A Águia e O Cachorro

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Cinco -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 15 de Agosto de 2018.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 5 – A Águia e O Cachorro

O ângulo é estranho, mas é possível ver um homem usando um terno preto em pé; e a sensação de que ele está ali pronto para qualquer coisa é óbvia. Ao lado dele, um soldado. Ele tem sua faca à mão, e a gira entre as posições de uso em uma luta. Há um visor, um monóculo, suspenso sobre seu olho direito, onde por um instante é possível ver linhas de informação que sobem. Logo, em outro ângulo, se vê uma mesa de cima. O barulho constante das pás do ventilador. Os detalhes se perdem, porque logo que se pretenda pensar em entender as coisas, a regra sobre como aquilo está lá se modifica. O ângulo se modifica. As vozes das outras pessoas ao redor lhe perturba. "Magos",... E então lhe sobra apenas uma perspectiva mais livre, como em algum filme intimista em que o câmera tenta fazer uma filmagem direta ou sem cortes, mas por algum motivo ele aporta todo o tempo, sem nenhum controle sobre o teleporte, ou sobre sua próxima cena.

De outra forma, a pressão! Constante! É como se você estivesse tentando pensar enquanto algumas dezenas de cavalos passam por cima de você. O zoom. A mudança de foco, e a aproximação. Descontrolado! O homem que está à mesa é velho, e deve ter mais de 100 anos já, facilmente. O restaurante tem uma parede de pedra muito antiga, uma cascata iluminada ao fundo, os talheres são de ouro; e lá fora se percebe ser noite por uma janela de castelo, antiga o bastante para se saber que este lugar deve ser usado para reuniões há pelo menos mil anos. Reuniões que decidem o destino de todos – comuns, ou pessoas de poder.

Outro homem chega. Ele é mais jovem, apesar de também velho. Parece estar um pouco nervoso. Ao entrar no salão, o soldado imediantamente para de brincar com a faca, obviamente se preparando para mata-lo, se esquivar de uma possível magia de ataque – este soldado sem dúvida está pronto para qualquer coisa – e ação, a qualquer momento. O velho para e cria uma energia, que não lhe parece um ataque. Verde musgo. Por um único instante, é possível ver como uma câmera que teleporta, o resultado da análise de não-se-sabe-o-quê pelo visor do soldado, confirmando que a energia pertence a Garmagog Gulanta – e assim o militar se encosta novamente à pedra; e o mago de terno ao seu lado lhe dá um olhar de canto de olho; obviamente, o arcanista não gosta dele.

– Garlmagog. Sente-se – disse o ancião. O velho anda até a mesa, onde uma cadeira vazia lhe espera.

O ancião esperou o velho se sentar, se inclinou para a frente, apoiando um cotovelo sobre a mesa, apertando um pouco os olhos. Aquilo torna muito perceptível sua inteligência. "Um Ancião"... – não evita pensar. O velho se senta; e o silêncio do ancião parece lhe incomodar, por um longo minuto.

– Garl, – diz o ancião – você sabe porque eu chamei você aqui?

– Gogol, eu...

– Claro. Claro que você sabe – e o ancião olha para o sofá, onde um garoto de no máximo doze anos medita. Se ele está traquilo, significa que tudo está sob seu controle, e assim o mago se volta para seus negócios.

Imagens de suítes luxuosas, de salas de castelos antigos, além de cores e formas geométricas que parecem canalizar poder, atrapalham a visão do que está realmente acontecendo; mas alguma coisa, uma mente assassina, terrível, vazia de emoção faz assim tornar-se possível perceber de forma atemporal o encontro, porém parece que o ancião mago não percebe isso e continua.

– Garl, meu caro – continuou o ancião – Nós estamos tão próximos de tudo que lutamos para conseguir por tanto tempo. O futuro maravilhoso nos espera, em breve. Faltam poucos inimigos a vencer. A Morte, O Falcão, A Cria do Chacal. Todos eles estão acuados. Presos. Presos pelas nossas estratégias. Sem saída, eles caem diretamente passo a passo em todas as nossas armadilhas.

Nesse momento, Garl parece se sentir pequeno.

– Elliot Akael Gulanta – disse o ancião.

E olhou para Garl como se fosse uma águia olhando uma presa, que passou as costas da mão sobre seus olhos, o que poderia ser uma coisa usual, pois Gogol percebeu, e assim tomou da taça um vinho velho, deixando o outro sentir a tensão desse momento – Estaria ele a julgar Garl? Ou então, a dizer a sentença.

– Gogol, isso aconteceu sem que eu pudesse interferir.

– Claro que sim – diz o ancião – Não estou dizendo que você tem toda a culpa. Você apenas não teve uma ação muito rápida. Quem poderia “imaginar” que o seu sobrinho iria esconder tão bem assim que tinha retornado do seu tão longo e tenebroso Silêncio? Não. Não foi sua culpa. Não completamente. Você fez o que podia fazer! Agora, nós temos que fazer mais do que podemos! Nós temos um acordo, e a Tática espera que demos conta de todos os detalhes.

O velho Garl estava obviamente nervoso, tenso.

O medo pode ser ali muito facilmente reconhecido. Imagens do ambiente também se misturam com a câmera em movimento. E uma mente assassina, sem conteúdo, que não está em nenhum lugar, e todos ao mesmo tempo – Há um brasão, em meio às visões.

O brasão tem uma águia; ou um cachorro.

Assim se vê que Garl, tal como Gogol, usam abotoaduras de ouro puro, mas enquanto as de Gogol, o ancião, levam a forma de uma águia, as do velho que ele está repreendendo mostram a estampa de um cachorro.

– Nós lutamos pelo futuro dourado da humanidade, Garlmagog Gulanta. Ter perdido seu sobrinho foi ruim, mas pior ainda é que ele passou para o lado dos bruxos. Isso é uma perda irreparável, e terrível! Terrível! Você teve tempo para agir, e deixou

acontecer. Não tem toda a culpa, mas da próxima vez não tenha dúvida em agir, porque a Teocracia não sabe perdoar, e você sabe muito bem disso!

– Sim. Eu vou ser punido, provavelmente? – questionou Garl.

– Não, não vai – respondeu o ancião. Deixou aquilo em suspenso, naquele ambiente algo noir, em meio à conversa por alguns instantes e continuou com uma voz grave – Tenho uma missão para você, Garl. Uma missão importante, e que planejei para você há muito, muito tempo.

Aquela sem dúvida seria a punição por sua falha.

– Há um Nível Cinco, – diz Gogol – identificado pelo radar, em algum lugar da Espanha, e você deve encontrá-lo. Ele será seu!

O assombro no rosto de Garl torna claro que isso é anormal, inesperado, mas ao mesmo tempo seu olhar demonstra a luxúria pelo poder.

– Você não nasceu nobre, Garl meu sobrinho. Você é verde. Não tem noção da política que está por trás dessa artimanha, mas sua hora chegou... sim, chegou, e você deve isso a mim! Agora, devemos garantir o seu sucesso, e então o futuro dourado irá surgir; e eu assumirei o lugar de poder que me é reservado, você sabe do que estou falando! Sabe! A Cúpula tem planos que eu quero evitar; e só o seu sucesso irá me permitir evitar o fim da humanidade que você sabe me é reservado há tanto tempo pelas Profecias: o trono que me aguarda.

De repente, o rosto do ancião e do velho desaparecem, e a imagem para em frente ao rosto do garoto, meditando no sofá ao lado.

Seus olhos se abrem. E esse olhar é vazio, alienígena, carregado de algum segredo terrível, abissal! O olhar de uma criatura sem remorso, sem passado e sem futuro, totalmente livre do sofrimento humano; pois humano deixou de ser, e é aí que parece

estar a pessoa que irá "me matar", não evita captar.

As imagens começam a sumir.


“Não!,... Agora não”,... – pensa ele tentando manter as imagens vivas, enquanto começa a tomar consciência dos braços novamente – “Isso é importante. Ainda não!”... ele pensa perdido, sente dor nos olhos, e então as imagens desaparecem.

E Elliot, então, abre os olhos.

De repente, Gogol para e olha para o garoto. Seus olhos abertos lhe dizem que há um problema.

– O que foi, Naíle? – pergunta o mago.

– Eu vejo um jovem, deitado em uma enfermaria, e ele estava vendo a sua reunião com Garlmagog.

O ancião raciocina rapidamente sobre suas perguntas. Não pode se esquecer de nada nesse momento.

– É meu sobrinho-neto, Elliot? – questiona.

– Não sei. A imagem sobre ele é embaçada, mas há uma outra pessoa lá ao lado dele, que também não vejo; mais uma imagem desfocada. Não consigo ver o lugar, que deve ter proteção mágica.

– Uma pessoa profetizada – conclui o ancião – Duas. É um vidente com Segunda Visão, Manifestador, ou Oráculo, Naíle? Isso é muito importante.

Os olhos alienistas do garoto ficam em dúvida. O ancião percebe, e vê isso como um sinal de perigo.

– Não sei... – diz o garoto – Não sinto a Segunda Mente, mas me parece mais que... talvez... ele esteja em coma.

O ancião olha para os seguranças. Seu olhar transparece a fúria, mas isso só se demonstra em seu tom de voz.

– Vocês! – chama Gogol, então o soldado e o mago se aproximam – Houve um vazamento. A Cúpula me garantiu que a reunião era segura, e quero todos aqui sob observação, até investigarmos isso. Todos. Sem exceção. Videntes comuns têm de ter uma Âncora, ou a Segunda Visão não é possível – o ancião estende sua mão, e surge um cajado dourado com uma pedra azul anil, em sua mão. Ele imediatamente o bate sobre o chão, dizendo "Tabch Tajannaba!", depois "Evado a Nemesis!", e logo a seguir, "Erkoilu Krengi!", ao mesmo tempo em que todos os magos das outras mesas, não tão importantes quanto o Ancião, param de falar, para observar.

A partir de Gogol, um Círculo de energia semi-visível foi formado sobre toda a construção, para impedir que qualquer ser, vivo ou não, saia desse lugar até que a sua investigação esteja concluída.

O segurança mago olha para o militar, desconfiado.

– Você é o único não-mago neste lugar.

– É mais fácil matar um leão por dia que seguir um soldado da Tática, e não era eu que estava quase dormindo a serviço – responde o militar.

O mago ia responder, mas vacilou, e olhou para Gogol. O fato de ele engolir em seco deixou claro o que havia acontecido ali, sem dúvida.

– O Senhor dos Sonhos... – conclui o Ancião.

(Fim do Cap 5)

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