A Mariposa e a Formiguinha

De Enigma
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O Outro Nome do Medo -- Capítulo Três -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados (Sol Cajueiro).

Este texto foi publicado em 7 de Setembro de 2020.

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Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

Obrigado.

Cap 3 – A Mariposa e a Formiguinha

Olhos nos olhos, sem pensamentos.

Acordar e ver que você não morreu é uma das sensações mais absurdas e maravilhosas que se pode ter. Mais que isso, na verdade, é ver que alguém está ao seu lado, te guardando. Ficou tudo preto. Ausência. Podiam ter se passado até mais de um milênio. De ausência absoluta, de Não-Segredo. Nina abriu os olhos, e tossiu de leve. Sentiu uma mão suave segurando a sua mão com cuidado, e ao mesmo tempo, com preocupação, alegria, confusão, e amor.

Mesmo dia em que Elliot voltou, na enfermaria da Escola-Capela de Alma Attenta.

– Asha? – sua voz soou uma verdade absoluta.

A mão suave apertou de leve sua mão.

– Nina? – Nina reconheceu a voz e relaxou, dando um suspiro.

– Onde eu estou? Que quarto grande, esse.

– Na Mansão de Brikkomi, segunda dimensão da enfermaria. Como é que você tá? Que que você tá sentindo? Me diz,... por favor.

– Nossa, que necessidade na sua voz, Asha.

Nina sentiu o movimento suave da Melhor, que soltou sua mão, pegando um paninho na cabeceira e passando em sua testa. Alívio. Sabia que era mágico, mas podia ser natural, também. Asha fungou duas vezes, sussurrando "Calma", e verificou se os olhos estavam normais, a pele e a pulsação, depois chegou há dois dedos de distância no rosto de Nina, sussurrando "Se qualquer coisa acontecesse a você, Nina, por minha causa, eu nunca iria me perdoar", e deu um estalinho, um beijinho de leve, muito suave, em Nina. Só de lábios. Nina instintivamente passou a língua nos lábios, sentindo o gosto de Asha pela primeira vez.

Asha se afastou, preocupada, fazendo o mesmo.

– Você está pensando,...

– ,... que isso foi muito errado. Nós somos meninas.

– Este é o Segredo das Melhores, Nina.

– Como assim?

Asha se sentou, segurando a mão de sua,... amiga, com todo cuidado, em sua mente estava a memória do estalinho, que existirá para sempre.

– É isso mesmo, Nina.

– Eu não sou,... lésbica,...

– Você é muito mais do que está pensando. São cinco melhores femininas e cinco melhores masculinos, em cada escola-capela, Nina.

– Porque eu não sabia disso?

– Eu só vou contar pra "você", porque as outras não podem saber. Elyfa, Lucrécia e Sibel não podem saber disso de jeito nenhum.

– Você me beijou – Nina abre a boca.

– É isso mesmo, exatamente isso.

– Quer dizer que agora eu posso saber.

– Viu como é complicado saber?

– Sei; e eu,... entendo. Mas como assim, eu entendo? Agora eu sei. Melhor é sempre lésbica. Mas, eu não sou,... Eu não quero ser,...

– Direito seu, mas meu amor é verdadeiro e se qualquer coisa de ruim fosse acontecer com você, eu teria pedido reforço; foi o que eu fiz.

– Tomoe me protegeu. É verdade.

– Andrômeda, Nina, por favor. Esse é o nome mágico da Tomoe. Você sabe como me mandar mensagens pessoais, agora. Sar é meu nome.

– E o meu? Ai! Entendi. Donzel é meu nome.

– Dekmýt! Ai,... Você agora sabe, não tem como negar. Estou vendo que você acertou, e concerta também, que é o que a gente faz.

– A gente quem?

– Você entendeu, Nina.

Nina passou a língua nos lábios mais uma vez, com a sensação religiosa de que era errado, mas ao mesmo tempo a sensação mágica de que isso garantia o seu direito de saber tudo o que nenhuma outra aluna saberia.

– Como é que você tá? O que aconteceu?

– Não sei. Desmaiei, ficou tudo preto. Senti que se passou mais de mil anos ao mesmo tempo. A última coisa que vi foi Elliot gritar, mas eu me esqueci do que ele disse; não sei mesmo! Porque eu não sei?

– Porque eu devo beijar você.

– Como assim? Me explica, por favor,... ehr,... Sar.

Asha coçou o maxilar, abaixando a cabeça.

– É direito seu, Melhor.

– Você está abrindo mão do seu tí-,...

– Nunca diga isso! Por favor.

Nina ergueu as sobrancelhas com a urgência do pedido, e olhou para os lados pra ver se não havia mais nenhuma pessoa presente.

– Existem, sim. São dois supersoldados.

– Porque? Posso saber?

– Pode, sim – Asha puxou a mão de Nina e beijou as costas da mão dela, a mão direita, relaxou e continuou – Se você dissesse isso, nós teríamos de duelar pra ver quem é a Melhor, e eu não quero duelar com você.

– Porque? Ai! Desculpa, entendi. O que eu faço?

– Você já sabe, Nina. ai,... Só tem um jeito de você saber, mas só pode ser feito se for amor.

Nina ergueu a mão canhota e passou na testa e cabeça. Havia tanta, mas tanta verdade nas palavras dessa conversa, que Nina não conseguia ver nenhuma saída para o que sua dúvida terrível dizia. Ela era? Ou não era?

– Eu tô em dúvida.

– Normal, eu também tenho.

– Mas você é a Melhor!,...

– Exatamente – Asha fez o rosto certo, erguendo as sobrancelhas pra dizer que isso era exatamente o que era – Nina, eu só vou dizer o que você está aí em dúvida se for verdade sua e minha ao mesmo tempo. Feito? Eu sei mesmo o que você pensa, porque você não entende muito de magia mesmo, e precisa estudar, o que é uma coisa chata demais. Odeio. Eu aprendo o que os outros alunos, e as alunas também, aprendem. Esse é o método da Melhor.

– Como assim? Aprender sem estudar?

– Isso se chama Não-Método.

Elas ficaram em silêncio, por alguns segundos. Nina balançou a cabeça, pra avisar que estava bem, e Asha pediu torta de frango e refrigerante alemão, o que parece que os supersoldados entenderam, e realmente, depois de esperar apenas alguns momentos, Sibel entrou com o lanche certo.

– Oi – disse ela – Como está nossa segunda em comando? – Asha ergueu as sobrancelhas, e Sibel continuou – Você acha que eu não sei, Asha? É muita ingenuidade sua, de Melhor. Nina, como que você está?

– Tô ótima, Sibel. Obrigada por perguntar.

– De nada – ela arranjou a mesa, e parou, observando, com os olhos bem apertados – Vocês duas estão de segredinhos, né?! Tô sabendo.

– E você, tá cuidado do Tomi? – Asha avançou.

– Hmpf! O Pior é meu escolhido por enquanto, Asha. Ele sabe tanto da vida que eu tô aprendendo o que é Tribo, rede e outras coisas como se eu não fosse mais velha que ele! Ele vai ser um ótimo Oficial.

– Bom saber – disse Asha – Nós duas,...

Depois que Sibel saiu sem dizer mais nada, Asha ajudou Nina a se levantar e comer, até que, antes de comer, elas pararam, magicamente.

– Mariposa – disse a amada.

– Formiguinha – disse a amante.

E então, Asha impediu que Nina começasse a comer, com um olhar de que ela sabia exatamente o que estava fazendo decidiram comer.

– Experimenta dizer: Eu decidi comer, pra comida.

– Eu decidi comer – e Nina sentiu o gosto de cada grão da comida que a enfermaria oferece, toda calculada.

Estava simplesmente deliciosa.

Três dias depois do xadrez contra Asha.

Mais um dia tenso, depois de um dia de interrogatório, voltar a dar aulas foi o maior alívio que já sentiu na vida, Elliot Akael Gulanta voltou para seu quarto e encontrou Hieronimus estudando.

– Boa tarde, professor.

– Tomi, você pode me chamar de Iko.

– Posso não. Isso me lembra o nome tenso, Ikkomi. Eu queria conseguir me esquecer de que coisas assim existem.

– Que desejo terrível! É por quem?

– Se bem que ela saberia,...

– Mesmo? Vai fazer isso mesmo? Por ela? Estudar?

– Tô fazendo isso por mim, por nenhuma outra pessoa, Elliot, e por favor, não fica me confundindo com suas frases esquisitas e fora do tempo.

– Vai,... – Elliot suspirou – Vai pegar, no ar. Ou na água.

– Viu, véi? Para de falar em enigmas comigo.

– Vai ignorar o principal método de treinamento porquê?

– O Enigma come o cérebro de vocês, é tipo isso.

– Evolução. Cadeia alimentar, e Amor – Elliot coçou a barba com a mão, de baixo pra cima; não houve reação – Vai mesmo fazer isso?

– Que que você tá vendo? São visões?

– Onde está o meu livro? Sei que você sabe.

– Não posso te contar, Elliot – Hieronimus fechou o caderno – Não, isso é o que eu não tenho permissão pra te dizer. Não me force a dizer.

– Não tenho esse poder, Tomi.

– Uffa,... Achei que não ia dizer isso, tipo, nunca.

– Está dito – Elliot concordou, com pesar – Você vai fazer isso mesmo? Mas, porque vai fazer isso? Você gosta mesmo dela? Não entendo.

– De quem você tá falando? – ele virou a cadeira.

– Da ruiva, e você sabe disso, Tomi. Ela não é sua, mas você quer ela sem se preocupar com isso. Eu não consigo entender isso.

– Sibel? Tá bom, Sibel. Ela é uma delícia!...

A revelação fez Elliot erguer as sobrancelhas.

– Como assim você não entende isso? Nunca teve uma namorada? Ah, me desculpe, eu não podia perguntar isso a você; sério, foi mal mesmo.

– Você não entende como é a vida de um oráculo.

– Não, mesmo. Disso eu não tenho dúvida.

– Então me diz porque, se a sua prometida existe.

– Minha prometida? Do que você tá falando?

– Não posso te explicar. Não insista.

– Ai, baralho! Saquei! É a princesa, puta merda! Ainda bem. Saquei, tô do seu lado, mano. Vai, que é sua! É doida, igual a você.

Elliot fez alguns segundos de silêncio, e concordou.

– Posso te pedir um favor, que entre nós?

– Depende – Herói ergueu as sobrancelhas com a expressão legal – Do que você tá falando? Me explica os termos, que eu te dou resposta.

– Segue a minha princesa na rede e me conta tudo.

– Você me explica as suas visões, em detalhes?

– Se nenhum idiota for morrer por isso,... sim.

– A lógica me diz que você está escondendo alguma coisa.

– Sim, isso é lógico. Eu tenho as memórias mais terríveis que você possa pensar, de um "outro eu" controlador e dominador. Não quero dividir. Não quero que você ou qualquer pessoa passe pelo fim de sua integridade. Estou querendo apenas o que é meu, de amor verdadeiro, e o que você pediu é muito, mas eu entendo a sua, e você precisa de informação pra funcionar. Está bem. Eu troco e divido as informações que podem salvar pessoas, pelo que eu pedi.

– Fechado – e Hieronimus voltou a estudar, inquieto.

– Você quer fazer uma pergunta – afirma o oráculo.

– Aquele dia,... O que foi que aconteceu? Se puder dizer.

– Asha me salvou, é isso – ele ficou irrequieto – Acredito que a noção de que eu tinha um desejo comum, de criar, de arte, coisa que é difícil e que não se pode fazer sem integridade, me fez voltar. É, foi isso.

– Desculpe, Elliot, mas eu não posso dizer onde está o grimório, e mesmo que eu soubesse, esse tipo de livro tem vontade própria.

– Entendo – ele parece enevoado – Deve ter sido a primeira coisa que eles tiraram de mim, em coma. Mas eu preciso dele, pra discutir a minha língua.

– Sua língua? – Tomi se deu por vencido – Tudo bem. Vamos fazer de conta que é só uma troca comum, porque eu preciso de pontos pra passar de ano, e você precisa de alguém que saiba organizar esse conhecimento.

– Parece justo, pra mim – Elliot sorri.

– Olha, esquece o grimório – Tomi tenta ajudar – Eu vou te ajudar a fazer um tradutor, mas não esquece que o tradutor tem direitos.

– Eu sei que programas têm direitos, só quero garantia de que a língua não vai ser confundida com a língua Akkia que a Tradição da Nação da Magia usa, ou melhor, quero um amigo com quem vou dividir a língua.

– É isso que você vai ter – Herói conclui.

– Se é isso, por enquanto, tudo bem – e Elliot foi tomar um banho sagrado, na dúvida sobre qual banho ele deve tomar, como sempre.

As aulas de reeducação haviam recomeçado.

Tirando as pessoas mais próximas, Asal, Tamara e funcionários, e os alunos que estudam com ele, todos ficam em dúvida sobre o que aconteceu com ele, ou como lidar com alguém que conheceu o outro lado e voltou. Elliot conheceu a Corrupção, e a abandonou por desejos comuns, é o que ele diz e o que todos sabem sobre o assunto. Não há explicação. Ele agora ouve a voz. Mais uma vez, ele ouve o sagrado dentro de si, uma força pura e poderosa, que lhe ajuda, e que lhe faz revelações; e é ele mesmo, ao mesmo tempo. Ao receber a língua, quando voltou, ele voltou a estar ligado à vida, ao seu próprio caminho.

E também voltou a proteger Asha, Asal e Najka, mas perdeu um pouco da noção de nível; seria ele agora um oráculo nível oito? Até onde ele saiba, todos os oráculos têm só até cinco níveis, são pensamentos do banho sagrado.

São cinco níveis de medo, e um de esperança, amor e mais um? Até onde ele soubesse, a raiva não era uma emoção positiva, mas está lhe impulsionando a lutar, e tirando suas dúvidas na hora de tomar decisões importantes.

Ele tem percebido que há alguma coisa especial em Asha. Não é apenas ser a melhor.

– "Você está coberto de razão", diz a voz, "É como se ela soubesse coisas que ela não sabe, só que sem ser oráculo".

A voz lhe acalma.

Hieronimus Tomi, por sua vez, está esmiuçando anotações sobre tecnologia que só ele tem, porque Asal Gusa confiou que ele consegue.

Ao menos, a Mesa ele conseguiu.

(Fim do Cap 3)