21 de Abril, 2213

De Enigma
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Silêncio sob Os Paraluzes -- Capítulo Dez -- Sol Cajueiro

Um livro de Future Pop Adventure -- Estágio -- O Grande Jogo

Nota: Todos os Direitos reservados.

Este Capítulo foi publicado no dia 9 de Janeiro de 2019.

Dedicatória

À minha filha, minha motivação; aos meus pais, irmãos, de sangue e de caminho; aos amigos, de coração, a quem sempre deu o apoio, em corpo, mente e espírito, e está agora digno de minha eterna gratidão.

–– Obrigado.

Cap 10 – 21 de Abril, 2213

Bonecos, velas e uma voz de um jovem. Tudo confuso. Símbolos. A voz que repete: “Owe... tutume”... A voz de um garoto; e por mais que se concentre, há a mudança de foco e de posição. Uma sensação de perigo crescente. Não é a primeira vez que há tanto medo assim, tão intenso. Medo do futuro. A sensação de morte e destruição presente. Aquilo evoca medo e antagonismo do passado, até mesmo se cantado por um menino que não deve passar dos doze anos de idade agora; e ele prossegue o ritual, firme, com determinação, mas não se pode dizer se acontece antes, agora ou depois.

Acabou. E nada aconteceu.

Frustrado, o garoto quebra todas as coisas no quarto. Ele grita, grita e grita. Ele não tem muito lá o que quebrar. Há um pequeno armário, bem baixo, onde se vê apenas duas mudas de roupa, um único par de sapatos fora o tênis que está em seus pés; mas todas as coisas em cima do móvel encontraram fim neste momento perdido. A janela é suja, velha; e ele grita.

Um grito sufocado, de ódio profundo. As horas se vão. O garoto passa um bom tempo remendando tudo. Olha o porta-retrato. O objeto não é nem mesmo digital! A foto mostra uma garota ao seu lado; ele chora e, num instante, é possível ver que a menina loira tem o rosto uniforme igual ao dele.

Seu olhar é do mais profundo desgosto.

Passa um ônibus pela rua. Ele é vermelho; uma rua de London: enfim, uma referência. Horas se passam e o garoto está lá parado, como quem vê o tempo como um velho ranzinza que tudo perdeu. O garoto tira seu profeta do bolso e dá pra ver que dia é esse pelo profeta, porque ele passa a vista por ele quase todo o tempo; a espera do fim, da danação eterna.

"Finalmente!" – É hoje: 21 de Abril, de 2213.

O garoto para. Um homem enorme, talvez o maior homem do mundo, de repente está à sua frente. Negro, com uns dois metros e tanto e roupas de frio; o seu corpo era tão grande que tomava toda a frente das escadas, ali à frente do Orfanato Gael – dizia o letreiro – onde tudo indica o garoto parecia morar.

– Você me chamou – diz o homem.

– Você é a Torre? Eu chamei a Torre! – resume o garoto, numa voz cheia de ódio e de veneno.

O homem avalia o garoto, e dá um sorriso cheio de maldade. Então, ele se vira para a rua em que estão.

– Eu vou tomar um chá naquela casa de chá, na próxima rua. Você me chamou e eu vim. Agora, você tem de tomar uma decisão. Se você vier, sua vida nunca mais será a mesma. Não há volta. Tudo o que você conhece estará para todo o sempre perdido; e também você não terá outra chance.

– Eu já perdi tudo! – resume o garoto, com desprezo. Ele observa aquela montanha andar, mas ninguém parece olhar para ela.

O garoto chega na casa de chá e o segurança logo para à sua frente lhe impedindo de entrar: “Aqui não, garoto: o seu lugar não é aqui!”, apenas para sentir uma mão maior que sua cabeça pousando suave sobre o seu ombro; e o cliente que lhe para é um enorme homem negro – o garçom treme.

– Eu decido onde é lugar para ele daqui em diante – diz a voz dele, uma melodia pré-apocalíptica controlada, grave e medonha.

Aquele homem parecia ter “saído de um palácio africano”, pensa o garçom, mas mesmo assim, com medo de que seu gerente lhe chame a atenção porque deixou um dos meninos daquele lugar entrar, ele faz uma pequena pausa; mas decide bem rápido que esse não é um homem para se brincar.

O atendente, encolhido, diz: “Sim, senhor” e sai o mais rápido que pode, sem mais. O homem avalia mais uma vez o garoto e faz o convite.

– Venha – e o garoto entrou; foi se sentar numa mesa rica com taças de cristal, xícaras de porcelana e uma toalha de mesa bordada em ouro.

– Você é a Torre – conclui o garoto.

As imagens vibram, como se alguma coisa... estivesse lhe impedindo de ver tudo o que acontece ali. Um poder... um poder carregado. O gigante parece medir o menor; e é impossível saber o que ele pensa. A Torre mirou o garoto, então, de seu sofá para duas pessoas, o qual ele ocupa inteiramente.

(Vertigem).

Sensação de medo, morte e danação eterna.

O futuro?...

De repente, a casa de chá se torna uma cena em que há um cadáver sobre uma cama: todos os dentes foram arrancados, o peito e a barriga abertos, mas não há sangue. Há uma mulher de pé: "Isso vai vazar, Schneider", comenta o seu superior, um oficial de terno cinza; mas a oficial, uma loira germânica que parece jovem demais para ser policial, lhe responde: "Talvez não haja outra opção a não ser deixar a população saber". O chefe ergue as sobrancelhas e sai.

O que você quer de mim, Lambert? Ou MacQueen, diz o bordado em sua camisa: Orfanato... Isso é interessante. Lambert é o nome que você usou para me invocar, seu nome de ritual; surpreendente você ter um – inicia a Torre.

– Eu quero poder – diz Lambert.

A Torre para por algum tempo, observando. Parece analisar tudo, capaz de ver através do garoto como se ele fosse um livro de fotografias.

– Que tipo de poder você quer? – pergunta A Torre.

– Quero poder para me vingar, porque eu perdi tudo. Todas as pessoas que eu gostei em minha vida: todas elas morreram de forma absurda! Sofrendo. Eu desisti de amar; decidi odiar a tudo e a todos. Quero punir! Punir o mundo e acabar com o sofrimento. É a minha decisão e você não vai mudar isso!

A Torre o observa por um tempo, tomando o chá no bule com bordas de ouro, no qual colocou quase todos os saquinhos.

– Você quer que eu o abençoe com o meu poder – Isso não era uma pergunta mas, mesmo assim, o garoto Lambert respondeu.

– Sim – ele tenta ser convincente.

– Você já tem poder.

– Que Poder?! De causar morte, sofrimento e destruição a quem eu amo? De destruir tudo o que eu gosto?!

– Sim. Isso você recebeu de nascença.

– Eu quero mudar isso!!

– Impossível, Lambert. Impossível. Essas coisas são definidas por hora, local de nascimento e suas vidas passadas; nem mesmo as entidades podem mudar esse tipo de sentença, porque é assim que o Universo funciona.

– Eu quero poder, e você vai me dar!! – gritou Lambert.

O gerente olha lá do fundo. Ele mira o atendente que estava encarregado, que baixou a cabeça respirando fundo e se prepara para o pior.

– Isso não será difícil – conclui a Torre – A Mão Negra abriu precedente no século XX, mas eu te aviso desde já que não será possível mudar seu destino de nascença; você quer ser um jogador, MacQueen,...

– Então... – o jovem não acreditava – Então, você vai me dar o Toque?

A Torre admirava o garoto Lambert, enquanto analisava.

– Você quer ser um djine.

Novamente, não era uma pergunta.

– Sim. Mas como é que você sabe? Eu não contei isso nem pra minha irmã que morreu semana passada; eu fui a única pessoa no enterro!! E não vem com essa de que você sabe tudo porque eu sei que não! Você...

– Você será odiado pelos djines, e sabe disso. Eles são muito rígidos quanto aos três Tabus, e eu sei que você vai quebrar todos eles.

– Isso não importa! Você vai me dar o Toque.

Houve um momento em que A Torre parecia avaliar esse novo soldado, de forma a prever o tamanho do estrago que ele poderia causar.

– Vá para o orfanato e esteja pronto – a Torre se levanta.

– Eu nasci pronto! – responde ele.

Este foi o começo do dia para Elliot, acordando suado, depois de ver mais esse sonho perturbador.

Isto poderia justificar seu ânimo durante o dia.

Talvez, se ele dividisse suas preocupações com alguém,... mas o Diretor o havia proibido de falar sobre suas visões.

Ele se levanta e bebe água do galão do dormitório.

Se prepara para mais um dia.

21 de Abril, 2213.

Dormir é, talvez, dos momentos mais apropriados para entrar em contato com a imensa e assustadora Forja, regida pelos Senhores dos Sonhos.

Assim, o melhor aluno homem Santiago Archangelo dorme, mas há um tipo de barulho que lhe incomoda. Alguém está operando o Profeta e esqueceu de deligar os avisos sonoros; logo, depois de um longo tempo que não saberia dizer qual teria sido, ele decide se levantar. Recosta-se na cabeceira. As camas do famoso Dormitório de Kalai, na Quinta Capela, são magicamente preparadas para se ajustar à necessidade do morador; mas a primeira coisa que ele vê hoje é o vizinho, Austero Amador Prestes, a lhe mirar em silêncio.

– Bom dia, Tiago – diz o colega.

Santiago percebe o tom de voz que indica alerta e estala os ombros para se preparar para qualquer notícia, provavelmente ruim.

– Bom dia, bom dia! Mas alguma coisa me diz que você está esperando eu acordar e que não é uma boa notícia – comenta ele.

– Você é incrível, velho! – o garoto segura a sua tela de lado, arremessando para o Melhor, que segura a tela calmo.

Assim que reconheceu a primeira página do jornal O Oráculo, ele passa sua mão sobre o rosto, para acordar. Diz: "Instalações Secretas da Academia reveladas em Bealae". Ele começou a ler. Umedeceu os lábios e aos poucos sua testa foi se tornando tensionada; ele esvazia a mente por hábito, esticando a outra mão para pegar um copo de água do seu galão, sem tirar a visão da tela.

Parou de ler e devolveu a tela para o seu colega.

– E agora, velho? – diz Austero – Você não vai me dizer agora que a Asha, a protegida dos professores, não está ferrada?

– Acredite, Prestes: missão – diz Santiago – Nossa sociedade só existe porque há pessoas como Asha para desvendar os enigmas que a maioria não é capaz; por isso, não chegue tão rápido a conclusões apressadas.

– Sabia! Sabia que você ia defender aquela maluca, mais uma vez, como se a Asha fosse algum tipo de santa! – protesta o colega.

Santiago Archangelo, porém, apenas se levanta. Pega o seu profeta sobre sua mesa de estudo ao lado da cama, ativa-o e diz – "Madame Reuel" – surge assim um holograma, de uma mulher loira de terninho – "Me ligue com o nosso Praetor, Adles Tales, mas deixe em suspensão, sem urgência". A avatar lhe saudou e desapareceu. Ele muito calmo foi à mesa do dormitório, para tomar o seu café da manhã: ovos mexidos, vitamina de aveia com banana e mamão, sanduíche de queijo derretido; tudo isso mantido quente com magias de acondicionamento.

– O que você vai fazer? – questiona Austero.

– Você vai ver.

Minutos se passaram sem pressa até que Santiago estivesse pronto para ir para os Pátios de Bronze, afinal, é feriado. Madame Reuel aparece e diz: "Sua ligação: o Praetor irá lhe atender", desaparecendo a seguir.

Surge um homem bruto, enorme e muito forte. Suas vestes são comuns, de alta qualidade; inclusive pode-se ver uma arma de grande calibre ao lado da varinha de salgueiro e a faca, sempre pronta, em seu terno preto. Não parece um homem a se testar, essa é a imagem que ele passa: de prontidão; e a barba curta lhe oferece seriedade junto ao cabelo de corte militar e de sua pele castanha.

– Bom dia, Praetor – diz Santiago – O Senhor me disse que qualquer ajuda em tempo de necessidade é bem vinda; e aqui estou eu.

O soldado, juiz e prefeito inclina a cabeça, de leve.

– Bom dia, Archangelo – sua voz é dura.

– Primeiramente, venho dizer que Vossa Excelência deve estar ciente de que hoje o jornal O Oráculo publicou uma reportagem revelando a presença de um tipo de Base secreta da Academia, em Beaelorizont. Há na Regra a gravação que pode indiciar uma aluna daqui, Asha el Sauza. Ela é uma Melhor, como eu, e eu tenho certeza de que um Melhor não iria fazer nada que não estivesse ao seu alcance para realizar a Missão que só depende dele, ou dela. Vou pessoalmente ao Diretor hoje agendar o dia que o Senhor achar melhor para ouvi-la.

O Praetor passa a mão esquerda em sua barba.

– Para o próximo dia primeiro – sentencia ele, calmo – Seria bom ele gravar a versão dela, antes. Diga que isso é um problema internacional ao Diretor; e para ele ser cuidadoso, porque a segurança dos alunos é sua máxima prioridade.

– Sim, Senhor. Estarei à sua disposição, Excelência – Santiago põe a mão em seu coração, abaixando levemente a cabeça.

– Tenha um bom dia, Melhor – despede-se o Praetor, então, sua imagem se desfazendo no ar.

O melhor se vira para sair e vê o colega, que não parece ter entendido o que ele fez, ou não fez. Santiago chama: "Madame Reuel" – a imagem dela surge a seu lado a lhe fazer reverência – "Me ligue com Kay, o estudante "Excellent" da Torre de London, mas diga que eu preciso falar apenas com ele. Me avise quando ele atender"; o colega está meio perdido. Tiago olha calmo Austero, que estava com aquela expressão como se tivesse um ovo na garganta, mas só faz um "Tsc" – de quem não entendeu nada – para o Melhor, e pega o seu profeta para lhe acompanhar neste lindo dia de feriado.

(Fim do Cap 10)


Vá para o Capítulo Onze, em Sobre Amizade; e Verdade.

E obrigado por ler.