achar isso interessante. Elliot estava mais interessado em ir direto ao ponto, pois a visão que teve lhe trazia enjoos, mesmo sem ser nada de tão importante assim. Era só questão de esquecer as vísceras e o fogo ao redor.

– Qual o objetivo da reunião, Diretor? – questionou o garoto.

– Espere, Elliot. Ainda não terminei com Sauza – diz Sabarba, e voltou a sua atenção para a menina, que pressionou os lábios – Asha. Eu queria lhe lembrar uma série de questões, que eu acho que você ignorou em sua aventura com seus novos amigos – fez uma pausa – Primeiro, sua amiga é uma comum. Você sabe o que todos os seus professores lhe ensinaram sobre isso; sobre as mortes terríveis dos comuns que são envolvidos nas missões dos bruxos, ou outros povos. Sabe, não sabe? Eu suponho que você deva concordar, agora.

E parou, observando a garota. Asha corou, sabendo que isso era realmente esperado, baixando a cabeça.

– Devo te avisar da gravidade da situação. O pai de Nina Blatt acabou de me mandar uma mensagem, dizendo que essa escola é a escola ideal para sua filha; que ele estudou a história dos cientistas que se formaram aqui e que ele quer saber as demais condições. Sua amiga está entrando em um mundo em guerra. Aqui, todos os alunos sabem o que significa Guerra de Capelas, e as medidas de segurança, o treinamento excessivo que é preciso dar a vocês, contra nossos inimigos, os magos do aglomerado europeu. Eu lutei na guerra. Perdi muitos amigos, e há aqui mesmo um irmão que pode provar isso. Doutor Diesel era um bruxo, lutou comigo na Guerra de Libertação e eu estava lá quando ele perdeu setenta por cento do seu corpo em combate.

Asha evitou os olhares, mas sabia que era sério. Doutor Diesel agora é um ciborgue, e ela apenas engoliu em seco, parecendo preocupada.

– Você sabe muito bem quais as conseqüências, então está avisada. A culpa será sua pela morte desta sua nova amiga, se você não a ajudar. Que isso esteja claro em sua mente, jovem; e saiba que existe muito mais no mundo que você imagina nesse momento da sua educação.

Após uma breve pausa, Sabarba se volta para Elliot.

– Sauza sabe quando você desmaia – diz o ancião, sério. Essa frase pegou o garoto despreparado, que só pode concordar.

O garoto sente as atenções de todos ali sobre ele, e a bruxa Oyá raspa de leve a garganta, debaixo do seu chapéu fez, daqueles sem ponta, vermelho. Não há uma só pessoa ali que não esteja com a atenção no vidente e em sua amiga, a Melhor; mas então, o garoto sente que ele não estará na reunião. Sim. Parece que eles lhe consideram jovem demais para tratar de assuntos de guerra.

– Vocês dois estão proibidos de falar sobre isso. Ninguém fora dessa sala pode saber disso. Você deve concordar, Professor. Há muitas coisas envolvidas; eu venho hoje de muitas reuniões dos últimos dias; e em todas elas há temor, grupos distintos se formando e difusão ideológica. A Mãe das Guerras se aproxima; e é o meu dever orientar vocês, jovens. Esta é a nova diretoria da Escola. Asal foi buscar Tamara e a vice-diretora Marta de Karla. Agora, nós temos de discutir questões políticas. Há tensão em todas as partes da sociedade. Se vocês morrerem por falta em sua educação a culpa será minha. Mas, se vocês morrerem, ou pior, por ações impensadas, a culpa será toda suas. Saibam, a Diretoria está do seu lado o tempo todo. Ah!, e guarde o lema das Escolas de Segredos: “Saber: O Futuro da Dedicação”; esse é o método. Isso é o que pode salvar vocês.

Batem novamente à porta da sala do Diretor. Elliot ergue as sobrancelhas, sem conseguir evitar pensar que Najka está presente nessa Diretoria.

– Entrem – diz Sabarba, mais uma vez.

Asal, Tamara e a Vice-diretora Marta de Karla entram e cumprimentam a todos. Asha e Elliot estão quase que paralizados, pois este diálogo ainda não havia terminado e o velho parecia querer deixar tudo no seu devido lugar.

– Diretor, Senhor, aqui está – e lhe entrega o equipamento.

– Obrigado, Professor Gusa – diz o Diretor olhando para Elliot, agora com uma expressão ainda séria, ainda que muito tranquila.

O vidente se concentra em sua respiração para meditar, e só agora percebe que Esmeralda e Llaw estão com uma roupa preta e túnicas brancas por cima, que ele aprendeu na reeducação ser a veste de sobreviviência. Maýra lhe explicou que essa roupa era desenvolvida pelo esforço espacial internacional, mas acabou se tornando útil para a vida fora dos paraluzes: ela evita a necessidade da terapia genética que você pode precisar fazer por vagar pelos ermos áridos.

– Seus documentos, Elliot. Um novo Profeta, um banco de dados especial sobre os duzentos e cinquenta e seis métodos da didática da Nação. E sim. Saiba que você, com dezesseis anos, já é maior de idade no aglomerado, mas ainda não é obrigado a escolher seu tipo de cidadão, que você estudou na reeducação. Você tem no máximo dois anos até isso lhe ser obrigatório. Asal irá lhe procurar para explicar as regras e as normas de segurança usadas, metas e objetivos. Os métodos são arbitrários. Você vai ver que usar um método diferente toda semana vai lhe tornar o maior jogador de xadrez de todos os tempos, mas agora,... – o ancião sorri a desculpa – nós temos muitos assuntos a discutir.

Despediu-se das meninas, então. Asha se levanta, solene. Branca, meio sem jeito, também se põe de pé.

– Quero ver vocês duas estudando, meninas, pois seu professor vai ter o maior banco de dados sobre a matéria neste aglomerado.

– Diretor?

– Sim, Maestro Akael?

Era a primeira vez que o Diretor lhe chamava pelo nome de Maestro. Teria de se acostumar com isso. Mas Elliot para por um segundo e repensou, decidindo que aquela não era hora para levantar problemas e teria de esperar algum momento mais oportuno. Está dentro. Ele deve ser o Professor mais jovem desde que a Escola existe, o lugar que antes era de Asal Dlaíomh Gusa.

O oráculo vê de relance um furgão preto, em que Oyá conversa com o ciborgue Doutor Diesel: "Ele seria uma aquisição perfeita". A voz metálica dele responde: "Para o Instituto? Diga isso ao Abbe, Matam. O garoto ainda está sob observação; está doente"; ela se defende: "Eu sei, eu sei, Doutor. Não quero e nem vou tentar passar pela autoridade do seu,... dele",...

De repente, Esmeralda raspa a garganta; e sua visão é arrancada do corpo, como se ele caísse, só que para dentro.

Elliot vê: o céu parece doente, pela cor, e Esmeralda está com Llaw, vestindo as vestes especiais; há plantas azuis e alaranjadas e ruínas ao redor.

Um carro muito velho e abandonado está diante deles, e Llaw tem o cajado pronto para o combate. A velha placa de rodovia indica: "Goiás". O deserto fora dos paraluzes dá a sensação de que a vida ainda luta, esperneia, e cactos azuis dividem a paisagem com líquens ou arbustos alaranjados; então, a bruxa baixa e de chapéu magia o lugar, verde, encontrando o que procura.

A passagem os leva a outro lugar.

Toda a imagem se modifica e, sob um céu colorido de azul, rosa e diversos tons amarelos, há uma ruína de um monastério planar.

Naquele momento, os dois bruxos param, esperando alguma coisa; mas a visão é projetada rapidamente para dentro da ruína, como andar por um túnel todo de uma só vez e parar vendo pelos olhos de um pássaro. Há um ancião, o homem mais velho que Elliot já viu, ao lado daquela ave. Assim o ancião, que usa mantos brancos, tateia a paisagem; parece pensar se deseja receber alguém ou não, mas de repente diz a palavra de poder – "Ahahhalon!", e as barreiras mágicas deixam os visitantes passarem. De repente, o vidente está de volta ao seu corpo, e percebe que o Diretor lhe contempla a pausa, aguardando.

– Obrigado – diz o novo professor. Não parece ter se passado muito tempo nesta visão; todos ainda estão no mesmo lugar que antes.

– Há muito caminho pela frente, maestro. Não posso dizer se ele será bom ou ruim. O mais importante é que a razão da vida é viver. Nós não levamos nada para depois, independente de para onde vamos, a não ser a nossa história, que também deixamos como prova de nossa existência. Nossa contribuição para o futuro é a soma das nossas ações, É-agá, ou Energia Histórica.

Fez uma pausa, como se falasse em silêncio, mas continuou.

– Boa sorte, Elliot – Dito isso, Abbel Sabarba se levanta. Há muito mais vitalidade nele de pé do que se poderia dizer dele sentado.

Todos param, a se preparar para a reunião. “Esta é a nova diretoria”, pensa o vidente, ao se levantar. Abbel as reuniu. Todas tinham sua vida, suas missões, e agora decidiram lutar pela Escola. Doutor Sabarba aperta a mão de Elliot e se despede das meninas; mas se move devagar devido à idade avançada. Asha tem medo disso, sem dúvida. Elas se levantam e se despedem de todos. Asal aperta a mão do novo professor, dizendo: “Seja bem-vindo!”. Tamara sorri, de uma forma suave. Seu rosto normalmente sério está um pouco diferente; e apenas Najka está de fato séria nessa sala. Uma beleza obviamente sobrenatural, em meio a outro povo, nada primitivo, vivo, e digamos, alguma coisa sábio.

Asal, então, abre a porta para eles.

– Boa noite a todos – diz o Diretor – Novo grupo de elite da Escola Capela de Aul-a Wakka, e senhorita Windmeister, a sua presença é essencial. Temos muito a discutir. Sentem-se – Kursi! – Vamos direto ao mais importante.

Todos se acomodam; o barulho de cadeiras encontrando a melhor posição termina, mas o ancião troca um olhar com Asal, emanando a ele – "Enfim", e Asal sorri de leve.

A reunião vai ser longa, ao que parece.

– Passei as últimas semanas investigando tudo o que foi, e ou é. Todas as questões, com o máximo de discrição possível. O primeiro tema da reunião é o mais importante e o que todos esperam. As Profecias. Acabo de retornar do Conselho, e depois de duas semanas – e um Voto – a Tradição permitiu a minha visita, e vamos ao que interessa. Elliot. Ele é citado nas profecias. Asha. E sim. Windmeister, você também é mencionada, como uma líder muito importante na guerra que já começou; e as Luzes não são explicadas, sendo isso agora a nossa maior prioridade. Isto – As Luzes – é o que a Tradição não sabe; e nós vamos descobrir. Asal, sobre as Luzes, é fato: você tem a parte que realmente faltava à Tradição. Esses "diários" não podem sair daqui; missão do seu grupo.

– Nós,... – deu início Asal, ele sentia a garganta seca – já confirmamos que as poesias que eu comprei da avó doente do Profeta são, como Gulanta gosta de dizer, um caminho plantado por Videntes do futuro.

Houve um momento de silêncio, afinal isso era considerado impossível, até o momento presente.

– Eu preciso saber o papel de Elliot nas profecias – diz Najka.

– Elliot Akael Gulanta – Asal solta – Diz o texto, morre e retorna aos vivos; e nós sabemos que, se acontecer, estamos lidando com um Evento de proporções míticas, do mesmo nível dos mitos antigos. O Profeta o chama ora de Pai, outras horas de Deus,... e há palavras que não entendemos: Jogadores,... Aliás, os vinte e dois livros falam de Deuses quase o tempo inteiro, Deuses vivos, Deuses mortos, renascimento e formas de vida que hoje são totalmente desconhecidas. Templos, que se pode concluir hoje que são as passagens planares, pois os monges são os guardiões das passagens,... e Najka está memorizando os diários.

– Ele irá se tornar um Deus – Najka não fez uma pergunta.

– Hmmmh,... – Asal parou para pensar – Não é bem assim, Najka. Deuses não são mais vistos no mundo desde a Terceira Guerra Mundial, quando mortais venceram o superdemônio. Conclui-se que os Deuses declararam algo tal como a "maioridade" da humanidade; e nós temos de lidar com todos os problemas do mundo desde então; ou seja: o que as Profecias chamam de Deuses não são de fato Deuses, mas talvez um novo passo em alguma outra direção,...

Todos fizeram silêncio; e foi o Diretor a falar.

– Sei o que vocês estão pensando – diz Sabarba – Vocês precisam do que eu descobri com O Conselho,... Infelizmente, eu só tive acesso realizando um Voto; e esse é um Voto mágico, que eu não posso quebrar.

O novo silêncio indica a importância do que não será falado.

– Vocês vão ter de confiar em mim – pede o Diretor.

– O anciões vampiros do Hauki estão seguindo o mesmo ritmo, mas posso dizer,... – diz Najka – O nekron tem formas de nos fazer Revelações, de maneira muito diferente das de um vidente. Eles estão esperando Asha (a vampira faz uma pausa, pensando).

Não sei o que eles esperam, mas eu não tenho poder para dizer o que eu sei sobre isso, durante,... até que eu entenda o interesse que os meus anciões têm nela, vou ter que guardar o segredo deles.

O silêncio que se seguiu foi bastante tenso.

– Em resumo, – diz Llaw, com uma voz que parece um trovão – tudo o que nós temos é: agora temos as informações, mas não podemos compartilhar; é isso mesmo que vocês estão nos dizendo? Acho impossível trabalhar assim.

– Temos uma informação certa – diz Tamara, fazendo uma pausa – Asha sem dúvida foi atrás dos novos amigos, em Béal,... Você não está mais gravando essa conversa, não é, Doutor? Isso não pode,...

– Oh, não, não – confirma Sabarba – O nosso Praetor queria ouvir tudo o que nossa Melhor tinha a dizer, o que inclui a informação que Asha sabe quando é que Elliot vai desmaiar, e até ela sair dessa sala. Nada mais. Eu sinto... sei que ele vai descobrir,... Há anos estive em Berlin-kapital procurando um Gulanta.

– Certo – Tamara suspira – Então? Asha de alguma forma descobriu que Nina e Hieronimus nasceram no mesmo dia que ela. Mesmo dia, mesma hora; e mais: neste dia ninguém mais nasceu no aglomerado, só eles.

– Você,... está certa – testou o Diretor – Ótimo. Consegui responder. Isso quer dizer que se vocês mesmos concluírem, eu posso confirmar.

– Espetacular – conclui Asal – Fazer o quê, né? Vamos usar esse método. Esmeralda, Llaw, a sua missão era muito importante. O que conseguiram?

– Infelizmente, – começa Esmeralda – não trazemos boas notícias, Asal-sã. Nós conseguimos falar com o Proscrito. O mago ainda vive a sua prisão, mesmo que seja por vontade própria. Ele está muito velho, mas ainda mantém energia para enfrentar qualquer um que queira seu poder. A quantidade de almas que matou durante a Guerra lhe tornou, meio,... imortal, vamos dizer assim.

– Qual é a importância desse Proscrito? – questiona a vampira.

– Foi ideia minha, Windmeister – disse Asal – O Proscrito é um Seguidor da Emanação. O Diabo, praticamente. Ele matou tantas pessoas que adquiriu uma anomalia sobrenatural, mas esse não é o ponto nessa questão. Nós precisávamos perguntar sobre as Profecias que os magos possuem, afinal, o Proscrito garante que lutava sem vontade ao lado dos magos, na Guerra.

– Sim, sim – diz a bruxa gordinha e baixinha, de veste – Nós precisamos convencer-lo a falar; e ele nos fez jurar que, qualquer que seja, hoje ou no futuro, o desfecho da Guerra, que nós precisamos unir os bruxos, os psiónicos e os monges... os vampiros,... e os comuns... todos!, em uma só Nação, e... e bem, era isso o que ele sabia. Achei que ele dizia menos do que sabia; e Llaw concorda.

Todos ficaram em silêncio, mais uma vez.

– Sim, acho que suas suspeitas estão corretas; todas – diz o Diretor – Mas, eu preciso que vocês falem, pois não posso afirmar.

– Quer dizer,... – fala Asal, tenso – Quer dizer, que O Conselho já decidiu e que nós vamos nos unir à Ordos que insiste nas mudanças de método, que temos de aprender todas as semanas. A Regência? Isso quer dizer que, além do tartã, o nosso Conselho já aceitou reunir bruxos, psiónicos e monges. Só não faz nenhum sentido a parte sobre os comuns. O Conselho sabe de tudo, então.

– Sim – confirma o Diretor – Exatamente.

– Qual é o papel de Asha nas Profecias do Conselho? – pergunta por fim a filha da noite.

"Finalmente",... ela não consegue evitar de pensar. Olha para o lado, e vê o seu amigo de órbitas negras,... "Uma visão,... Mas, logo agora?". Ela esvazia a sua mente, pedindo aos Deuses Esquecidos para lhe dar mais tempo, e segura seu amuleto, um mekhet dos mais poderosos que existe, ela sabe.

– A Profecia diz "O Último se repetirá, se não for vencido", – começa Asal – e, então, precisamos descobrir quem é O Último.

– Seja direto, bybka – exige a vampira.

– Sofrer – Asal Gusa balança a cabeça – de amor. Em troca, ela irá receber o que os diários chamam de Os Mil Impérios da Morte.

Um barulho, do lado de fora da porta, fez Asal sacar a faca ritual como um reflexo de quem já viveu nos ermos.

A vice-diretora raspou a garganta.

Todos estavam atentos, pois o ancião Sabarba tem uma presença muito forte, mas o velho ergueu a mão direita. Ele para e raspa a garganta duas vezes, respirando com a mão na frente da boca, a olhar desatento para o bule.

Najka percebeu que ele esfregava sua aliança de prata planar e ela aguçou as suas percepções: Asha está do lado de fora; e a imortal sorri.

"Eu acho que gosto dela", pensa Najka.

Asha parou e olhou para Elliot.

– Se você contar, nós perdemos a amizade pra sempre.

O garoto franziu a testa e pareceu concordar.

A menina lançou a magia de espionagem, e sua colega ia tentar evitar, mas já era tarde. Examinava, da amiga para o novo professor, meio perdida.

Ela ouviu todo o começo da reunião.

Até o momento em que ela parou.

– Sauza – ela estremeceu – Ninguém pode escutar nossa conversa. Tome muito cuidado, ou sua curiosidade vai lhe trazer muitos problemas. Lembre-se bem disso. Nina vai vir para o Carnaval; e consegui que ela viesse sozinha. Tenha muito cuidado; e se prepare. Esta história vai ser muito complicada, mas estamos com você. Nunca se esqueça que se você morrer, ninguém vai fazer a sua parte; e nunca se esqueça que sua amiga é uma comum, ou ela irá morrer sem a menor chance e por culpa sua. Ajude seu amigo. Elliot não é só seu professor, e ainda está se recuperando. Vocês precisam tanto um do outro quanto o dia da noite.

– Ai!,... – disse ela, bem baixinho. A voz grave do Doutor Sabarba a tirou totalmente da concentração; e ela parou de ouvir a reunião.

– Não conte nada a ninguém sobre o que ouviu, ou estará colocando a vida de todos aqui em perigo; e neste momento vou ter de ser severo.

Isto tudo foi falado em uma questão de um instante.

Nenhum dos outros ao menos percebe.

– Não se iluda – diz Sabarba – Saber o que lhe aguarda só vai tornar mais difícil o que O Destino reservou para você. Salve-se, vá.

Asha engole em seco, e se vira para Elliot.

A visão de Elliot foi arrancada do corpo, mais uma vez; e ele vê uma sala, a sala a que dão o nome de Sala de Privação. Ele suspeita que essa é a sala usada para punir os alunos, por mau comportamento, mas apesar de no início pensar que não há ninguém ali, ele aos poucos vê alguém. Uma mulher. Não, homem, ele não tem muita certeza, e tenta aproximar a sua vidência dele. A sala não lhe ajuda em nada, a sensação do nada presente lhe é terrível,... a privação.

A pessoa está mumificada, ele consegue enxergar.

Ainda assim, está viva – mumificada viva – ele faz todo o esforço do mundo para chegar mais perto, pois sente que essa é uma revelação importante.

Dessa forma, ele conclui ser uma mulher. Ao olhar em seus olhos, só então ele a reconhece – "Asha",... pensa ele. Mais velha. Presa. Mumificada viva, ela está acorrentada à parede da Sala de Privação, sem comida ou água, mas os olhos dela dizem que ela sabe que ele está ali. Seus olhos então se reviram e ela abre a boca seca para falar – impossível saber há quanto tempo está presa.

O vidente foca toda a sua atenção nela, na esperança de que a bruxa saiba o que fazer, pois ele mesmo não sabe.

Assim, ela diz uma única palavra, terrível, sofrendo ao dizer, sofrendo o que agora é impossível conhecer.

– N-Ni---na,... – diz a múmia, com extremo sofrimento. Ao vidente assim lhe pareceu uma acusação, o nome proibido da... sua Morte,... Era o nome da vingança, o nome do criminoso, do assassino, sem dúvida o culpado.

O vidente ouve sua própria voz dizer "Ahr!",... – pois ele, por um pequeno e terrível momento, sente toda a dor dela. "Condenada?!", duvida o vidente. Ele acaba de sentir ao mesmo tempo um sem número de sensações: amor, ódio, rancor, medo, ou melhor, pavor, a certeza do fracasso; além de tudo de bom e de ruim ao mesmo tempo, a vida inteira de uma sanguinária: ela lhe transmitiu todas as emoções de seu eu-presa; mas... Porquê?! – "Condenada pelo quê?".

Depois disso, a visão se acaba e ele está olhando nos olhos aterrorizados da sua amiga, ainda com onze anos de idade: saudável e livre.

Ele respira, várias vezes.

Evita o desmaio.

Asha se vira, mastigando um “Vamos”, mas um pouco distinto da sua mania habitual de não dar a menor atenção ao que os outros falam.

Querer, ousar, saber, e calar.

Vaidade.

(Fim do Cap 13)


Agora, o Capítulo Quatorze: Sobre o Eco dos Fractais.

E Obrigado por ler.