As Asas do Trinca Ferro

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Vinte -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados (Sol Cajueiro).

Este Capítulo foi publicado no dia 29 de Agosto de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 20 -- As Asas do Trinca Ferro

E então, deu-se início ao Carnaval.

O Festival da Carne, que se compõe de carne e bebidas para todas as idades, além da contação ou arte de contar histórias. Em honra aos heróis da Sociedade do Segredo, todo ano há peças de teatro, apresentações de roda e publicação de livros; e a Nação Mágica do aglomerado celebra seu passado. Sabarba, mais que depressa, se tornou o assunto, o centro da narrativa, enquanto o enterro foi três dias depois, no antigo cemitério da Quita Capela.

Suas memórias foram salvas – armazenadas, descobriram Nina e Tomi, em um tipo de "busto", o que explica porque há tantos bustos na escola.

As notícias vêm velozes: os novos heróis se unem à celebração.

Mas todos estão em dúvida, pois Asha não havia contado aos colegas, Nina Donzel Blatt e Hieronimus Oljo Tomi, seu novos amigos, também heróis do dia do ataque, fazem aniversário no mesmo dia que ela. Isto é, vinte e um de junho, dia do solstício. Mas as pessoas se dividiam, tensas. Uns, se alegravam com o sinal. “Impressionante”, diziam, e “Parabéns!”; ali a vida os havia escolhido: amigos para sempre! Outros estavam arredios, tentando prever problemas futuros; claramente, pareciam saber que aquilo era um sinal mágico. Terrível, será? Talvez.

Elliot estava totalmente recuperado em três dias, se juntando a alunos, pais e mestres no enterro de Sabarba. Doutor Sabarba rapidamente se tornou uma série de imagens, botons que os alunos do segundo ciclo criaram, contendo uma boa parte das frases e feitos mais famosos do herói. A maioria das imagens tinha na verdade o lema da Quinta Capela: "Saber: O futuro da dedicação". Ao lado dos pequenos, Asha, Nina e Tomi, Elliot parecia feliz, com Asal e Tamara de um lado e da monge Mikaela Babka Libanio, a enfermeira, do ciborgue Doutor Diesel e a inspetora Oyá do outro. Posaram para uma foto no cemitério da Quinta Capela, durante a solenidade do enterro, para O Oráculo, jornal da nação.

– Salve Elliot! – foi a saudação que ele mais ouviu.

A escola estava cheia de animais, conjurados ou não.

Data perfeita para se conseguir um animal mágico – ou familiar: o gato, o sapo, a coruja, a mariposa e o peixe – gato, a escolha preferida das bruxas.

– Mojubá, Elliot – diziam os herdeiros do Candomblé; e logo soube que isso é uma palavra para “ovacionar”, mas sem bater palmas. Elliot ficou muito feliz de ter descoberto esse costume; era como se a palavra substituísse o ato.

Todos estavam extremamente felizes. Afinal, a Quinta Capela se tornou de repente o centro de uma discussão mundial sobre segurança nas escolas de todas as nações do mundo das sociedades paralelas, citada como a escola mais segura do planeta e orgulho de todas as nações; ainda assim, a velha idéia de Sabarba, sobre intercâmbio entre as várias escolas, não foi aprovado – não havia interesse das outras nações – mas Asha desafia Nina: "Vamos dar um jeito nisso?".

Nina se tornou uma heroína, para sua enorme surpresa.

E Tomi, quando parecia esquecido, alguém logo dizia que ele havia salvo a todos ali de uma nova guerra. Herói de guerra parecia bem legal! Só não entende como ninguém está falando dos monstros. Ele queria esquecer, mas aí também já era querer demais. Nina lhe disse que queria contar o que ele havia feito.

"Vai publicar? Não quero meu nome na interface!", Tomi se defende.

Ninguém, entre os bruxos e bruxas, independente da idade, parecia saber os detalhes do que cada um havia feito. Ou será que os escondiam? Ele queria ter contado em detalhes a todos; mas bem, não havia nem falado sobre isso – "Esse povo é tudo

louco,... Me olham esquisito, depois me elogiam!", pensa.

Magia. Não gosta de jeito nenhum! Mas foi magia que salvou a sua vida e a de todos. Só que, como vão caçar os montros?! Percebeu que todos ali sabiam que ele era das Tribos Urbanas de Béalae, mas isso não incomodou; no futuro, ele iria vender seus serviços de busyboy e ganhar algum crédito.

Nina estava em dúvida: viu que todos estavam cautelosos; mas entendeu que aquele silêncio não era passivo; e sim estavam todos se preparando.

Soube disso, ao ver que Asha sorriu quando pensou nisso.

"Todos eles estão lendo a minha mente?", duvidou, quieta.

Enquanto isso, ninguém deixou de aproveitar as festas; ainda que Nina não tenha descoberto como "pegar" ninguém, na hora em que fazem feitiços.

Sem dúvida, Sabarba ganhou vida. Todos viram a reportagem. Era unânime, Asha via isso no Eva – a mente de um lugar – que todos fariam o necessário para que o silêncio sob os paraluzes fosse só dos comuns, que haviam escolhido assim, mas a sociedade bruxa não deixaria que o ataque fosse esquecido.

"O Enigma tem infinitas formas", Sabarba havia dito.

Nina tentava entender as palavras, ver a magia acontendo, mas todos eram muito discretos.

A escola estava cheia de inspetores; polícia que estava atrás de informações e questionava a todos.

A Tropa de Elite da Treze Nações.

Asha, Nina e Tomi se viram homenageados, logo que os inspetores ouviram o que aconteceu. “Não faça segredos, Nina”, aconselhou Asha.

Ela estava ainda em choque. Tudo parecia, depois de acontecido, um sonho ruim, como se tivesse visto aquilo tudo em um filme. “É o Enigma, Nina. Isso é o que nos protege dos comuns. O comum esquece, ou vai e cria uma explicação racional e, depois de um tempo, isso se torna nada mais que uma memória muito duvidosa, enterrada”, foi o que Oyá lhe explicou, enquanto ouvia a sua descrição dos acontecimentos na sala da Mansão de Brìkkomi, ala leste.

Oyá Matambalesi, inspetora do Iemps, Instituto de Pesquisa Sobrenatural, ficou muito impressionada com Nina. Outras pessoas comuns teriam surtado sob a mesma pressão que Nina passou, sem dúvida nenhuma.

Tomi era outro caso; ele é das tribos e eles sabem.

Ao perguntar a Oyá sobre isso, ela revelou: "As Tribos Urbanas são o povo que mais lida com o sobrenatural, Nina; até um instituto chegar, eles é que lidam com o problema. Devemos muito a Tomi e a eles: são essenciais".

O último dia de comemorações chegou, muito rápido.

Asha aceitou a palavra de Tomi de que seu churrasco era o melhor desse aglomerado; ela, ele e Nina se apossaram de uma das varandas no alto norte da Mansão de Brìkkomi, Elliot ao fundo testando seu novo cachimbo.

O professor foi deixado em paz, com seus pensamentos.

– O que eles estão investigando, Asha? – Nina quer saber.

– Não sei – ela franze o cenho para Elliot, mas reconhece que o cheiro do fumo é até bom – Mas sei que as perguntas foram esquisitas.

– Me perguntaram se eu ouvi alguma "voz".

– A mim também, Tomi. Asha, você está bem? Tá parecendo desanimada, meio pensativa demais. Esquisito demais! Ninguém comenta nada.

– É a regra das aparências, Nina: Não chame a atenção.

– Tá, mas você pode me dizer o que está acontecendo, ou porque esses monstros não estão sendo procurados? Eu e Tomi estamos viajando.

– Estão, sim – Asha mentalizou Elliot: "Elliot?"; "Sim?", ela ouve – "O que eu devia fazer com esses dois?", "Ah!,... Espetacular, sua pergunta. Vamos começar com uma questão: o que você quer para o futuro deles?".

A bruxa percebeu que estava em silêncio.

– A general Tarsila Kamarati entupiu a escola de agentes, Nina, que você não consegue perceber. Mas as perguntas foram anormais, mesmo. Talvez, se a gente conseguir, seria possível entender o que querem. Não é fácil. O que foi que perguntaram a vocês? A mim, perguntaram se minha varinha era um ítem de poder antigo; e não era. Depois, tive de revelar que minha orbe é: era a orbe de minha avó, Santa Wicca. Tainá, por favor – e ela aparece.

O avatar do computador de Asha, a imagem dela, Tainá aparece, fazendo uma reverência aos amigos de sua senhora.

– Vocês vão reconhecer: a avatar é a imagem da estátua de bronze que há na entrada da escola; minha avó, grande líder da Nação dos Espíritos e herói de guerra da Nação da Magia, Tainá el Sauza. Obrigada, Tainá – outra reverência e a avatar desaparece – Você quer dizer o que, Tomi?

– Vocês lêem a nossa mente, é? Isso é bizarro! Sabia, maluca? Tá, eu quero te perguntar umas coisas.

"O futuro que eu vejo para eles é se casarem, terem filhos e viverem muito felizes, para sempre; mas você não está lá".

"Eu morri?", Asha mentaliza, preocupada.

"Não; apenas não faz parte da vida deles mais. Mas isso é incrível! Essa é a primeira visão que eu tenho e que não é cheia de sangue, morte, destruição ou assassinato; vamos continuar", pede ele. Alguns metros a distância, Elliot dá uma baforada no seu cachimbo, parecendo nada concentrado.

"Deixa eu pensar; calma!", ela exige.

– Vocês não vão fazer nada contra os monstros? – Tomi começa – Quero dizer, caçá-los, se vingar? Eles mataram o diretor! Não entendo isso.

– Não resolve nada pegar o corrupto e deixar o Corruptor livre, Tomi; isso é o que os comuns estão acostumados a fazer.

"E se eu quiser mudar o futuro deles, Iko?".

"Você já fez isso, amiga", a voz dele é a mesma normal, só que parece um tanto mais mais profunda por telepatia.

– Vamos dizer que eu entendi; mas que tal detalhes? Hã?

"Interessante, isso que você descobriu na base".

"Você vê as minhas memórias, também?", Asha arregala os olhos, mas entra em meditação, esvaziando a mente; eles não podem perceber.

"Não, não. Só acabo de ver que você o atacou. E, se estou certo, concluí a mesmíssima coisa que você". Asha fica bastante feliz com isso.

– A escola está cheia de comuns, incluindo vocês.

– Isso faz parecer que não sou bem-vindo.

"Agora, Asha", ela ouve. "Se você quiser que ele também venha estudar na capela, vai ter de convencer Tomi disso. Eu te ajudo".

– Pelo contrário, Herói – ela tenta pensar rápido – Se você não percebeu, você é um herói; agora, seu apelido faz sentido. Estudar aqui vai te ajudar a saber como lidar com esse seu pavor de magia; um problema sério demais, se a gente considerar que você tem duas amigas, uma bruxa e uma sacerdotiza.

– Mas quem disse que eu quero estudar aqui?!

– Asha, Tomi tá certo – Nina tenta raciocinar sobre o que Asha disse, mas só percebe que ela tem certeza do que falou – Eu não estou na escola! Meu pai, se ele souber que esse lugar existe, nunca mais saio de casa.

– Pelo contrário, Nina, pelo contrário. A informação vazou; e é por isso que está todo mundo preocupado. Mas o que está indo publicamente para a interface são apenas informações superficiais, ou seja, o mundo todo sabe que existe uma escola especial por aqui, no norte do aglomerado, mas que a segurança daqui é a mais alta entre as escolas "especiais", como estão dizendo. E isso quer dizer, na verdade, que você vai chegar em casa e seu pai vai te matricular, na hora! Tenha certeza do que eu digo; só não fala nada de magia! É segredo.

"Vejo ela chorando, sozinha", ela ouve. "Isso quer dizer o quê?", questiona ela, preocupada; e ouve: "Será necessário para ela vir estudar aqui".

– Isso é verdade, Nina. Vazou mesmo – Tomi confirma – A Academia está toda interessada nessas "escolas especiais". H´fn! Se eles soubessem,...

– Não vão saber, Herói – Asha é dura – Não podem saber.

"Espere, Asha",... ouve a bruxa; "Você acaba de me revelar uma quantidade enorme de visões. Me dê alguns momentos para pensar".

– Vocês não entendem! Há muito mais que magia no mundo. Existe um mundo a parte, umas noventa vezes maior que o que vocês conhecem, onde as sociedades paralelas vivem. Vocês viram! A Vila Alfa é um exemplo. Além disso, sempre que os comuns ficaram sabendo de qualquer coisa mágica – como por exemplo A Árvore: o labirinto planar em que estivemos – eles tentaram a todo custo conseguir acesso a essas coisas! Essa árvore é capaz de deixar um mortal jovem: pra sempre! Imagine só quantas pessoas morreram tentando conseguir sua seiva! Sob chibatadas, carregando pedras, morrendo loucas.

Tomi ficou calado e Nina seguiu o seu exemplo.

"Asha, você me revelou o futuro" – ela ouve, e se cala – "Mas você vai ter de fazer uma escolha muito difícil; garantia de problemas, mas é uma solução!"

"Fala; mas sei que isso não vai ser legal! Já tô vendo!"

– Seu churrasco está aprovado, Hieronimus.

– H´hn! Valeu, Nina. Minha família é dos Pampas! Vocês do norte não têm a manha de queimar uma carne como nós: isso tá no sangue.

Nina riu-se e abaixou a cabeça, balançando de leve.

"Acabo de ver uma sociedade completamente pública no futuro em que você consegue o que quer, Asha. Sei também que nenhum oráculo servo jamais conseguiu ver isso, nem imaginam possível. Eles lutam contra! Os seus senhores os obrigam a revelar qualquer publicação ou exposição sobre o invisível; e vocês bruxos estão vivendo sob as leis deles. Se eu vi isso, quer dizer que isso é a única forma que vai garantir o seu futuro – que você deseja – e o meu."

Asha fechou a cara, séria, e Nina percebeu na hora.

– Que foi, Asha? – ela olha ao redor, nervosa.

– Nada com que você deva se preocupar agora, agora, Nina; mas eu, só a Deusa sabe como isso me perturba. Relaxa, tá tudo bem.

– Parece que acabou de ver o fim do mundo, guria.

– É – Asha põe os dedos entre as sobrancelhas, apertando – Às vezes você é mais inteligente do que eu consigo ver, Tomi.

Ele decidiu que isso era um elogio e inclinou a cabeça.

– Obrigado. Você me elogia pouco. Valeu mesmo.

– Me deixa pensar, vocês dois? – ela balança a cabeça, como se tivesse a maior decisão da vida pela frente, e funga o nariz.

– Me fala sobre os pampas, Tomi – pediu Nina.

Mas enquanto eles conversam, Asha tinha problemas muito espinhosos na cabeça, pra pensar.

"E se der errado, Elliot?", foi sua primeira pergunta.

"Você será mumificada viva e trancafiada para sempre numa sala como a sala de privação da escola; e a culpada, até onde vi, será Nina, por você acabar desse jeito – mas eu posso estar errado – não vi o futuro inteiro. Tem um monte de coisas que me falham; há um nada entre nós e isso, mas sei que o seu inimigo é o mesmo que o meu: as Entidades o chamam de Inimigo Sem Rosto".

A bruxa para com o olhar vago e cruza os braços um sobre o outro, com a mão sinistra sobre a boca: "Quais as outras consequências?"

"Toda a sociedade se torna pública", ele responde, calmo. "Mas talvez seja possível trazer as pessoas comuns para o nosso lado. Não, sem dúvida! Eles são essenciais na guerra; e não há como você ter O Controle sem eles, sem que toda a população esteja do seu lado – mas não vejo os oráculos nisso, ainda. Até hoje não vi nenhum deles se libertar, não estão do meu lado nas visões".

"Ainda", ela responde.

"Exato; ainda" – mas Asha esvazia a mente, pois vê Nikolai passando e indo falar com Sibel e Santiago, que estão no outro lado da mansão.

Tomi e Nina mudavam de assunto em assunto.

Deixando Asha pensar, eles comentaram sobre esportes, mas pararam por algum motivo – a bruxa não deixou de perceber – depois, foram para as escolas onde estudaram, todas terríveis, sob o ponto de vista da amiga, ali calada, pois parecia que os comuns tinham o hábito de serem monstruosos. Ela tenta não se envolver, mas conclui que eles são limitados demais: as matérias são ruins, aulas não tem nada de interessante, são obrigados a estudar coisas que não são úteis só porque algum dia talvez sejam; além dos alunos que aterrorizam os outros, enfiam sua cabeça numa privada ou explodem o banheiro; alguns até conseguem escapar da óbvia agressão, como Tomi: ele era skeita, mais ou menos temido.

Elliot detectou observação e foi ver quem era.

Ao fazer o caminho inverso até o olheiro, viu que era Asal, em sua sala de professor, com sua orbe de olho de tigre; ele está calado, observando.

O jovem oráculo também vê que se entrar em contato com o professor, a morte do amigo se torna certa – "Por quê?", e ele tenta ver.

Sua visão é arrancada do corpo para ver Odéle Olanguèe, o novo diretor da escola capela: – "Gusa foi longe demais, Odéle! Você tinha o dever de manter ele sob controle, depois da morte de Sabarba", diz a conselheira, uma mulher de traços finos, velha e inteligente – "Nunca imaginei que ele faria isso", responde o diretor – "Agora os magos europeus vão cair em cima de nós e não será possível evitar a guerra! A não ser que ele seja eliminado, todo o nosso investimento nessa arma terá sido em vão; não, não temos escolha! Vou enviar um assassino".

"Enviar um assassino?", Elliot se sente interessado. Ele não sabia que, além dos magos, os bruxos também praticavam assassinato.

Também não vê como evitar isso; se vê morto, ao tentar.

– Asha? – interrompe Tomi – Asha? Alô-alô, bruxa.

– Oi? Não estava prestando atenção, Herói.

– Estamos falando das perguntas da Tropa de Elite. Meio que: "Você ouviu alguma "voz"?", "Você viu o ritual?", "O monstro carregava algum tipo de item, ou poção; amuleto?", "A Morte falou sobre o ritual?"; além de: "Elliot falou alguma coisa, depois de ser erguido no ar?", entre outras coisas. Isso tudo é estranho, não faz sentido pra nós. Não sabemos o que pensar, daí decidi tirar você do momento de paz e contemplação pra nos explicar o que eles estão procurando.

"Asha, tome cuidado com o que vai responder!"

"E por que eu deveria fazer isso, meu guru?", ela zoa.

"Vejo ele te matar", e a expressão sorridente da bruxa desaparece, ali vendo seu algoz lhe fazer uma pergunta que não encontra resposta – "Está bem, mas me diz o que mais você ver sobre isso. Está combinado?", ela se concentra, para não demonstrar nada – "Ele vai atrás de você para lhe matar por causa de Nina, porque ele conclui que você "tirou ela" dele". Asha ergue as sobrancelhas com a expressão de alguém que descobriu um ponto fraco, um trunfo.

– Vamos ver se você merece vir estudar na Capela.

– Quem disse que eu quero estudar aqui, sua maluca?!

– Eu posso conseguir isso, se você quiser.

– Me sinto negociando com o Elliot – ele retruca.

– Vou ter de dar um jeito nisso – Asha se concentra: "O que você vê, se eu convencer esse predador a vir estudar na Capela?", "Interessante! Acabo de ver uma maneira de enfrentar As Luzes! Mas não consigo explicar", então, Asha faz de conta que nada aconteceu, interessada – O que você quer?

– Agora você começou a falar a minha língua.

– Anda logo, Herói. Eu sei o que você quer; e você sabe que eu sei o que você quer.

– Chantagista – acusa ele.

– Mercenário – ela rebate, séria.

– Está bem, acho doido.

"Vejo ele se tornando espião da monarquia Klai. Ele vai vender informações sobre mim, principalmente. Mas isso não resolve. Ainda vejo ele ir atrás de você para lhe matar, para evitar o fim do mundo que está por vir; e eu sei que está mesmo no horizonte. Mas, ei!,... Você morrer pode evitar isso".

Ela teve de se esforçar para manter o olhar.

"E Nina? O que acontece com ela?" – "Vejo Nina sendo escondida tanto de você quanto dele, por Asal" – "Onde? Não aqui" – "Acredito que seja em outra capela, provavelmente em Parati; ninguém sabe que ela está lá".

– Você vai me matar, por isso?

– Matar?! Você é muito tensa, maluca.

– Você não disse que não – Asha volta a perguntar – Me prometa pensar mil vezes antes de decidir me matar.

– Mas porque eu faria isso?

Ela manteve os olhos nos dele, desafiadora.

– Um dia você vai pedir pra eu te matar.

– Se eu pedir, você me mata?

– Hmmmh,... tá. Combinado.

"Você acaba de salvar a vida de Asal, Asha; mas Tomi ainda vai te procurar pra te pedir pra implorar que ele te mate".

"Excelente!", ela conclui – "Mas como? Não era eu que estava ameaçada de morte, aqui?! Isso é muito esquisito, não entendi nada".

"Vai demorar até você entender".

"Isso parece xadrez! Aliás, falando nisso: você me deu bomba! Eu preciso saber porque você fez isso comigo!".

"Porque você perdeu", ele zoa, mas continua: "Você vai precisar ser muito mais inteligente pra ganhar de mim no xadrez, ou em estratégia".

"Eu aceito o desafio; vou vencer você".

"Acabo de morrer" – Asha abaixa a cabeça. Perdeu. O controle que tinha da situação, a frase dele tirou a sua concentração por completo.

– Agora me diz o que a Tropa queria.

– Sei lá, Asha! Eles pareciam atrás de uma coisa que não ficou clara, nem era muito óbvia; mas você é que viu o ritual! O que era?

– Vocês dois: parem de brigar! Chega!

– Não estamos brigando, Nina – Asha se acalma.

– Claro! Vejo alguém sem um olho, em três-dois-e-já! Parem! Eu não vou aceitar vocês brigarem! Vocês são tão esquisitos!

– Está bem. Você venceu, Nina.

Asha voltou à sua posição de pensadora.

"Tá! Que menino chato! E agora? O que você vê, Iko?", "A imagem dele te procurando pra matar não quer desbotar; mas vejo Nina com um familiar, acho que é um gato. Não; agora parece que é uma mariposa", "Não dá pra você ver coisas com certeza?", "Não, Asha. Eu só vejo coisas que garantam a sua parte do contrato, ou a minha parte: é assim que funciona".

– Quer saber? Eles estão atrás de alguém.

Mas Nina e Tomi ficaram parados, até ela entender.

– Claro! O alvo do ritual, Asha! Concordo.

Só Tomi ficou sem entender. Nina se vira pra ele, mas desiste; ele parece mesmo não entender absolutamente nada de magia.

– Mas então, quem era o alvo, Asha?

– Exato, Nina! – a bruxa estala os dedos – Vocês viram a reportagem; isso foi visto até de Marte! Acho que nós temos uma missão.

– Maluca, você é muito tensa – Tomi conclui.

"Me fala sobre você e a princesa, Iko?".

"Isso é uma coisa pessoal, Asha; mas acredito que você não vai me deixar em paz, se eu não explicar" – "Pode crer, que não".

– Não vai comer, Asha? Vai esfriar.

– Preciso do meu detector de venenos?

– Olha, olha; vocês dois! Vou apelar.

– Eu vou dançar, hoje – Asha desvia a conversa – Vocês vão querer que eu passe mal? A peça tem noventa minutos! E isso é carne assada.

E realmente dançou, maravilhosamente.

Sua nova amiga, Nina, via cada movimento da Melhor e entendia aquele teatro de roda como se fosse um filme; e Asha, expressiva e muda.

O encerramento foi uma festa linda.

Ao final, na presença de vários convidados, Nina e Tomi viram pela primeira vez o conselheiro Kalai, O Cinzento. Ele conferiu o título de diretor a Odéle Toolu Olanguèe; e Amila estava presente. Nina não se segurou: exigiu de Asha que ela tirasse uma foto com a sua repórter preferida! Ainda se sentindo ameaçada, Asha deu um jeito de infiltrar os aniversariantes comuns nos bastidores.

E a vida segue seu rumo, sempre adiante.

A pequena Nina iria voltar impressionada. Ao ver sua amiga dançando, era possível ver tudo o que ela encenava. Tudo mesmo! Nina percebeu que a roda, tal como ela é dançada na sociedade mágica, encontra uma série de movimentos a mais do que ela conhecia – e há magia de verdade! Asha encenou personagens distintos também; e sempre eram, até onde ela percebeu, parte de uma ou outra lendas mágicas, como: O Familiar, A Donzela e A Névoa, além de Dama e de Ela que Brinca, A Filha do Sonho, A Menina e O Pássaro, O Alfa etc – todas histórias as quais teriam lugar em seu coração, daí em diante e para toda a sua vida.

Ansiosa, ela esperava pra ver a reação do pai, quando chegasse em casa, porque ele nem mensagem mandou. Talvez o pai estivesse muito preocupado, ou pior.

Dessa vez foi Tomi que tranquilizou a amiga.

– Relaxa. Ele já deve saber de tudo. Bom, ao menos tudo o que os comuns estão sabendo, né. Tá tudo na interface. Eu olhei. O ataque terrorista vazou; e o mundo todo está sabendo, Nina. O grupo terrorista já foi identificado e as nações do leste europeu estão caçando eles que nem uma escavadeira; só não sei o que vai dar disso, né? Não encontraram ainda. Sério, relaxa.

Asha inclina a cabeça – "Como ele tem acesso?".

A Tradição soltou uma nota, no fim da noite.

Disse que Sabarba havia se aliado aos filhos da noite – vampiros – e este foi sem dúvida um dos motivos do ataque. Para confirmar, eles vieram em massa para defender os bruxos e com isso a entidade Aella não pode invocar as leis da noite. Os transmorfos sobrenaturais causaram muito dano à escola, incluindo a morte de Sabarba e outros sacrifícios para salvar os alunos e convidados, sendo a maioria deles comuns. Sentindo alívio, Asha se prepara para ir para casa.

Entre os dois mortos, Eleodoro Bitencourt, secretário da Nação Mágica, mas também foram três os monstros que foram para O Outro Lado. A relação entre o ataque terrorista e a explosão no Statbureau de Buenos Aires pode não existir, mas não pode ser negada; isso, apenas uma investigação muito difícil de ser feita, que depende de jurisdição – finaliza a nota – há de dar algum resultado.

Nenhum outro nome foi citado, mas Sabarba vai receber uma honraria, que deverá ser entregue por um representante direto da Academia.

Elliot vê Ofídia Laurent Pollux – representando dos alunos para a diretoria da Capela, em uma visão – e ela diz que: "Oyá Anthuérpia Matambalesi foi uma excelente escolha, Lucrécia. Ninguém melhor que ela, pra conduzir a investigação dessas relações!

Enfim, ela foi a Melhor da Capela de São João Del Rei; você sabe, é onde dão treinamento especial", mas a resposta foi – "Sei. Você agora vai me dizer que a enxerida da Sauza, que faz aulas lá, vai conseguir manter o nariz dela longe disso? Os fatos, Ofídia: o ataque é culpa dela". Não ouve resposta: a visão foi interrompida; mas Elliot percebe que elas odeiam Asha e a culpam.

Tal como esperado, Odéle Olanguèe foi eleito Diretor; mas ninguém sabia, até que: Tamara da Noite Toromago se tornou a vice-diretora no lugar de Marta de Karla Sabarba. A ex-vice-diretora foi escolhida a nova ministra da educação da Tradição e se tornou Conselheira. O Conselho exigiu. Sabarba antes disso, havia sido convidado para o cargo, ele de Conselheiro, ela de Ministra, mas os eventos do Carnaval, ainda a ser investigados junto à Base, que ninguém sabia existir, em Báelorizont – nada menos que a capital bruxa! – fizeram com que a autoridade máxima das Nações Mágicas escolhesse a jovem Karla, 72, Conselheira.

Além disso, esta nota pedira muito cuidado a todos para não chegarem a conclusões apressadas.

Nina se despediu de Asha com um abraço apertado. A bruxa, acostumada a formalidade, se sentiu estranha; mas abraçou com carinho sua amiga, que só não explodia de felicidade porque ia voltar.

Asha não parecia tão feliz.

– Você tá bem, Asha?

– Tô sim – diz a amiga – Vou passar as férias na casa da minha mãe, mas eu te mando logo uma mensagem quando estiver de volta à escola.

– Ai! Nem sei o que dizer, Asha! Estou tão feliz – diz a futura wicca – Você vai ter uma varinha nova, não vai? Deve ser complicado fazer uma.

– É,... Vou sim – Asha resmunga, parecendo melancólica.

– Porquê você tá triste? – Nina não entendeu.

– Nina, você... – Asha parou, olhos no chão – Você não faz ideia de como é difícil ser eu. Sim, vou ter uma nova varinha. E? Todo mundo sabe. Eu só percebi isso, bem, ontem: e eu vou ter a Varinha maravilhosa. Só existem umas oito, em todo o aglomerado,... nove, né,... é,... E, por causa da reportagem, todo mundo agora sabe disso: eu virei alvo! Vai ter gente querendo a varinha, porque isso te permite praticamente vencer quase qualquer um, magos, djines etc.

– Pode deixar: eu te protejo! Eu vou ter minha própria varinha, e nós vamos nos tornar famosas! Todos vão saber quem somos; e vão tremer!

– H'nf,... Não duvido; não demora muito até você ouvir o chamado.

– Chamado? Do que você tá falando? – Nina sente um arrepio.

– O Chamado das Trevas, você vai ouvir. A tentação. Todo comum que se envolve na Oculta – a Guerra-Sem-Fim – um dia ouve; a tentação do poder pelo poder: A Corrupção. Vou cobrar pela aula, viu?,... Brincadeirinha, calma.

– Já sei que magia é uma coisa muito complicada.

– H'nf,... Não sei se eu sou a melhor pessoa pra te explicar isso,... Tenho um tipo de "profecia" feita sobre mim: vou ser "A bruxa mais poderosa de todos os tempos"; e até aqui vai ser por causa de uma varinha nível três. Vou te explicar o que eu quero dizer, sem te atrapalhar – faz uma pausa; Nina parece bem atenta, o que é bem melhor que antes – Eu tenho nível cinco de aptidão, ou seja, isso é o máximo de aptidão saudável: mais e eu me dava mal! Você parece preocupada com a varinha, mas a faca é mais importante; se alguém chegar perto demais, a faca ainda é uma arma. Você pula e corta a garganta! Você riu? É sério.

Nina fecha o cenho e para de rir, engolindo em seco.

– A varinha Obra Prima me dá mais três níveis. Assim, eu já sou a bruxa mais poderosa do mundo. Você não entendeu o que aconteceu?

– Hmmmh, não. Na verdade, não entendi nada, Asha.

– Eu já cumpri a tal profecia. De agora em diante, vou ter de defender um título que eu nunca quis; e isso provavelmente quer dizer,... matar.

Nina vê uma azul passar com algumas alunas, pensando confusa: "Ela não se preocupa com alguém ouvir isso?", mas só balança a cabeça.

– Mas... Você não vai fazer isso, né? – Nina não acredita.

Sua amiga bruxa fica em silêncio; ela desvia o olhar, observando estudantes de todas as idades, na estação Athame, o ir e vir de um final de semestre.

Até, enfim, Asha suspirar, deixando Nina de boca aberta.

– Não – Nina balança a cabeça – Você não vai.

– Nina, a sua aula ainda não acabou. O que um espírito "come"? E qual é a chance de isso estar relacionado com "pessoas"? Me explica.

A futura wicca duvida que é bom, olhando meio de lado.

– Esse segredo é terrível – Asha explica – Você é uma sacerdotiza e vai ter treinamento nisso. Ao fazer um ritual, você gera Essência – um tipo de energia de "gatilho", que os espíritos comem. Eles comem outras coisas: hábitos, vícios, tudo isso gera essência. O religioso também gera ao ir ao culto ou celebrar o divino.

A pequena comum – ainda é comum – abre a boca.

– Se prepare; mas você não está sozinha. Hoje, a Nação da Magia ajuda a todos que têm aptidão; ou não, também! Você não tem. Nunca pense nisso como um problema. Vocês wiccas são lindas! Mas saiba: espíritos precisam comer e se as pessoas não geram o que eles precisam, vão obrigar as pessoas a fazer o que vai saciar a fome; não conseguem evitar! É fome! Sabendo disso, você wicca gera uma essência melhor, com o tempo. Como se julga o crime de uma pessoa que mata outra, possuída? Não importa: ela será julgada; o espírito, não.

– Isso é que o que eu chamo de teoria bizarra! – Tomi conclui, mas fica com medo da expressão inexplicável dela, como a de um predador.

– O transbus vai sair – Nina interrompe – Asha, seja o que for que estiver pela frente, vamos enfrentar isso juntas! Combinado?

Asha não evita sorrir com os olhos, impressionada com a amiga.

– Você é tão bonita, Nina; digo, seu espírito.

– Não vou deixar você matar ninguém – ela está séria – Isso é crime e eu vou proteger você disso! Só... Tenta não complicar, pra mim.

– Você não,... – Asha suspirou – Tenta ter boas férias, só isso. Tenta ficar o máximo longe de problemas. É só o que eu te peço? Se cuida.

– Eu juro! – se abraçaram de novo e Asha sorriu.

Os vermelhos, brancos e alaranjados iluminam a terra. Tomi também ia pra casa e se despediu. Sem saber se iriam se ver de novo, Nina também dá nele um abraço apertado. Ele ficou sem jeito. Asha riu dele, que pegou então o transporte público para Béalae, dizendo só um – "A gente se vê", mas foi diferente; ela ficou intrigada com isso – "Acho que ele só tem medo da minha magia", pensa a bruxa, mas decide – "Não posso! Não posso dizer a ele. Não, agora".

– Tchau! – grita Nina da janela do transbus, sorrindo.

O caminho de volta foi tranquilo, a escola vazia.

Asha, a melhor aluna da sua capela, encontrou todas as suas coisas prontas, juntou as malas e foi se despedir do bogling do seu dormitório.

– Eu sei o que você está fazendo – ameaça a criatura.

– Ssh!,... Você tá me ameaçando, Xerxis?!

– Não, não, maluca – ele sorri – Na verdade, vejo as anotações que você tem jogado fora: pare! Não jogue no lixo! Tenho uma dúzia de teorias que podem ser interessantes pra você; então,... Te vejo semestre que vem.

– H'nf,... Obrigada, Xerxis; você é um anjo – ela ri.

E a Melhor foi pegar o transbus especial, veículo exclusivo de alunos como ela, Santiago e Lucrécia, feliz por ir passar as férias em casa.

Nina chegou em casa e sua mãe veio correndo para abraçá-la. Ela parecia querer medir cada centímetro do corpo, pulsação, cor da pele, até decidir que a filha estava realmente viva – ou não fora amaldiçoada, parecia.

Seu pai estava sério como uma estátua de mármore.

Tal como Asha havia lhe dito, passou a viagem inteira vendo na interface o que foi publicado para a mídia. Isso, teria de se acostumar a fazer. Assim, quando chegou em casa, explicou o que havia visto, mas... sem magia. Nada sobrenatural. Tudo seria por uma boa causa, mas não teve coragem de falar sobre sua decisão, até que tudo estava mais calmo cerca de uma semana depois. Seu pai fechou a cara ao ouvir a palavra: "repórter"; e ela sabia que ele podia lhe impedir de voltar, mas a sua decisão já estava tomada, era seu sonho, iria lutar.

Seu pai havia lhe matriculado na escola, no dia que chegou. Só que, além de não ter contado à filha, ele ficou duro, uma pilha de nervos.

Nina achou que ele só ficaria bravo, mas – “Uma repórter”, ele ruminou, “Eu não entendo, minha filha! Você,... Onde foi que eu errei? Sempre lutei para que o seu futuro fosse a ciência, mas você quer ser uma repórter?!”, Nina achou que ele iria brigar com ela, mas seu pai só ficou muito mais sério que de costume; e ele já é o símbolo do ser sério! Ele aceitou; mas Nina sabia que o havia contrariado, o que a deixou muito triste. Seus pais lhe deram tudo aquilo que ela quis, a não ser a escolha de ser o que ela queria ser, mas decidida, disse: “Sim. Esta é a profissão que eu quero e vou lutar para ser a melhor. Sei que você sempre quis o melhor pra mim, pai. Eu fiz tudo o que vocês me mandaram fazer. Não sabia se você iria aceitar; e foi por isso que escondi”.

Estava amargurada, evitando falar de Stephen, seu avatar, com medo: "O que ele iria fazer?" com o mel dos seus segredos.

Seu pai ficou três dias sem falar, cantuoso pela casa. Nina achou que estava tudo acabado, quando ele se arrumou e saiu sem dizer aonde ia.

Ficou uma semana sem vê-lo.

Assim, ligou para as amigas da escola. Tinha de sair, ir com elas ao bowl, se distrair, sei lá! De repente, arrumar um namorado. Suas amigas da outra escola lhe alegraram. Apesar disso, sentia o coração pesar de não contar nada a elas.

O nome do segredo.

Aquilo a deixou tão triste, que decidiu voltar pra casa e falar com seu pai que não ia mais estudar naquela escola. Que tudo foi um erro. Seu pai estava certo. Mas ao chegar em casa, seu pai não estava e não voltou; e sua mãe olhava para ela como se fosse culpa sua, que agora sua família estava se desfazendo, ruindo, porque ela havia contrariado seus pais.

Nina se trancou no quarto e chorou. Enfiou a cabeça no travesseiro, para que sua mãe não ouvisse; como se uma mãe não fosse saber.

No último dia de julho, seu pai voltou.

– Nina, venha aqui, minha filha. Sua mãe falou que você não está comendo, e que fica chorando pelos cantos. O que está acontecendo?

Ele se sentou no sofá da sala de mídia, decorada com frisos de alumínio e madeira de tons claros. Havia luz. Vinha da janela uma brisa suave, mas Nina só procurava escolher bem as palavras, sem saber como começar.

– Desculpa.

– Porque você está me pedindo desculpas, Nina? – disse ele, sério. Nina olhava para o chão – Me diga. Por quê?

– Porque eu escondi de você a verdade,... Nunca imaginei que faria isso. Estou com muito medo... de você não entender. Acho que vai ficar com muita raiva de mim e de eu ter escondido tudo.

– Do que você está falando?

– Da escola – Nina disse isso com um arrepio.

– O que tem a escola?

Agora havia começado, e não tinha mais como voltar atrás.

– Eu,... não quero mais ir pra escola.

– Por quê?

– Eu,... acho que você não vai gostar de eu estudar lá. Porque,... – não conseguia; a voz se engoliu e ela não conseguia mais falar.

Sentia que tinha perdido a voz. Não saiu nada. E então, seu pai riu.

Agora, ela não estava entendendo mais. Estava ali, tentando dar um jeito, consertar o erro que havia cometido.

E, de repente, seu pai parecia feliz.

– Eu sei de tudo, Nina.

Assim, ela ergue a cabeça e olha para seu pai.

Ele está sério. Parece bravo, mas ao mesmo tempo tem uma expressão que ela nunca viu e que lhe deixou confusa.

– Eu sei que você está indo para uma escola de magia. Que sua amiga Asha é uma bruxa e que você vai a essa escola para aprender magia.

Sua boca se abriu, sem controle.

– Onde foi que eu errei? – ele abaixa a cabeça e balança – Ewá! – sua mãe veio, na mesma hora, de olhos arregalados – Me dê um conhaque. Não, Nina. Eu me pergunto onde foi que eu errei?... Isso... é... Isso é terrível,...

– Mas p-pai,... – uma lágrima se dependurou nos seus olhos. O seu pai sorria triste e estava duro como uma estátua grega.

Não, isso não está nada bem, pensava a pequena, sem conseguir falar.

– Você vai desistir do seu sonho? Assim?!

– Quê? – pega de surpresa, ela abriu a boca.

Sua mãe serve o conhaque como se a taça fosse se quebrar; aliás, apertava os lábios como se tudo ali fosse se quebrar, ao ouvir a palavra magia.

– Eu jurei – diz seu pai; e Nina sentiu a voz dele tremer – Eu jurei que ia manter a minha filha longe disso tudo! Mas, então,... Você quer desistir?! O que é isso? Abandonar a magia? Seu sonho?! Isso não é o que eu esperava de você, filha, você,... Eu não vou permitir! Não vou permitir esse absurdo,...

Nina achou que, tal como sua mãe no outro dia, ele não fazia sentido. Ele bebeu um gole generoso e logo sua pele germânica ficou vermelha.

– Por quê?! – pergunta-se seu pai, vidrado.

A pequena não conseguia pensar em uma resposta.

– Seu avô,... – seu pai treme, olhando para o lado.

– Me desculpe, pai. Eu não queria,...

– Seu avô não morreu – Nina respirou pela boca, ao ouvir isso – Seu avô foi morto em combate, lutando por,... Ele era,... Não! Eu não consigo.

– Pai – ela fungou, muito triste – Eu não vou mais pra escola. Você não precisa ficar assim. Pode ficar tranqui-,...

– Por quê?! – ele ergueu a voz, de olhos arregalados – Porque você está me dizendo isso, filha? Você não vê?! Eu quero o seu bem! E aqui está você, pronta para desistir dos seus sonhos e me jogando isso na cara o tempo todo?! – então, ele grita em alemão, sua primeira língua – Scheisse!!

Disse a última palavra num grito e jogou a taça na parede. Ela se espatifou, em muitos pedaços; e sua mãe foi correndo pegar a vassoura.

Nina arregalou os olhos, com muito medo.

Seu pai se levanta, passa a mão sobre a cabeça, meio fora de si. A pequena não sabia o que dizer, preferia ficar quieta. Sentia uma coisa, mas não havia uma só palavra pra essa sensação; umedeceu os lábios e ficou calada.

Sua mãe veio limpar, com vassoura e pano.

– Ewá – ele parecia de repente muito calmo – Me pegue outro conhaque, por favor, porque eu preciso parar de pensar pra pensar! E isso é difícil.

A mãe limpou tudo e serviu outro conhaque.

Nina viu seu pai beber em pé. Bebeu todo o conhaque; não de uma vez, mas como se estivesse decidindo o que era melhor, sem que ela tivesse coragem de perguntar quais eram as opções. Ele entrega a taça à mãe e se senta. O rosto vermelho, rubro de álcool, mesmo tendo bebido duas taças – a outra, quebrada, já estava longe dali embrulhada em papel para reciclagem.

Ficou quieto um tempo e, então, suspirou.

– Vá arrumar suas malas – foi o que Nina ouviu.

– Pra,... Para onde nós vamos, pai?

– Eu não vou a lugar algum, mas o transporte para a escola sai amanhã, bem cedo, às quatro da manhã, para Diamantina; e eu não gosto de atrasos.

Ela ficou parada, indo e vindo de todas aquelas contradições.

– Você... me matriculou? – ela fica pasma – Quando?!

– No dia que você me contou todas aquelas mentiras – seu pai mastigou a língua, um pouco – Desculpe, minha filha. Eu não quero falar sobre isso,... Não; a decisão está tomada e você não ouse me desobedecer. Você vai ser a Melhor. Se eu souber que você não é a Melhor, você volta pra casa no mesmo dia! Estamos entendidos? Você também está inscrita para a Bolsa de Iniciação Científica, mas,... Onde foi que eu errei? (ele suspira). Então, está decidido e pronto. Minha filha, eu quero o melhor para você e se o melhor para você é a escola, você vai pra essa escola; ponto. E não ouse desistir dos seus sonhos assim! Entendeu?

A pequena Nina concordou com a cabeça.

De repente, um passarinho pousou na jardineira da janela. Ele bicou a planta e seu pai tentou espantar ele, balançando o braço.

– Não, pai. É um trinca ferro!,... – Nina se levanta.

Foi se aproximando devagar, até ver que o pássaro estava mordiscando o jardim; mas logo pensou um monte de coisas, tudo muito rápido. Até parecia que a vida a havia encontrado de novo, tentanto dizer alguma coisa.

– Ele está com fome – ela conclui.

Nina correu à cozinha. Pegou uma maçã e uma faca, descascando a fruta e voltando, se aproximou dele com muito cuidado.

Seu pai observava, muito sério. Nina alimentou o pequeno pássaro, quase se esquecendo de tudo que havia sido falado.

Sabia que era para seu coração estar leve, agora, mas não estava; e não sabia porque não estaria. Ela fungou, confusa, meio feliz. O trinca ferro deu dois pios, bem altos. E foi como se sua memória voltasse: ela se lembra que ele é o símbolo dos bruxos do norte onde é a escola. De repente, o coração se apertou. Sabia. Aquilo era uma mensagem. Era um aviso: e se lembrou de Asha na mesma hora! Ela seria a única que mandaria o trinca ferro lhe avisar.

Num pio, o trinca ferro bateu as asas e voou. Era um aviso, sim, e sabia que era provavelmente ruim; mas então, se virou para falar com seu pai.

– Eu... vou pra escola?

– Mas é claro que vai, filha! – ele lhe chamou para perto. Seu pai segurou a sua mão, com um sorriso – Seu presente de aniversário está sobre a sua cama e é quase uma obra prima! E?,... Você vai abrir o presente, ou não?

Ela ficou de boca aberta; um balão vermelho se formou. Se encheu. Não conseguia nem pensar no que dizer; e correu para o quarto.

Nina se despede de seus pais na Estação Aymoré, ainda em Béalae, mas via seus olhares, felizes e tensos. Aul-a Wakka, A Quinta Capela, é um semi-internato, onde você passa quase o semestre inteiro na Escola. Os feriados e fins de semana são sempre eventos especiais; mas não se compra material, ou bem,... quase – ela comprou; diga-se, seu pai – a escola tem tudo o que os alunos precisam.

Algum tempo depois, tomando o cuidado de ir se sentar lá no fundo, a menina abre sua bagagem de mão, onde está a caixa. Não podia deixar a caixa na bagagem, para ir junto de coisas de outras pessoas! Era um tesouro.

A caixa, meio comprida, era de madeira escura e velha, mas polida; ela dá uma espiada para ver e haviam linhas bem fininhas, de um metal que lembrava grafite, mas sem dúvida é um material mágico. Ela aprendeu como abrir. Era meio óbvio. Só o dono de um objeto mágico consegue abri-lo facilmente. O fecho era branco; outra vez, era bem estranho, mas que atende ao pensamento. Ela passa a mão sobre o fecho, ao mesmo tempo em que pensa: "Abra!", e então, a caixa se abre sozinha, as engrenagens dentro se movem e deslizam, devagar.

Dentro da caixa, ela vê o seu presente, mais uma vez.

À direita, está uma faca com uma lâmina negra, que ela pega para olhar mais uma vez. Tem as mesmas linhas, fininhas, geométricas. A lâmina, muito leve e, apesar de ser um pouco grande, ela sabe que vai aprender a usar.

Tem uma bússola no fim do cabo, um vago para amarrar corda.

Decide guardar a faca com cuidado, com muita calma. À esquerda, há uma obra de arte de verdade, uma varinha. Há um papel; ele diz: "Ébano. Exconcluída em Telluron pela Dinastia Hussel. Modelo: Toolu-9, 13 polegadas. Alta densidade, e Diagramas de Vox. Vox de alta fidelidade. Ideal para estudantes sem nenhum treinamento". Também tem as ranhuras, ou diagramas. São formas muito bonitas, pensa a wicca, geométricas, muito fininhas; viu que se encaixa à sua mão, frágil e pequena, mas é meio grande – "Claro! Eu vou crescer, né", ela se lembra.

No centro, Nina viu a sua orbe perolada. Tentou ver e encontrou, depois de olhar por muito tempo: vê as mesmas formas geométricas tridimensionais, quase invisíveis, lá dentro – "Até que enfim!,... Matemática vai me ser útil".

– Oe!,... – disse uma menina – Pr'azë'r, eo sou Sura.

– O quê?! – isso pegou ela de surpresa – Ah!, sim, prazer. Eu não,... Não tinha visto você aí.

– O-Kay, se'm pr'oblem – Sura olhou pela janela; Nina fez o mesmo, porém a futura wicca ainda tinha a varinha em sua mão, analisando a orbe.

Considerou por um momento se precisaria dela, agora. Não esperava um encontro no aerobus; ainda nem chegara na escola! Asha disse pra ela se cuidar, se manter longe de problemas, ter boas férias.

– Multo bon'ita, suwa var'ingna. Vo'cês br'uxaes r'ealmench pr'essizam de var'ingna, nung-w é?

Nina engoliu em seco: "Que raios de sotaque é esse?! Não é inglês; nada, nada! Não parece nenhum sotaque que eu conheça",...

– Ah!, é. Na verdade, não – mas não sabia explicar além disso – Acho que tem vários tipos de magia; varinha é muito útil, só isso.

– Ah!, é me'zmou. Eo nung-w pr'essiza.

– Que bom – e Nina se virou para a janela.

A menina com o sotaque inexplicável também fez isso; e parecia não fazer a menor idéia de que Nina rompeu a conversa.

Se lembrou de Asha lhe dizer que é avoada.

Assim, guardou a varinha reta com muito cuidado e se preparou. Passou o restante do tempo com os olhos na janela, apenas exigindo a chegada.

Descendo do transporte, não viu Asha.

Ontem, ao ter recebido a mensagem dela, sabia que era uma coisa ruim, até mesmo sem saber os detalhes do que quer que fosse.

Desceu em uma estação entupida. Viu vir lhe receber uma azul; a ginoide lhe fez um cumprimento e ficou em reverência.

– Eu conheço você! Jael, das Oficinas, não é?

– Senhorita Blatt, bem-vinda a Athame. Alma Attenta está há um plano de distância, apenas. Dormitório feminino norte, não se esqueça.

Ela pegou suas malas, dizendo-lhe para ir para o dormitório, assim que ela chegasse, e a conduziu ao transbus. Viu alunos, confusos, indo cada qual para seu transporte, e pedestais com supersoldados em cima, na estação. Não tinha muita certeza do que eles faziam; eles não fizeram nada no ataque à escola.

Tentou imaginar; e desistiu, balançando a cabeça.

Havia outros veículos, chegando e saindo do labirinto entre Youbi e a outra vila, Taki. O teto alto parecia um mapa! Ou seria? Sabia que a região inteira era um labirinto de construções, tudo totalmente invisível ao desatento.

Desceu do transbus na entrada, respirando o ar local com saudade; e seu avatar, Stephen, apareceu ao seu lado, dizendo – "Bem-vinda à Quinta Capela, Nina. Estou recebendo os dados que você precisa. O dormitório fica à direita da estátua de Santa Wicca e do Edifício Núcleo, logo depois da Árvore; a entrada é pelo Pátio. A Escola me alerta a dizer que eu devo tentar responder qualquer tipo de pergunta que você fizer, mas devo lhe incentivar a pesquisar por conta própria. Tenha um ótimo semestre". Ela responde: – "Obrigada, Stephen", que lhe dá um sorriso, ao ir-se – "Finalmente!",... pensa. Entre mil expectativas, ela foi.

Ela viu Sur, ou o-que-seja, discutindo com o androide dela.

Ao chegar ao seu dormitório, viu a placa, dizendo: “Dormitório Feminino de Santa Wicca”, e estava se arrebentando de felicidade. Trazia consigo uma mochila grande, com suas coisas pessoais. Parou alguns segundos à frente da entrada: a abertura, em estilo portal, era feita de dormentes de madeira – dois no chão, um de cada lado até o alto e um maior no alto fechando o portal.

Respirou fundo, escondendo o tremor, e entrou.

– Anja, você viu o anfiteatro, como ficou?

– Ainda não, Bonnie. Alguém já foi ver como ficou a Camarilla? A Alysia, lá do Instituto Azurita, em Béalae, me disse que todas as Capelas estão ajudando na reconstrução; mas da nossa Capela tem só os estagiários, nessa.

– Eu vi, Montenegro. Foi onde o Professor Gusa lutou com o monstro! Tem umas orbes de todo tamanho, agora. Vi, você precisa ver! É uma tecnologia nova, que foi desenvolvida ano passado na Segunda Capela, em Parati. Agora as orbes da Torre têm armazenadas todas as informações técnicas de feitiçaria.

– Que lindo! Quero fazer uma oferenda à Deusa! Sabia? A Deae Matres é a representação da Mãe; afinal, eu vou me formar, no fim do semestre.

A colega Ffion revirou os olhos de rir, mas não falou nada.

Há um corredor de salas, até o outro lado.

Nina vê um tipo de Sala de Reuniões, ao final. É bem comprido. Ela vê suas colegas de quarto, ajudando as novatas a se organizar.

– Oi, pequenina – disse Africa, bem perto de Nina, a uma menininha bem miudinha, bem loura, e que apertava os lábios – Como você se chama?

– Hussel, Nikoleta – Nina parou, espantada com o olhar que a menininha lhe dava, como quem te examina a alma; mas Africa não percebeu.

– Oi, Nina! – diz a chefe – Você já é de casa.

– Bom dia, Africa – Nina ficou feliz, mas meio sem graça – Eu,... vou ficar no seu dormitório, não é?

– Isso mesmo! E seja bem-vinda.

– Obrigada – Nina voltou a olhar a menininha – Nikoleta, por acaso você é irmã do Nikolai? Tão pequena,... Quantos anos você tem?

– Nikolai é meu irmão desde que eu nasci – a voz dela era rígida, mas não áspera; Nina se espantou – Eu sei usar todos os tipos de varinha; e também sou mestra em Transfiguração. Se precisar de aulas de combate, me avise.

– Ah!, combate,... Faca, você quer dizer?

Nikoleta abaixou a cabeça numa reverência curta e seguiu, sem falar com mais ninguém, para a escada. Nina olhou o dormitório. O Salão da entrada tinha, atrás da porta do lado de dentro, uma cópia do famoso Hieronimus Bosch; ela via estantes vermelhas, poltronas, bustos nas paredes brancas, um globo.

– Bom dia! – chegou uma veterana – Eu sou Vitória. Você é amiga da Asha, não é mesmo? Vem! A escolha do dormitório é mágica; e tu é do dormitório da doida! Vou levar você até ela, agora. Você tem medo de bustos?

– Oi. Sou... èa,... Prazer, Nina. Não entendi.

– Eu sei – ri a veterana – Os bustos falam. Vishe, Nina! A Melhor tá feito um furacão! Não sai do quarto. Fica andando de um lado pro outro, sussurrando ou resmungando. Vou te levar até seu quarto. Vem! Ah!, é. Antes... Gente! Essa é a Nina! – todas a cumprimentam – Anja Holst Montenegro, Bonnie Stephen Llaw, Ffion Tabuer Braga, Africa Bonner Cantagalo; e tem a Suzana que não tá aqui, do seu dormitório – "Oi", disse Nina, tímida – Vem, que a missão é sua; ela precisa da sua ajuda! Ah, sim! E não

toque em nada que te peça para não tocar.

Mas Nina, simplesmente, não conseguiu passar pela porta.

Havia uma coisa lá! Uma coisa estranha; e depois tudo que já viu, ficou com um pouco de medo: era uma criatura. Esverdeado, em roupas sociais, uns fiapos de pelos no alto da cabeça, arrastando um balde, um rodo na outra mão; o olhar sádico, do tipo que está o tempo todo pensando em fazer algo errado.

– Esse é o Xerxis, Nina. Ele é um bogling, um poltergeist,... quer dizer, pele verde. É o nosso guardião, nesse dormitório. Xerxis, essa é a Nina.

– Eu sei quem ela é – diz o bogling, apertando os olhos – Você é amiga da minha maluca predileta. Se tudo der certo, você é a próxima.

A criatura, verde azulada, ou cinza, ficou olhando Nina passar.

O elevador, por algum motivo, fica no segundo andar do dormitório e é de aço, como numa fortaleza.

Dentro do elevador, Nina se inquieta; ela se lembra do aviso e espera que não seja tão sério.

– Pronto, oitavo andar. Oitenta e um. Aqui. Quatro quartos por andar, Torre Um norte, Torre Dois sul. Eu moro no cinquenta e dois; vá me visitar – ela bateu à porta, com cuidado, abaixando a voz pra dizer baixinho – Toma cuidado! Ela tá mal, ou frustrada, sei lá! Agora vou indo, pra não sobrar pra mim. Meu profeta, toma – tuttut – Me liga, depois. Boa sorte! Tchau.

A porta se abriu e Nina viu Tomoe.

– Nina! – elas se abraçaram e a monge lhe fez entrar.

Era verdade, Asha estava num canto. Andava louca de um lado pro outro; e parecia que o mundo havia acabado agora mesmo.

– Oi, Asha.

– Oi, Nina – ela passa a mão sobre a testa, desesperada.

– A Asha não tá nem comendo, Nina.

Era sério, então. A garota sabia, desde que o trinca ferro foi lhe avisar, que havia uma treta muito errada.

– Recebi um trinca ferro em casa e, desde então, eu to preocupada. Sabia que era você: pude sentir meu coração se apertando.

– Não é possível! – e a bruxa socou o ar. A parede tremeu com o soco, mas parecia ser feita pra aguentar esse tipo de coisa, ou muito mais.

Tomoe ergueu as sobrancelhas de dó, parece, quando Nina olhou para ela, mas ficou calada. Asha está magra e bastante abatida, ela percebeu.

Asha revira os olhos de dor: usara seu elemento, Terra.

– Vem, Asha – começa Nina – Senta aqui, comigo. Vem me contar o que é que está acontecendo, pra eu te ajudar.

A bruxa parou, com os olhos cheios de fúria.

Hora de deixar a amizade, como dizia seu pai, Obert Blatt, o sábio que não conhece a magia, fazer o seu papel. Sentou-se na cama. Asha não tinha só ficado sem comer. Estava suja, seu cabelo estava desgrenhado, como se fosse uma bruxa medieval, louca, pronta para amaldiçoar a tudo e todos, transformar em estátua, para amarrar o nome de alguém na boca do sapo, ou cozinhar o mal, mas – "Será que isso existe?" – era o que Nina pensava.

– Vem – Bateu a mão, de leve, no colchão.

Asha andou até Nina, mas quase desmaiou em seu colo, chorando. Ela está acabada, de tanto chorar; e, sem dúvida, é do mais puro desespero.

Sua amiga esperou um tempo, passando a mão pelos seus cabelos, cheios de nós; aos poucos a bruxa começou a parar de chorar.

– Então, qual é o problema?

– Minha mãe vai se casar,... e o mundo vai acabar.

Agora, não fazia sentido. A menina nunca havia pensado em se casar, mas a ideia de se casar parecia legal; algum dia, acaba de se imaginar,...

Não era uma coisa para se entrar em desespero total. Total e absoluto? Isso era pra ser um motivo de alegria, Nina não evitou pensar.

– Mas porque você está chorando? Isso é uma coisa boa, não? Até eu, que sou mais boba, algum dia vou pensar nisso – ao ver o olhar da amiga, disse logo que – Hoje não! Não é um bom dia para casar. Por que você...

Asha se levantou e gritou com toda a força.

– Aaah!! Ele é um MAAAGOoo!! – depois, se jogou sobre a cama; Nina só se virou para Tomoe e ambas olharam caladas pro chão.

(Fim do Cap 20)