Além da Imagem do Despertar

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Dois -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 2 -- Além da Imagem do Despertar

Data. O Réveillon de 2213 chegou, novamente em meio às discussões sobre calendário, que muitos julgam não ser uma idéia neutra, por ser uma data religiosa, e de apenas uma religião. Ainda assim, ele continua sendo usado, mas porque o gasto com a mudança seria muito alto. Algumas regiões têm seu próprio calendário. Algumas delas, mais de um, para representar datas regionais, feriados específicos, entre outras coisas. Há, porém, dois calendários em uso comum: o cristão, solar; e o árabe, lunar. Isso é usado em todo o mundo, enquanto o extremo oriente adota sua própria contagem que representa a idade de seus líderes, o de reinado do imperador crisântemo, nihon, e, em completo paralelo, a data proscrita socrática.

Najka ficara feliz com as palavras de sua Patrono, o Arcano XIII, que explicou muito pouco de suas missões para o Hauki, reunião de anciões vampiros que rege o aglomerado sudeste, conhecido pelo nome de aglomerado Brazillae, homenagem ao nome da antiga capital. As palavras de Aella surtiram efeito. Os anciões disseram à entidade que Najka era essencial a eles. E então, como mel e sem aviso, Aella explicou que era Najka essencial à sobrevivência de todos, o que o Hauki parecia saber.

O que mais eles sabem, e guardam? O melhor é que Aella evitou dizer o porquê Najka era importante.

Seu grupo está todo em missões, agora.

Najka acha muito importante descobrir o que cada uma das Facções acredita estar acontecendo, e por isso separou o grupo para investigar as entidades de cada Facção, secretamente.

A filha da noite está na Serra da Mantiqueira, a Suíça Bra, uma parte do aglomerado que reúne indústrias limpas, e sua maior parte de habitantes é droide, trabalhando dias e noites sem descanso para produzir os ítens de consumo que a população necessita.

Ela investiga as vilas de funcionários.

Supervilla de Campos do Jordão, um spot que se formou ao redor de muitos condomínios, hotéis fazenda e granjas. Ali vivem os gerentes e os diretores das indústrias, e engenhos de vários tipos.

Aella apenas disse para Najka observar.

A noturna não entende porque sua Deusa está nesse lugar, duas montanhas de distância da área urbana. Do outro lado, a rodovia leva para as escolas técnicas, Sampa em uma direção, Báelorizont ao norte, além da cidade patrimônio Rio de Janeiro a leste mas, antes disso, as colinas tendem ao infinito até onde se pode ver, a esconder as indústrias limpas, e os grandes e pequenos droides trabalhadores.

Depois de uma semana, ainda não havia acontecido nada, e aquela clínica era tão tediosa quanto fazer relatório sobre a grama crescer, porque todos ficavam em silêncio por completo. Os doentes, sabia, tomavam sol no horário da manhã, no pátio no centro da casa. Os arcos brancos rodeiam a área circular de uns 90 metros quadrados. Ela observou que apenas um sai à noite, e que depois que ele volta para o quarto, a enfermeira faz um relatório sobre as ações dele, como “Olhou o céu, quase o tempo todo”, ou “Andou para um lado e para outro, e parecia procurar alguma coisa”.

“Porque ele é importante?” – Najka se questiona em pensamento, e se deveria exigir saber.

Sentia a presença de sua Deusa, e nada mais. A poderosa Entidade da Morte, Aella, havia decidido observar um louco, e tinha deixado Najka sem escolha, ao dizer que aquilo era mais importante que a investigação sobre as entidades das outras Facções.

Deixando de lado os pensamentos de dúvida, ela observava, calma, das trevas de uma árvore.

Sabia que havia um sujeito suspeito, aparentemente tio do paciente e a caçadora acha que ele é de alguma Facção. Nada indica isso. Seu grupo não conseguiu achar informações sobre ele, pois não tinha ligações com ninguém que pudesse dizer quem ele era, não usava símbolos nas roupas, nem faca, orbe ou varinha, nem telecristal, e a sua casa não tinha nenhuma proteção específica.

Harish vigia o suspeito, em Kampina.

A única pista que Harish havia descoberto era que ele era parente do doido, tio por parte de pai. Não encontraram informações sobre o pai, ou mãe, mas não havia nada estranho na correspondência, escrita ou eletrônica – ele parece não ter implantes; arriscado demais chegar perto para ver seus olhos.

O cofre, porém, contém uma caixa, que eles não conseguiram saber o que tinha, mas era óbvia energia mágica, que emanava. Ainda assim, não havia como saber o que era, ou que poder a coisa tinha sem abrir. Abrir significava delatar que eles estavam lá, e sua presença seria identificada. Péssima idéia. Melhor era deixar o alvo se entregar por si mesmo, o que é quase certo que aconteça. As pessoas que participam das guerras da Oculta não podem se afastar tanto da sua guerra e de seus inimigos. A guerra cedo ou tarde chega a eles.

“É só questão de tempo” – pensa Najka.

Elliot teve a sensação de que as formas eram diferentes dessa vez, mas ainda assim não conseguia saber o que eram. Seu Profeta explicou que eram formas geométricas, quando perguntou. Apontara a forma da porta, a forma da mesa, fazia um zigzague com a mão, enquanto o sono não o alcançava. Formas. Aquilo não fazia o menor dos sentidos. Ainda que ele estivesse entendendo, tinha sensações que avisavam quando uma pergunta era ruim, ou que podia resultar em algo ruim. Isso, tinha decidido não perguntar. Ninguém ali falava sobre sensações. Todos vivem uma vida de vazio, igual à dele por tanto tempo. O nada, a falta de conteúdo. Isso sabia o que era. Todos ali viviam a mesma inexatidão.

Acordou de suas imagens porque sentiu a presença Dela. Sabia que ela estava ali, na área do pátio.

O medo.

Presente, todo o tempo, o medo guiava as suas atitudes. Era como um aviso. De que algo errado estava acontecendo.

Elliot sentia.

Era como uma sensação, mas era diferente de uma. Tudo se desfazia, e as imagens vinham. Tentara evitar em princípio, mas via que elas ajudavam. Tinha uma sensação de presença, da mesma forma que antes ele tinha, desde há vários meses, talvez. Não consegue contar o tempo. Aquela presença, da mulher que o havia tirado do nada. Feito entender. Agora, estava esperando, no pátio central. Lutando contra o nada, o jovem se levanta. Seu Profeta imediatamente se ativa, Elliot queria é saber como isso acontece, porque ele mesmo não diz nada, e o objeto liga; hoje está dizendo para levá-lo para onde está indo, junto à sensação de que se não fizer algo vai dar muito errado.

Ele pega o Profeta, sem opção.

Avança até a porta, e abre.

Najka sente movimento no quarto, e sente o cheiro de Elliot. Sua Deusa também está no mesmo lugar; a caçadora sente nekron no pátio, ao lado da jardineira. Agradece à natureza da região, que mantém o tempo quente o bastante para que não precise usar de sangue para se manter ativa, neste 13 de primeiro mês, mas reparou que havia uma estrela estranha no céu; buscou informação sobre aquela estrela na interface. Nada. Não havia nada na interface. “Pode ser um satélite”, pensou. Seu grupo estava longe, mas poderia acionar a comunicação especial; ainda assim, não parecia ter nenhum dos motivos que ela e seu grupo decidiram que eram gatilhos necessários para a comunicação.

Guardou seu computador.

Elliot havia acabado de sair do quarto, lentamente se movia para o pátio central, onde Najka sentia que estava Aella, tal como durante as últimas três semanas e meia. Imagina que a entidade o observava desde antes, sem que ela ou qualquer um soubesse.

Desejou saber porquê, mas entender a motivação da Morte era querer demais.

A imortal aguça os ouvidos. Há alguma energia nesse lugar, que gera um incômodo, como o de um inseto.

A única possibilidade era de observar, já que Aella não havia explicado o que mais Najka deveria fazer, além de ficar observando um demente, que vivia perguntando ao Profeta quais eram os nomes das coisas, e nem ao menos sabia o que era uma cadeira, ou uma porta; cuja maior vitória havia sido falar frases mal formuladas à enfermeira da clínica.

Assim, Najka espera.

Se mantém concentrada, do alto da árvore, observando o pátio central, e aproveitando para planejar. Alice havia descoberto que o Chacal, ente djine, está interessado em saber o que planejam. O Senhor dos Sonhos, porém, não havia entrado em contato, e o garoto parecia estar no centro dos planos de sua Patrono; talvez ele esteja se recuperando. A enfermeira da clínica era de São Luíz, Nova Holanda, comenta com o computador que não entende nada sobre ele, mas o profeta só insiste que ela deve anotar tudo, e ela é exemplar.

Dali, podia até ouvir Elliot respirando.

Meio devagar, Elliot passa pelo arco e entra no pátio. Tem a nítida certeza da presença. A mulher está ali, em algum lugar; porque não a vê, ele não sabe. Tem a sensação também, que aquilo não deve ser dito a ninguém, ou coisas muito ruins podem acabar acontecendo; mas o medo, ele tem lhe ensinado mais que a ter cuidado com o que fala; e uma dessas coisas tem sido saber a resposta mesmo antes de perguntar.

O vazio.

“Não”, ele luta contra a suspensão. "Agora não", e ele vê um lugar, uma estranha construção, de madeira, aço e pedras, entre mansões e montanhas.

Sente a presença da mulher, orando por ele ali no pátio, e olha para cima, observando as estrelas. Só que há uma estrela diferente bem acima dele. O tempo é o que se faz dele. Aprendeu que o tempo é contado como dias da semana e meses. Ainda não havia entendido o que é um ano ou outras palavras relacionadas, mas sabia que as estrelas se movem a noite e tinha a sensação de que aquela estrela não se moveria, deixando todas as outras ali passarem: impassível, a servir de uma forma ameaçadora de testemunha.

Lutou novamente contra a ausência. Isso sempre acontecia. Toda vez que tentava ver o que ia acontecer, o nada o ameaçava. O medo sempre estava lá para fazê-lo evitar as palavras, e deixar as situações passarem para que pudesse, de alguma forma, prever o que viria a seguir. O vazio não, era terrível.

Sentou-se no banco, onde tinha a sensação. Havia algo de diferente nessa noite. Não era a sensação fria e profunda desse aspecto, e que parecia emanar medo e esperança, ao mesmo tempo.

Era... a sensação de... ameaça.

Durante algum tempo, deixou a presença lhe alimentar. Era de fato uma fonte de energia. Energia fria, mas que alimenta, muito mais que a comida; sabia que isso tinha de ter um significado especial, mas só pensava que, desde aquele dia, as sombras se movem. Essa é uma noite arrepiante, sentia essa outra coisa, uma ameaça, presente, que subia por seu pescoço, e tentava arrancar seus cabelos. Só se, ele,... só havia uma forma de saber o que aquilo significava.

Única opção.

Deveria tentar ver o que talvez acontecesse a seguir.

O vazio.

E o medo, a dúvida.

Tinha de saber, porque a sensação estava aumentando, e de fato a estrela não se movia, enquanto todas as outras já estavam em outra posição, somente, sem sentido.

Agora uma onda de medo toma conta de Elliot.

Suas sensações viraram imagens, ele não consegue impedir de ver, e o que ele vê é terrível. A mulher, única fonte de esperança que ele tem, está morta no chão ao seu lado, e ele sendo amarrado e erguido no ar para ser levado da clínica, não faz a menor idéia de para onde.

Terminou.

O homem que aparece ao seu lado é o avatar do seu profeta. Isso era o que havia explicado antes ao pobre jovem.

– Sua pressão subiu, você está suando, e seu ritmo cardíaco está muito acelerado – disse a imagem, semi-transparente.

O adoecido Elliot vê o avatar e sabe que deve responder alguma coisa por que o homem sempre insiste até ele falar.

– Eu... estou bem – respondeu.

A voz do garoto tremia, e suas pernas estavam moles. Não conseguia pensar em outra coisa, e se esforçava para enxergar.

– Vou mandar a enfermeira vir até aqui – afirmou o avatar como se não tivesse escutado. Havia uma sensação de que aquilo tudo iria acontecer em pouco tempo, ou instantes, logo a seguir.

– Estou bem – disse, tentando ser mais convincente.

– O que aconteceu? – perguntou o profeta.

– Nada – a resposta de Elliot parece não ter sido convincente o bastante. O garoto sente-se sendo amarrado. Não vê o que seria. Era como se simplesmente estivesse no ar, a gritar por ajuda alguma.

– Pode confiar em mim. O que aconteceu? – disse o homem, e a razão sem porque de não dever dizer surgia de forma imperativa.

– Nada – dessa vez um pouco mais firme.

Ainda assim, o avatar não lhe deixou quieto, e perguntando mais uma vez, lhe deixou em dúvida. Elliot sentia que não conhecia as palavras para avisar que ela estava em perigo. Só havia uma chance. A mais perigosa, e sentia que tudo que tinha visto iria seguir. Perguntar ao avatar sobre qual seria a palavra – e sentia que isso era uma péssima idéia – porém, era a única que surgira; evitando imagens de um lugar cheio de gente, de um homem mais velho, ou de símbolos sobre um chão lustroso de madeira muito velha, ele se decide.

– O que acontece... quando alguém morre? – pergunta ao avatar, na espera da palavra evitar o futuro absoluto.

– Isso, Elliot, ninguém sabe – respondeu o avatar, observando Elliot, sem perder nenhuma palavra que ele falasse.

– Não é isso,...

– O que é, que você quer saber, Elliot? – agora sentia que só haveria uma chance, ele já havia falado demais, e o medo tomava conta de suas sensações. Ameaça. Perigo. O medo de ver mais coisas, de não conseguir avisá-la; acaba de perceber que ele sempre fica sem ação, cai, ou até mesmo desmaia, mas tenta se concentrar dessa vez.

– Quando uma pessoa... faz... outra pessoa morrer? – então, o avatar parou por alguns instantes, antes de responder.

– Isso se chama assassinato, Elliot.

– Mas,...

– Diga – falou o homem – Pode confiar em mim, Elliot.

Não havia outra opção, e ele tentou pensar rápido para evitar qualquer momento de vazio que pudesse tentar tomar sua mente.

– E quanto esse pessoa é muito importante?

Tomou uma decisão. Aceitou não poder confiar nele; o avatar insiste que ele “pode confiar”, e repete seu nome. O que ele quer? Elliot não tem certeza, se o avatar pode matar alguém, ou se será outra pessoa a tentar fazer isso; não tinha mais dúvidas: o avatar não era confiável.

– Isso se chama atentado, Elliot.

O homem esperou, em dúvida, e insistiu.

– Porque você está perguntando isso, Elliot? Pode confiar em mim, eu estou aqui para te ajudar.

– Sai daqui – diz o garoto, muito sério.

Houve um momento em que o avatar parecia pensar se iria embora, ou se ficaria.

Elliot não sabia mais o que fazer.

Ainda sentia a presença, mesmo tendo avisado a ela para sair; não foi o bastante. A sua idéia não deu certo, e agora o avatar era um problema. Bem à sua frente. Tentando evitar ver mais coisas, porque não conseguia pensar quando via as imagens, aquela era a hora que mais precisava se concentrar; via que não tinha como proteger não só a única pessoa que lhe era importante como, talvez, a pessoa que pode lhe dar a cura.

Se sente impotente, doente. Toma essa consciência, de que está sem dúvida doente. Desesperado, não sabe porque, o jovem treme e grita.

– Sai daqui! – mas não havia sido alto o bastante.

Ele olha para o lugar onde pressente a mulher, a promessa da cura, e dessa vez grita tão alto quanto os pulmões conseguem.

– Sai daqui!!! – ele se desespera, e o avatar observa, calmo. Não sentiu que ela havia saído, se põe de pé e tenta expulsar as imagens geométricas, mas não evita – Agoooooraa! – berra ele, convulsivamente, enquanto vê um olho e luzes, uma fenda negra em meio à fumaça da destruição ao redor, e quase desmaia.

Assim, Elliot se vê obrigado a se sentar.

Najka capta cada gota de desespero do garoto do alto da árvore, mas precisa saber o que o avatar quer. Ela observa, atenta. Aquele avatar era diferente. A reação do garoto era de desespero absoluto e o que ele tentava dizer era que Aella talvez sofresse uma tentativa de assassinato agora, a seguir.

Não ia interferir, a não ser que fosse necessário; mas se preparou para qualquer coisa. De repente, sente a mente de seu parceiro em contato com a sua, e a senha de comunicação dele.

A caçadora se concentra.

– "Que?" – respondeu mentalmente.

Harish havia acionado a freqüência secreta para falar, e isso era um mau sinal, pensa ela – “Seja direto, Harish”.

– "Interceptei uma mensagem que ele mandou pela interface" – disse o seu homem mais velho e experiente.

– "Qual é a mensagem?", ela questiona.

– "Ele disse: "Ele vai despertar. Feche o plano. Mate a entidade, e a outra. E traga ele pra mim. Agora" – ela ouve – "E ele está na frente do cofre, diante da caixa que tinha a energia que ainda não sabemos o que é".

– "Espere" – mentalizou Najka.

Silêncio.

Vários instantes se passam. Ela ainda estava lá. Elliot não sabia mais o que deveria fazer, mas ouve a enfermeira vir correndo para o pátio, e talvez um ou outro por ali tenha acordado também.

Ouve-se passos preocupados.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou a enfermeira, parando debaixo do arco, e Elliot pode ver de onde estava uma coisa enorme, visível apenas através do corpo do avatar, translúcida.

– Mate-a também – disse o avatar, friamente.

– Cuidado! – grita Elliot ao ver que a criatura havia erguido enormes lâminas que talvez sejam seus braços para atacar a enfermeira, que não podia ver aquele monstro ou se defender.

O sangue jorrou e acertou a porta do quarto do jovem, enquanto a criatura de seis patas cortava o corpo como se fosse manteiga quente, derretida. O grito foi abafado e rápido, porque a boca da enfermeira não se abria, presa com fios semi-visíveis.

Deram-se formas nas paredes com o sangue dela e agora o garoto estava desesperado. Sabia que aquela era a forma com que sua única esperança seria morta a seguir. A aflição subia pela garganta, ele sentiu o medo tomar conta dele; só que a atitude que ele tomou agora era diferente, invadido por um momento de lucidez.

Tentou horrorizado encontrar razão de ser.

Era o sinal que Najka esperava.

Só que... era invisível! Najka sacou rapidamente a escopeta curta eletrônica, mas fios transparentes prenderam a sua mão. Puxou a faca e cortou os fios. Pulou. Da árvore de galhos grossos, enquanto caía, podia ouvir os galhos serem pisados por lâminas, que agora a deveriam ter partido ao meio, da mesma forma que fizeram com aquela mulher.

Pisou o chão, medindo a noite.

A iluminação noturna de repente ficou estranha. “Fecharam o plano. Estamos presos” – pensou.

Uma teia acertou seu pé direito vinda de um lado, e outra acertou seu tornozelo esquerdo vinda do outro lado, sem que ela visse nada. Eles eram totalmente invisíveis, até mesmo para seus sentidos vampíricos. De repente, ela foi puxada pelos dois lados para ser dividida.

Sorte que Najka é uma perita em artes marciais e fez uma abertura completa.

– "Najka"? – ouviu Harish chamar por ela.

Olhou, e viu mais ou menos de onde saíam os fios transparentes; mirou e disparou a escopeta, – "Munição explosiva!", ordenou à arma – enquanto ouvia o ar sendo cortado por uma lâmina logo acima de sua cabeça.

“Deu certo” – Najka não evitou pensar, aliviada.

Ao acertar a fonte de fios, o outro lado puxou seu corpo com toda força, e bem a tempo, porque o que quer que a estivesse atacando de cima acertou o lugar onde estava logo antes. Parecia ser uma lâmina tão grande quanto o velho machado de guerra de dois lados exposto no Salão dos Anciões, ou uma pá de escavadeira, claro que pequena.

Sendo arrastada, ela armou entre o braço e o antebraço e mirou, acertando o segundo tiro na outra fonte de fios, que parece ser a única parte visível, e passou a faca sobre os fios para cortá-los.

– "Harish! É uma armadilha" – mentaliza Najka.

– "Estou sentindo energia mágica no escritório dele; vamos abortar a missão e recuar" – respondeu Harish. Ao mesmo tempo, a imortal se põe novamente de pé como se não houvesse movimento.

– "Recuar! É uma armadilha pra você também" – resumiu a filha da noite, mas precisava se concentrar – "O telhado",...

A criatura transparente esfacelou o corpo da enfermeira em apenas uns instantes, mas Elliot estava agora percebendo suas sensações. Tudo estava voltando. Sentia o medo; e ele havia tomado conta de todo o seu ser com muito poder. Ainda assim, ele decidiu: iria proteger a mulher! Iria proteger todas as pessoas que ele gostava, e evitar que elas morressem como a enfermeira. Ele gostava dela. Ela sempre dava comida a ele. Trocava a sua roupa, cuidava dele. Havia tomado essa decisão, e sabia que essa decisão seria para sempre. Sentia o tempo à frente agora, mas sabia que a mulher ainda estava em perigo.

Sua decisão acontecia em sua cabeça, enquanto a sua enfermeira era assassinada.

E ele viu.

A mulher, ao seu lado.

Ela estava lá.

Najka se ergueu e deu um salto contra uma árvore, pulando para a outra árvore e para o telhado, bem a tempo de evitar os fios transparentes de uma dessas coisas que ainda não sabia o que eram; ela era rápida demais.

– "Sai daí, Harish. Te vejo no ponto de encontro Dea, e não venha atrás de mim" – resume Najka para Harish.

Fez um rolamento pelo telhado, quebrando várias telhas, para evitar que fosse acertada se alguma das coisas estivesse no telhado, mas não havia nenhuma delas. Isso era bom. "Elas devem ser pesadas", conclui a filha da noite, e isso é uma ótima informação.

Avançou para ver o pátio central.

Ele olha, sem vacilar, para a mulher. “Linda” – veio à mente de Elliot, sem ele se controlar. Ela sorria, ao ver que ele a via.

– Mate a entidade também, agora – ordena o avatar.

Isso foi demais. Agora, o jovem se levanta e tenta atacar o homem que ele enxergava, mas as suas mãos passaram através dele como se ele nem estivesse lá, enquanto ele sente como se afogasse.

P-HWwwuow!

Najka parou, ouvindo o barulho imenso que aconteceu agora, e ficou muito feliz. Em algum lugar ali, alguém havia estourado as proteções do plano que estava fechado, e mesmo não sabendo quem era, aquilo parecia não estar planejado, ou seja: o inimigo do inimigo estava chegando para colocar os números de igual para igual. A guerreira olha para o pátio central. Elliot dava socos no holograma do avatar de seu profeta. Parou, pois era óbvio que não funcionava, mas a sensação que a filha da noite tinha era que ele havia ficado tonto; e também, que ele tentava defender a entidade, ainda que estivesse muito demente. Aella está em perigo. Najka reanima seu coração, que bate.

– Abençoado seja o Arcano XIII. Seja a Noite, Nix, bem-vinda sobre nós, seus filhos – murmurou Najka, e isso era a permissão para Aella agir, seja o que for que sua Deusa tenha planejado.

Elliot observa a mulher, que fitava agora com nojo o avatar, muito séria, e fica confuso com as roupas dela, evitando as imagens de luzes e palavras que não sabe o que são; um homem de olhos azuis, puxados; alguém a lhe observar, uma mulher, não consegue ver exatamente: a imagem é enevoada como se fosse vista por um espelho de banheiro embaçado; uma pia, cheia de coisas – as roupas da mulher, sua esperança, lhe causam visões, ao tentar ler o que se move por elas.

– Eu mesma vou me encarregar da sua morte – diz Aella.

– Hah! Não me faça rir, aberração! – disse o avatar, mas a voz agora era de um homem velho – Você será a próxima!

Agora, Elliot teve uma idéia. Tirou seu profeta do bolso, e parou, vendo aquela imagem semi-transparente do avatar.

– O que você tem em mente, Elliot? – perguntou o homem. O olhar dele, porém, havia se modificado. O garoto, em fúria, e sem dizer nada, sentindo que aquilo estaria com ele onde quer que ele fosse, jogou o profeta dele no chão, mas ao mesmo tempo o homem lhe apontou e gritou, feroz.

– Amarre-o! – a voz do homem tremeu. Então, fios transparentes acertaram o jovem por todo o corpo, imobilizando seus braços e pernas.

Elliot cai de lado, desesperado. Aquilo era o que Najka estava esperando, e não perder tempo é o ideal. Mirou. Foi um tiro certeiro. Seguido de um segundo tiro, só para garantir. Ela usou a pistola, que faria apenas estrago no computador, e deixaria o garoto ileso, até que Najka pudesse ver onde a criatura estava e, então, tentar conseguir linha de tiro para terminar o trabalho.

O holograma começou a falhar.

– E-... ero... -le... -ivo – foram as últimas palavras do avatar.

A criatura parou para tentar entender.

De onde estava, Najka não podia ver os fios que prendiam Elliot, mas via a direção de onde ele foi acertado, e então rapidamente, dispara todos os tiros da pistola ao redor do mesmo lugar. Assim, seria um a menos. Barulhos metálicos surgiram onde ela o atingiu. Isso só podia ser algum tipo de droide. Droide de combate. Mas tantos? Essa camuflagem deve valer milhões. Agora ela quer saber quem é esse jovem, mas vai ter que ficar para depois. O excesso de danos gerou falhas na camuflagem. Dava pra ver algumas partes da criatura.

Fora dali, ouviu-se uma série de explosões. Najka pegou a espingarda, acreditando que dano massivo poderia surtir efeito. Atirou várias vezes sobre o droide, até que furou sua blindagem, e atirou mais vezes. O droide avançou, indo na direção da parede onde Najka está.

Prevendo que ele ia derrubar as paredes, ela dá um mortal para a frente, enquanto as paredes cediam, acerta três tiros sobre o droide, como se atirasse para cima, ainda girando de cabeça para baixo.

Pisou sobre a grama do jardim.

Trocou a arma e também o pente. Elliot olha para Najka. Era essa a mulher que vira na imagem enevoada; talvez, tinha de ser.

– Minha Senhora, – disse, admirando a mulher de aspecto, para o garoto, mais que sobrenatural – isso é arriscado demais. Eles são muitos.

Enquanto isso, ela guarda as duas pistolas. Saca a espingarda, e então começa a colocar as bolas de metal dentro do cano inferior, mas Elliot não estava o mínimo interessado nisso.

Ele havia impedido uma coisa que era inevitável acontecer. A morte de sua única fonte de vontade: essa esperança, dona de olhos brancos.

Najka chega perto de Elliot, e corta os fios com a sua faca – Você está bem, garoto? – perguntou a recém-chegada, ainda vigilante.

– Sim – responde Elliot. Sua visão encontra com enjôo o corpo dilacerado da enfermeira, e o estômago se contorce.

Ele sentia o medo lhe avisar que não estava acabado, pois, ao ouvir a voz da mulher que cortou os fios, era uma voz urgente – Então fique de pé. Estamos indo embora agora.

Asal avançou para a lateral da casa, onde há uma varanda. Ele tem uma faca à mão. A seu lado, segue um homem com uma capa de pano grosso, que tem uma bolsa de brim crú, um cajado em sua mão direita e uma orbe cinza em sua mão esquerda.

Pararam na entrada da varanda, ouvindo tiros.

Ao seu sinal, o homem bate seu cajado de leve no chão, e uma onda de energia transparente saiu do lugar em que ele bateu o bordão.

– Está livre – conclui o homem, em voz baixa. Ergueu a cabeça rápido, porém, e avaliou os jardins próximos – Não. Ali tem mais um – e então aponta convicto para uma das mansões mais adiante.

– Llaw, tem um no jardim, próximo do banco de pedra – disse Asal, com a mão sobre o lado da boca.

Ficaram a esperar alguns instantes, a atenção no lugar. E então, um raio, tal como o de uma grande tempestade, acertou o lugar. Não, não o lugar. Faíscas saíram de um dos droides invisíveis, que estava oculto lá. O droide se voltou para os jardins, de onde parecia vir o raio, e correu; as faíscas eram visíveis.

– Agora – disse Asal.

Chegaram às portas da clínica: Asal bate sua varinha sobre a porta, e diz ao mesmo tempo – "Tassabilis!"; a porta se abre. Entraram. Logo, um droide de recepção foi ativado, obrigando o homem ao seu lado a lançar um feitiço sobre ele, com a orbe; ele, então, se move repetitivamente. Correram abaixados para trás do balcão, onde viraram o computador para olharem o que há nele.

O homem ao lado de Asal olhou para o computador, e para a orbe em sua mão esquerda.

– Está tudo gravado aqui – afirmou ele.

– Destrua todas as informações, Amadeu, mas copie todas elas antes de destruir – disse Asal, e conclui – Eu vou entrar.

Assim, Amadeu concordou com a cabeça, e começou, enquanto Asal ouvia mais um tiro; e com muito cuidado ele avança sentindo que sem dúvida vai ter de explicar como veio até aqui.

Elliot observou Najka chegar perto do droide, agora quase visível, e a sua esperança se aproximou dele. Najka armou a espingarda, e deu um último tiro.

– Vamos – disse Najka.

Ao passar pelo corpo da enfermeira, a filha da noite tirou a sua faca e colocou a parte de trás sobre o corpo, o que fez um barulho muito leve de pressão, de sucção. Parou. Esticou a mão para Elliot e a mulher, para pararem. Guardou aquela faca, vendo Elliot ficar tonto – ele vê uma sala, luzes azuis, pessoas dentro de recipientes ligados por tubos, onde elas parecem dormir esperando não-sabe-o-quê – e a vampira arma a pistola. A mulher, porém, pousa a sua mão sobre a arma, com um olhar que sua fiel Najka bem conhecia, a lhe pedir calma; por isso, resolveu esperar, ainda preparada.

As luzes se apagam e, na sombra, eles podem ver um homem, moreno, com cabelo curto bem preto, com muito cuidado, vindo pelo corredor. Esperaram ele chegar, ouvindo um raio do lado de fora; esse era o rosto do homem que o garoto havia visto, seu olhar é de uma enorme seriedade, ele tem um pedaço de pau na destra e a outra mão sobre sua faca na cintura, uma bolsa preta, e mantos negros, uma corda branca à calça, um colete xadrez sobre a veste especial.

– Vidu – disse ele – Viemos resgatar vocês.

– Vi o raio. Quem são vocês? – perguntou Najka.

– Asal Gusa. Sou um bruxo. Isso que está aí são droides de combate da Teocracia – disse, ao ver a enfermeira morta no chão; e a seguir estuda o droide destruído entre os escombros.

Barulhos vinham do lado de fora. Explosões e raios, e dava pra ver luzes e reflexos nas árvores ao redor.

– Certo, – concorda Najka – mas como sabia disso?

– Uma Profecia – responde Asal com certeza na voz – Precisamos ir. Aqui é perigoso demais, o problema ainda está lá fora, além de eles serem invisíveis. Não sabemos se vão chegar reforços – diz, com urgência.

– Certo. Depois pergunto – disse Najka, ao ativar o sentido de emoção e ver que ele acredita no que diz; olha para Elliot e para a entidade.

Asal fez sinal de silêncio e aponta o corredor. Deste modo, chegaram à entrada. Amadeu os esperava, medindo lá fora, com sua orbe.

– Esperem – ouviu-se a voz de Aella.

Elliot viu a mulher, sua esperança, ir até o outro homem e olhar sua bolsa.

– Isso é uma Bolsa de Componentes? – perguntou Aella. O homem abaixa a cabeça para confirmar.

– Você tem areia? – questiona Aella, em voz baixa, como em um sussurro carregado de noite – Do plano do Sonho?

– É... é um componente, mas por que? Ela...

– Me dê a areia – reza a entidade, e sua voz parecia feliz, agora. E então, Amadeu retirou um frasco da bolsa, e deu à entidade.

– Abra a porta – pede a mulher.

Primeiro, Amadeu olhou para Asal, que concordou com a cabeça, depois, no momento em que ele abriu as portas, a mulher abriu o pote. Um pouco de uma areia fina e estranha vagou no ar, acima do frasco. Aquilo era algum tipo de elemento mágico – era óbvio – sobrenatural. Até o garoto, doente, percebeu. A entidade observava, e parecia muito concentrada, até olhar para Najka.

– Najka – pediu sua Patrono.

– Abençoado seja O Arcano XIII. A Noite é sagrada, e lança sobre nós a eternidade, a condenação ao ato da escolha – disse Najka.

– Abençoado seja O Senhor dos Sonhos – diz Aella, e Elliot vê por um único segundo: parece uma garota, ou garoto, com excesso de maquiagem branca borrada, olhos alaranjados sobre uma jaqueta de couro bem velha, ao lado de um relógio de parede.

Uma pessoa dorme, bem ao lado dele, uma menina branca de cabelos claros, "Qal", diz o bordado, e conclui: este é O Sonho; ainda que não conseguisse encontrar palavras a descrever a certeza de que o conhece, ou porque teve a exata sensação de que ele estava surpreso.

Não teve muito tempo para pensar.

– Abençoado seja O Senhor dos Sonhos, Maestro da Forja a envolver a todos nós. Senhor. Vivemos em sua Forja Infinita – ora a filha da noite.

– Maccracken, eu, Pyrlain, venho pedir por sua Magia. Torne o Sonho mais forte sobre nós. E que o invisível se torne visível, e que envolvas todas as coisas nas areias sagradas do Sonho – "Ilunéehau!" – invoca a mulher vestida de destino, e o garoto tenta ler as palavras que se formam no manto, sendo escritas por alguma mão sem opinião. Ele sente vertigem ao tentar ler e para, evitando sons fantasmas – "Thatness"... ouve ele, e pensa – "É essa a voz do Sonho? É tão,... incrível"... sons que não estão ali; ainda tenso, consegue evitar as imagens.

A Senhora do Outro Lado, então, solta as areias no chão. Elas não caíram de uma forma normal, esperada. A matéria começara a se movimentar, dar forma, se multiplicar, saindo pela entrada e indo a todos os lugares: ao redor da clínica, das mansões, deles; e Elliot vislumbra o fora.

Logo as areias envolveram tudo, enquanto Asal coloca a mão sobre a boca para dizer “Está tudo certo, a areia é uma magia”, para avisar a outras pessoas do que acontecia. Assim, as areias revelam tudo. Os droides, antes invisíveis, não conseguiam sair do efeito que estava sobre eles, e acabaram por ficar inteiramente visíveis, mesmo que a camuflagem ainda funcionasse. Aquela areia, pó – o garoto ouve Asal comentar – "Que Praestos incrível",... – mostrava onde os droides de combate estavam, cobrindo-lhes o corpo.

Então, Asal e Najka trocam um olhar e concordam. Ambos têm a mesma sensação um do outro, de alguém pronto para tudo, em tempo integral.

– Vamos! – diz ele. Pôs a mão sobre a lateral da boca, como antes, para falar – Estamos saindo agora.

Raios. Clarões. Explosões. Fios transparentes. Tiros. Palavras que o garoto não sabia o que eram. Sáwwaba. Labor, Evado. Kor. Ele acredita que todas são palavras perdidas no tempo. Tudo aquilo acontecia; ele respira com dificuldade, enquanto eles insistiam em avançar.

Ouvia vozes de pessoas que não estavam ali, também.

Moviam-se em uma direção. Passo a passo, eles avançavam, enquanto Elliot via raios e luzes enganarem os droides, pois parecia que os mesmos eram fortes demais; e a solução era na verdade enganar suas percepções.

Elliot não fazia a menor idéia de para onde estava indo. Apesar disso, sua alegria era enorme.

Ele havia conseguido.

Impedira a morte da mulher; e com a ajuda dessas pessoas, ele não estava agora sendo levado pelo ar para algum outro lugar, mas sentia que tinha dado início a uma coisa. Suas emoções estavam claras. Não sabia o que era, mas sua certeza era de que não teria fim. Quem era aquele avatar? O que é droide de combate; e Teocracia? Respirar estava difícil, devido à areia. Jardim depois de jardim, eles avançam lutando. Não podia ver os outros, mas ouvia as suas vozes por essa forma de falar colocando a mão ao lado da boca. Ele estava cansado, não estava acostumado a correr, ainda mais porque avançavam e paravam todo o tempo, até que de repente o medo tomou conta outra vez, enquanto avançava pela lateral de uma casa.

Tudo aconteceu de forma muito rápida. Tomado pela imagem, vê um deles, o homem com a esfera na mão, sendo aprisionado pelos droides de combate, bem na hora que estavam saindo desse lugar. Quando viu, estava no chão, estava suando; nunca em memória fez tanto esforço.

– Você está bem, garoto? – perguntava Asal. Eles estavam escondidos no meio de umas árvores, perto de um muro coberto de musgo.

– Estou. Tem um na saída, e,...

– E? – Asal estava em dúvida sobre o que o jovem dizia.

– Ele – apontou o garoto para Amadeu – não pode ficar sozinho na saída – concluiu ele então, exausto.

Houve silêncio, mas todos estavam atentos.

– O que,... – começou Asal.

– Ouça o que ele diz! – interrompe Aella.

– Certo – disse Asal, em dúvida – Você ouviu, Polstpomppère. Tome cuidado e não fique pra trás.

Amadeu concordou com a cabeça, e mirou sua orbe. Parece saber quem é a mulher, e o medo se estampou em seu rosto – É verdade. Tem um na saída – disse ele, mas a mulher evitou seu rosto; parecia haver um porquê.

Asal olha para Elliot, com uma expressão séria, e depois coloca sua mão ao lado da boca, com a palma reta e o polegar apontado para a garganta.

– Estamos indo para a saída, e tem um lá – avisa Asal. Deram a volta, pelos fundos de uma mansão de madeira e vidro; as janelas, mudas.

Havia um buraco no ar, ali mais à frente.

Elliot via fios ao redor da área onde o inseto estava, mas não sabia por onde poderiam passar, porque a areia dava diversas sensações de você estar sonhando, enquanto tornava tudo ilusão, incluindo jardins, casas e até mesmo o chão em que ele pisava. Ele via realmente um buraco no meio do nada. Flutuava a meia altura. O muro onde estava espelhava essa abertura, que levaria ao outro lado, onde a névoa parecia ignorá-los.

Tiveram de parar, pois havia um inseto gigante, um besouro talvez, parado lá, e a sensação de todos era saudável em percebê-lo predador. Ainda apenas meio visível, lutando contra a areia.

– Chegamos. Reunir. Tem um aqui – disse Asal, a distância; – Eles são imunes a magias tecnológicas – disse uma voz, rouca, que parecia de um homem grande, e provavelmente muito forte; – Energia caótica os deixa confusos – disse uma voz de mulher, mais suave.

– Não vai ter jeito, mesmo – suspirou Amadeu.

O mais provável é que tivessem de lutar para passar pelo droide, mas era preciso fazer isso antes de aparecer outro. Todos se reuniram. Elliot os vê como soldados que esperam Asal guiar, e eles são cinco, homens e mulheres vestidos com mantos, alguns com símbolos, e empunham facas, varinhas, orbes e cajados; a mulher de óculos finos e olhar sério não usa à mão nenhum dos ítens que os demais usam, mas Elliot vê a varinha num coldre.

– Destruímos dois, e os outros estão todos presos em magias – disse a mulher de voz suave e austera, a mais velha.

– Ele ainda não nos viu, Tamara. Podemos enganá-lo. Você testou a areia como energia? Não gosto do clima desse lugar – firmou Asal.

– Parece que a areia os deixa confusos, também. Podemos só prendê-lo... vamos ter só um A pra passar – sugere a mulher séria.

Ouviram o barulho de um se soltando, a distância.

– Llaw, – disse Asal para o homem negro e grande – você vai ajudar o Polst, e atacam pela lateral como se viessem de longe.

– Qual é o plano, Asal? – pergunta Llaw, se apoiando calmo em seu cajado, e aguardando o que seu grupo planeja.

Asal respira fundo, e examina o lugar, muito atento.

– Vocês criam uma distração, e então, geramos uma barreira caótica como um tipo de corredor, para que nós todos o usemos para sair – diz o bruxo; Asal, o mais jovem, parece o líder; ainda há dúvida em sua voz.

Só Amadeu parece duvidar.

O garoto procurou novamente a estrela, mas não é possível ver as estrelas nesse momento, apenas as nuvens. Ele sente um arrepio. Sente que esse é um tempo apertado, e tenta agarrar o ar respirando com dificuldade, e então, ele vê um símbolo geométrico que já vira, alguns dias atrás, bordado no manto negro de Asal, mas que parece um couro, bem fino, forrado, muito resistente, se sentindo fraco, ou fora do tempo; em cinza grafite, um pequeno pentágono com um ponto no meio.

– Nós vamos ter só uma chance, porque os outros vão vir pra cá, logo que tentarmos, sem qualquer dúvida – disse Najka.

– Seu Sáwwaba funciona sobre eles, Llaw? – questiona Asal ao outro bruxo, uns dez anos mais velho, tentando encontrar a melhor estratégia.

– Os atinge, pelo menos – respondeu ele, com voz grave.

– Tem,... muitos fios – disse Elliot, tentando realmente ajudar.

– Tente usar a Areia do Sonho como fonte – sugere Asal.

– Vamos ter de queimar os fios, porque realmente têm muitos, todos espalhados – disse a mulher de voz suave, e acenou para Elliot, concordando com a sua sugestão; ela é gentil, mas não parece alguém a se incomodar.

– Você cuida dos fios, então, Tamara – sugeriu Asal a ela – Agora, deve ser de uma vez; não vamos ter outra chance.

Ela concordou com a cabeça. Elliot estava perdido entre tantos nomes, porque o nada tentava tomar sua mente, e ele luta contra o subterrâneo para não ter imagens, quando uma mão pousou em seu ombro.

Era Najka, e seus olhos se encontraram.

Sua expressão diz, ela é uma guerreira, pronta para a ação; mas a qualquer momento ele encontraria o fim do cárcere. Sua prisão. O garoto abriu a boca, reconhecendo que não sabe o que existe lá fora. Ainda assim, sentia que ele havia mudado as coisas, para sempre. A guerreira de mãos frias abaixou a cabeça, bem de leve, como se conhecesse suas emoções melhor que ele.

Elliot ouviu ela dizer aos outros que cuida dele, mas enquanto isso ele a vê dando um tiro, em mais uma fuga, lutando para não ser levado para o abstrato sem explicação – sabe que só terão uma única chance.

Asal levanta a mão, e Tamara preparou uma bola de energia que se vê como fogo, entre suas mãos, a emanar uma energia rosa-pêssego.

Então Asal apontou a mão para a frente.

– Explodo! – invoca a bruxa, a única que o garoto percebe que não está usando ítens para fazer essas coisas estranhas. A mulher só aponta a mão, e aquela energia some, surge sobre os fios adiante, e mais de trinta explosões acontecem então logo depois disso, à medida que a energia rosada se torna fogo vivo ao arrebentar os fios – o caminho está livre!

Todos avançam, preparados.

A energia de Tamara se torna uma esfera de raios, de fogo e de areia fervente, abrindo espaço para que eles passem. Elliot sentiu a mão de Najka segurando firme seu braço. Não era como a da enfermeira, nem a do homem que lhe dera o tal profeta. Era firme, sim. Só que ele ainda mantém todos os movimentos, e ele avança ofegante junto dela.

Najka lhe comandava com a canhota, a espingarda à mão, quando Llaw lançou um raio no inseto, mas pelo lado direito.

Funcionou. O inseto droide avançou para longe, e saiu da área que Tamara limpou com a sua explosão.

– Agora, Polst – disse Asal – Nós temos de passar!

Assim, Amadeu gerou uma luz enorme, sobre o droide de combate, e ele fez o que ele esperava, pois o droide tentava ver o que era; Elliot sentiu vertigem. A mão firme de Najka não lhe deixou cair. Depois, Amadeu ergueu uma barreira caótica entre eles e o droide.

– Não olhe – Najka diz ao garoto.

Não precisaria nem tentar. O caos concentrado naquela barreira deixa Elliot perturbado, e tonto, como ele nunca esteve antes, enquanto ele se força a não se virar para aquilo, e eles vêem o outro lado.

O droide lá atrás avançou pela barreira, mesmo que faíscas tenham saído dele, para atacar Amadeu; mas Llaw já estava preparado e soltou um raio de areia sobre ele, que o pressionou no chão, mantendo ele lá.

Foi um tiro certeiro.

– Do que vocês são feitos, suas coisas?! Não consigo ver do que eles são feitos, nem o que eles são! Tecnomágica é inútil – conclui Amadeu.

Amadeu e Llaw avançam, ainda preparados. Fios acertaram o braço de Tamara pela direita, e Najka olha rapidamente, disparando um tiro aonde a areia revelava o droide, que corta os fios deixando a bruxa livre. Tamara tenta cortar os restantes com energia, sem conseguir. Asal dá ordens, sem dizer uma única palavra: só movimentos com as mãos. Eles insistem em avançar. O droide vinha a toda velocidade, mas teve de parar, pressionado pela areia, ficando lá confuso, porque o tiro parece ter lhe atingido por dentro.

Amadeu e Llaw se concentram, e a areia ferve sobre este último droide; a mais velha, Tamara, faz um movimento estranho circular que tira toda a terra debaixo da coisa-criatura; e com outro gesto joga a terra sobre ele. Molda e a terra muda, adquire uma aparência dura, como se fosse rocha.

Elliot sente náuseas por causa da barreira.

– Saímos! – grita Asal sem medo. Dito isso, ele saca sua varinha e aponta para o céu, soltando faíscas verde e negras.

A náusea acaba, mas o tempo ainda é raro, indefinido.

– Vamos, todos! Temos de correr! Garoto, qual é o seu nome completo? Nós precisamos do seu segundo nome – pediu o bruxo.

Há névoa aqui fora, mas vê-se ruas tortas.

Arrancando forças das profundezas, Elliot responde.

Havia uma viela, "Supervilla de Campos do Jordão" dizia a placa. E, a passos largos, andaram o mais rápido que puderam, por cerca de quatro ou cinco minutos, até chegarem a um beco entre duas mansões. Ali, uma bruxa baixinha com uma roupa verde musgo, morena gordinha muito bonita, esperava por eles. Havia uma série de símbolos no chão. O garoto tentou ver o que eram. Eles todos estavam agora se organizando sobre os símbolos do Círculo – "Aqui, essa é sua marca, Akael" – disse a mulher vestida de verde, e avisou que ele deve se manter firme – "Respire fundo".

Não se viu mais nada.

Assim, em meio à imagem viscosa de um homem mais velho, que agora vai se desfazendo como uma foto envelhecendo rapidamente, Elliot se sente sem ar; como se fosse puxado para trás. Não há como se mover. O tempo, que parecia uma prisão, tem sentido agora: a noção do ser livre.

Todo esse ambiente, a clínica, casas, árvores e outras coisas, então se distanciaram de forma muito rápida; e em poucos instantes outro lugar veio se formar sobre eles, chegando do horizonte.

Conseguiram.

(Fim do Cap 2)

Dizeres da Nação da Magia

Se você quer entender Magia, Manifestação e Poder, você precisa colocar as capacidades especiais em seu lugar. As sociedades em que essas pessoas de poder estudam e praticam as mesmas. As Escolas. Todas as pessoas de poder organizam suas sociedades ao redor destes núcleos educacionais, ou então, acercam-se de Mestres, mas sempre e de alguma maneira, a relação entre o Mestre e o Discípulo sempre foi importante e é muito necessária.

–– Kalai – O Cinzento – Nação da Magia.